sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sentimento esfarrapado

Sinto-me estranha pelo simples facto de andar a reflectir e a recear o futuro. Também sinto medo, é um facto, e sou a primeira a admiti-lo. Parece que fico sem chão, sem esqueleto, é um calafrio abrupto que incursa no meu corpo. E vocês perguntam o porquê deste sentimento quase temerário. Bem… tinha e tenho eu uma vida calma, mas aquelas audaciosas ânsias começaram a aparecer. Foi aqui que parei, olhei para trás e finalmente olhei para a frente exasperante. Será verdade que daqui a relativamente pouco tempo eu vá ganhar independência? E será que vou mesmo ter que andar sobre quatro rodas? E aprender a cozinhar de verdade? E pior, distanciar-me de pessoas que adoro? Não vou permitir que o único contacto entre essas pessoas sejam umas banais teclas de um aparelho horrendo. Suborno-me a mim própria para pensar que isto não passa de um devaneio e que rapidamente se vai escapulir, ou que sou mais alguém com um ar famélico, devido a uma fome vã. Mas a verdade é que me sinto num asilo intricado, obscuro, difícil de compreender, confuso. Parece que essa futura e triste vida age com galanteios e tamanho janotismo para que eu ceda, mas não vou ceder!!! Só quando o tempo me amarrar, me passar por cima e me apear e demolir. Se calhar a minha personalidade está feita para viver num lar rotineiro e maravilhoso e não para levar golpes baixos com o pretexto de arranjar profissão e como todos dizem “ser alguém na vida”. Suplico que me largue o frio imundo que me percorre os dedos, a água salgada rica em minerais que me humedece a pele, as azeitonas negras que se encaixam nos meus olhos, o suor repentino que não provém do desporto, o coração saltitante que não provém da paixão... Serei uma atada, ou simplesmente alguém que quer viver em paz? Só se ressoa o eco de uma palavra na minha mente: "Universidade".

domingo, 17 de julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Teatro ao vivo (12º dia)

Hoje bati o meu recorde de quilómetros na minha bicicleta. Andei só para vir 57km! O que me fez madrugar. Tudo para ver um teatro que se irá realizar ao vivo e que mostrará os melhores declamadores do país a representar poemas publicados de ilustres poetas como Luís de Camões, Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner, António Gedeão e Fernando O´Neill. O sol não pretende de maneira nenhuma deixar este local, mas creio que esta viagem não foi em vão, dado que o cenário do teatro parece real e é simplesmente fantástico. (…) Começou o teatro depois das bancadas se terem apilhado de gente. (…) Ser declamador não é pêra doce! É preciso expressão, garra, vontade de vencer e é de facto fundamental encarnarmos a própria vida e costumes da personagem, nem que o tenhamos de fazer na vida real, e não basta apenas nos apresentarmos bem fardados. Ainda por cima tendo em conta a responsabilidade que estes actores hoje carregaram por representar pessoas tão célebres. Estes teatros fazem-me sempre valorizar as intensas letras destes poemas, não sei onde é que os poetas daquela época iam buscar tanta inspiração! Nem sequer havia boa música na altura… Talvez a natureza e os amores ao longo da vida dos poetas, especialmente os de Camões, se encarregassem sempre disso. A leitura de facto sofrera grandes alterações, como este teatro também retratou um pouco essa evolução, antes os poetas eram ávidos do prazer e das alegrias que a escrita lhes oferecia, mas agora parece tudo uma ânsia e uma luta pelo reconhecimento e pelo capital que daí floresce. Lá está, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Infelizmente! (…) Chegado ao fim e ganhado um autêntico bronze estou de volta a casa.  

terça-feira, 5 de julho de 2011

O percurso de um rio (11º dia)

A rota de hoje cinge-se ao seguimento de um rio. Segundo o meu irmão, a minha aventura de hoje já é considerada um desporto oficial, o qual não me recordo do nome. Nunca largando o mapa pretendo seguir um rio com fama piscatória e, segundo esse mesmo mapa, arranjei um local que me pareceu um bom ponto de partida. E aqui estou eu! O mapa indica cerca de três pontos verdes, um ponto amarelo e dois pontos azuis ao longo de todo o rio, mas o que serão? Terá a ver com a biodiversidade da zona ou com os perigos presentes? Ou estará a minha ignorância acerca de interpretação de mapas a vir ao de cima? (…) Já andei cerca de 4,8km e estou bastante cansada, não pela distância, mas pelas condições que o solo me apresentou. No entanto este percurso não poderia ser mais produtivo! A água transpirava frescura enquanto perfurava e erodia os pedregulhos, ou rochas segundo a minha professora de biologia, haviam pequenos peixinhos a viver e a repousar sob aquela natureza, vi até uma lontra e outra bebé, observei os nítidos e tão naturais limites do rio, beijei a brisa que me percorria a face e guardava o leve cheiro a lavanda que percorria o ar e desfrutei de tudo isto com os alternados tons das folhas das árvores, da terra salpicada quando passava por uma poça ou berma de água, os tons do céu, dos pequenos animais, etc. (…) Por fim, desviei caminho e rumei a casa. (…) É verdade! Pelo que entendi os pontos verdes representam os espaços públicos/parques para as pessoas se sentarem a comer à mercê da natureza, os pontos azuis simbolizam os locais mais adequados para a pesca e o ponto amarelo representa o despejo de resíduos de uma ETAR.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

