segunda-feira, 27 de abril de 2015

Cedências


Ouvir a chuva a cair afirma tanto a nossa solidão. Como se cada porção de água fosse um pedaço da nossa existência a ser-nos roubada. Como se aquela força a bater nas calçadas fosse a intensidade da nossa decadência. É aí que gemo. De medo, de indecisão, de tortura, não sei. Sei que estou viva, mas por quanto tempo mais? Se a vida é tão curta porquê que tem de existir um vazio sempre tão disponível para receber o sofrimento? Um momento em cada dia quase privilegiado para nos deixarmos abater? E começa a chover cada vez mais. Começam as perguntas a mim própria, cujas respostas sei que me abalam. Sei, na respiração antes de fazer a pergunta, que a cada resposta vou estar a abrir feridas. Não a contornar situações nem a criar ilusões, vou estar inteligivelmente a abrir novos buracos que me soterram, novas formas de me tornar a pior inimiga de mim própria. Talvez fosse mais fácil admitir que não há uma razão por detrás de uma lágrima e talvez parasse de chover, mas é inevitável correr atrás de uma explicação, porque por mais longa que seja é isso mesmo, uma explicação, é algo sensato e a que temos direito. A vida ensinou-me que as pessoas que mais lutam são as que mais acham que têm de provar algo e continuam a fazê-lo enquanto não chegarem à conclusão que não houve falhas, que estiveram sempre ali de mãos abertas prontas para doar a sua vida. Mas continuam a prestar provas. Haverá algo de bom em preservar derrotas? No fundo, a sua vida é um sufoco, é uma luta constante e inconsciente, é quase uma intolerância à dor. E sabes? Essas pessoas não se apercebem que já não precisam de fazer mais nada a não ser ver a chuva cair. A não ser esperar que seja a vez dos outros provarem alguma coisa, porque isso já não será dar o primeiro passo mas concluir os passos dos outros, dar algum sentido à caminhada que quase matou quem amámos. Há pessoas que lutam e há outras que vêm lutar, umas são protagonistas de um filme e outras estão sentadas no sofá a ver esse filme. É injusto, não é? E é injusto porque essas pessoas deixam que isso aconteça. É como pegarmos na nossa própria arma e defendermos a crueldade da nossa morte. A conclusão é simples e sabida: não podemos estar sempre numa situação de garantia para os outros em que os outros são prioridade para nós, se tivermos de lutar por alguém que seja por nós próprios. Talvez o lado de dentro do ecrã, o lado angustiante e platónico, seja a solução para muitas vidas, para muitos erros, talvez seja a forma de pensarmos mais nos outros, quando os outros já adormeceram todos os dias na hipnose do nosso retrato. É irónico, mas simples. Existe uma parte de cada sentimento que é eterna. É com essa parte que temos de aprender a viver. É com esse pedaço de carvão a luzir dentro de nós que temos de agarrar a vida e atingir a maturidade certa, a racionalidade esperada e seguir as normas estipuladas. Não é um final feliz, mas é um final coerente. Precisamos da capacidade de delinearmos as nossas convicções e nos distanciarmos ao ponto de perceber que o apego já só pode existir em relação a algo não físico, a algo a que chamamos passado. Já não poderá ser uma proximidade a algo palpável. Como, se a sombra de um rosto qualquer já não está aqui? Se os poros de uma pele qualquer já não se sentem? E naquela noite de chuva, sinto que fui novamente longe demais. Voltei a viver intensa e fervorosamente momentos que estão mortos e sepultados. E volto a questionar-me acerca de perguntas, cujas respostas me esfaqueiam, mas apenas queria ter a certeza de que estava errada. Mas infelizmente estou certa. Podia pensar no amanhã, na próxima festa a que vou, na próxima foto que vou tirar, no motivo do meu próximo sorriso e volto a estragar tudo. Volto a pensar não em pessoas a sorrir nos livros da catequese, mas na forma como aprendi a sorrir e como me ensinaram a ser deveras feliz. Sinto que todo este texto poderia ser mais lúcido, mas isso dependeria de tanta coisa. Quase precisaria de nascer novamente e aprender uma nova forma de sorrir. Quase. Foi então que recebi um aviso, o último aviso. Da trovoada, da luz do telemóvel, não sei. Mas foi este aviso que me fez perceber que as pessoas que nos acompanharam e acompanham acabam sempre por voltar a pisar o chão sagrado e que, por isso, só por isso, vão estar a provar que o mundo não morreu e que amanhã o sol irá nascer novamente, mesmo eu não estando lá com elas. Aquela lembrança era tudo para mim e talvez me tenha enganado no verbo... Histórias perfeitas não deveriam existir, porque nós somos domados por elas e ficamos prostrados a consumi-las até que o mundo acabe e acabou, efetivamente. 

