segunda-feira, 27 de julho de 2015

Nunca te abandones a ti próprio

Disney Palace

O amor é como a morte. O mais terrível não é o facto de acabar, mas a forma como termina. É quase como se nos dessem todos os ingredientes de um sonho, nós começamos a concretizá-lo e depois roubam-no. E tudo isto sem anestesia. Sem o psiquiatra dentro de nós a cuidar das nossas escolhas. Sem a nossa consciência a intervir. E sabem porquê? Porque a nossa intuição fica destruída, a nossa visão do mundo apaga-se, despedaça-se o resquício de racionalidade que ainda existia, evapora-se toda e qualquer forma de feminismo. Ficamos sem norte, sem hábitos coerentes de rotina, sem o brilho nos olhos que tivemos ao nascer. Demos o melhor de nós, pusemos à prova a nossa capacidade para amar, fizemos do nosso céu as prioridades dos outros. E o que recebemos? O vazio. É aí que duvidamos da nossa própria sombra, pomos em causa todos os sentimentos do dicionário, questionamos todo e qualquer ato de carinho, tentamos traduzir vezes sem conta a palavra amor... Até percebermos que o seu significado já não existe na nossa cabeça nem é justificado pelo nosso coração. Pior do que abandonar alguém é abandonarmos-nos a nós próprios. Foi por isso que lutei pela única pessoa que valia a pena, a única pela qual dependia e depende a minha felicidade. Eu. Apenas eu. Sonhar acarreta muitos riscos. Eu sei. Um grande sonho pode trazer consigo a maior das desilusões. Sonhar é para os corajosos, é para aqueles que se sentem com a capacidade de enfrentar a maior desilusão, e às vezes chorar é tudo aquilo que precisamos. As pessoas fortes choram. Reservam parte do seu dia para expulsar as desilusões. Conseguimos deparar-nos com cada lágrima de dor e ainda assim lutar, berrar se for preciso, revolucionar as nossas entranhas mais profundas e dizer ao eco do nosso coração que nós vencemos! Cuidámos de nós! Estamos no pódio da vida! Soubemos lidar com a angústia de tal forma que agora encaramos o sofrimento como algo natural, algo leviano, totalmente ultrapassável. É tão mágico sermos lúcidos e termos forças suficientes dentro de nós para nos suportarmos a nós próprios. Como é bom sentirmo-nos em casa, em consonância com a nossa essência, em equilíbrio com os nossos valores e a fazer juz àquilo que sabemos que sempre fomos. Como é bom andar na rua ao sabor dos nossos próprios passos. O grande problema é que só fazemos tudo isto quando chegamos ao limiar da cegueira. Só nos importamos quando a verdade é proibida, quando queremos tanto ser felizes que aquilo a que chamamos de vida se torna um veneno. E aí, só aí, é que passamos a pensar em nós, enquanto todos à nossa volta sempre viveram do seu próprio egoísmo. O que sou agora não sei, mas sei que rima com fortaleza. Agora não sonho com os castelos das princesas ou com os contos de fadas cor de rosa, mas sim com os alicerces de todo e qualquer palácio, porque todos temos um dentro de nós, basta não o deixarmos cair.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Super Bock Super Rock!


O dia começou com a ansiedade disfarçada de insónias acentuadas. Sim, acordei às 5 da manhã e desde aí não dormi. Os planos eram grandes e a euforia ainda maior. Toda a rotina foi turbulenta para que o tempo da maquilhagem não fosse interrompido. Afinal, eu ia para a capital e para o festival do Rock!! Ainda que restrita ao meu pequeno quarto de estudante universitária, já sentia à flor da pele uma espécie de liberdade privilegiada. Depois da turbulência do autocarro e da sonolência do comboio lá chegou o momento de pisar a terra Lisboeta. Comemos, passeámos e desfrutámos. A paisagem era, de facto, diferente da simples vilinha de onde vim e até mesmo Coimbra tornou-se uma aldeia aos nossos olhos. Já se ouvia som e o entusiasmo cada vez mais se instalava. Até que entrámos e corremos todos os cantos. Os palcos mais pequenos preencheram a tarde onde a cidade era o seu belo cenário. Conheci boas vozes e bons estilos, principalmente por estar na fila da frente. Os brindes preenchiam as nossas mochilas tal como os sorrisos o nosso coração. Visitámos a exposição, aparecemos na sic em segundo plano, tirámos fotos super originais e andámos sempre de palco em palco ao sabor da música, como verdadeiras aventureiras a seguir as pisadas das notas musicais. Os Unknown Mortal Orchestra impressionaram-me com a sua simplicidade e singularidade. Foi um achado! Já no Meo Arena assistimos aos Christal Fighters, onde se deu o auge da originalidade. Tão puros, tão genuínos, tão cativantes, é assim que os descrevo. Adorei cada música e cada gesto, fiquei fã, definitivamente. Eles não representam apenas um tipo de música, mas também um estilo de vida, uma forma singela de apresentar a música aos ouvintes. Como se desenhassem a música na sua forma mais natural e a entregassem às pessoas como se fosse uma dádiva. De seguida, Franz Ferdinand! Outra voz inconfundível, gestos peculiares e uma meiguice natural. Confesso que tenho saudades de o ver a atuar mais isolado e a ser o centro das atenções, mas não deixei de gostar do concerto, até porque acabaram em grande, com músicas fantásticas e das quais todo o público fez questão de acompanhar. E foi então que, finalmente, chegaram os Florence. Meu Deus! Muitos guardaram a energia para aquele momento e canalizaram todas as suas forças para acabar a noite em grande. Eu não fui exceção. Afinal, tivera chegado aquela força da natureza, aquela deusa com movimentos de ave, aquele sorriso acanhado carregado de pureza, aquele timbre inconfundível e completamente viciante. A energia foi mais que positiva, as músicas foram mais que cantadas e o público vibrou como nunca. O facto de sermos todos seres humanos e estarmos ali unidos pela música, naquela batida repetida, naquela união calorosa, fez-me dar valor às coisas mais simples da vida. Coisas tão simples como o facto de andarmos todos descalços como ela. Emocionei-me! Em especial quando ela pegou na bandeira de Portugal. Foi épico! É verdade que um festival é sempre um investimento que para muitos custa, mas garanto-vos que não ficam a perder. O espírito vem renovado, ganhamos novas perspetivas de vida, enfim, tudo aquilo que trazemos connosco na memória e no coração não se paga nem nunca pagará. Um dia não estaremos a recordar o quanto poupados éramos, mas o quanto aproveitámos a vida e o quão vastas são as nossas histórias. O que restou foi uma enorme nostalgia e uma vontade incontrolável de referir todos os pormenores que vivemos para que nos possamos sentir mais uns segundos a pisar aquela terra festivaleira. E acreditem que são os segundos a relembrar estes momentos que nos dão sentido à vida.

