terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ricardo Araújo Pereira 3*

“Acaba por ser reconfortante que, em tempos de crise, um chefe de Governo faça sonhar o povo e adopte um discurso em que a política se deixa permear pela poesia. A política não é boa, e a poesia também não, mas não há dúvida de que uma anda a permear a outra. Além de deverem suportar o insuportável, os portugueses são incentivados a olhar para o desemprego como uma oportunidade. (…) E, como sonhar não custa dinheiro, sigamos o exemplo de Passos Coelho e descortinemos oportunidades em todas as desgraças. Porquê ficar apenas pelo desemprego? Os acidentes rodoviários são uma oportunidade para trocar de carro. Os incêndios são uma oportunidade para organizar uma grande churrascada com amigos. As cheias são uma oportunidade para fazer um passeio de barco bem romântico. E a cadeia é uma oportunidade para descansar e descobrir novas sensações no duche. O desemprego talvez seja a oportunidade mais promissora, e por isso aquela que o Governo mais acarinha. (…) A única formalidade a cumprir cabe ao trabalhador despedido, que deve dirigir-se ao seu ex-empregador para lhe agradecer a oportunidade. Depois de beneficiar dessa oportunidade, deve aproveitá-la para empreender e inovar. (…) O problema é que a oportunidade do desemprego esgota-se na eventualidade, felizmente remota, de o desempregado encontrar emprego. Nessa altura, perdeu a oportunidade. E, embora não mereça, talvez deva receber nova oportunidade, até para animar a sua vida. O ideal é manter-se desempregado, estado em que se mantém permanentemente a aproveitar a oportunidade. É possível que haja quem não aguente e morra. Mas a morte, não sei se já adivinharam, é uma oportunidade. Para fertilizar a terra, por exemplo. É aproveitar, portugueses.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Beneficência? Não, obrigado.

É irónico! Construímos estradas mais largas, mas temos pontos de vista mais restritos. Inventamos boas máquinas fotográficas, mas a nossa vida é somente a preto e branco. Há sinalização e passadeiras em todos os cantos, mas nunca iremos perder o nosso tempo a cumprimentar o vizinho da rua da frente. As montras estão repletas de saltos altos, mas continuamos tão pequeninos. Trocamos um lugar numa montanha por um lugar acolchoado num avião. Trocamos um rosnar de um animal por uma música onde reinam os efeitos especiais. Trocamos a essência natural de um prado por um perfume banal. Trocamos a fruta das árvores por um sumo de frutas com gás. E trocamos a textura de um tronco ou das níveas espumas das praias pelas teclas do telemóvel da última geração. Estamos a atravessar uma crise de valores. Não o subscrevo por ser mais uma frase vítima de forte banalização. Mas por sentir nos poros uma reviravolta no tempo, nos costumes, nos pontos de vista, nas tendências. Vivemos por entre ocorrências alegóricas, onde o perfecionismo que nos veste e reveste segue, agora, as pisadas de caminhos onde o luxo é rei e a eloquência é rainha. Quanto mais a moeda se desvaloriza, mais nós desvalorizamos os outros. Quanto mais delineados estão os estratos sociais, mais delineamos o nosso estilo pessoal para ficar no topo da pirâmide. Estamos constantemente a trocar alianças com o nosso ego. Somos os fiéis cordeirinhos do mundo contemporâneo. Os escravos da publicidade. Os obcecados das grandes superfícies. E os criadores diretos do bombardeamento de marcas. Mas até o moderno nos cansa. A riqueza nos dá náuseas. As rotinas nos tornam dependentes de comprimidos coloridos. E enfim. Vivemos tão sedentos de necessidades imaginárias que o terreno se torna próspero para uma crise de valores. São truísmos como estes que nos levaram ao auge da incúria. É sim um erro crasso. Mas as reviravoltas acontecem. Os antagonismos sucedem-se. As modas antecipam-se. E nós manipulamo-nos. Quero acreditar que um dia acarinhemos pressões alheias que nos levem a perseguir novos rumos. Que nos levem a reconhecer os prodígios que são os ditados populares. Que as vivências das nossas avós não nos passem despercebidas. E que não continuemos a camuflar-nos nos vícios. Somos todos uns grandes poetas. Uns fingidores!