quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Viragem


Foram coros de memórias angustiantes, ecos sem nome e apelido, foram reservas de energia esgotadas, cartas escritas rasgadas. Foram poeiras condensadas atiçadas por águas convictas e geladas, refúgios turbulentos nas fendas indefesas do coração, foram poemas assinados pelos trovões, tecidos remotos vestidos pelo vento. Foram âncoras esquecidas, destinos perdidos, foram caminhos enterrados, corpos despedaçados. Foram traições repugnantes, promessas feitas de palavras, foram pesadelos vividos, sonhos passados despercebidos. Foram arpas desfeitas, músicas descontentes, foram lágrimas sólidas, estátuas de orgulho. Foram flagelos mortais, súplicas surreais, foram vozes abafadas, choros reprimidos. Foram espelhos partidos, gritos agudos, foram mortes de almas, dívidas à saúde mental. Foram escadas pisadas à pressa, azulejos pintados de preto, foram ilusões que pareciam credíveis, vidas que pareciam fazer sentido. Mas a luz surgiu, o pano abriu-se e o esqueleto recuperou forças. Olho para trás e percebo que aquela pessoa, com a mesma aparência que eu, já não existe, mas precisou de existir para que eu, ao equilíbrio a que cheguei, também pudesse existir. Agora, são sinfonias relutantes, pássaros de paz, são palácios de esperança, fadas reluzentes. São asas palpáveis, olhares genuínos, são antros de identidade, fontes de ternura. São laivos de aromas floridos, desejos cumpridos, são mistérios sorridentes, respirações feitas de natureza. São danças de amor próprio, charcos de virtudes, são vidas recuperadas, olhares apaziguadores. São melodias sinceras, metas credíveis, são pétalas de luz, silhuetas afáveis. Há capítulos rasgados, mas repletos de força, pequenos episódios de vida há muito enterrados, mas detentores do sentido que hoje dou à vida. A vida é uma questão de sorte, se é! Mas todos temos dentro de nós a capacidade de saber domar essa sorte. Porque domar é aceitar, é viver com aquilo que se tem, é respirar de alívio por cada passo que se dá, é estender a mão a nós mesmos e nos conhecermos como à clareza da água. Que melhor forma de domar pode existir se o sorriso na cara se mantiver intacto face às dores mais trágicas? O conformismo trás consigo uma força da natureza, uma força silenciosa, mas que é das maiores forças do universo! Viver feliz sem algo que no passado nos pertencia é a maior das vitórias! E perceber que valemos muito mais do que aquilo que nos pertence é fantástico, é acreditar no nosso valor intrínseco e cuidar da nossa essência como sendo única. De um louco e perdido grão de areia surgiu um castelo compacto e coeso. A loucura continua a existir, mas é uma loucura minha, não aquela fundada pelos outros e em nome dos outros. Não é a loucura fictícia que se cria para dar continuidade a alguém ou a uma relação, é a loucura que me define e me desenha, que me dá sentido. Se nos transcendermos que seja por nós e que seja todos os dias, porque o nosso coração deve ter somente a nossa assinatura. São as pequenas irracionalidades que levam à maior das racionalidades. Uma racionalidade consciente de sentir os pés a bater verdadeiramente no solo e saber que sou a única detentora do seu ritmo. É o meu caminhar, é a minha direção, a minha conquista.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A outra face de um elogio

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Deixei de acreditar nos elogios vindos do nada, daquelas pessoas que nos querem impressionar e que são uma poeira na nossa vida. São pessoas que às vezes se lembram que existimos. Mas uma mulher fiel não existe momentaneamente. Há homens que se esquecem que os valores que regem uma grande mulher são os pilares que sustentam o mundo. Como dizia Saramago, são as conversas das mulheres que mantêm o mundo na sua órbita. Disse ele e diria qualquer mulher racional. Quero acreditar nisso. Eu acredito na lealdade de uma mulher, de uma boa mulher. Acredito, porque sei o quanto é indiferente essa qualidade para pessoas que nunca o saberão ser. Tornei-me descrente em relação às palavras forçadas e despejadas. Prefiro algo subtil. Um elogio sentido, um céu estrelado, um olhar rebuscado, uma promessa cumprida, um bilhete escrito à pressa, um ciúme desvendado pelo vento, um amor coberto pela chuva, um pretexto para estar presente... É disto que tenho saudades. Afinal, aquilo de que temos mais saudades é sempre do que ainda não foi vivido e cumprido. E sim, um elogio verdadeiro renova o nosso dia, qualquer mulher o admite. Os elogios que considero mais puros vêm do olhar dos animais, vem da segurança dos meus pais, vem da última vez que senti a força de Deus nos meus braços. Os elogios mais sinceros vêm nos raios de sol que nos fazem abrir os olhos de manhã, vêm daquela melodia que passou na rádio e nos fez lembrar de todos os momentos em que fomos guerreiras e dos quais nos orgulhamos, os elogios mais apreciados vêm daqueles que menos nos conhecem, porque não conhecendo fraquezas ou preconceitos arriscam em dar-nos um elogio. Os elogios mais mágicos são aqueles que são inconvenientes e começam por não ter uma intenção, mas um mero gosto pessoal em agradar a alguém. Aprendi que um elogio é muito mais do que um "és bonita", muito mais do que um cochicho sorrateiro que se ouve pelos corredores da escola, muito mais do que um futuro pensado à pressa, um elogio é muito mais do que uma pele corada, muito mais do que uns joelhos no chão, muito mais do que uma sms extensa e repleta de promessas que tanto devem à verdade e nada pagam à ilusão. Sabes, eu precisei de ti precisamente quando mais me elogiaste, porque cada pedaço dessa espécie de carinho era uma incerteza, as raízes dessas tuas palavras traçavam a maior das ausências dentro de mim. Os elogios chegaram a despedaçar-me porque quando os recebia sabia que era um mau presságio. Foi quando eu mais precisei de ti, e dos teus elogios, que me deixaste. Foi quando as minhas lágrimas proclamavam por um abraço que tu fazias questão de fechar os braços para ti mesmo. E agora penso nas vitórias que eu concretizei, os feitos que alcancei somente para preencher o espaço vazio que estava preenchido por elogios efémeros. Um tanto contraditório. Tudo porque percebi o outro lado de um elogio. Percebi que existe vida para além de uma palavra bonita seguida de um sorriso rasgado. Tudo porque percebi que consigo viver por conta própria. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Conta telefónica


Recebi a conta. Eram 36 cêntimos... Dizem que se começa a amar quando se liga para ficar em silêncio. Essa chamada foi a prova disso mesmo. Só queria um "estou", um "olá", um "quem fala?" ou fosse o que fosse. Queria provas de vida e de amor. Mas a desilusão falou mais alto e a ingenuidade acabou quando o orgulho começou. Não diria orgulho, mas sim a capacidade de nos valorizarmos. Tornamo-nos, talvez, mais frios, mas isso não tem de ser necessariamente mau. A verdade é que baixámos a cabeça tantas e tantas vezes e chega o momento em que nos sentimos tentados a provar um pouco da franqueza. No fundo, seguir os nossos princípios, porque estávamos erradamente habituados a fazer dos princípios dos outros os nossos trajetos a seguir. E é na primeira tentativa de nos deixarmos de esforçar por agradar aos outros que o mundo treme por momentos. Percebemos que já nem a verdade podemos dizer e que tudo é propício para que as pessoas se tornem falsas. A sinceridade mata, é irónico. Tudo porque não fiz o que era suposto... porque não me rendi à normalidade, porque a vida me obrigou a traçar atalhos... Mas ergo a cabeça e penso que muitos um dia dirão para os seus filhos "não tive grandes solavancos e aventuras, apenas fiz o que era suposto", enquanto nós, os remos dos mares revoltados, vamos ter uma lição que contar em cada história, um objetivo cumprido e festejado, uma bênção concretizada ou simplesmente um sorriso genuíno, mas difícil de desvendar. Tudo porque nos bastámos a nós próprios quando nós não éramos suficientes para os outros, quando o mundo não nos reconhecia como alguém que valesse a pena. Tudo porque a maturidade surgiu. E tudo porque os que nos fizeram sofrer nem sequer imaginam os esforços necessários para que um dia nos mereçam. Seremos como estátuas de pedra com a imortalidade do tempo no exterior e uma tempestade de memórias a navegar como lava no seu interior. Seremos aqueles que saberão contornar encostas e delinear percursos perigosos, seremos aqueles que terão a experiência de vida como braço direito. Encaremos cada desilusão como um degrau para uma vitória futura. Seremos firmes, convictos e racionais! E aí, sim, estaremos no topo do mundo. Percebi isto quando a conta telefónica voltou a ser sempre a mesma. As contas mudaram, a vida mudou.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Carta aos meus pais


Já é de madrugada mas sinto que nunca é tarde para vos falar dos meus erros do passado. Desculpem as mentiras, os devaneios, os pedidos à última da hora, as promessas não cumpridas, os surtos de azar que vos causei, as profecias adolescentes, as palavras imaturas, as certezas descabidas que criei, as forças que reunia para vos contrariar. Eu era uma criança que precisava de crescer e de ver o mundo com outros olhos, precisava de conhecer a cor das flores e depois, inevitavelmente, tropeçar em cima de todas as pétalas. Precisava de escrever todos os meus sonhos e cumpri-los para depois rasgar aquele fino papel com a espessura da minha racionalidade. Precisava de conhecer a textura das nuvens para depois ser conhecedora da sua queda. Podia tê-lo feito com a razão à flor da pele, mas não fiz. Fiz do coração as minhas rédeas e como me arrependo! Voltaria atrás e continuaria a querer ser feliz, claro, mas com uma abismal diferença, a de querer também fazer feliz quem sempre me foi fiel, que foram e sempre serão vocês! São pilares do coração, alicerces da vida, são a compreensão em carne e osso, são exemplos vivos de toda e qualquer forma de vida, são a principal razão de ser tão fantástico acordar de manhã a respirar e a sentir os raios de sol, são a prova mais bonita do que é ser um pai e uma mãe. Vocês estão acima de tudo, acima de qualquer coisa e de qualquer pessoa passageira que possa surgir na minha vida. Vocês ensinaram-me a lutar e a ultrapassar todas as minhas fraquezas, mesmo sem se aperceberem. Ensinaram-me a sorrir e traçaram os mais pequenos detalhes do meu sorriso. Desculpem, por momentos, me terem achado uma desilusão. Desculpem toda a frieza, toda a longa espera ao fim de cada dia, todo o frenesim que escondiam dentro de vocês, todos os suspiros antes de dormir por não saberem o que fazer para me ajudar, desculpem. Vocês são o meu símbolo de liberdade, de respeito, de conhecimento! Acredito que sempre que rezava era com vocês que estava a falar. Adoro-vos como a minha própria vida! Sinto-me consciente para tal afirmar e foram vocês e Deus que me traçaram o caminho que estou a percorrer. Serão sempre o meu modelo a seguir, a minha motivação, as pessoas de quem irei sempre ressaltar as virtudes. Mas acima de tudo, desculpem!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Crónica: Terrorismo





