No miradouro da ponte (10º dia)

Uma subida agreste que se fizera sentir pelo constante suor. Pousava eu a bicicleta junto a um poste antigo de electricidade, quando voltei a cabeça e o meu olhar foi subornado pela intensa paisagem de ricas cores que se sobrepunham. Um miradouro é sempre algo de louvar pelo brilho que nos dá aos olhos e pelo espírito positivo que nos dá à alma. Mas este é especial… Sinto que é o lugar ideal para qualquer poeta se inspirar, para qualquer músico criar uma nova melodia e qualquer pintor espalhar as cores reais na sua tela. Que trabalhosa fora esta ponte, naquele tempo! Tudo para que possamos ter a grande oportunidade de vislumbrar aquele vento a trespassar os ramos das verdes árvores, as pequenas pessoas irreconhecíveis como negros vultos, os caminhos como castanhas águas a percorrer as ruelas, os sons desvanecidos pelo som do ferreiro local, os carrinhos vermelhos a entregar o correio, a cor amarelada do arenito da marginal, os tons amarelos da areia da praia, as cores ora claras ora escuras do azul do carregado mar, um grande barco branco a saborear as ondas que o oceano lhe oferecera… Estar aqui é bem melhor do que andar de helicóptero, pelo menos aqui podemos conduzir o nosso olhar para pormenores pitorescos que marcam toda a diferença. É quase irreal ver esta paisagem que se assemelha a um aquário gigantesco onde a nuvens carregadas fazem tensão sob toda a paisagem e onde o sol se desvanece e vai abandonando as montanhas. Quem sabe se não pintarei um quadro inspirada nesta paisagem? (…) Depois de tirar algumas fotos para assim recordar este sonho tornado realidade, achei que já se fazia tarde e que ainda tinha muito que pedalar.

sábado, 2 de julho de 2011

Numa caverna obscura (9º dia)

Hoje dedico o meu dia à pouca coragem que me resta. Sempre tive imenso medo do escuro, mas tenho de o conseguir ultrapassar sozinha! (…) Já me encontro perto de uma dita caverna, à qual se encontra subjugado um mito ou lenda que as pessoas da aldeia criaram. (…) Já vejo o escuro da caverna mesmo próximo de mim… Pousei a bicicleta. Ansiei. Receei. E dei finalmente um passo em frente. Trouxera a lanterna que não pegara desde a minha última viagem de noite, e foi de facto uma excelente companhia. (…) Viajar de noite é diferente, há luzes na rua e nas casas, mas aqui dentro nada se vê, nem o sol nem as estrelas, se fosse de noite. Cada vez se encobria mais a entrada da gruta e se iluminavam aos poucos as paredes da caverna, à velocidade dos meus passos, que foram sempre curtos e receosos, pelo meu estado de nervosismo intenso. Consegui ver desenhos dos primórdios, com tons avermelhados que provêm do sangue e tons mais escuros do carvão. Eram de facto tempos bem diferentes dos de agora. Tudo ali parecia compactado e misterioso. O ambiente da caverna tornara-se quase palpável. À medida que andava, o silêncio quebrava-se com o gemido da gelada água que ia arrastando. Por outro lado o pouco sol que ainda penetrava a caverna "fugia" cada vez mais, o que me fez sentir frustrada por não o conseguir apanhar! Quando saí da gruta por momentos fiquei cega, parecia que os meus olhos tinham dado a minha visão à escuridão quando saísse, em troca da minha atracção pelas pinturas rupestres, que me dominaram mais que o próprio medo do escuro. (…) Depois de comer o farnel fui para casa antes do sol se pôr, e sentindo-me eu uma pessoa mais forte e confiante por em parte ter ultrapassado um dos meus maiores medos, o escuro!