segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sou livre


O que tinha restado de mim era um coração magoado e uma memória que me impedia de esquecer toda a dor. A vida obrigou-me a recuar, a ser firme e mostrou-me que a única opção era ser forte. Sei que são clichés das páginas filosóficas, mas não só. Quando a vida deixa de fazer sentido, todas essas frases transcendem a própria vida, de tão verdadeiras que são. Afinal, só quando somos forçados a algo é que o fazemos e, se de facto conseguirmos seguir esse lema, albergaremos o maior orgulho ao ler essas frases. Foi difícil, doloroso e penoso. Precisei de me sentir rodeada de pombas brancas todos os dias, nem que fosse nos sonhos, tive a necessidade de falar com Deus tantas e tantas vezes, obriguei-me a mim mesma a sorrir, a desacorrentar-me, a respirar músicas de igreja, a sair de casa só porque sim, falei com as paredes sobre toda a raiva que sentia até cada lágrima explicar perfeitamente os gemidos do meu coração, olhei para o céu como pedidos de ajuda, remei contra a injustiça mesmo nos dias mais negros... Perguntava aos seres irracionais o porquê de não me tornar num deles, perguntava às raízes das árvores o porquê dos sentimentos não terem a sua força, perguntava ao espelho o porquê de não entender o medo na minha cara, perguntava às nuvens o porquê de também não me deixar levar por um vento alheio, perguntava à esperança o porquê de não pintar de verde o meu coração. Desviar-me daquele cenário de corações esquecidos era a meta. Eu cheguei a essa meta e atingi muito mais paz interior do que alguma vez imaginaria, até perceber que o simples facto de estar viva é a coisa mais bonita da vida. Sabia que, enquanto vivos, todos caminhávamos em direção a um ponto alto, àquele auge da felicidade, mas agora percebo que a melhor caminhada é feita quando estamos sozinhos. Não precisa de haver um topo físico de uma montanha, basta haver um objetivo concreto. Às vezes não precisa, sequer, de existir um cruzar com a meta, basta o esforço da luta para que nos sintamos vivos e lúcidos. Sabes, sou finalmente livre. Sem apegos, sofrimentos ou sentimentos que nos levam ao abismo. Nós próprios estamos acima de qualquer pessoa e isso não é egoísmo, é sensatez, é oferecer a nós próprios aquilo que realmente merecemos e o maior presente que podemos receber por aquilo que sempre fomos. Olhar em frente e lutar por nós e pelo nosso futuro é a forma mais digna de se viver. Não me deixei de preocupar com os outros, afinal nunca me tornaria tão fria como as circunstâncias por que passei, apenas precisei de me afastar para ter paz e para me valorizar a mim própria. Confesso, precisei pela primeira vez na vida de ser a minha maior prioridade. Precisei de abandonar aquela penumbra com mazelas de doença para me lançar à vida e ao ar puro. E se me perguntam o que é o amor? Não sei bem o que será. Muitos dos que nos tentam provar a sua essência são os mesmos que nos fazem achar que o amor não passa de uma palavra e passamos a ser os seres mais descrentes do mundo. Já tive mais carinho por esse sentimento e apesar de já me ter dado ao luxo de o caracterizar, sinto que o amor só existe quando também existir dedicação e quando os sentimentos que revelarmos forem pelo menos coerentes e explicativos. O amor pode ser definido, sim, mas apenas no êxtase da conquista, não com todas as palavras corretas nem muito menos com a maior das consciências, mas pode definitivamente ter um lugar no nosso dicionário. Mas quando o amor passa a ser uma pedra às costas ou a corda que nos sufoca, aí a única palavra que o define é "ilusão". Agora vivo em paz com a minha intuição, em harmonia com os meus segredos e acima de tudo vivo de mãos dadas com a minha consciência. Sermos fieis a nós próprios é motivo de orgulho todos os dias. Todos precisamos de um momento de solidão nas nossas vidas para que a mágoa que nos deixaram dê simplesmente lugar à indiferença. É um processo duro e longo para quem apenas se conhecia como uma romântica incurável. Mas a verdade é que o amor é uma ínfima parte do nosso horizonte. Não sinto que esteja a abandonar seja quem for, porque fui abandonada primeiro. O sofrimento é a dobrar para quem tem sentimentos verdadeiros. Sabes, "Os naufrágios são belos. Sentimo-nos tão vivos entre ilhas, acreditas?"

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