É degradante assistir a provas vivas de terrorismo, sem piedade e muito menos uma causa racional. Admito que não esperava assistir a tais atos tão cedo, a ver no telejornal as pessoas alarmadas de uma forma tão avassaladora. Senti uma enorme revolta e imensa vontade de chorar em saber que as pessoas estavam alegres ao ver um concerto e, numa questão de minutos, viram os seus familiares nos seus braços e o seu sangue a juntar-se às suas lágrimas. As ruas encheram-se de flores e velas e a mágoa preenchia toda aquela área... pessoas que fingiram estar mortas, outras que viram as balas a rebentar a cabeça da pessoa que estava ao seu lado, outras que estavam na fila à espera de morrer... outras que estando feridas se escaparam do local, mas que ainda assim não se escaparam da morte...
E digo-vos mais! França bombardeou a Síria? Pois fez muitíssimo bem. Sem dó nem piedade. As bombas foram colocadas em locais estratégicos, nomeadamente em locais de armazenamento de armas e munições e em locais de treino de homens-bomba, que são onde brotam as sementes do terrorismo. Acham isto mau? Agirmos precisamente na origem do terrorismo é o que é correto fazer e não, não é com guerra que com guerra se paga, é com terrorismo que com justiça se paga. Nós, europeus, não nascemos crentes no suicídio, não nascemos a dizer que vamos matar o próximo em nome do nosso Deus, o nosso sangue não é feito de maldade, mas somente de justiça. Apoio a França incondicionalmente e acho ridículo ainda haver quem diga que não se deveria agir assim. Que outra forma haveria para resolver as coisas? Voltar a abrir as fronteiras e tentar ter uma conversa racional com os terroristas? Ah, esqueci-me, eles já entraram por nossa livre vontade e agora por mais fronteiras que se fechem o caos já está instalado. Tudo por culpa nossa. Tantas guerras que já houveram por aqueles países e só agora se lembraram de pedir ajuda aos refugiados... e lembrem-se que um dos terroristas que agiu na capital já estava combinado com um cidadão Francês... começo a achar que já estava tudo combinado e que a vinda dos refugiados foi tudo uma farsa para que os terroristas viessem escondidos entre eles, haja quem entenda este antro de maldade! Agora mostram imagens de crianças Sírias a chorar e a sofrer, dá sempre jeito apelar aos sentimentos numa altura destas, mesmo quando no fundo todos sabemos que aquelas crianças daqui a uns anos nos estariam a pôr uma bomba no país ou uma bala na cabeça. França foi igualmente horrível! E como disse um cidadão, enquanto apontava para as velas, é que não se trata de objetos, nem de valores ou religiões, trata-se de pessoas, da morte irremediável de pessoas. Que religião pode defender isso? Acredito que nenhuma. Defende quem, desprovido de religião, apenas se veja a si como um motivo e uma causa de morte. Não me venham com diplomacias e atitudes benevolentes, porque aos poucos e poucos estamos a provar a sua essência cruel em cada ataque terrorista e, se fôssemos os cordeirinhos que os Sírios querem que sejamos, seriam eles a dominar a Europa com uma religião criada pelo demónio. A Europa terá de estar unida. Irrevogável e firmemente unida. Acredito que, juntos, sairemos vencedores e reconheceremos a verdadeira força que todos temos, quando unidos por uma causa em comum que é a de defender os nossos cidadãos. Juntos conseguimos!

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Amor à expectativa

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Quem ama saberá que o medo de se perder alguém é semelhante ao medo da morte. Pensamos exatamente no grau de dor que iremos sentir. É como se uma grande parte de nós quisesse esquecer à força essa inevitabilidade e uma pequena parte racional saber que isso faz parte das probabilidades da vida. É tão doloroso imaginar um fim, chega a ser repugnante! Seria como a nossa morte em vida e, só de se imaginar, já se sente uma pequena morte dentro de nós. O problema está no amor à expectativa. Naquilo em que depositámos promessas, valores, sonhos e vidas! Naquilo a que demos o poder de segurar a nossa alma e a nossa essência e depois nos falhou. Nos largou. E de nós abdicou. Depois ficamos suspensos no ar, imóveis no pensamento, como se estivéssemos numa guerra e não nos quiséssemos mexer porque a morte era tudo aquilo que desejávamos, como se nos sentíssemos atingidos por balas e, apesar de sermos imortais nesse pesadelo, de facto sentimos essas balas e todas as perfurações, sentimos algo horrendo a propagar-se dentro de nós. Algo venenoso a alimentar-se da nossa felicidade! Ficamos com a certeza de não pertencer a este mundo e de que tudo, para nós, acabou. E aí percebemos que tudo é como a morte, inevitável. E compreendemos que a expectativa é a pior arma usada contra nós mesmos. E apesar de já ter abandonado qualquer expectativa e depois da confiança que já ganhei, ainda ouço ecos teus a dizer que não presto, ainda ouço balelas a convencer-me de que não tenho valor algum. É ultrapassável, mas não é indolor. É tido como devaneio, mas ocupa o nosso lado racional. São vozes e vozes a lembrar-me da minha idiotice em ter lutado tanto. Hoje percebo que melhor do que lutar por rotina é lutar apenas quando se sente um estímulo que nos faça abdicar do nosso tempo, mas nunca de nós mesmos! É preciso um objetivo na luta, e não apenas a cansada recorrência de uma ação. E uma ação sem troco, sem carinho, sem dedicação! Ainda tenho o ritmo de tantas músicas alojadas no cérebro. Músicas que ouvia enquanto esperava horas e horas por aquela presença especial. E quando a expectativa se aproximava de mim, eu era mandada embora. Fosse dito com seriedade ou não, eu estava ali de corpo e alma, a abdicar de pessoas que nunca abdicaram de mim. Magoou. Gelou. E ainda hoje existem esses flocos sob a forma de frieza. Foram quedas e quedas tão banais para os responsáveis e tão carregadas de brutalidade para quem as sentiu. Nunca tenhamos expectativas por alguém que nem sequer espera nada de nós. Nem sequer arranja um espaço no seu coração para sonhar alto em relação a nós, porque o pedaço de expectativa que temos pelos outros é um fruto do apreço por essa pessoa e, onde há expectativa, há inconscientemente uma espera constante por aquela pessoa, pelo seu olhar, pelo seu abraço, pelos seus passos. Queremos meramente a sua presença. Eu sei que quem é capaz disto, também será capaz de sentir um bocadinho de compaixão, acredito que existe um lado humano e que a maior causa desta destruição de sonhos é o egoísmo e não apenas a maldade. Eu sei que te vais lembrar de mim. Sei que há uma parte de ti que ainda me acha insubstituível e também sei que já nada disso me interessa. Mas doeu. E foi tudo por amor à expectativa.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

3º ano e o atirar do nabo

O terceiro ano é diferente de todos os outros! Vejo o primeiro como a adaptação, o segundo como um esforço contínuo e o terceiro como um equilíbrio entre o sucesso e a liberdade. É neste ano que nos sentimos verdadeiramente acolhidos por Coimbra e carregamos o orgulho em estar nesta cidade em todos os passos que damos na rua. Já é um acumular de vivências, de emoções, de obstáculos ultrapassados que nos fazem olhar para trás, para todo o suor e todas as lágrimas, e perceber que o tempo passa a voar e que até então já suportámos muita coisa e já fomos vencedores! É por esta altura que, já sentindo um pouco a nostalgia da despedida, aprendemos a valorizar as pequenas coisas enquanto cá estamos e arranjamos sempre tempo para um passeio pela cidade. O dia do cortejo contempla tudo isto, desde a dor da primeira despedida dos nossos pais à comunhão com as grandes tradições de Coimbra! O cansaço é imenso, todos sabemos, mas o que se leva no coração é ainda maior, sabemos que o orgulho que levamos foi uma conquista só nossa, apenas nossa. É das maiores provas que podemos dar a nós mesmos! O atirar do nabo é o simbolismo do passar do tempo, é o atirar dos medos, das angústias e dos poderes do mal. É a ponderação de toda a caminhada, é o equilíbrio de todos os feitos, é a pesagem de tudo o que nos sucedeu e o renascimento de uma parte de nós. Sim, passa a existir uma porção privilegiada de orgulho dentro de nós que olha para a vida já com experiência e sabedoria, já com vitórias dentro de si que custaram e exigiram sofrimento da nossa parte e, é neste cortejo, que percebemos que foi esse o grande salto. Atirar o nabo é, também, como o recuperar do tempo que abdicámos por motivos, agora, pouco significativos, é o recolher da esperança, da motivação e do ânimo que precisamos. E conquista após conquista ali estamos nós exaustos, já de meia rota ou sapato encravado, mas estamos de pé e sabemos que cada pedaço de cansaço tem na sua base a alegria e a determinação. E depois, enquanto atiramos o nabo naquela fração de segundo, pensamos em tanta coisa bela! Os amigos de curso inseparáveis, as noitadas enérgicas, a subida à torre, os fados em cada esquina, as fitas das pastas, os cortejos incansáveis, os emblemas, a capa forte e protetora, os sapatos a tropear nas calçadas, as afilhadas, as serenatas, os mares de gente e todo o tempo investido neste percurso que nos deu vida e que nos trará vida sempre que cá voltarmos! É uma bênção poder acolher Coimbra e deixarmo-nos acolher por ela! Imagino-me um dia, já com família, a olhar em vão para Coimbra e a ver-me no auge da juventude a atirar o nabo com tamanha euforia. São coisas que marcam! E tudo o que marca segue-nos a vida inteira! Foi um dia emocionante e afirmá-lo penso que será pouco. É então que o nabo beija as águas do Mondego e por momentos a nossa respiração é feita tanto de alívio como de nostalgia. É um misto de emoções que só um estudante universitário poderá saber ao certo. Olha-se para o nabo e o silêncio invade toda e qualquer forma de vida que, por momentos, rima com uma espécie de luto. E assim fica o nabo a navegar, sem sustento ou ritmo de vida, e assim ficamos nós, também a navegar pelas boas memórias que temos para contar. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Primeiro carro!!


