sábado, 29 de dezembro de 2012

Voluntariado 21#

O objetivo era somente o de desejar boas festas, mas acabei por ficar à conversa horas a fio. E puff! Dissiparam-se por completo os meus problemas. Soube tão bem! Haviam caras tristonhas quer por problemas pessoais, quer por vindas recentes de hospitais ou pelo pessimismo que às vezes lá nos bate à porta. Mas, felizmente, consegui pôr um sorriso em todas aquelas caras de jovens. Até que pus um senhor, com uma voz excelente, a cantar. Falou-se de árvores genealógicas com a senhora que tanto gabou as prendinhas do neto, falou-se de propriedades com o senhor de negócios, falou-se dos banquetes de natal com a cozinheira nata lá do lar e tocou-se em saudades que fez desprender algumas lágrimas. No fim, todos lá diziam uma palavra calorosa como despedida. Mesmo quem não falasse, fazia questão de acenar com a mão. Gestos maravilhosos, estes!
Boas entradas, amigos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

(in)evitável prolepse

Viajo neste velho autocarro ao ritmo do vazio e ao sabor do nada. Torna-se constante o processo de auto-reanimação onde me enredo, onde a respiração turbulenta ganha ênfase. Ainda que emergindo como cerne o auto-conhecimento e a maturidade, sei que não passam de estímulos estusiásticos e fervorosos. Já nem as músicas que ouço me dão forças, nem os quadros belos e coloridos que imagino a forrar as paredes do autocarro, nem o melhor poema de Fernando Pessoa, nem o miradouro mais empolgante, nem o melhor parque de diversões em que estive, nem as viagens fabulosas que concretizei… Ainda ontem estava de bibe a sentir o primeiro dente a cair e, hoje, sem me aperceber, estou já a preparar-me para a maior prova de fogo da minha vida, onde me torno escrava de um mundo credível, em oposição ao afável. Mesmo sem garra e motivação, observo a paisagem a mudar, o mundo a espiar-me, o frio a convencer-me, o idiota que mora dentro de mim a consumir-me, as lágrimas a controlarem-se e as frases promissoras que ouvira, a suster-me. O próprio escuro de tão conhecido que é tornou-se desconhecido, tal como o verde das folhas e o azul do céu e a transparência da água e os tijolos das casas. Sou um bebé prematuro nesta vida de adultos, pensava eu. O comum tornou-se estranho e o imaginário entranhou-se, porque a realidade tornou-se demasiado enfadonha. Só precisava de algumas pessoas importantes, daquele orvalho da manhã em frente à minha casa, do meu sossego, daquele reflexo da minha porta de entrada que me dizia sempre ao vir da escola que estava despenteada, daquele portão vestido de verde gasto pelas arranhadelas do meu cão, daquela cadeira onde me sentei ao portátil horas e horas fanáticas da minha vida, das minhas músicas que já nem parecem as mesmas e até do frio do meu quarto, porque estar frio do coração é bem pior. Quero isto mais do que nunca. Quero isto como Romeu queria Julieta, como Dante queria Beatriz, como D. Pedro queria Inês de Castro ou como Tristão queria Isolda. No entanto, vejo só imagens desfocadas na minha mente, fruto da corrosão do medo pelo enteado do medo. Mas, ainda assim, só imagino formas seguras de saltar pela janela, para correr veemente em direção à minha vida. À vida que não me esmurra com eloquências, que me protege com ímpeto, que não guarda os sentimentos em caixas seladas, que não me escorraça com desafios impossíveis, que nunca me traria saudade e que jamais destruiria os meus sonhos. Refugio-me no espírito alegre de quem me rodeia, nos seus livros de experiências, na frieza com que encaram a distância, na cegueira que os faz acreditar que aquele ambiente de festa lhes vai dar sanidade mental e, apesar de não me camuflar, fico apagada num canto a espremer superstições, a criar preconceitos, a desenrolar o novelo da mais etérea negatividade e a dissecar dúvidas com a consciência. Cingia-me às ilógicas especulações que andavam a nadar perdidas pela minha massa cinzenta. Ali, naquele primeiro autocarro, para mim tudo acabava e, para eles, tudo começava. E quando saí, percebi que nada disto (ainda) tinha sido real. Estive somente sentada na cama do meu quarto a ouvir música. Sentada por entre lençóis inocentes e longe de novas fechaduras. Mas isto espera-me... espera-me o elegante vulto, de cigarro na mão, na próxima esquina… esse vulto chama-se futuro. E o futuro é já amanhã!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ricardo Araújo Pereira 7*