domingo, 19 de abril de 2015

Pitada de orgulho


Posso-vos dizer que cheguei a ver o fundo do poço. Sim, o desânimo era grande e as perspetivas muito poucas. Foi um arranque difícil e uma integração ainda mais complicada. Talvez os fantasmas da minha cabeça tenham ampliado os pessimismos, mas a verdade é que me sentia deslocada do mundo, da minha casa, do meu círculo de amigas, de tudo. A saudade subscreve tudo o que sentia na altura. Bem, mas a nível académico propriamente dito eu desleixei-me e sempre que me sentia a cair aos poucos agarrava-me à ideia de que não estaria no curso certo. Muitas lágrimas correram sobre a ponte, muito negativismo afirmava o ritmo dos meus passos. Sentia-me impotente para me salvar a mim própria e acabei o primeiro ano sem a mínima noção do conceito do que era a universidade, sem levar no coração um pouco que fosse da essência da cidade universitária de Coimbra. Assisti a aulas de cadeiras do primeiro ano e posso afirmar com toda a certeza que fui olhada de lado. Não fui tida como doutora para alguns e custou, claro que custou. Foi um impacto turbulento a que eu não estava habituada a lidar. Tinha deixado o sonho de Psicologia para trás porque o destino assim o quisera e estava finalmente pronta para encarar o curso de Farmácia com garra e orgulho. Tinha feito três cadeiras ditas difíceis completamente na desportiva e já com o pensamento de uma nova candidatura, e uma dessas cadeiras, a assustadora Química Orgânica provou-me que talvez a minha vida fosse ali e que fazer aqueles exames era o que estava certo. Foram essas cadeiras o impulso para continuar na mesma Faculdade, mesmo antes de concorrer novamente. Concorri por uma questão de contínuas reflexões que me faziam adormecer com a cabeça às voltas, mas a verdade é que quando concorri para a segunda fase já só queria Farmácia no meu coração, na minha vida. Foi depois desta luta dentro de mim que voltei com alegria à mesma turma. Digo "voltei" como se tivesse realmente entrado noutro curso, mas a verdade é que senti a minha cabeça a navegar para longe durante uns tempos e senti que pisar aquele chão preto da Faculdade foi um regresso. E foi nesse momento que senti força dentro de mim, mas no fundo que não era exemplo para ninguém e que as cadeiras que deixei me definiam como pessoa. Mas sabem que mais? Aos poucos e poucos, de dia para dia, fui sendo indiferente ao que poderiam achar e senti que ainda ia a tempo de lutar pelo meu futuro, porque quando a causa é o nosso futuro nunca é tarde demais. Matriculei-me em oito cadeiras, uma carga que jamais seria suportada por muitos dos que me olhavam de lado. Encarei isso com o melhor espírito possível, sempre disse bom dia a quem o mereceu, fui assídua, lutadora e sempre com um objetivo! Orgulhar os meus pais e guardar o resto do orgulho para mim. Cada boa nota era uma vitória e as menos boas eram apenas estímulos para trabalhar mais, ao invés de me derrotarem. Até que chegou Janeiro, o mês dos exames. Já tinha tido algumas vitórias, mas procurava, agora, a maior felicidade que me aguardava na meta. Estudei e diverti-me, o tempo deu para tudo, sempre deu, basta sabermos geri-lo. A minha avó foi a minha heroína, sempre me fez companhia quando dizia alto a matéria até ser noite e já me doer a garganta. Sempre esteve ali a fazer-se de minha aluna, mesmo sem perceber nada, sem ter o mínimo interesse na matéria, e mesmo quando adormecia eu sentia que ela me estava a ouvir, que aqueles olhos fechados eram uma mera pintura demasiado realista. Quando os temas lhe diziam algo, ela lá contava histórias da sua vida e do senso comum e, assim, eu descansava e desenhava o retrato daquele momento na minha cabeça. Momentos únicos, posso dizer-vos. Por cada cadeira que passei foi um agradecimento a ela, pela compreensão, paciência e carinho. Fiz as oito cadeiras e ainda hoje me pergunto como. Fiquei muito orgulhosa e sinto que este orgulho e esta luta me deu um sentimento mágico ao vestir o traje, porque para mim é isso que o traje transparece. Luta, dor, conhecimento, virtude! O traje resume-se a isso. Foi então que percebi que nenhum olhar do passado me poderia ter abalado. Eles agora sabem que eu triunfei e até já me dizem bom dia. Sinto-me encorajada e forte. É um sentimento único e novo. E sinto também orgulho por saber que tanta gente deixou cadeiras e apenas apareciam nos exames e, por isso, só por isso, foram altamente respeitadas, enquanto eu sempre soube dar a cara e enfrentar os meus medos, mesmo que isso me inferiorizasse. Orgulho-me porque, apesar de tudo o que passei, vejo a possibilidade de acabar o curso no tempo estipulado e mesmo que isso não aconteça, um ano a mais não mata ninguém e sei que não vai ser isso a deitar-me abaixo. Sinto-me num patamar diferente e considero-me um exemplo. Agora sei que calçar aqueles sapatos é a prova do meu esforço e que o sorriso que levo na cara é a esperança que tenho em relação ao meu futuro. Sei que o fiz por mim e pelos meus ideais e não para agradar seja a quem for, porque antes dos outros está a minha satisfação pessoal.