Foi das melhores notícias dos últimos tempos! Passou cerca de ano e meio desde a carta na mão e, apesar da necessidade em ter carro não ser enorme, a vontade de a ter já o era. Claro que não passa apenas por uma mera vontade, há que olhar a orçamentos e à virtude de ser paciente, mas conduzir o carro dos nossos pais e o nosso próprio carro é totalmente diferente. É o nosso primeiro brinquedo a sério, é a nossa dedicação, a nossa responsabilidade em estado contratual e, no fundo, é uma parte de nós que deve ser prezada e cuidada. A procura foi longa, sem dúvida, mas é algo que requer tempo e firmeza da nossa parte. Tendo objetivos fixos as coisas aparecem. E apareceu! Apareceu uma maravilha que foi feita exatamente para mim. Fiquei super entusiasmada quando os olhos dos meus pais diziam que queriam fechar negócio. Lá pensei: "É desta!". É desta que dou este passo gigante na minha vida e que percebo que, de facto, os meus pais confiam na minha condução. Existia muito medo da parte deles inicialmente, como é natural, e transmitiam-me um nervosismo inquietante que eu própria já nem sentia, porque a verdade é que a minha confiança na condução cresceu imenso e ganhei um domínio sobre o carro que esperava nunca vir a ganhar. Este tempo de prática com o carro dos meus pais não foi em vão e sei que eles quiseram esperar pelo momento certo. Como sempre, os pais adotam o papel de destino e nós, filhos, aceitamos como se já tudo estivesse escrito desde a antiguidade. E ali estava eu a estrear o carro num parque de estacionamento, com um pouco da inquietação que o vendedor me transmitiu, pois parecia um instrutor a ver se a condução estava nos conformes. Mas tudo correu bem e o dia acabou da melhor maneira possível! Após digerir a excelente notícia pensei que tudo fosse começar do zero e que a intermitência na minha condução fosse voltar por se tratar de um novo veículo, mas não, estava totalmente errada! As bases estão lá, a confiança apenas se reafirmou e a verdade é que me habituei ao carro com uma enorme facilidade. Estou felicíssima e pronta para uma vida independente, sobre quatro rodas! 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Horizontes de gente




Sabemos tão pouco sobre o mundo. Sobre as pessoas. Apenas ouvimos os seus passos a bater nas calçadas, lemos os seus sentimentos pelo ritmo do seu pestanejar, percebemos o seu medo pela inquietação dos seus dedos, sabemos da sua constipação pelo lenço branco que espreita pelo bolso. Mas isso não chega. Continuamos sem conhecer a pessoa que caminha ao nosso lado na rua, a que nos diz bom dia só porque também dissemos, a que se senta ao nosso lado na sala de aula, a que comenta quando passamos, a que já te viu a chorar e ainda assim não fez nada ou a que sorri para ti e tu nem sabes se a conheces. O conhecimento dos outros é tão repleto de escuridão, tão separado por barreiras infinitas, por sorrisos estanques e atitudes pouco previsíveis. Somos a areia criada por Deus, mas a ilha cavada por nós. Somos ilhas desertas e vãs, inconstantes e sufocantes. Somos metrópoles de vaidades, antros de solidão, somos os resquícios de um lado primórdio e selvagem. Somos feras que sabem sorrir, vultos que escondem sentimentos, somos feitos de vidas descartáveis, de gritos de dor que ninguém ouve, de amarguras desprezadas por quem não as sente, somos feitos de respirações artificiais, de sonhos ilusórios e provas de amor em vão. Estamos constantemente numa busca pelo afável, por um sentimento tal que possa condizer com a felicidade de sonhar em coisas bonitas. Queremos algo sólido e confiável, porque sabemos que é impossível amar quem já amamos, porque a dor que a despedida te causou já te mudou por dentro, já te fez traçar novos caminhos, em busca de novas perspectivas, com uma bagagem completamente diferente. A dor que sentiste talvez seja a dor que faz de ti aquilo que és hoje, é uma dor que levas contigo para toda a vida e que te impede de sentires dores igualmente insuportáveis. No fundo, é essa dor passada a base dos sorrisos do presente. Talvez seja em direção a essa dor ou a uma outra dor qualquer, que caminhamos pelas calçadas e criamos horizontes de gente com corações despedaçados, mas que querem ir ao encontro de novas imunidades, de novos escudos de fortaleza, cujos alicerces são as dores mais dolorosas que aguentaria a força humana. Seria, esta, uma busca pela dor e, acima de tudo, uma busca pelo prazer de cada vez sentir menos essa dor e crescer com cada pedaço de grito e cada pedaço de lágrima. São horizontes de gente manipulados por crueldade, e uma crueldade criada por nós mesmos e pela ilha que nos sustenta. São horizontes incertos e de raras silhuetas, onde muitas ilhas já se afogaram e poucas permanecem, aqui e além, de pé a suster o nada e o vazio que é o amor que recebemos. Somos meros retratos, somos lendas que todos julgam que existem, somos quimeras a latejar nos pilares do mundo, somos uma simples forma de viver, uma singela presença no meio de tantas outras e é por isso mesmo que acabaremos com a forma de um punhado de cinzas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A emoção da serenata ♥



Não foi exatamente a última serenata, está até um pouco longe de o ser, porque o mestrado ainda me vai trazer muitas emoções nestes dias tão especiais. Mas a verdade é que, não sei se por estar no último ano da licenciatura, esta serenata comoveu-me bastante! Estes são aqueles dias em que, logo ao acordar, começamos com uma ânsia enorme de ouvir aquelas belas vozes e de sentir Coimbra ao rubro. A noite começa com a euforia dos jantares e, de seguida, são de esperar mil passos comoventes em direção àquele momento. Tudo porque as serenatas são muito mais do que noites particularmente negras, do que vultos com o mesmo destino, muito mais do que um frete em estar de pé. A serenata é algo para ser vivido de forma intensa e única, é uma forma muito pessoal de nos afirmarmos em silêncio, de criarmos um pequenino espaço dentro de nós para o nosso orgulho enquanto estudantes universitários, é uma forma de benzermos todos os nossos momentos vividos naquela cidade até ali. Para mil pessoas existem mil formas diferentes de se sentir a serenata. Cada um com uma história, com uma lágrima impiedosa que se soltou, com todas as vitórias dentro de si, mesmo as mais pequenas, porque a serenata engrandece os nossos pequenos feitos, cada um com a sua carga especial de felicidade e de emoção no rosto. Ficamos, por segundos, com a sensação de que somos úteis para a sociedade, lutadores na vida e jovens na forma de viver. Percebemos, nas entranhas do nosso coração, que nos momentos em que todos se afastam de nós temos a cidade de Coimbra de braços abertos a acolher-nos como nunca ninguém de carne e osso o fará. Ganhamos a certeza de que, por entre aquelas badaladas e lágrimas de saudade, pisámos o topo do mundo, fomos filhos acolhidos por todos os invernos, todos os outonos e todas as primaveras, porque cada um de nós não é só mais um no meio da multidão, é sim mais um rebento cuidado e acarinhado por Coimbra, mais uma pessoa, cuja sua vida mudou, os seus horizontes ampliou e a sua maturidade afirmou. Muita coisa vem ao de cima quando se chora, podem vir desilusões, desentendimentos, podem vir histórias das quais nunca entenderemos o seu cruel fim, mas saberemos sempre aquilo que representamos, o valor que temos e os trilhos que todos os dias criamos! E tão bom que é haver oportunidade de poder desabafar com a vida numa linguagem de lágrimas onde ninguém nos poderá julgar, onde todos nos expressamos na mesma língua e todos sabemos que Coimbra é o nosso ponto em comum. É a fraqueza da nossa saudade e a lança dos nossos méritos. Poderia dizer que todos entendem as lágrimas que lá deixei, mas a verdade é que apenas Coimbra entende. Apenas tu, Coimbra.

Latada, 2015

domingo, 27 de setembro de 2015

Viúvas sem nome


Alma Mahler

Todas elas tinham na mão direita uma bengala gasta pelo tempo, um amontoado de rugas mais explicativo do que qualquer biografia de vida, tinham uma esperança tão fraca quanto o seu cabelo, uma perspetiva de vida reduzida à área da sua casa e do cemitério mais próximo, um coração tão negro como as paredes das suas cozinhas... Tantas mulheres embrulhadas em mágoas, tantas rugas afiadas pelo sofrimento de se perder alguém. Ouço as suas vozes a dizer a Deus que os seus maridos faziam falta, muita falta. Que eram boa gente e que não o dizem apenas por terem sido seus maridos. Vejo-as a remexer num passado tristonho de cada vez que pronunciam o seu nome e pestanejam devagar. Imagino-as a lembrar-se do roçar do seu vestido de noiva no chão no seu dia de casamento. Percebo pelo seu nervosismo entre dedos o quão forte foi a falta de conformismo com aquela ausência súbita. Mais do que o peso da idade, é o fardo da morte. A coroa de espinhos da saudade. Há coisas que exigem os nossos cinco sentidos, mas amar é o nosso sexto sentido, e às vezes é apenas dele que precisamos. Elas sabem que o seu cabelo fraco foi o resultado de todas as idas ao cabeleireiro para o impressionar, sabem que eram eles a acender a chama do fósforo que chamuscava as paredes das suas casas quando vinham do trabalho, sabem que as pequenas rugas que iam surgindo eram devido a pequenas birras, sabem que a sua bengala foi construída com um pedaço de madeira e umas marteladas feitas por ele... Ele, sempre ele... Esgotamos tantos pedaços de tempo ao longo da vida, sofremos até ao último segundo e terminamos na meta com a morte física da pessoa que é metade de nós, quando já passámos pela morte psicológica tantas e tantas vezes. É cruel, não é? É como já termos sentido essa perda muito antes do tempo. Termos chorado loucamente como quem chora vestido de preto e a fazer luto. É como já termos gritado prematuramente pela injustiça da vida. Termos perdido todas as forças antes de, sequer, conhecer o mundo. É como termos tido o desejo de pôr fim à nossa vida, quando ainda nem as flores tinham desabrochado. E pior do que isso, é termos tido a certeza de que já conhecíamos o amor e percebermos que a planta a ser regada deixou de ser o sentimento, mas sim nós mesmas, porque estávamos à deriva naquele sentimento, era ele que nos domava e que domou tantas mulheres. É cruel termos a certeza de que perdemos aquela pessoa que é mais de nós do que nós próprios. O amor move mundos. Ele é uma imensidão única que nos leva a sonhar num patamar transcendente, e é tão leve, tão puro, tão reconfortante e reconciliador de almas... mas o que sobra dele? O que sobra dele quando a outra pessoa deixa de saber o que é lutar, o que é chorar, o que é sentir os poros a dilatar? O que sobra quando todas as premissas do argumento do amor falham? O que sobra quando o chão te falha e te sentes perdida, sem o pilar garantido de todas manhãs? O que é que sobra do gozo que sentias ao ser ingenuamente feliz e do gozo que deu à outra pessoa em deixar-te? O que sobra do pedaço de lixo em que julgas que te tornaste? A verdade é esta: tu sabes que chegaste ao fundo quando deixaste de ter pena dos outros, para teres apenas pena de ti mesmo. A solidão enfraquece e as rugas surgem, mas a aprendizagem é cada vez maior. E quando nos tornamos novamente conscientes de tudo e recuperados dessa perda, é quando nos questionamos sobre a nossa capacidade de amar. É esse o meu medo. Medo de ter perdido os ingredientes dentro de mim que me levaram a um grande amor, medo de que esta sequela de não conseguir confiar em alguém perdure para sempre, medo de não me entregar por medo, por querer estar constantemente sozinha mesmo já tendo sabido o que é o amor. Medo de não voltar a ser aquela pessoa que tudo aquilo que era, era tudo aquilo que oferecia. Tudo para dizer que uma viúva sem nome somos todas nós, com ou sem rugas, e que esta é a ferida de todas as mulheres. O nosso dilema. Aquilo que restou de uma queda provocada por amor.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Crónica: Refugiados em Portugal