“Quando se soube que os enfermeiros contratados pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo iam auferir 3,96 euros à hora, gerou-se alguma indignação. "É ofensivamente baixo", disse o sindicato dos enfermeiros; "é um balúrdio", pensou aquela gente que acha que os salários em Portugal são muito elevados (excepto os dos gestores de topo). Depois dos descontos, cada um destes enfermeiros leva para casa entre 250 e 300 euros. Mais do que suficiente para os profissionais que vão a pé para o trabalho, moram num parque de campismo, não têm muito apetite, apreciam viver às escuras e desprezam o banho. Aquela ínfima percentagem que desperdiça dinheiro em transportes, renda, alimentação, luz, gás e água, é natural que tenha dificuldades. Talvez assim aprendam a abdicar de alguns desses luxos. (…) Esta descida equipara os salários dos enfermeiros ao das empregadas de limpeza. A partir de agora, a limpeza e desinfecção de um ferimento e a limpeza e desinfecção de uma instalação sanitária são remuneradas da mesma forma. Para o Estado, um doente não é muito diferente de uma sanita. Compreende-se: é raro o doente que está interessado no empreendedorismo, que aposta na inovação e que promove o aumento da competitividade, que são os valores sagrados do nosso tempo. Uma sanita, por outro lado, é das peças de porcelana mais empreendedoras, inovadoras e competitivas.”

sábado, 22 de dezembro de 2012

Voluntariado 20#

De volta às histórias, às lições de vida, às risadas e à mais pura genuinidade transparecida pelas experiências passadas. Um Feliz Natal para todos!

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Morrer na praia

Era noite e a orla da praia definia-se como a minha subtil e fiel companhia. Caminhava em direção ao mar ou o mar em direção a mim, onde o substrato de névoa envolvente se assumia como o soluto do meu abstracionismo. Os meus músculos trabalhavam ao preço de trocos e gemiam consoante o bater das ondas, fruto da tempestade enfurecida. Seguia-me a lucidez da amnésia, a certeza da incerteza e a consciência da inconsciência. Racionalidades triviais de um ser humano! Os sonhos e divagações eram as rédeas da minha mente, contudo a realidade emergia nos chocalhos remexidos pelas rodas dos carros, nos vultos balsâmicos a deambular pelas ruas lá ao longe e na bravura do desmedido mar. Arrastava-me por entre as irregulares pegadas de poeira de identidades perdidas ao sabor da minha própria crise de identidade. Lá, longe dos labirintos de betão e rodeada pelo silêncio formalista, recolhia a pequenez transcendente da vida, através dos grãos de areia que entravam nos meus sapatos e dos salpicos salgados que se afundavam nos meus cabelos. As luzes das ruas iam desligando-se e eu ia caindo, até me enterrar aos poucos e poucos em torno das pisadas nómadas. Sentia a areia molhada nas vias respiratórias e vi que seria o fim. Eu estava no sítio mais genuíno que poderia estar. Não havia luzes por perto, estava numa praia, que a própria natureza criou ao depositar sedimentos, estava sozinha, perdida e a água tão naturalmente vestia um caráter de devassa com jeito de indagadora. Não havia, aparentemente, nenhum vestígio da nossa espécie. Acontece que a própria natureza me mostrou a dependência da civilização. A dependência daquelas luzes artificiais que, ao apagarem-se, me apagaram também a mim… No entanto, a espuma da praia beijou-me suavemente, enquanto as luzes simplesmente deixaram de dissipar fotões e, no dia seguinte, lá estavam elas a iluminar falsamente o mundo palpável onde vivemos. Era noite e a orla da praia definia-se como a minha subtil e fiel companhia.

