terça-feira, 22 de agosto de 2017

Do medo do começo ao medo do fim

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Uma retrospetiva universitária é muito mais do que isso, é a interpretação dos melhores anos da tua vida, aqueles que se constituíram como um pilar dos teus ideais. Tudo começa com um enorme medo do começo, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de estudo mais sério e direcionado para o nosso futuro. É realmente assustadora a fase antes da mudança e todo o percurso durante o primeiro ano, porque existem desafios todos os dias, desde o novo professor que veio dar x aulas e se esse professor dá slides ou a que horas costuma colocar as fotocópias na papelaria, desde aquela cara nova pela faculdade ou o trabalhador estudante que resolveu aparecer na aula, desde as festas académicas de toda a ordem e feitio às praxes marcadas à última da hora, desde as personalidades dos colegas de casa àquelas noites em que todo o prédio está em festa e não nos deixa dormir, desde as saudades de casa ao medo da solidão. E no meio disto tudo ainda temos o maior dos nossos problemas e aquilo que é mais importante saber dominar e domesticar: o nosso psicológico. No meio de toda a azáfama o maior desafio está dentro de nós próprios, está em controlarmos a nossa mente, em mantermo-nos fiéis aos nossos princípios, saber dizer que não quando o nosso instinto assim o disser, controlar os ânimos e o entusiasmo face a festas e pessoas porque ambas são igualmente voláteis e tanto uma festa na véspera de uma avaliação não é o melhor a fazer, como amizades para a vida são apenas uma minoria, é importante saber receber as más energias com um abraço e conseguir emitir boas energias, retirar sempre um ensinamento construtivo de tudo, mesmo daquela praxe em que chorámos ou daquele almoço em que ficamos sozinhos numa mesa da cantina, porque afinal nada disso é relevante ao lado do nosso crescimento pessoal. Mas lembremo-nos que acolher esse conhecimento não é apenas absorver o que nos rodeia, temos também de fazer parte dessa história e intervir, temos de agir! Devemos puxar pela nossa vertente social, ainda que não seja muito aguçada, porque a verdade é que ser sociável não é darmo-nos com todo o tipo de gente, isso é ser moldável, podemos encontrar pessoas semelhantes a nós ou que nos façam criar uma zona de conforto em torno delas e confiar nelas, criar laços fortes e deixar soltar a pessoa extrovertida que mora dentro de nós, isso é ser sociável, mas é ainda mais do que isso, é saber viver. Lembremo-nos que se alguém nos vira costas mesmo sem nos conhecer o erro está nessa pessoa e não em nós e se por um lado devemos entender que uma pessoa não se resume aos seus erros por outro devemos saber que perante erros alheios a melhor resposta está na nossa não reação, porque agir com indiferença é efetivamente o primeiro passo para termos também o sentimento de indiferença. Falo de sociabilidade porque ela é a chave para quase tudo, para que assentes amizades, que troques apontamentos, que te desenrasques numa rua desconhecida, que te safes numa apresentação oral, que consigas perguntar na aula todas aquelas dúvidas que te inquietam e, claro, para que na reta final tenhas um bom estofo para apresentares a tua tese. Mesmo que não se trate de sociabilidade propriamente dita, então falemos de descontração em público, de um bom manejo verbal. Questionarmo-nos sobre coisas simples é fundamental, sobre se estás a gostar da nova etapa, se houvesse uma nova candidatura se escolherias o mesmo rumo, se confiarias um segredo teu a algum amigo de faculdade, se passasses um fim de semana na tua cidade se te causaria algum tipo de pânico, se mudarias alguma coisa caso tivesses esse poder, tudo questões que te oferecem respostas que te fazem perceber se estás feliz ou se estás a caminhar na direção certa. Falar com os pais sobre isso é das melhores formas de o fazer, mas aprende também a fazê-lo sozinho. Com a mente resolvida é bem mais fácil encarar o resto. Por outro lado, é claro que o facto do ano letivo ser dividido por semestres, e existir a constante troca de professores, conteúdos e dinâmicas, implanta-nos um ritmo alucinante de stress e responsabilidade. Até poderia dizer que estudando aquilo de que se gosta tudo se torna mais fácil, mas não creio que seja verdade, porque a rotina, o empenho e a independência que é exigida de nós rema com mais força e adquire mais destaque do que o nosso gosto pelo curso. Até porque estar na universidade não é apenas e somente um canudo, é experiência de vida, onde todo o meio envolvente nos direciona para um sonho que nos leva ao auto-conhecimento. A verdade é que estamos numa cidade nova e o edifício da faculdade provavelmente será aquele que menos pisamos e todo o pormenor, por mais pequeno que seja, irá fazer parte de ti e da tua caminhada. A universidade é, acima de tudo, uma jornada desafiante que te é oferecida para que conheças o valor da vida. E mais uma vez sublinho que esta jornada faz mais sentido quando cuidares do teu psicológico e aprenderes a ter uma mente livre, curiosa, mas sempre focada no objetivo. E é em torno de tudo isto que os anos vão passando, como uma jangada lenta mas que rapidamente chega à margem da ilha mais próxima. Tudo termina com um enorme medo do fim, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de vida ainda mais sério e de portas abertas para o nosso futuro. A nostalgia e o peso dos anos é tremenda! Não importa a idade ou a vontade em ser-se independente monetariamente, no momento da despedida só importa a saudade e quase todos voltariam a repetir cada segundo da sua vida académica. É por essa saudade antecipada que eu e muitos estudantes navegam, ao pensar que falta tão pouco, e queremos acolher essa saudade como nossa, porque sentir saudade é sentirmo-nos mais próximos daquilo que foram os melhores anos da nossa vida. Recordar é admitir que algo aconteceu e nos fez felizes.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sequela