Sou totalmente contra a vinda dos refugiados para Portugal. O impacto a longo prazo pode ser brutal a todos os níveis. Seja da educação, empregabilidade, criminalidade e paz. São os grandes nomes que poderão ser bombardeados. Se eu mandasse nunca faria parte da Convenção de Genebra que, em 1951, atribuiu responsabilidade aos países que os iriam acolher. É claro que todos eles têm direitos, são pessoas exatamente como nós e é por isso mesmo que não acho correto eles serem despejados em terras que nada têm a ver com os seus valores, as suas etnias, as suas crenças. É claro que as entidades defendem que existem condições em Portugal para os receber, óbvio, afinal eles só querem o problema resolvido. Estamos a ultrapassar uma crise e nem assim nos valorizamos a nós primeiro! Quantas Alemanhas e Noruegas já recusaram a entrada de estrangeiros, já defenderam a sua prosperidade! Nós, portugueses, gostamos de estar no fundo. E se a Alemanha vai ser o país que mais refugiados vai receber é porque soube negar muitas vezes para que, agora, tenha condições para tal. Se a economia de Portugal estivesse na média ou acima dela, se não houvesse uma fatia tão grande de imigrações, porque não aceitar essas pessoas? A questão é que Portugal não está nem perto dessas condições. E a verdade é que o problema não é para os superiores que vivem bem e guardados por dezenas de polícias, é sim para o povo que vai habitar as mesmas ruas que eles, não vai dormir descansado porque vão surgir conflitos, o povo vai ter filhos a brincar com crianças Sírias, habituadas a pegar em armas e a ver granadas a explodir. É aí que a educação vai ter um impacto enorme. E depois vem a parte mais grave, que é quando eles se acomodarem. Quando acharem que são da nossa Pátria mesmo quando o espelho lhes diz o quão diferentes são de nós. Eles vão começar a exigir, a exigir algo que é um direito para um cidadão Português. E quem vai ser atendido em primeiro? O refugiado. O refugiado que passará a andar de gravata, enquanto o Português se esfola por ganhar para ter uma casa que foi oferecida ao Sírio. Sim, por cada Sírio e Eritreu vão ser oferecidos 6000€!!! Quanto custa isso a ganhar a um Português? Tantos que imigram e são obrigados a refazer as suas vidas com o ordenado mínimo de Portugal! Como se sentirão as famílias que choram pelas pessoas do seu sangue estarem longe ao ver raças alheias a serem acolhidas de braços abertos, a receberem empregos que supostamente não existiam e que foram a causa de menos um membro numa família portuguesa, a receber um emprego que poderá ser o nosso ou dos nossos filhos! Portugal começou por propôr 1500 refugiados e já se prevê que exceda os 3000! E depois quem os vai mandar embora? Quem vai arrancar as raízes que eles já tiverem construído? Quem é que os vai atirar das fronteiras já com casas, empregos e filhos criados? Isto vai ser um paraíso para eles e duvido que alguém vá querer ir embora de livre vontade. Eles não são burros, muitos deles eram pessoas com bons empregos, com ideias fixas, enfim, com vontade própria! Sei que esta avalanche de pessoas é uma obrigação de cada país e é emergente distribuir a solidariedade de cada um, sim, eu sei disso. Mas, se eles têm forçosamente de vir, porquê comprar casas se existem tantas abandonadas e em condições razoáveis. Tudo será melhor do que recear a morte a cada segundo, certo? Arriscamo-nos a um dia apresentar o nosso país aos nossos filhos e netos da seguinte forma: os Portugueses estão um pouco por todo o mundo e os que ficam são os pobres do país, já as classes altas pertencem a desconhecidos quase do outro lado do mundo, dos quais não conhecemos a história do seu país, que vieram e nem precisaram de lutar para ficar, simplesmente entraram e ganharam o nosso território. Tão submissos que somos, não acham?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Telhal no nosso coração


O trajeto era longo e as expectativas eram tão grandes como a nossa viagem o foi. Chegámos com um brilho nos olhos e cheios de vontade de cumprir o nosso dever. Não era apenas uma casa de saúde, era o refúgio mais nobre e puro que eu poderia ter encontrado. Acolheram-nos pessoas excelentes, com dicções e vozes incríveis, dotados de uma visão do mundo extremamente realista, implacável e motivadora. Entrei receosa e curiosa, mas comecei a apaixonar-me aos poucos por toda aquela energia, toda aquela força transcendente que acompanhava o sabor dos meus passos. Era tudo novo e inspirador. O vento a soprar nas janelas do sótão, o silêncio renovador a assumir as rédeas de nós mesmos, aquele "gosto muito de ti" no meio de silêncios e passos apressados, aquela euforia à porta de entrada aquando de ouvirem a nossa chave a abrir ansiosamente aquela fechadura, aquele mistério genuíno que pairava no ar quando as respostas eram menos expressivas, aquela asneirola que sabemos que não foi por mal porque logo a seguir existia um ato bonito de carinho, aquele abraço apertado que seria impossível de recusar, a expectativa de carinho que depositavam em nós e nós depositámos neles. O conceito alargado de amor que levámos para casa. Acima de tudo. Lembro-me das ambições tão pequeninas e tão genuínas que eles tinham: havia quem sonhasse ser pescador, quem quisesse casar, quem gostasse de ter coragem de cantar, havia quem planeasse o seu próximo livro a ser lido, quem quisesse sempre entrar na foto, quem tivesse o desejo de sonhar, meramente sonhar e lutar contra as insónias da medicação. Havia quem, simplesmente, quisesse apanhar sol à porta do café, quem quisesse ir passear apenas para ver gente e agradecer a bênção de existir mais um dia, havia quem quisesse apenas e somente beijar a nossa mão. Foi uma experiência arrebatadora, emotiva e construtiva! Tocou-me a autenticidade das pessoas, o seu sorriso encantador, a sua expectativa em ver a nossa chegada, o facto de priorizarem um simples abraço e de terem como único desejo, o de fazerem amizades verdadeiras. Um dia podemos ser nós a pedir para ir ao bar desenfreadamente, ver os voluntários a chegar e a ir embora, e a sentirmo-nos solitários ao fim de cada dia... podes vir a ser tu, pensa nisto. Os momentos de reflexão e oração eram, também, muito intensos, repletos de emoção e alegria, era a parte do dia direcionada um pouco mais para nós, onde nos compreendíamos a nós próprios e à nossa missão na casa, em comunhão com Deus. Era nos momentos de silêncio que me questionava sobre o porquê das pessoas ignorarem o sofrimento e caminharem apenas ao ritmo das suas ínfimas vidas, de se vestirem de preconceitos como se vestem de luxúria, o porquê de não alargarmos os nossos horizontes e estendermos a mão aos outros, de não existirem sequer remorsos ao saber que todos os dias apenas acordamos para nós mesmos, o porquê de existirem pessoas que choram do coração e nós ignoramos mesmo sabendo que pisam a mesma terra que nós, que têm direito aos mesmos sonhos que nós, que foram um rebento igualmente regado por Deus. Os braços deles às vezes podem vacilar e não nos acenar, as pernas deles podem falhar e ficar sem forças para ir ao nosso encontro, a voz pode estar, também, impedida de nos chamar, mas o seu olhar chama-nos a cada segundo e o brilho que nele falta retrata a nossa missão como voluntários. Eles podem ser chamados de loucos e incompreensíveis, muitos vêm neles estranheza e um poço de negatividade, mas eles estão abatidos pela sociedade, oprimidos pelo verdadeiro antro de negatividade, que são as pessoas que pisam as ruas todos os dias. Imaginem-se a serem abandonados pela família, a deixar de saber o que é sorrir, a ouvir gritos de um lado e uma colher repleta de comida do outro, imaginem sentir a solidão no meio de tanta gente à sua volta, porque essa é a pior solidão, imaginem acordar e terem de esperar pela próxima funcionária, não conseguirem adormecer porque se esqueceram do último comprimido, imaginem o que é vermos apenas o sol e o céu por detrás do vidro da janela, por detrás do ferro enferrujado que acompanha o seu coração solitário. Imagina agora se fosses consciente de tudo, se a tua consciência despertasse o quão injusto aquilo tudo é, o quão leviana foi a vida e surreal foi o seu fim. Imagina-te. Conseguirias, sozinho, ser alguém positivo? Claro que não. A negatividade nasceu na sociedade. Aquela que tem almofadas de penas e janelas viradas para a lua, quando nem sequer sabem sonhar. O amor não é construir uma grande casa para os nossos filhos, não é poupar para oferecer um telemóvel à nossa mãe, o amor não é limpar o quarto dos nossos irmãos a troco de dinheiro, não é vestir uma bata e dizer que se é voluntário. É, pois, revolucionar o mundo com pequenos gestos. Um abraço, um aperto de mão, um beijo, uma oração, uma cantiga ou a simples presença física. Amar é oferecer carinho de mãos abertas e sem querer nada em troca, é querer tocar em qualquer coração que esteja sufocado e perceber que de cada vez que nos entregamos, o amor é mais transcendente do que alguma vez foi. Agora, após a chegada, parece tudo tão insignificante, tão superficial... É como sentir pela primeira vez na vida que o mundo precisa, efetivamente, de nós. Irá custar não dizer bom dia a quem passa na rua, assumirmos o papel arrogante da sociedade... mas vivamos sem máscaras! Assim foi pregado no Telhal e assim façamos disso um lema. Há falta de carinho, de inocência, de dependência de pessoas! Há falta de coragem para substituir um telemóvel por um abraço caloroso, a nossa série favorita por um sorriso verdadeiro, uma ida às compras por um passeio pelo jardim, uma sesta no sofá pelo ato de estender a mão e ajudar a erguer quem caiu... A verdade é que há uma linha muito ténue entre nós e eles, e percebi que vendo o amor que eles têm para dar comparando com o amor que a sociedade nos dá, no meio disto tudo a normalidade precide neles, apenas neles. Não em nós. Nós somos apenas um meio, um aqueduto que os leva ao seu próprio encontro. O mesmo aqueduto que fortaleceu a nossa confiança e nos fez perceber que mais difícil do que entrarmos em vidas alheias e confiar nos outros, é abrirmos portas e deixá-los a eles entrar na nossa vida e nós confiarmos realmente neles. Não eram apenas cinco metros de queda nas laterais de um aqueduto, era o retrato fiel da confiança e em como a sua inexistência nos levaria a um impacto brutal no coração, nos valores, na razão de viver. É difícil transmitir por palavras ou gestos o meu entusiasmo! Peço-vos, somente, que venham e cumpram o vosso dever. O resto serão vocês a contar, porque quem vive esta realidade é que saberá o quão arrebatador é. Na partida, há que arrumar não apenas as malas, mas também os nossos pensamentos. Os nossos novos e renovados pensamentos. 

