quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Viragem


Foram coros de memórias angustiantes, ecos sem nome e apelido, foram reservas de energia esgotadas, cartas escritas rasgadas. Foram poeiras condensadas atiçadas por águas convictas e geladas, refúgios turbulentos nas fendas indefesas do coração, foram poemas assinados pelos trovões, tecidos remotos vestidos pelo vento. Foram âncoras esquecidas, destinos perdidos, foram caminhos enterrados, corpos despedaçados. Foram traições repugnantes, promessas feitas de palavras, foram pesadelos vividos, sonhos passados despercebidos. Foram arpas desfeitas, músicas descontentes, foram lágrimas sólidas, estátuas de orgulho. Foram flagelos mortais, súplicas surreais, foram vozes abafadas, choros reprimidos. Foram espelhos partidos, gritos agudos, foram mortes de almas, dívidas à saúde mental. Foram escadas pisadas à pressa, azulejos pintados de preto, foram ilusões que pareciam credíveis, vidas que pareciam fazer sentido. Mas a luz surgiu, o pano abriu-se e o esqueleto recuperou forças. Olho para trás e percebo que aquela pessoa, com a mesma aparência que eu, já não existe, mas precisou de existir para que eu, ao equilíbrio a que cheguei, também pudesse existir. Agora, são sinfonias relutantes, pássaros de paz, são palácios de esperança, fadas reluzentes. São asas palpáveis, olhares genuínos, são antros de identidade, fontes de ternura. São laivos de aromas floridos, desejos cumpridos, são mistérios sorridentes, respirações feitas de natureza. São danças de amor próprio, charcos de virtudes, são vidas recuperadas, olhares apaziguadores. São melodias sinceras, metas credíveis, são pétalas de luz, silhuetas afáveis. Há capítulos rasgados, mas repletos de força, pequenos episódios de vida há muito enterrados, mas detentores do sentido que hoje dou à vida. A vida é uma questão de sorte, se é! Mas todos temos dentro de nós a capacidade de saber domar essa sorte. Porque domar é aceitar, é viver com aquilo que se tem, é respirar de alívio por cada passo que se dá, é estender a mão a nós mesmos e nos conhecermos como à clareza da água. Que melhor forma de domar pode existir se o sorriso na cara se mantiver intacto face às dores mais trágicas? O conformismo trás consigo uma força da natureza, uma força silenciosa, mas que é das maiores forças do universo! Viver feliz sem algo que no passado nos pertencia é a maior das vitórias! E perceber que valemos muito mais do que aquilo que nos pertence é fantástico, é acreditar no nosso valor intrínseco e cuidar da nossa essência como sendo única. De um louco e perdido grão de areia surgiu um castelo compacto e coeso. A loucura continua a existir, mas é uma loucura minha, não aquela fundada pelos outros e em nome dos outros. Não é a loucura fictícia que se cria para dar continuidade a alguém ou a uma relação, é a loucura que me define e me desenha, que me dá sentido. Se nos transcendermos que seja por nós e que seja todos os dias, porque o nosso coração deve ter somente a nossa assinatura. São as pequenas irracionalidades que levam à maior das racionalidades. Uma racionalidade consciente de sentir os pés a bater verdadeiramente no solo e saber que sou a única detentora do seu ritmo. É o meu caminhar, é a minha direção, a minha conquista.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A outra face de um elogio