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Chamo-lhe de sequela. Poderia ser uma guerra remota, mas chamo-lhe de sequela. Não apenas pelas suas raízes no passado e poder sobre o futuro, mas pelo caráter furtivo e indutor de fraqueza, em certa parte. É como um suspiro sensível ao tacto, como um frio moribundo em formato de escudo protetor, como uma pedra que foi engolida em troco de paz, como um eco agudo que rima com medo. Apodera-se de laços humanos e surge quando alguma empatia se avizinha. É a força que me leva a dar um passo atrás, que me retrai, que me altera a expressão facial, que me inverte a boa energia que emito e quebra a lei da ação/reação. É ela que cria uma redoma vazia em torno de mim e uma espécie de sentimento claustrofóbico perante a vida. É uma voz madura, mas ingrata e cruel. Como se fosse um rugido de um monstro sábio com música clássica de fundo. Uma voz que fala apenas de forma imperativa e que jamais admitiria uma falha minha. Ela refugia-se em lemas de vida inspiradores e veste-se com uma espécie de individualidade levada ao extremo. Os amadores caracterizá-la-iam como a força para enfrentar obstáculos. É útil para travar batalhas e enfrentar dilemas em que precisamos de fazer emergir a frieza, mas tira-nos um lado humano. Um lado que é o sentido de muitos passos apressados dados na rua. Talvez a característica mais comum por entre os humanos: a capacidade de amar. É como se já não houvesse espaço para essa vertente, como se a tela de um pintor já tivesse rascunhos no plano de fundo, como se as minhas forças já tivessem um destino. O de somente serem canalizadas para vias racionais. Uma profissão, uma viagem ou um hobbie. Como se este antagonismo de me fortalecer e me fazer valer uma guerreira, só me reduzisse mais o valor sentimental, como se cada vez mais eu fosse somente a minha aparência, como se uma enorme batalha interior ultrapassada fosse, agora, reconhecida como uma simples carcaça. Como se uma guerra mundial tivesse sido esquecida e tida como trivial e, agora, fossem admirados apenas os escudos dos guerreiros. Mas um guerreiro não é apenas a frieza do seu escudo ou a rigidez do seu aço, também não é apenas a guerra que travou ou a sua estratégia de combate, não se resume a isso. Um guerreiro é a face mais dolorosa por detrás da causa que despoletou a guerra. Afinal nenhum guerreiro existira sem guerra, porque nas histórias de amor não são os guerreiros que fazem a guerra, quem a despoleta são precisamente os mais fracos, fracos de espírito, porque os guerreiros encaram essa guerra não como resposta ao inimigo, mas como uma auto-proteção e uma espécie de carta de alforria que os faça viver um novo capítulo, porque essa luta que travam não é nada mais do que a sua luta interior. É por isso que um guerreiro não é apenas a barreira que ele segura quando está de olhos postos para o precipício, é a sua história e a sua essência. Aquilo que o mantém de pé, a crença que o sustenta, os seus valores e as suas virtudes. Porque a sua firmeza hirta não tem origem na crueldade que sentiu, mas na forma como contornou o medo, no levantar dos seus joelhos, na capacidade de converter algo que o poderia matar numa poderosa força invencível. E é nesse momento que mostra ao mundo o quão pequenina é a maldade que lhe foi dirigida como lanças afiadas no coração. É esse espírito que o distingue de tantas outras frentes de combate, que o ressalta por entre qualquer outro lutador de escudo na mão, com o mesmo ferro, a mesma carcaça e a mesma ferida ao peito. Mas um coração diferente. Um coração que pode estar adormecido mas que oferece sensibilidade ao olhar e à abertura das pupilas, que ainda valoriza um toque macio entre duas mãos, que procura a amabilidade nos pequenos gestos altruístas, que ainda se rege pelos valores mestre da fieldade e respeito. Tudo porque fora dessa luta ainda existe um ser humano. Longe desse lado negro pelo qual tivémos de dar a cara, está a pequenez humana. Não importa apenas a grandeza de espírito de sacrifício que se idolatra, mas a vontade de se completar e de encontrar um propósito de vida em alguém, de se baixar e se reduzir ao tamanho de um humano. Esse sentimento pode ser aquilo que nos torna generalizáveis e seguidores do maior padrão da sociedade, o amor, mas é isso que efetivamente queremos possuir. Sim, o amor. Essa enorme pequenez humana! Insatisfeitos até mesmo na grandeza de se ser um lutador, ao ponto de se querer agarrar algo tão banal e lendário. Mas o propósito de vida de um ser humano também contempla essa lenda, escondida por detrás das rosas do jardim, onde só um guerreiro de mãos fortes poderá resistir aos seus espinhos e oferecer essa rosa à sua donzela. Por alguma coisa as rosas têm espinhos. Talvez porque antes de amar e ser-se detentor de uma rosa, é urgente sofrer. A dor e o amor são igualmente necessários. Ambos fortíssimos e devastadores e, por isso, os extremos que mais nos mostram a realidade da vida. As sequelas mais reais e intemporais.