sábado, 15 de agosto de 2015

Crónica: Selfies


Hoje vou falar-vos acerca da palavra mais ouvida na atualidade. É verdade, selfies! Aquela palavra que ao pronunciarmos parece que estamos a vender peixe, mas enfim, não é importante. Nada contra este vício moderno! Aliás, tiro selfies quase todos os dias, é algo quase automático e acrítico. As redes sociais e a televisão estão repletas de selfies. Elas invadiram o nosso mundo e nós acolhemo-las como nossas. Mas como é que isto tudo começou? Provavelmente porque nos custa bastante pedir a alguém para nos tirar uma fotografia, temos vergonha, receio, deixamos de nos sentir à vontade, não sei. É irónica a forma como ficamos tímidos perante os outros, mas sorrimos confiantes para selfies que mostramos ao mundo todo. Custa-nos o simples facto de dizer "boa tarde" a um desconhecido e pior do que isso, dizer "desculpe" e "obrigado". Passamos a achar um frete a boa educação, e porquê não contornar isso com uma selfie? Agimos por moda e não paramos para pensar que estamos a inibir-nos a nós próprios, a restringir as interações sociais, no fundo, a reprimir a sociedade. Tudo para que possamos ir de férias sem abrir a boca e apenas sorrir e ser o centro das atenções. Tudo focado em nós próprios, e a sociedade egoísta a assistir. Não é propriamente algo mau ao nível individual, porque muitos de nós viveriam bem sem selfies, mas refiro-me à sociedade, à mentalidade das gerações. Antigamente existia um convívio até com as pessoas a quem pedíamos para nos fotografar e sempre que se desfolhava os álbuns havia uma história por detrás de cada foto. Hoje em dia não. Existem braços na periferia das fotos ou selfie stick´s a "segurar a foto". Colecionamos a maioria dos momentos, construímos grande parte das memórias, com a pessoa de sempre, aquela com que sempre contamos para qualquer viagem. Nós mesmos. Fiéis e serenos egocêntricos. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Cemitério de lendas



A vida é meramente uma lenda. Uma telepatia a que nos arriscamos a ter para que hajam pretextos para sonhar. Talvez seja tudo uma ilusão e a ilusão assusta-me. Não vivo de forma fervorosa, como se tudo acabasse amanhã, mas sinto uma ligação muito forte à vida e à respiração dos animais, uma ligação muito pura, muito minha. Vivemos cheios de filosofias de vida, de intuições distorcidas que dizemos pertencer ao zodíaco, de papéis nas relações que somos quase forçados a adotar, uma vida em que desistem de nós mas a grande verdade é que são os outros a desistir deles próprios. Vivemos numa sociedade que se impede de ver as estrelas, que caminha sem deixar rasto, que cede às loucuras e à efemeridade da vida! Queremos acalmar as expectativas de tudo o que nos rodeia, é isso que dizem os livros e que repetem os nossos pais, mas viramos sempre as prioridades contra nós... Somos uns tristes submissos! Vivemos debaixo de um teto de lendas que nos contam desde que nos cortam o cordão umbilical. Prometem-nos amor e proteção, reservam-nos refúgios e ilhas de paz, mas depois falam-nos cruelmente da liberdade, o quanto ela se assemelha ao bater das asas dos pássaros e o quão bom é sorrir livremente, viver de forma desapegada e esvoaçante e saber que possuímos apenas o nosso próprio reconhecimento. Não! Basta! Ninguém é livre estando à espera de alguém. Ninguém é livre pensado que a liberdade é uma mera pausa entre a segurança dos braços de outrem. Como se esses braços cansassem e fosse exigida uma paragem no tempo, como se a própria liberdade cansasse por ser considerada uma simples pausa, como se a própria vida cansasse! E de repente, tudo deixara de fazer sentido. Talvez as lendas que nos envolvem façam de nós próprios uma lenda. Como se toda a nossa vida fosse olhada pelo cemitério da floresta lá ao longe e nos aguardasse com mais expectativas do que as que temos em vida. Mas claro, nós queremos ser humanos, queremos mostrar que somos uma raça superior feita de aço, resquícios de ferro e pedaços de fortaleza. Mas não tentemos ser fortes, quando o amor nos exige fraqueza. Sejamos apenas nós próprios. Livres de lendas e longe de cemitérios! Sejamos autênticos a tempo inteiro, egocêntricos de vez em quando, egoístas quando o forem connosco, mas fieis a nós próprios mesmo quando morrermos. É na morte que mais existe fidelidade, porque não existem mais lendas em que acreditar, já não temos nada a perder, a abdicar e a temer. E talvez assim, só assim, não viveríamos num cemitério de lendas, mas morreríamos num cemitério de justos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Estranheza


blood flowers 🍎

Hoje lembrei-me dos tempos em que chorava na rua... E lembrei-me de muitas outras coisas. Daquele espírito vivo e egoísta ao pensar que a vida era apenas minha e da ilha em que vivia e a que chamava de amor. Lembrei-me das tempestades, das mentiras, dos furacões e das desilusões. Foi apenas um relâmpago moribundo que me assolou de noite e tentou unir os sonhos com os pesadelos. Ou talvez não. Talvez tenha sido um relâmpago num céu real. Não pareceu uma lembrança credível e muito menos nítida. Na verdade, a coisa mais real foi sentir que o chão que me sustentava desapareceu. Foi aí que percebi que Deus sempre me tivera dado os pressentimentos corretos, nas alturas certas. Foi terrivelmente estranho, uma sensação horrivelmente diferente. E como toda e qualquer sensação nova deve ser imortalizada, resolvi escrevê-la. Mas como se descreve a estranheza? Foi algo tão dúbio que me fez questionar o porquê do destino me levar ali. Pensar que foram uns quantos meses que mudaram a minha posição na pista de dança, naquela pista de dança. No fundo, a minha atitude no palco da vida. Por um lado cheia de garra, por outro detentora de uma enorme fraqueza. Afinal, quem se sente forte perante o desconhecido? Quem não sente um eco dentro de si ao saber que esse desconhecido já foi a única pessoa que o nosso coração conhecia? Lembro-me de não sentir nada que não apenas um susto. Não, rigorosamente nada... foi aí o cerne da estranheza. Estranheza essa que não sabia sequer definir como boa ou má, doce ou amarga, cruel ou sincera. Agi fora de mim, contra todas as teorias que me suportavam, todas as normas que faziam de mim aquilo que sou e que me identificavam como uma impressão digital, e foquei-me meramente em dançar. Não sou de fã de atitudes frias e distantes, mas a vida obriga-nos a isso ou as pessoas ensinam-nos a usar tal escudo. E foi na minha inocente estupidez que ainda me julguei e achei egoísta por uns segundos. Mas depois pensei na forma como adquiri o conceito de egoísmo, na maneira brusca e injusta como senti na pele esse traço que fazia parte de outro carácter que não eu. Não foi algo teatral, foi simplesmente um convite momentâneo que a vida me ofereceu sem querer nada em troca. Apenas soube que seria impensável recusar esse convite e agir de outra maneira. Não preciso de dizer "estou aqui, eu existo", preciso apenas de sentir que cuidei de mim própria onde a única sequela foi a indiferença. Aquela que foi estranha por entre luzes ofuscantes. Mas uma coisa eu sei, que quando não guardamos raiva ou rancor, nos devemos contentar com a indiferença. Afinal, esse é um sentimento que custou a adquirir. Pode ser ténue, despercebido, monótono e vazio, pode ser o sentimento do qual surgem mais explicações, mas é o mais difícil de conquistar. Parecia que tudo tinha parado no tempo, não houve vontade de sorrir, de ouvir uma explicação, foi estranho. Tudo como se tivesse deixado de existir espaço para aquela pessoa. Por isso, aprendamos que o maior orgulho que podemos abarcar na vida é saber que já não lutamos por nós próprios por necessidade, mas o passamos a fazer por ambição.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O medo devolve-nos a coragem

