segunda-feira, 18 de maio de 2015

Existe o amor, e depois existes tu

Sempre cresci com a história da Cinderela no peito
Mas preferia não saber o que é viver algo perfeito
Respirava fortemente e lançava papagaios ao vento
Saber que estava no teu coração era o meu grande alento
Ver a chuva lá de fora naquele ninho quente e genuíno
Era qualquer coisa mágica e que rimava com destino
Acolhidos pelas estrelas na relva fresca das madrugadas
Falava-se e sorria-se mesmo em noites geladas
Éramos apenas nós a quem o pôr-do-sol convocava
Ainda não sei se foi sonho, se realidade roubada
Admiradores do campo, camuflados na natureza
O brilho dos teus olhos transportava uma certeza
Construímos expectativas com uma alegria imensa
Os teus abraços inesperados eram a minha maior crença
Beijava as pálpebras dos teus olhos com tanto carinho  
Para quê me veres se basta sorrires baixinho
Revivíamos o primeiro encontro com tamanha alegria
E partilhávamos o gelado como se tudo nunca acabasse um dia
Agora vives nas fotografias e surges como lembrança
E eu vivo neste mundo fechado onde respirar cansa
Rezámos por um futuro e lutámos pela felicidade
Até percebermos que ela já só existe sob a forma de saudade
Todos os dias aquele retrato se apodera da memória
É algo perdido no tempo, a que eu chamava de vitória
Resta a música esquecida, a foto da carteira
Resta a dedicatória perdida e o lugar vazio em frente à lareira
Se a ausência fosse nome, o meu apelido era solidão
E se o amor fosse outra palavra, chamar-se-ia ilusão
Os papagaios que lançámos, o vento os levou
Às vezes penso que o diabo a tua mente enfeitiçou
Vejo-te em fotos com a camisola que me pediste para escolher
Sinto que se a romperes eu tenho o dever de a cozer
Cheguei ao topo do mundo e esse topo eras tu
Lembra-te sempre que eu nunca fecharia o nosso baú
Sei que fui abandonada numa ação que achas-te legítima
Sei que antes era a princesa, mas agora sou a vítima
Quero a pessoa que me conquistou, que existia por eu existir
Quero levantar a cabeça sem ter medo de cair
Podes chorar, mas nunca como eu
Não tens noção do que foi perder o que considerava ser meu
Queria um dia fazer contas para saber os dias que estive ao teu lado
Chegar à hora de jantar e dizer que és um pai babado
Queria voltar a esperar no café pelos teus passos
E saber que cada passo não é mais um dos teus fracassos
É ridículo este apego, esta história de morte
Continuo a achar que sempre foste o meu passaporte
Tantas fotos onde te vejo, que fui eu que as tirei
Foi o sonho mais real que alguma vez presenciei
Os benefícios do orgulho tenho a certeza que não existem
Porque ele só existe dentro dos que mais desistem
Prova-me que estou errada, que estou a perder a lucidez
Que vou voltar a acordar e te vou ter outra vez
Odeio passados brutalmente felizes,
Momentos tão do passado que tu nem caracterizes
Sinto-me tão sozinha num mundo cheio de gente
E foi de dia para dia que deixei de ser crente
O meu lado ingénuo deu lugar à indiferença
Os sonhos diluíram-se numa tempestade intensa
Se tu fosses ar, serias os ventos áridos do deserto
E se fosses o mar, serias o seu horizonte incerto
Dava tudo para acordar um dia de cabeça erguida
Mas ao decorrer dos teus passos eu continuo a chamar vida
Devia viver comigo mesma e assistir à minha rotina
Sem assistir aos teus erros, resumindo-me à minha ruína
E transformar essa ruína num jardim de flores
Colorir a minha vida de todas as cores
Mas se ainda pensares que os meus sonhos são os teus
Prova-me que me foste enviado por Deus
É ele que move mundos e se chama de amor
Metade dele é bênção, outra metade é dor

