quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Verde Fumo"

(POEMA ORIGINAL SOBRE A SAUDOSA MUDANÇA)Tumblr_l6hcgt2idw1qb6wcjo1_500_large

Antiga vida de vales e montanhas,
Onde reinavam texturas e cores;
E sem ornar engenhos com artimanhas,
Não coexistiam falsos nem impostores.

Amei loucamente a eterna humildade,
Vislumbrei transparência nas águas e seres,
Repeli ferozmente a escassa maldade,
E encarei com um sorriso os meus afazeres.

Um mundo de sonhos, onde sonhar era imprescindível,
Um mundo de entrega, onde o amor era infalível,
Um refúgio afago, onde o calor foi o que sentimos,
Um horizonte presente, mesmo quando dormimos.

Agora, uma vida de fumo e poluição,
Onde me divorcio da ingenuidade,
Aqui só me alimento da triste solidão,
E onde jamais desejo perenidade.

Dou unhas e mãos à injustiça,
Abraço uma paisagem negra de gaiola,
Encaro isto como uma vida quebradiça,
Onde nem saem fluidas as notas da minha viola.

Um mundo de agonia, onde tropeço no alcatrão das estradas,
Um mundo de desatino, onde as pessoas são chuladas,
Uma gruta de mendigos ricos, onde há pobres valores,
Uma gruta de artificialismos, onde há sequenciais dissabores.

Declaro a saudade inquietante,
Ela corrói-me e rouba-me o ritmo que fora sossegado,
Onde agora resta um ar gélido penetrante

Perante este mundo que me suborna e é subornado,
Não pretendo ser tolerante com este antagónico e receoso mundo,
Que me extrai água salgada e um grito imundo!

Esta escumalha de gente age como um cardume,
Mas por enquanto não espero senão um sinal, um verde fumo…
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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Porquê escrever?

Escrevo porque o papel não me julga, porque posso prever se a linguagem abusa. Escrevo porque é o meio que encontro para que a interpretação de algo que sinto flua na mente de uma pessoa, porque é como um eco que se ressoa. Escrevo porque por segundos me sinto livre, feliz e concretizada, porque me torna a alma lavada. Escrevo porque nada é mais simples que escrever, porque basta pegar num lápis para o fazer. Escrevo porque esta prática é um olhar mais detalhado sobre algo, é vagar perdidamente sem nos perdermos no tempo. Escrever faz-me sentir leve, faz-me sentir sem lágrimas, sem solidões, sem desilusões, sem refúgios, sem "ais". É girar sem ficar tonto até que se concretize a desbanalização do banal. É atirarmo-nos para o mar mesmo sem sabermos nadar. É dar à luz mesmo sem termos aulas de parto. É sentirmo-nos num concerto mesmo sendo surdos, é vislumbrarmos uma paisagem de cegos, é cheirar uma rosa mesmo não tendo nós olfacto, é tocar piano sem tacto e é comer a nossa comida favorita, mesmo sem paladar. Escrevo porque só mostro o que subscrevo. E acima de tudo escrevo porque tenho bons leitores como tu!