Untitled | via Tumblr

Foi algo sobrenatural que me mudou até ter lucidez suficiente para perceber que juntamente com a criminalidade do ser humano vem sempre a força de Deus. O medo é muito mais do que um micróbio que nos torna imunes. O medo leva-nos ao limite, testa-nos a alma, dá-nos uma capacidade transcendente para enfrentar os problemas. O medo devolve-nos a coragem. Aquela que deixou de existir pelos outros e reacendeu por nós. Aquela que julgávamos morta e enterrada mas que fez sempre parte da essência do guerreiro que habita no nosso corpo. Agora, é estranho ver-me a sorrir. Saber que não precisa de haver alguém de carne e osso para ser o seu motivo, mas sim a própria vida, o nascer do sol todos os dias. Aprendi que o sorriso adotado por nós próprios é o mais genuíno e duradouro. E não existe nenhum homem neste mundo que seja mais prioritário do que nós próprias. Os sacrifícios do passado foram tidos como equívocos, mas será também a aversão que ganhámos às relações um equívoco? Não existem equívocos, especialmente quando acordamos e percebemos que enquanto fomos lixo para os outros somos, agora, reis de nós mesmos. Temos chão para andar, mar para remar e confiança para sorrir. É aí que nos lembramos que os únicos equívocos da vida são os que nós próprios criamos. Porquê que, nós mulheres, nos prendemos ao ecrã em infância a ver a cinderela e os contos de fadas? Porquê? Foi isso que estragou os nossos sonhos, iludiu-nos, criou-nos expectativas ilusórias. Porque existe o raio do beijo que ressuscita? O sacrifício que o príncipe faz pela princesa, quando isso não é real? Nascemos com uma mentira por detrás de todo aquele cenário cor de rosa. Podemos ser felizes, sorridentes, aprender a ler e a escrever muito depressa, mas ninguém examina ou pergunta pela fatia do amor que um dia vai existir e crescer. Aquela semente que os contos infantis depositaram em nós vai desabrochar um dia e vai ser graças a isso que vamos sofrer. É a realidade. Mas não importa se já não vivemos debaixo dos mesmos braços, importa sim que os nossos braços tenham ímpeto para voar e paz para proliferar. A frieza dos homens nasce precisamente da sua infância desprovida de balelas. Eles crescem sem expectativas e são o poço das expectativas das mulheres. Mas nós somos mais fortes do que isso e desilusão após desilusão nós sentimo-nos frias como eles. Infelizmente quando amamos um homem o objetivo é tê-lo e quando o deixamos de amar o objetivo é tornarmo-nos frias como eles. Já pensaram que os objetivos antes e após uma relação convergem nos sacanas dos homens? Sabem qual a melhor terapia? Esquecer. Esquecer o veneno que corroía o meu corpo, esquecer o vício de me ver sofrer, esquecer quem fugiu de nós, quem nos largou as mãos, quem nos fez acreditar à força que a única opção para sobreviver seria ser brutalmente forte e dissimuladamente egoísta. Muitas portas nos surgem na caminhada do sofrimento e é quando se chora do coração que percebemos que o destino tem um leque enorme de opções, porque no fundo qualquer porta aberta é melhor do que o sufoco de estar entre mil portas fechadas. Existe um extremo processo de aprendizagem e é aí que cada lágrima nos dá forças para nos desenlaçarmos do passado e nos oferece a consciência de que precisamos para escolher e acolher um novo rumo. Passamos a ter atitude crítica e percebemos que estamos num processo de viragem, num encontro com a felicidade que outrora existia nos horizontes dos romances. O medo devolve-nos a coragem. Percebemos isso no dia em que aprendemos que nós, raparigas, não somos troféus. Chorámos a ver montras de vestidos de noiva por pensar nos canalhas que teriam de nos acompanhar, chorámos por saber que deixou de existir a pessoa que se importava se tínhamos dormido bem, pela ausência de carinho a que já chamávamos de rotina, chorámos por todas as perguntas das quais nunca houve resposta, chorámos por saber que passámos de prioridade a uma opção que não foi sequer escolhida. E sabes, chorar para nós, mulheres, nunca foi opção. Afinal, que mulher quer esborratar o rímel, perder as forças em frente a multidões, estar num local de festa e suprimir o choro, que mulher gostaria de ser tão invisível? Não foi opção nossa, foi dor. E para eles foi apenas mais uma opção egoísta no meio de tantas outras do seu livro de erros. Talvez esta dor tenha sido também opção de Deus, porque nunca seríamos aquilo que somos, hoje, sem os degraus da loucura, sem a paz fortalecedora de saber que não fomos nós a perder o jogo. Os homens só existem para que sejamos mais fortes!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Nunca te abandones a ti próprio

Disney Palace

O amor é como a morte. O mais terrível não é o facto de acabar, mas a forma como termina. É quase como se nos dessem todos os ingredientes de um sonho, nós começamos a concretizá-lo e depois roubam-no. E tudo isto sem anestesia. Sem o psiquiatra dentro de nós a cuidar das nossas escolhas. Sem a nossa consciência a intervir. E sabem porquê? Porque a nossa intuição fica destruída, a nossa visão do mundo apaga-se, despedaça-se o resquício de racionalidade que ainda existia, evapora-se toda e qualquer forma de feminismo. Ficamos sem norte, sem hábitos coerentes de rotina, sem o brilho nos olhos que tivemos ao nascer. Demos o melhor de nós, pusemos à prova a nossa capacidade para amar, fizemos do nosso céu as prioridades dos outros. E o que recebemos? O vazio. É aí que duvidamos da nossa própria sombra, pomos em causa todos os sentimentos do dicionário, questionamos todo e qualquer ato de carinho, tentamos traduzir vezes sem conta a palavra amor... Até percebermos que o seu significado já não existe na nossa cabeça nem é justificado pelo nosso coração. Pior do que abandonar alguém é abandonarmos-nos a nós próprios. Foi por isso que lutei pela única pessoa que valia a pena, a única pela qual dependia e depende a minha felicidade. Eu. Apenas eu. Sonhar acarreta muitos riscos. Eu sei. Um grande sonho pode trazer consigo a maior das desilusões. Sonhar é para os corajosos, é para aqueles que se sentem com a capacidade de enfrentar a maior desilusão, e às vezes chorar é tudo aquilo que precisamos. As pessoas fortes choram. Reservam parte do seu dia para expulsar as desilusões. Conseguimos deparar-nos com cada lágrima de dor e ainda assim lutar, berrar se for preciso, revolucionar as nossas entranhas mais profundas e dizer ao eco do nosso coração que nós vencemos! Cuidámos de nós! Estamos no pódio da vida! Soubemos lidar com a angústia de tal forma que agora encaramos o sofrimento como algo natural, algo leviano, totalmente ultrapassável. É tão mágico sermos lúcidos e termos forças suficientes dentro de nós para nos suportarmos a nós próprios. Como é bom sentirmo-nos em casa, em consonância com a nossa essência, em equilíbrio com os nossos valores e a fazer juz àquilo que sabemos que sempre fomos. Como é bom andar na rua ao sabor dos nossos próprios passos. O grande problema é que só fazemos tudo isto quando chegamos ao limiar da cegueira. Só nos importamos quando a verdade é proibida, quando queremos tanto ser felizes que aquilo a que chamamos de vida se torna um veneno. E aí, só aí, é que passamos a pensar em nós, enquanto todos à nossa volta sempre viveram do seu próprio egoísmo. O que sou agora não sei, mas sei que rima com fortaleza. Agora não sonho com os castelos das princesas ou com os contos de fadas cor de rosa, mas sim com os alicerces de todo e qualquer palácio, porque todos temos um dentro de nós, basta não o deixarmos cair.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Super Bock Super Rock!


O dia começou com a ansiedade disfarçada de insónias acentuadas. Sim, acordei às 5 da manhã e desde aí não dormi. Os planos eram grandes e a euforia ainda maior. Toda a rotina foi turbulenta para que o tempo da maquilhagem não fosse interrompido. Afinal, eu ia para a capital e para o festival do Rock!! Ainda que restrita ao meu pequeno quarto de estudante universitária, já sentia à flor da pele uma espécie de liberdade privilegiada. Depois da turbulência do autocarro e da sonolência do comboio lá chegou o momento de pisar a terra Lisboeta. Comemos, passeámos e desfrutámos. A paisagem era, de facto, diferente da simples vilinha de onde vim e até mesmo Coimbra tornou-se uma aldeia aos nossos olhos. Já se ouvia som e o entusiasmo cada vez mais se instalava. Até que entrámos e corremos todos os cantos. Os palcos mais pequenos preencheram a tarde onde a cidade era o seu belo cenário. Conheci boas vozes e bons estilos, principalmente por estar na fila da frente. Os brindes preenchiam as nossas mochilas tal como os sorrisos o nosso coração. Visitámos a exposição, aparecemos na sic em segundo plano, tirámos fotos super originais e andámos sempre de palco em palco ao sabor da música, como verdadeiras aventureiras a seguir as pisadas das notas musicais. Os Unknown Mortal Orchestra impressionaram-me com a sua simplicidade e singularidade. Foi um achado! Já no Meo Arena assistimos aos Christal Fighters, onde se deu o auge da originalidade. Tão puros, tão genuínos, tão cativantes, é assim que os descrevo. Adorei cada música e cada gesto, fiquei fã, definitivamente. Eles não representam apenas um tipo de música, mas também um estilo de vida, uma forma singela de apresentar a música aos ouvintes. Como se desenhassem a música na sua forma mais natural e a entregassem às pessoas como se fosse uma dádiva. De seguida, Franz Ferdinand! Outra voz inconfundível, gestos peculiares e uma meiguice natural. Confesso que tenho saudades de o ver a atuar mais isolado e a ser o centro das atenções, mas não deixei de gostar do concerto, até porque acabaram em grande, com músicas fantásticas e das quais todo o público fez questão de acompanhar. E foi então que, finalmente, chegaram os Florence. Meu Deus! Muitos guardaram a energia para aquele momento e canalizaram todas as suas forças para acabar a noite em grande. Eu não fui exceção. Afinal, tivera chegado aquela força da natureza, aquela deusa com movimentos de ave, aquele sorriso acanhado carregado de pureza, aquele timbre inconfundível e completamente viciante. A energia foi mais que positiva, as músicas foram mais que cantadas e o público vibrou como nunca. O facto de sermos todos seres humanos e estarmos ali unidos pela música, naquela batida repetida, naquela união calorosa, fez-me dar valor às coisas mais simples da vida. Coisas tão simples como o facto de andarmos todos descalços como ela. Emocionei-me! Em especial quando ela pegou na bandeira de Portugal. Foi épico! É verdade que um festival é sempre um investimento que para muitos custa, mas garanto-vos que não ficam a perder. O espírito vem renovado, ganhamos novas perspetivas de vida, enfim, tudo aquilo que trazemos connosco na memória e no coração não se paga nem nunca pagará. Um dia não estaremos a recordar o quanto poupados éramos, mas o quanto aproveitámos a vida e o quão vastas são as nossas histórias. O que restou foi uma enorme nostalgia e uma vontade incontrolável de referir todos os pormenores que vivemos para que nos possamos sentir mais uns segundos a pisar aquela terra festivaleira. E acreditem que são os segundos a relembrar estes momentos que nos dão sentido à vida.