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Crónica: Constança


Sempre me questionei sobre o porquê de ainda não ter investido tempo a escrever crónicas e, sendo a resposta irrelevante, resolvi começar! Peço desculpa que o primeiro tema que me surja seja de violência, mas a verdade é que não se fala de outra coisa.
Nem sei por onde começar, mas sei a cara com que fiquei naqueles 13 minutos de vídeo. Já digeri a situação, é um facto. Bem, primeiro de tudo que idade tinha mesmo a rapariga? Ela é uma criança e apesar de já não estar na idade de brincar com bonecas era definitivamente isso a que ela se devia dedicar. Ela está na idade de olhar para os livros e para o seu futuro enquanto cidadã, está na altura de ganhar juízo, maturidade, respeito próprio e alheio e todos os valores e mais alguns que ela nem sabe que existem! Mas enfim, independentemente dos palmos de altura e das experiências emocionais, ninguém tem o direito de rebaixar assim uma pessoa, um irmão nosso aos olhos de Deus ou uma pessoa de carne e osso, para os ateus. Não foram apenas os atos de violência que me chocaram, mas a altivez e o agrado com que ela o fazia, o facto de se sentir acolhida pela maldade que espalhava, de ter um posto garantido num grupo de amigos por ser má e cruel. E talvez o maior choque de todos: ela não estar consciente da pessoa que se está a tornar. Ela deu água ao rapaz como se fosse a rainha e ele o escravo, como se praticasse aquele ato minimamente genuíno apenas para completar o cenário de escravidão. E quando ela disse que tinha a mão cansada de o bater? Meu Deus! Será que este instinto medieval domina muitas pessoas daquela geração? Rezemos para que não... Ela não é mais que os outros só por ter a barriga à mostra. Um outro choque foi a canalha (é mesmo este o nome) que estava a acompanhar, como se tivessem ido ao cinema e pagassem por um bom e esperado filme, como se fosse normal estarem ali especados sem defender o rapaz, como se o dever deles fosse apenas e somente assistir. Se se tratasse de gente da pesada, metidos em drogas ou com armas, sei lá, eu teria receio, mas uma rapariga que até o vento a deitaria ao chão eu não hesitaria em defendê-lo! Quanto à rapariga dos caracóis, por amor de Deus, pediram-lhe para o bater e ela bateu, mas até que ponto uma pessoa é influenciável? Isto prova muito sobre os jovens de hoje em dia. Viu-se na cara dela que provavelmente nem sabia o porquê de tudo aquilo estar a acontecer e ainda assim ficou do lado dos "fixes", do lado que lhe dá segurança no presente, mas mau génio no futuro. Agora falemos dos culpados e talvez esta seja a parte menos concreta. Claro que os pais estão pouco presentes, têm uma rotina que se resume a uma carreira e tem vias de se estreitar ainda mais. Pouco sobra para os filhos e para os interesses humanos, no fundo, não há espaço para aquilo que se chama de vida. Claro que isso gera instabilidade nos pais, nos filhos e, logo, em todo o ambiente familiar. Eles ficam vulneráveis, chegam à escola e deparam-se com outros colegas igualmente vulneráveis também com pais descuidados, e esta bola de neve construída por vulnerabilidade prova que vencem, não os mais fortes, mas os mais débeis e que mais têm necessidade de se camuflarem e arrastarem consigo reféns, porque quem mais anda sozinho é quem mais personalidade tem. A par disto, a sociedade não ajuda. As tecnologias tiram-lhes tempo para brincar, tempo para respirar, porque saber sacar uma aplicação e não saber brincar com lama não é infância. Nunca foi e nunca será. É um misto de causas que levam a isto e infelizmente acho que só mudando a educação que parte de casa e levando uns açoites de vez em quando nunca fez mal a ninguém. Nunca fez e nunca fará. Eu detesto qualquer tipo de violência, acho que não resolve absolutamente nada, a não ser dar espetáculo e atrair boatos. Para finalizar, acho que todos devíamos deixar a poeira assentar e não alimentar isto constantemente. Se as notícias falam, deixem falar, e é previsível que agora os jornalistas se esfolem por encontrar todos os casos idênticos no país e, provavelmente, vai gerar-se uma aparente onda de violência. Acho escusado baterem no ceguinho e formarem grupos, eventos e petições contra isto. Já sabemos a opinião de todos, inclusive da polícia e dos pais da rapariga, que são as que mais importam e, felizmente, penso que serão tomadas medidas. Digo isto, porque ninguém tem interesse em tornar-se numa Constança nem em atrair maldade. Para quê partirmos para insultos tão maus quando podemos apenas assistir? O que a televisão quer é temas para preencher a hora do telejornal e ficam parados a assistir a um tema prolongado pelo povo e que poderia ser estanque, no fundo ficam como nós a assistir à Constança, pensem nisto.