18-07-2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sou livre


O que tinha restado de mim era um coração magoado e uma memória que me impedia de esquecer toda a dor. A vida obrigou-me a recuar, a ser firme e mostrou-me que a única opção era ser forte. Sei que são clichés das páginas filosóficas, mas não só. Quando a vida deixa de fazer sentido, todas essas frases transcendem a própria vida, de tão verdadeiras que são. Afinal, só quando somos forçados a algo é que o fazemos e, se de facto conseguirmos seguir esse lema, albergaremos o maior orgulho ao ler essas frases. Foi difícil, doloroso e penoso. Precisei de me sentir rodeada de pombas brancas todos os dias, nem que fosse nos sonhos, tive a necessidade de falar com Deus tantas e tantas vezes, obriguei-me a mim mesma a sorrir, a desacorrentar-me, a respirar músicas de igreja, a sair de casa só porque sim, falei com as paredes sobre toda a raiva que sentia até cada lágrima explicar perfeitamente os gemidos do meu coração, olhei para o céu como pedidos de ajuda, remei contra a injustiça mesmo nos dias mais negros... Perguntava aos seres irracionais o porquê de não me tornar num deles, perguntava às raízes das árvores o porquê dos sentimentos não terem a sua força, perguntava ao espelho o porquê de não entender o medo na minha cara, perguntava às nuvens o porquê de também não me deixar levar por um vento alheio, perguntava à esperança o porquê de não pintar de verde o meu coração. Desviar-me daquele cenário de corações esquecidos era a meta. Eu cheguei a essa meta e atingi muito mais paz interior do que alguma vez imaginaria, até perceber que o simples facto de estar viva é a coisa mais bonita da vida. Sabia que, enquanto vivos, todos caminhávamos em direção a um ponto alto, àquele auge da felicidade, mas agora percebo que a melhor caminhada é feita quando estamos sozinhos. Não precisa de haver um topo físico de uma montanha, basta haver um objetivo concreto. Às vezes não precisa, sequer, de existir um cruzar com a meta, basta o esforço da luta para que nos sintamos vivos e lúcidos. Sabes, sou finalmente livre. Sem apegos, sofrimentos ou sentimentos que nos levam ao abismo. Nós próprios estamos acima de qualquer pessoa e isso não é egoísmo, é sensatez, é oferecer a nós próprios aquilo que realmente merecemos e o maior presente que podemos receber por aquilo que sempre fomos. Olhar em frente e lutar por nós e pelo nosso futuro é a forma mais digna de se viver. Não me deixei de preocupar com os outros, afinal nunca me tornaria tão fria como as circunstâncias por que passei, apenas precisei de me afastar para ter paz e para me valorizar a mim própria. Confesso, precisei pela primeira vez na vida de ser a minha maior prioridade. Precisei de abandonar aquela penumbra com mazelas de doença para me lançar à vida e ao ar puro. E se me perguntam o que é o amor? Não sei bem o que será. Muitos dos que nos tentam provar a sua essência são os mesmos que nos fazem achar que o amor não passa de uma palavra e passamos a ser os seres mais descrentes do mundo. Já tive mais carinho por esse sentimento e apesar de já me ter dado ao luxo de o caracterizar, sinto que o amor só existe quando também existir dedicação e quando os sentimentos que revelarmos forem pelo menos coerentes e explicativos. O amor pode ser definido, sim, mas apenas no êxtase da conquista, não com todas as palavras corretas nem muito menos com a maior das consciências, mas pode definitivamente ter um lugar no nosso dicionário. Mas quando o amor passa a ser uma pedra às costas ou a corda que nos sufoca, aí a única palavra que o define é "ilusão". Agora vivo em paz com a minha intuição, em harmonia com os meus segredos e acima de tudo vivo de mãos dadas com a minha consciência. Sermos fieis a nós próprios é motivo de orgulho todos os dias. Todos precisamos de um momento de solidão nas nossas vidas para que a mágoa que nos deixaram dê simplesmente lugar à indiferença. É um processo duro e longo para quem apenas se conhecia como uma romântica incurável. Mas a verdade é que o amor é uma ínfima parte do nosso horizonte. Não sinto que esteja a abandonar seja quem for, porque fui abandonada primeiro. O sofrimento é a dobrar para quem tem sentimentos verdadeiros. Sabes, "Os naufrágios são belos. Sentimo-nos tão vivos entre ilhas, acreditas?"