18-07-2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sou livre


O que tinha restado de mim era um coração magoado e uma memória que me impedia de esquecer toda a dor. A vida obrigou-me a recuar, a ser firme e mostrou-me que a única opção era ser forte. Sei que são clichés das páginas filosóficas, mas não só. Quando a vida deixa de fazer sentido, todas essas frases transcendem a própria vida, de tão verdadeiras que são. Afinal, só quando somos forçados a algo é que o fazemos e, se de facto conseguirmos seguir esse lema, albergaremos o maior orgulho ao ler essas frases. Foi difícil, doloroso e penoso. Precisei de me sentir rodeada de pombas brancas todos os dias, nem que fosse nos sonhos, tive a necessidade de falar com Deus tantas e tantas vezes, obriguei-me a mim mesma a sorrir, a desacorrentar-me, a respirar músicas de igreja, a sair de casa só porque sim, falei com as paredes sobre toda a raiva que sentia até cada lágrima explicar perfeitamente os gemidos do meu coração, olhei para o céu como pedidos de ajuda, remei contra a injustiça mesmo nos dias mais negros... Perguntava aos seres irracionais o porquê de não me tornar num deles, perguntava às raízes das árvores o porquê dos sentimentos não terem a sua força, perguntava ao espelho o porquê de não entender o medo na minha cara, perguntava às nuvens o porquê de também não me deixar levar por um vento alheio, perguntava à esperança o porquê de não pintar de verde o meu coração. Desviar-me daquele cenário de corações esquecidos era a meta. Eu cheguei a essa meta e atingi muito mais paz interior do que alguma vez imaginaria, até perceber que o simples facto de estar viva é a coisa mais bonita da vida. Sabia que, enquanto vivos, todos caminhávamos em direção a um ponto alto, àquele auge da felicidade, mas agora percebo que a melhor caminhada é feita quando estamos sozinhos. Não precisa de haver um topo físico de uma montanha, basta haver um objetivo concreto. Às vezes não precisa, sequer, de existir um cruzar com a meta, basta o esforço da luta para que nos sintamos vivos e lúcidos. Sabes, sou finalmente livre. Sem apegos, sofrimentos ou sentimentos que nos levam ao abismo. Nós próprios estamos acima de qualquer pessoa e isso não é egoísmo, é sensatez, é oferecer a nós próprios aquilo que realmente merecemos e o maior presente que podemos receber por aquilo que sempre fomos. Olhar em frente e lutar por nós e pelo nosso futuro é a forma mais digna de se viver. Não me deixei de preocupar com os outros, afinal nunca me tornaria tão fria como as circunstâncias por que passei, apenas precisei de me afastar para ter paz e para me valorizar a mim própria. Confesso, precisei pela primeira vez na vida de ser a minha maior prioridade. Precisei de abandonar aquela penumbra com mazelas de doença para me lançar à vida e ao ar puro. E se me perguntam o que é o amor? Não sei bem o que será. Muitos dos que nos tentam provar a sua essência são os mesmos que nos fazem achar que o amor não passa de uma palavra e passamos a ser os seres mais descrentes do mundo. Já tive mais carinho por esse sentimento e apesar de já me ter dado ao luxo de o caracterizar, sinto que o amor só existe quando também existir dedicação e quando os sentimentos que revelarmos forem pelo menos coerentes e explicativos. O amor pode ser definido, sim, mas apenas no êxtase da conquista, não com todas as palavras corretas nem muito menos com a maior das consciências, mas pode definitivamente ter um lugar no nosso dicionário. Mas quando o amor passa a ser uma pedra às costas ou a corda que nos sufoca, aí a única palavra que o define é "ilusão". Agora vivo em paz com a minha intuição, em harmonia com os meus segredos e acima de tudo vivo de mãos dadas com a minha consciência. Sermos fieis a nós próprios é motivo de orgulho todos os dias. Todos precisamos de um momento de solidão nas nossas vidas para que a mágoa que nos deixaram dê simplesmente lugar à indiferença. É um processo duro e longo para quem apenas se conhecia como uma romântica incurável. Mas a verdade é que o amor é uma ínfima parte do nosso horizonte. Não sinto que esteja a abandonar seja quem for, porque fui abandonada primeiro. O sofrimento é a dobrar para quem tem sentimentos verdadeiros. Sabes, "Os naufrágios são belos. Sentimo-nos tão vivos entre ilhas, acreditas?"

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Aquilo que nunca se perde


Sabes daquela manta esquecida no sótão que mais tarde foi a alegria dos grandes piqueniques? Sabes daquela rosa que secou e por milagre desabrochou num dia de inverno? Sabes daquele cão que fora abandonado e acabou por encontrar a família mais acolhedora? Sabes aquele papel que foi amarrotado mas que tu usas-te para escrever a tua empolgante lista de compras? Sabes aquele pedaço solitário de areia da praia que acolheste e colocaste no teu vaso preferido? Sabes aquele perfume esquecido que agora não abandona a tua rotina? Sabes daqueles livros sobre positivismo que tu queimavas com o olhar e agora são a essência da tua estante? É verídico. Todos ainda podemos ser felizes. E valorizados, acima de tudo. Sabes o que nunca se perde? As coisas bonitas da vida. Os raios de sol a entrar pela janela todas as manhãs. A primeira brisa de primavera que nos saúda com harmonia. O bater das asas dos passarinhos mais madrugadores. Os pescadores que se levantaram muito antes de nós para nos garantir sustento. Aquele beijo de boa noite aos nossos pais. O nosso reflexo no café quente que nos acolhe. O orvalho a afirmar a força da gravidade. As gotas de chuva a lavar-nos a cara. O calor natural dos gatinhos aos nossos pés. O conforto do nosso cobertor preferido. As lições de vida dos nossos avós. As memórias de infância. As paredes quentes ao fim de um dia de verão. A combinação do chá e da lareira nas noites de inverno. A baba natural do nosso cão. As pupilas a dilatarem. As estrelas a cintilarem. O almoço a fumegar na panela. As olheiras do descanso a latejar nos dias de férias. O céu azul à espera do nosso sorriso. Deus à espera da nossa convicção. Recebemos toda esta atenção todos os dias, somos alvos das coisas mais maravilhosas que algum dia poderíamos imaginar. Sabes o melhor equívoco destas coisas simples da vida? É que são garantidas. Nunca, em momento algum, precisei de pedir para continuarem, para ficarem comigo a garantir-me esperança de vida, porque estas pequenas coisas, estes meros momentos, estarão sempre comigo em qualquer lugar, em qualquer idade, perante qualquer estado de espírito. O amor existe, sim, mas em baús. Vemos muito mais beleza no quotidiano se estivermos desprendidos do sofrimento, se esquecermos o que é o amor e se fingirmos nunca o ter conhecido nem praticado. O amor existe no dia-a-dia, nos passos saltitantes que damos na rua, nas gargalhadas espontâneas, nas palavras amigas, existe nas paisagens mágicas que visitamos, no esforço que depositamos em nós próprios para orgulharmos os que nos rodeiam, o amor existe num olhar inocente pela janela, nos contos de fadas que estão em todos os livros da infância, existe nos pensamentos bonitos e puros, o amor existe em todos os lugares onde há bondade, respeito e muita consideração e carinho. O amor surge das pétalas frescas da primavera. Tem um significado meramente simbólico, porque poucos o praticam. E as cartas que escrevi?... essas! Estão bem guardadas. Mas estão longe do meu olhar para que não me lembre do quanto o nosso amor era enorme.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Crónica: Facebook


Esta crónica, apesar de ser dos temas mais presentes é também dos menos conscientes e, como tal, teria de ser abordada por mim. Meninos, não se achem mais superiores por terem todos os cap´s de todas as cores e marcas, e meninas, não se achem mais bonitas pela quantidade de likes que tiveram naquela foto em que estavam de t-shirt e gorro. Há um mar de exemplos, mas estes vêm-me sempre à cabeça, sabe-se lá porquê. Claro que cada um é livre e, por isso mesmo, é que põe gosto quem quer. Isto dos "gostos" dá pano para mangas. Quem os recebe exageradamente ou é "popular", ou pediu likes, ou então mostra desenvergonhadamente o seu corpo. Poderá também incluir as três condições. Sim, é raro o motivo recair na beleza. O conceito de beleza está a tornar-se abusivo e desfigurado. A beleza interior tende a desaparecer e ser substituída pela extravagância ou simplesmente por caras forçadas invadidas por flash. O facebook estraga as pessoas, torna-las monótonas e egocêntricas. Sim, é um vício e tem aquela vantagem da cusquice e de uma enorme abrangência de informação. Claro que sim. Mas tudo o que as pessoas fazem é motivo de publicação, o dia-a-dia está a tornar-se desgastado, previsível e quase fictício. A originalidade para ser considerada como tal atinge extremos cada vez mais lastimáveis. As pessoas exigem cada vez mais atenção nesta rede social, é uma nítida competição entre aparências. Meramente a aparência, sem miolos, inteligência ou bom caráter. O facebook destrói a ideia que temos de nós e dos outros. Faz-nos viver algemados aos critérios de aceitação que os outros criam para nós e os que nós criamos em função dos outros. É o filme das relações eternas todas as semanas, das amizades infinitas em que se calhar só existe uma única foto para as relembrar, é o cenário das dedicações de fotos, dos momentos em que somos apanhados "desprevenidos"... Digo-vos, a parte mais genuína do facebook é aquela em que podemos bloquear pessoas, porque é aquela parte em que somos fieis a nós próprios, e porquê? Porque não aparece na cronologia quem bloqueámos, não é exigida uma simpatia forçada da nossa parte nem um enquadramento na sociedade facebookiana. É simples. Somos verdadeiros quando ninguém assiste e vestimos uma capa quando esperamos os aplausos dos outros. A verdade é que mostramos muito mais de nós aos outros do que a nós próprios. Postamos fotos em frente ao espelho, mas nunca estivemos 5 minutos a olhar para nós mesmos e a questionar-nos sobre a nossa identidade. Postamos fotos em paisagens de cortar a respiração, mas será que demos o devido valor àquela natureza? Postamos fotos a fazer boas ações, mas será que as continuamos a realizar fora dos flashes? Postamos rotinas que na verdade são momentos pontuais. Postamos a ideia de que somos rígidos, convictos e dotados de auto-estima, mas o que seremos todos nós por detrás do ecrã do computador? A verdade é que cada um mostra o que quer, o seu melhor lado, ou não. Os desejos que vemos partilhados, as convicções, os acontecimentos, são tudo memórias seleccionadas, cujo processo de filtração foi altamente pensado para que tu vejas ou certos círculos de pessoas prestem atenção. Eu sei disto, tu sabes disto e toda a gente sabe disto. Não é segredo. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A força que me deste