Ricardo Araújo Pereira 6*

“Toda a gente devia ter o seu Miguel Relvas. Dá jeito em qualquer ocasião. Um estudante não sabe a resposta a uma pergunta e, para distrair o júri da oral, exibe um Miguel Relvas. Um gatuno entra numa casa e, para entreter os cães, atira-lhes um Miguel Relvas. Uma mulher é apanhada com o amante e, para desviar a atenção do marido, apresenta-lhe um Miguel Relvas. Infelizmente, só o Governo tem o privilégio de ter um Miguel Relvas. (…) Na altura em que foi confrontado com o facto de, em duas legislaturas seguidas, ter alegado frequentar o segundo ano do curso de Direito, quando na verdade tinha feito apenas uma cadeira do primeiro ano, Miguel Relvas disse que se tratava de um lapso. Quando constatou que a deliberação da ERC não referia a "pressão inaceitável" do ministro, o presidente do organismo disse que se tratava de um lapso. Um lapso a propósito de um homem que tinha incorrido em dois lapsos, com uma cifra final de lapsos que acaba por ascender a três. Esta salsada de lapsos passou sem reparo. É uma orgia de enganos. Um bacanal de equívocos. (…) No momento em que escrevo, Miguel Relvas ainda não se demitiu. Talvez no lapso de tempo que decorre entre a escrita deste texto e a sua publicação, ocorram outros lapsos que o obriguem a demitir-se. (…) A troika bem avisou que um dos problemas mais graves do País era a dificuldade de despedir gente na função pública. Agora é possível apostar, na internet, no momento que Relvas escolherá para se demitir. É dinheiro deitado à rua. O mais provável é que todo o povo português se demita antes de Miguel Relvas.”

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ricardo Araújo Pereira 5*

"(…) Cavaco Silva disse que o programa de ajustamento não está a resultar e que a culpa é da troika. A troika disse que o programa de ajustamento não está a resultar e que a culpa é do governo. Passos Coelho disse que o programa de ajustamento está a resultar em cheio, e precisa apenas de tempo para implementar o seu modelo táctico e consolidar os automatismos. (…) Quem precisava de uma orientação, obteve três. Por maldade, diz-se que Portugal não tem um rumo. A verdade é que tem vários. As pessoas queixam-se de barriga cheia. (…) Em Portugal, uma comissão informal de economistas e comentadores reuniu-se e, a olho, decidiu que os culpados pela crise eram aqueles que tinham vivido acima das suas possibilidades. Quem eram, exactamente, essas pessoas?, perguntaram alguns ingénuos, esperando uma lista com nomes e moradas. Somos todos nós, responderam os severos comissários, santos agostinhos do pecado económico-financeiro: todos tínhamos estado em falta. Adão pecou e transmitiu-nos o pecado original, e ao mesmo tempo terá contraído uma dívida (provavelmente, junto do proprietário da macieira), transmitindo-nos também o endividamento original. Em resumo, a culpa da crise é de todos, a culpa do fracasso no combate à crise não é de ninguém. Como país, evoluímos da culpa para a não-culpa. É mais um indicador em que estamos a fazer progressos."

domingo, 2 de dezembro de 2012

Aquela palavra, aquele sentimento...

                          
Ainda não tinha aberto os olhos, mas já viajavas pelo meu córtex cerebral. Já vagueavas pela minha casa e largavas o teu perfume. Já me sussurravas ao ouvido as lendas da paixão, os versos do surrealismo e as lengalengas do soberbo sentimento que nos une. Até que bates à porta e eu acordo. E mesmo antes de estremecer pelo frio da realidade, começo a sentir um turbilhão de emoções que se ressoam como tímidas badaladas nas cavidades do meu coração. Surge, inequivocamente, a saudade antecipada, que tanto mergulha nos interstícios dos poros. Fico impávida e rígida. E, como todas as manhãs, cruzo-me com o medo. O medo mascarado no pudor da vida, na prevista incerteza, nas pegadas que já vejo delineadas à minha frente. Mas agarro-me a ti e às partículas impalpáveis que emanas, a que chamam esperança. Fixo-me no teu genuíno olhar, no teu puro tacto, na tua inexaurível segurança, no teu oásis de humildade, na tua essência que faz de ti um Rei e cinjo-me à febre triunfal que me mantém as veias quentes. Assim me solto das garras das normas que me chicoteiam as costas, que me amarram na racionalidade, que me lançam nos abismos da explicação, que me esfregam contratos na cara, que me esboçam caricaturas da mais mágica invisibilidade e que enterram o amor em tubos de ensaio. É ao fugir destes limites impostos pela realidade que provo, sem fórmulas matemáticas, que o amor não se explica nem se escreve nestas banais linhas, apenas se sente.