sábado, 11 de abril de 2015

Máquina de sonhos

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O vento era diferente. Trazia consigo a promessa, o imprevisível, o calor do regresso. Era o vento primaveril com o maior significado que já tivera tido. Um vento viciante desde o primeiro sopro, contagiante desde o primeiro arrufo. E era tão bonito, se era! Quem disse que o vento não se vê? Há ventos comparáveis a telas pintadas de fresco, mais emocionantes do que qualquer filme romântico. Há ventos que trazem consigo uma aventura, que basta senti-los para nos tornarmos protagonistas de um ecrã qualquer. Há ventos mágicos e que desenham o nosso sorriso, fortalecem os nossos objetivos e inspiram os nossos dias. E tudo apenas por telepatia. Há ventos que trazem consigo moléculas arrastadas pelos carros que se aproximam das fronteiras, trazem o sorriso e o cansaço de longas viagens, trazem as dores musculares que se traduzem num gemer de poros, numa saudade em bruto e no auge da melancolia. São tudo bons motivos que o vento incute a quem vive do passado. É então que a proximidade e toda a segurança trazida pelo vento, se esconde num ápice. É no momento de sentirmos a presença, que somos forçados a encarar a ausência. E o que restou do ínfimo tempo em que sonhei? Um abraço, apenas um abraço. Deveriam existir cilindros de betão que preservassem abraços. Seriam feitos de rijos materiais, onde haveria uma fenda a separar a estrutura do conteúdo. Nessa fenda existiriam ventos áridos, como símbolo da separação do tempo e do destino. Seria a engenharia a acompanhar as emoções, mas seria algo tão surreal como controlar o tempo. Será a vida uma máquina de sonhos? Contemplar um abraço até à eternidade seria afirmar que viveríamos sobre o calor natural de quatro braços para todo o sempre. Seria afirmar que seríamos cúmplices de um sentimento que nos fervilhasse nos punhos. Seria afirmar que as guerras deixariam de existir, que a maldade seria abominada. Seria afirmar que as desilusões fossem abafadas, que o sofrimento seria erradicado e que apenas o amor seria evasivo. E agora, neste preciso momento em que respiro, sei que o ar me está a ser roubado pelo fumo das rodas que se distanciam no horizonte e que derrubam as pedras do caminho, aqueles pequenos pedaços do meu coração. O vento era novamente diferente. Trazia consigo a nostalgia, o conformismo, o previsível frio da despedida. Era o vento primaveril mais invernal que já tivera tido, mas injusto e melancólico. Nunca ninguém se chega a acomodar à força dos ventos, porque até uma brisa poderá trazer consigo o desvendar de caminhos surpreendentes. Será a vida uma máquina de sonhos? A vida será uma máquina de sonhos no dia em que formos feitos de betão e nos correr ventos áridos nas veias. Quando a nossa essência for a de um abraço. É isso.

sábado, 4 de abril de 2015

A Páscoa com um pouco de ironia

Cá chegámos a mais uma Páscoa que vem confirmar a veloz passagem do tempo. Para mim, este dia é tradicionalmente festivo, porque como todos os jovens, assim eu me levanto com grande custo naquele Domingo preguiçoso apenas por tradição. É a ressurreição, a consagração, a felicitação e todos os nomes bonitos acabados em "ão", bem como a minha obrigação em sair da cama. Admiro todas as convicções religiosas e as intenções em louvar um dia como este, mas quando vou de pijama e ainda enrolada em sonhos e bocejos para me apresentar em frente a homens de fato, é aí que toda a ironia começa. Desde as minhas pantufas a pisar todas aquelas pétalas cheirosas ao meu pestanejar de olhos para que deixe de ver tudo nublado. Desde o pão de ló que todos fazemos com carinho e que nunca chega a ser sequer provado, à típica frase "já comemos nas outras casas". Desde a minha rara dificuldade em fixar o que oiço, à parte em que a minha mãe me pede para ler a oração para todos. Sim, uma declamadora de poemas religiosos em pijama e que nem sequer lavou os dentes a recitar para senhores de gravata vermelha que esperam de mim a melhor dicção possível. É irónico e marcante! Não deixa de ser um dia feliz depois de ir dormir mais umas horas, claro. No seguimento do dia tudo se torna mais lúcido e o típico almoço de Páscoa em família é sempre algo esperado. Que assim seja por muitos anos e que sempre se repitam estas ironias que tanto simbolizam esta data.
Feliz Páscoa para todos!