Às vezes penso no destino e em como ele me derrotou
Dois corpos separaram-se como um laço que se desatou
Desmembrámo-nos por orgulho e desfez-se um coração
Sempre fiz tudo para merecer uma cordial explicação
Como se o destino apoiasse os teus erros e a tua folia
E a minha vida acabasse como um café que esfria
É ridícula a maneira como duas pessoas sentem o tempo
O que para ti já é rotina para mim ainda é contratempo
Uns têm lúcido o passado, outros vivem do presente
Ergueste-te livremente e eu tão forçosamente
Ajudaste-me a tornar numa pessoa cada vez mais derrotista
Mas lembra-te que deitaste fora a tua própria conquista  
Se fosses parte do meu cérebro, eras o meu cerebelo
Mas se fosses um estado físico, serias um cubo de gelo
Os opostos atraem-se, mas não quando alguém desiste
Quem conhece o amor é aquele que mais persiste
Quem nos faz sentir especiais é quem nos faz sentir inúteis
Todas as lutas que criei foram tratadas como fúteis
Quando menos querias magoar, era quando mais magoavas
Foste em direção ao precipício que ainda hoje cavas
Vi de perto os teus erros e tu sentiste o arrependimento
Foi com palavras bonitas que mascaraste o teu lamento
Mas as palavras o vento leva e com as fronteiras são ardidas
Enquanto elas são momentos, as ações representam vidas
Qualquer um emite promessas a troco de nada
Mas a atitude requer objetivo, sem nunca estar cansada
As palavras nada valem, apenas revelam fascismo
Enquanto proferir e agir se separarem por um abismo
Os políticos provam isso e qualquer cobarde também
Toda a vida foram os grandes feitos a fazer do amor refém
Não sei se te voltarei a ver na minha vida ou apenas na tua
Mas não vou ficar ao relento à espera que passes na rua
Agiste sem pensar naquela noite pouco banal
Como se tudo estivesse programado como tal
Ainda assim eu sabia que eras o meu amor eleito
Mas passaste do presente para o pretérito perfeito
O meu coração não aguentou e o choque moveu mundos
Só a minha alma sabe de cor os sofrimentos profundos
Trocaste a vida por minutos, o amor pela ilusão
Nem tu desejavas para ti momentos de repulsão
Provavelmente não te reconheceste e caíste em decadência
Mas há outras explicações para além da adolescência
Porque se fosses a alma de uma balança, serias a sua indecisão
E se fosses um planeta, chamar-te-ias Plutão
Fui feliz ao amar, mas sofrer fez-me ganhar um escudo
Tornei-me mais forte com cada grito tido como mudo
Sabes que o meu silêncio representa sofrimento,
E ainda assim ignoras e alimentas o tormento
Tornaste-te tão frio e tão distante
Já te esqueceste de como eras aconchegante
Não tenho o direito de pedir que voltes nem que sejas racional
Mas podemos falar do tempo ou de um qualquer desejo carnal
Pedir para voltares provaria a minha estupidez
Para voltar, volta-se por amor e volta-se de vez
Sei que parece desistência mas tem o nome de coragem
Forço-me para acreditar que foi um sonho de passagem
Lembra-te que não me abandonaste apenas a mim,
Abandonaste-te a ti próprio e ao dia de S. Valentim
Mas há uma coisa que se deve sempre dizer a quem se perdeu
“Apesar de tudo, obrigado por teres sido meu.” 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Almas desfeitas

Forest

Aprendi que o amor dos outros se evapora. Sim. Não foi algo desfolhado em livros, mas sim na aprendizagem de ausências a que assisti. Muitos levariam anos a chegar a esta conclusão, outros precisariam de uma vida para assumir a sua crueldade e alguns, os mais felizes, nunca chegariam a descobrir tal facto. Há dores que moram em olhares, gritos mudos que estão alojados na garganta, formas de nos reprimir-nos que ninguém imagina, lamentos que colocamos nos ombros que pesam mais do que mundos. Existe uma inveja do conceito de felicidade que nos transcende. Sabes, eu sei o que é acordar a sorrir, sei o que é não saber definir o amor porque ele me definiu a mim mesma, sei o que é ser fruto da inocência do carinho, sei a pureza que existe em ternuras espontâneas, sei o que é ter o dom de amar e ser amada, sei o que é ter alguém à nossa espera, a escrever para nós, a falar de nós ou a fazer algo por nós. Sei o que é o amor. Aliás, soube. Tudo parecia demasiado irrealista para ser alimentado com a ternura com que eu alimentava os meus sonhos. O frio da despedida existiu, se existiu! Sentiu-se nos poros. Ainda hoje se sente... Pergunto-me vezes sem conta, não como as asas foram cortadas, mas como existiu frieza para as cortar, para ver todos os dias o seu sangue que poderia ter sido vida, poderia ter sido mais um sorriso ao fim de cada dia... como um jardineiro que cultiva a sua flor e depois a corta, como um milionário que queima as suas notas ou como um pintor que lança a sua tela ao mar... Há estilhaços que ficam incompreendidos no tempo, solitários no pensamento e incompletos na vida. Cada lágrima talvez seja um pedaço de coragem, do qual eu me vou orgulhar um dia. Se eu acho que mereço? Ninguém merece. Pensei que seria bom eliminar uma incógnita e ter uma certeza, mas não quando a certeza nos mata. Penso e construo memórias mais ilusórias do que sonhos, às quais nunca vou poder oferecer a palavra sólida de "concretização". Desapegar é o rumo, e não apenas afastar. Afastar implica fazê-lo com o propósito de esperar por alguém, é fazê-lo exatamente com o estímulo da sombra de quem nos espera na meta. Um barco pode afastar-se da margem, mas pode haver sempre alguém à espera dele, mas o desapego leva a que esse barco saiba que ao voltar não terá ninguém à sua espera e ainda assim se aproximou da margem. É preciso orgulho, rancor, egoísmo, é preciso desprezarmos com prazer sem simplesmente assumir o papel de mau para que o outro sinta a nossa falta. Sabemos que é justo, sim, acima de tudo é justo equilibrar a balança. Nós merecemos que assim seja. Ser romântico não é para qualquer um, mas todos conseguem prestar provas básicas de carinho. Se o carinho não é compartilhado, torna-se difícil fazê-lo brotar de uma pessoa só. Sabes, às vezes luta-se por hábito, porque é assim que nos conhecemos, é assim que o espelho reflete o papel que temos nas relações. Lutamos por carinho ao passado e, principalmente, por carinho à rotina. É nesse momento que toda a lucidez se evapora. Voltaria a amar ridiculamente, sim! Foi a maior história, o maior amor, o maior delírio, a loucura mais consciente que tive até hoje! Mas iria ser diferente, não sei de que forma, em que circunstâncias, mas iria ser diferente. Há pedras enormes no caminho, pedras que me deram maturidade e determinação para enfrentar os meus medos, mas não a força suficiente para as retirar do meu caminho. Há erros que ferem a alma, há tipos de incerteza que se chamam orgulho, há atitudes que simplesmente não são da pessoa que nós conhecemos, não encaixam naquele primeiro olhar que a pessoa nos lançou. Entristece e enlouquece quando tentamos perceber o porquê dos outros não terem necessidade de se isolar um bocadinho, de ter a porcaria de um momento de paz, de deixarem as luzes da ribalta para cultivarem o respeito próprio, de passarem por uma fase de plenitude, de silêncio interior. A mente não exige isso? Sempre que acordo percebo que aquele futuro longínquo é apenas um presente frustrado, uma realidade que outrora me fugiu das mãos. A morte não existe em corpos, existe na alma, no sentimento a que chamamos de vida. É aí que existe o choro, os gemidos, o abandonar de um percurso construído ao milímetro e rezado todas as noites. Agora imaginem toda esta morte, sabendo que o nosso corpo ainda se move em terra... Imaginem o peso que o nosso corpo passa a ter a mais, o peso da derrota, o peso da frustração, o peso da memória, o peso da incredulidade, o peso da angústia, o peso do medo, o peso do lamento, o peso das perguntas e o peso da ausência de respostas, o peso da desilusão, simplesmente o peso dos nossos passos. Imaginem! Imaginem a dor de caminhar no vazio, de termos tido conhecimento do que é ter alma dentro de nós e a amnésia dessa vida não ter existido porque a chata da memória nos lembra do que fomos e do que somos agora. Mas, apesar de tudo, sabes o que sempre foi igual no passado e no presente? É que o que prometi eu sempre cumpri e sinto que ainda cumpro....

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Existe o amor, e depois existes tu

Sempre cresci com a história da Cinderela no peito
Mas preferia não saber o que é viver algo perfeito
Respirava fortemente e lançava papagaios ao vento
Saber que estava no teu coração era o meu grande alento
Ver a chuva lá de fora naquele ninho quente e genuíno
Era qualquer coisa mágica e que rimava com destino
Acolhidos pelas estrelas na relva fresca das madrugadas
Falava-se e sorria-se mesmo em noites geladas
Éramos apenas nós a quem o pôr-do-sol convocava
Ainda não sei se foi sonho, se realidade roubada
Admiradores do campo, camuflados na natureza
O brilho dos teus olhos transportava uma certeza
Construímos expectativas com uma alegria imensa
Os teus abraços inesperados eram a minha maior crença
Beijava as pálpebras dos teus olhos com tanto carinho  
Para quê me veres se basta sorrires baixinho
Revivíamos o primeiro encontro com tamanha alegria
E partilhávamos o gelado como se tudo nunca acabasse um dia
Agora vives nas fotografias e surges como lembrança
E eu vivo neste mundo fechado onde respirar cansa
Rezámos por um futuro e lutámos pela felicidade
Até percebermos que ela já só existe sob a forma de saudade
Todos os dias aquele retrato se apodera da memória
É algo perdido no tempo, a que eu chamava de vitória
Resta a música esquecida, a foto da carteira
Resta a dedicatória perdida e o lugar vazio em frente à lareira
Se a ausência fosse nome, o meu apelido era solidão
E se o amor fosse outra palavra, chamar-se-ia ilusão
Os papagaios que lançámos, o vento os levou
Às vezes penso que o diabo a tua mente enfeitiçou
Vejo-te em fotos com a camisola que me pediste para escolher
Sinto que se a romperes eu tenho o dever de a cozer
Cheguei ao topo do mundo e esse topo eras tu
Lembra-te sempre que eu nunca fecharia o nosso baú
Sei que fui abandonada numa ação que achas-te legítima
Sei que antes era a princesa, mas agora sou a vítima
Quero a pessoa que me conquistou, que existia por eu existir
Quero levantar a cabeça sem ter medo de cair
Podes chorar, mas nunca como eu
Não tens noção do que foi perder o que considerava ser meu
Queria um dia fazer contas para saber os dias que estive ao teu lado
Chegar à hora de jantar e dizer que és um pai babado
Queria voltar a esperar no café pelos teus passos
E saber que cada passo não é mais um dos teus fracassos
É ridículo este apego, esta história de morte
Continuo a achar que sempre foste o meu passaporte
Tantas fotos onde te vejo, que fui eu que as tirei
Foi o sonho mais real que alguma vez presenciei
Os benefícios do orgulho tenho a certeza que não existem
Porque ele só existe dentro dos que mais desistem
Prova-me que estou errada, que estou a perder a lucidez
Que vou voltar a acordar e te vou ter outra vez
Odeio passados brutalmente felizes,
Momentos tão do passado que tu nem caracterizes
Sinto-me tão sozinha num mundo cheio de gente
E foi de dia para dia que deixei de ser crente
O meu lado ingénuo deu lugar à indiferença
Os sonhos diluíram-se numa tempestade intensa
Se tu fosses ar, serias os ventos áridos do deserto
E se fosses o mar, serias o seu horizonte incerto
Dava tudo para acordar um dia de cabeça erguida
Mas ao decorrer dos teus passos eu continuo a chamar vida
Devia viver comigo mesma e assistir à minha rotina
Sem assistir aos teus erros, resumindo-me à minha ruína
E transformar essa ruína num jardim de flores
Colorir a minha vida de todas as cores
Mas se ainda pensares que os meus sonhos são os teus
Prova-me que me foste enviado por Deus
É ele que move mundos e se chama de amor
Metade dele é bênção, outra metade é dor