(sugestão de música de fundo)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Não existe

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Gosto quando as plantas selvagens provam da sua própria liberdade e dançam ao sabor do vento, beijando-se suavemente, recortando o céu laranja do pôr do sol, como se existisse uma mensagem a ser transmitida e as fizesse falar entre elas. É bonita a forma como essa melodia dançante nos amplia a simplicidade, nos faz respirar com um ímpeto mais calmo e transparente, como nos torna tão pequeninos ao lado daquela imensidão de vales de caules melodiosos e silenciosos. Esse silêncio que é gerador de grandeza natural e pequenez humana. E na verdade somos realmente pequeninos. As plantas unem-se em redor do seu aroma, refrescam-se umas às outras, revelam os seus segredos, deixam-se ser livres. E nós, humanos, com o gigante problema de explicar as coisas, exteriorizar sentimentos e ler as pessoas. Vivemos debaixo de tetos de frases feitas que se refutam umas às outras e que, por sua vez, refutam a nossa identidade. Precisamos desse vento singelo e oco que nos mostre o paraíso e as trevas, porque é isso que é a realidade, e que nos ensine a partilhar um pouco do nosso pólen, a nossa essência. Afinal, mesmo as plantas espontâneas e insignificantes têm uma palavra a dar ao mundo, desde que não falte o cruzar das periferias das suas folhas. Somos o resultado de um mero compasso ritmado por onde fluem sonhos e conquistas, onde tomamos como trivial a nossa vida na terra. Queremos ser perfeitos e idolatrados, queremos aceitação social e admiração, e o espaço que sobra para a nossa essência é ínfimo e decrescente com o tempo. É incrível como os detalhes rugosos dos troncos mais ásperos não seguem esquadrias e simetrias, regem-se pela natureza da criação e é isso que os torna belos, enquanto nós procuramos contornar a criação e domar a inteligência que o próprio universo nos ofereceu, moldar e afinar cada aresta com a forma do nosso egoísmo. A capacidade que tem o vento de nos potenciar o olhar e de nos elevar a sensatez faz brotar em nós gestos mais puros e humanos. Os gestos são intemporais, a forma segura com que se abraça o mundo é intemporal, o amor verdadeiro é intemporal. Talvez seja a componente intemporal de cada sentimento que faz com que ele persista no tempo. Ser temporal é ser tempestivo, questionável, fugaz, é ser esfumado com o passar dos anos. E é aquela pequena porção intemporal, com jeito de pilar forte e seguro, a porção mágica e inexplicável a que damos o nome de amor, que persiste no tempo, que nos leva a ser crianças por momentos e a acreditar que podemos ser mortais mas com sentimentos imortais. Talvez sejam os atos mais básicos e banais que unifiquem as pessoas e que estejam a fazer falta neste mundo perverso. Não há toques suaves entre mãos, como aquelas plantas que apesar de selvagens contemplam uma loucura saudável e inocente. Não há silhuetas ao pôr do sol, como aqueles recortes que os prados constroem fielmente todos os dias. Não há aquela empatia secreta revelada na mensagem levada pelos campos, de pétala em pétala. Não existe a promessa de se ser feliz, existe a obrigação em não se estar sozinho. Não existe o amor como dádiva, existe uma espécie de sequestro em nome das aparências. Não existe o beijo tímido, o passeio à chuva ou a canção que se improvisou, não existe a carta de amor, o poema que nos ocupou a madrugada ou a pedra a bater na janela, não existem os planos que nos tiram o sono, o pedido de joelhos ou o olhar emocionado, não existe o conselho sincero, a oração de esperança ou o lenço de mão que não foi pedido, não existe o abraço reconfortante, a mão que não nos larga ou o orgulho de se ter alguém. Não existe o ciúme verdadeiro, sem que traga consigo o sentimento de posse. Não existe o objetivo de assentar um sentimento e de alimentar a ideia que se quer alguém para a vida toda. A efemeridade domina o mundo e cada vez mais somos como aquele pôr do sol com diversos começos e fins, com um breve intervalo de tempo e com a previsibilidade daqueles tons laranja em dias de verão.