domingo, 6 de março de 2016

Firelight ♥

smoke, pink, and grunge image

A sensação de subir as escadas era diferente. Sentia o tacto de forma mais profunda no corrimão, o som dos meus pés era mais intenso, o próprio cheiro do ambiente não condizia com a vulgaridade daquela rotina. A maciez do cobertor de todas as noites era, agora, mais intensa, as teclas do computador tinham relevos perfeitamente desenhados, o toque do cabelo na cara era algo tão suave e tranquilizante, a espuma da praia era algo tão mágico e digno de ser sentido. Os poros tinham mais sensibilidade. A planta dos pés contava novas histórias. O toque na maçaneta era diferente, era mais firme, mais único. Cada olhar pela janela era algo novo que se acrescentava ao viver. A maneira como as cores surgiam com a inclinação do olhar e como o verde das árvores dançava ao ritmo do vento, até que esse vento das montanhas chegasse até mim e resfriasse as minhas orelhas. A forma paciente com que ouvia o som dos camiões nos paralelos ou sentia o frio da fresta da janela que ficara aberta, eram provas de paz. O calor dos ninhos era a incessante chegada de espíritos voadores, o último farol a ser apagado era o segredo de todos aqueles que não se esquecem dos últimos a chegar, os detalhes das nuvens eram harmoniosos com a força das almas, os búzios perdidos eram a delicada amostragem das esculturas de Deus, os raios de sol eram como fatias de calor entregues com carinho e saudação, as pétalas das flores a esbugalhar-se nas minhas mãos eram resíduos puros de perfumes oriundos da Mãe Natureza, as tartarugas a dar à costa eram a prova real e sensata de que são os instintos a mover a vida, o som moribundo dos sinos a tocar a mostrar-nos a força inabalável que nos leva a assistir a mais um amanhecer, a almofada gentil que desde sempre segurou os nossos sonhos, o calor dos nossos pés em harmonia com a circulação do nosso sangue. Todos os dias a vida nos mostra como a paz pode domar o nosso estado de espírito. Somos batalhões treinados, quadrilhas obedientes, tripulações que não pestanejam. Somos fracos por dentro e não condizemos com o que vestimos ou a vida que levamos, com as bebidas energéticas que bebemos ou com os olhos esfumados que usamos. Somos irreverentes por fora e conformistas por dentro. Mas é preciso dar valor! Agarrar as coisas simples que nos são entregues todos os dias da nossa vida e acreditar piamente que elas nos trazem o equilíbrio de que precisamos. Descobri que a paz é muito mais do que tudo o que julgamos que ela seja, porque quanto menos a soubermos explicar, mais a sentimos. Objectivamente, a paz não é aquela pomba branca a pousar na Arca de Noé com um ramo de oliveira no bico, mas encaremo-la como tal. Encaremos a paz não como um golpe de sorte, mas como algo que esteve sempre à nossa espera, como a terra tão desejada por Noé e que inevitavelmente iria aparecer, com ou sem pomba. Encaremos a paz como a fé em chegar à terra prometida, porque é essa fé a essência de que precisamos para acreditar. Sejamos nós próprios a pomba que sempre soube que existia um pedaço de terra para nós pisarmos, um pedaço de sonho a ser concretizado por nós. E sejamos essa pomba não apenas por saber que a paz sempre nos espera, mas por querermos disseminar essa dádiva como aquela pomba o fez. Transmitir boas energias e tornar invasiva a ideia de todos a podem alcançar. A paz é uma máxima! Procura-la, encontra-la e transmite-a.