fashion, girl, and model image

Deixei de acreditar nos elogios vindos do nada, daquelas pessoas que nos querem impressionar e que são uma poeira na nossa vida. São pessoas que às vezes se lembram que existimos. Mas uma mulher fiel não existe momentaneamente. Há homens que se esquecem que os valores que regem uma grande mulher são os pilares que sustentam o mundo. Como dizia Saramago, são as conversas das mulheres que mantêm o mundo na sua órbita. Disse ele e diria qualquer mulher racional. Quero acreditar nisso. Eu acredito na lealdade de uma mulher, de uma boa mulher. Acredito, porque sei o quanto é indiferente essa qualidade para pessoas que nunca o saberão ser. Tornei-me descrente em relação às palavras forçadas e despejadas. Prefiro algo subtil. Um elogio sentido, um céu estrelado, um olhar rebuscado, uma promessa cumprida, um bilhete escrito à pressa, um ciúme desvendado pelo vento, um amor coberto pela chuva, um pretexto para estar presente... É disto que tenho saudades. Afinal, aquilo de que temos mais saudades é sempre do que ainda não foi vivido e cumprido. E sim, um elogio verdadeiro renova o nosso dia, qualquer mulher o admite. Os elogios que considero mais puros vêm do olhar dos animais, vem da segurança dos meus pais, vem da última vez que senti a força de Deus nos meus braços. Os elogios mais sinceros vêm nos raios de sol que nos fazem abrir os olhos de manhã, vêm daquela melodia que passou na rádio e nos fez lembrar de todos os momentos em que fomos guerreiras e dos quais nos orgulhamos, os elogios mais apreciados vêm daqueles que menos nos conhecem, porque não conhecendo fraquezas ou preconceitos arriscam em dar-nos um elogio. Os elogios mais mágicos são aqueles que são inconvenientes e começam por não ter uma intenção, mas um mero gosto pessoal em agradar a alguém. Aprendi que um elogio é muito mais do que um "és bonita", muito mais do que um cochicho sorrateiro que se ouve pelos corredores da escola, muito mais do que um futuro pensado à pressa, um elogio é muito mais do que uma pele corada, muito mais do que uns joelhos no chão, muito mais do que uma sms extensa e repleta de promessas que tanto devem à verdade e nada pagam à ilusão. Sabes, eu precisei de ti precisamente quando mais me elogiaste, porque cada pedaço dessa espécie de carinho era uma incerteza, as raízes dessas tuas palavras traçavam a maior das ausências dentro de mim. Os elogios chegaram a despedaçar-me porque quando os recebia sabia que era um mau presságio. Foi quando eu mais precisei de ti, e dos teus elogios, que me deixaste. Foi quando as minhas lágrimas proclamavam por um abraço que tu fazias questão de fechar os braços para ti mesmo. E agora penso nas vitórias que eu concretizei, os feitos que alcancei somente para preencher o espaço vazio que estava preenchido por elogios efémeros. Um tanto contraditório. Tudo porque percebi o outro lado de um elogio. Percebi que existe vida para além de uma palavra bonita seguida de um sorriso rasgado. Tudo porque percebi que consigo viver por conta própria. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Conta telefónica


Recebi a conta. Eram 36 cêntimos... Dizem que se começa a amar quando se liga para ficar em silêncio. Essa chamada foi a prova disso mesmo. Só queria um "estou", um "olá", um "quem fala?" ou fosse o que fosse. Queria provas de vida e de amor. Mas a desilusão falou mais alto e a ingenuidade acabou quando o orgulho começou. Não diria orgulho, mas sim a capacidade de nos valorizarmos. Tornamo-nos, talvez, mais frios, mas isso não tem de ser necessariamente mau. A verdade é que baixámos a cabeça tantas e tantas vezes e chega o momento em que nos sentimos tentados a provar um pouco da franqueza. No fundo, seguir os nossos princípios, porque estávamos erradamente habituados a fazer dos princípios dos outros os nossos trajetos a seguir. E é na primeira tentativa de nos deixarmos de esforçar por agradar aos outros que o mundo treme por momentos. Percebemos que já nem a verdade podemos dizer e que tudo é propício para que as pessoas se tornem falsas. A sinceridade mata, é irónico. Tudo porque não fiz o que era suposto... porque não me rendi à normalidade, porque a vida me obrigou a traçar atalhos... Mas ergo a cabeça e penso que muitos um dia dirão para os seus filhos "não tive grandes solavancos e aventuras, apenas fiz o que era suposto", enquanto nós, os remos dos mares revoltados, vamos ter uma lição que contar em cada história, um objetivo cumprido e festejado, uma bênção concretizada ou simplesmente um sorriso genuíno, mas difícil de desvendar. Tudo porque nos bastámos a nós próprios quando nós não éramos suficientes para os outros, quando o mundo não nos reconhecia como alguém que valesse a pena. Tudo porque a maturidade surgiu. E tudo porque os que nos fizeram sofrer nem sequer imaginam os esforços necessários para que um dia nos mereçam. Seremos como estátuas de pedra com a imortalidade do tempo no exterior e uma tempestade de memórias a navegar como lava no seu interior. Seremos aqueles que saberão contornar encostas e delinear percursos perigosos, seremos aqueles que terão a experiência de vida como braço direito. Encaremos cada desilusão como um degrau para uma vitória futura. Seremos firmes, convictos e racionais! E aí, sim, estaremos no topo do mundo. Percebi isto quando a conta telefónica voltou a ser sempre a mesma. As contas mudaram, a vida mudou.