domingo, 27 de setembro de 2015

Viúvas sem nome


Alma Mahler

Todas elas tinham na mão direita uma bengala gasta pelo tempo, um amontoado de rugas mais explicativo do que qualquer biografia de vida, tinham uma esperança tão fraca quanto o seu cabelo, uma perspetiva de vida reduzida à área da sua casa e do cemitério mais próximo, um coração tão negro como as paredes das suas cozinhas... Tantas mulheres embrulhadas em mágoas, tantas rugas afiadas pelo sofrimento de se perder alguém. Ouço as suas vozes a dizer a Deus que os seus maridos faziam falta, muita falta. Que eram boa gente e que não o dizem apenas por terem sido seus maridos. Vejo-as a remexer num passado tristonho de cada vez que pronunciam o seu nome e pestanejam devagar. Imagino-as a lembrar-se do roçar do seu vestido de noiva no chão no seu dia de casamento. Percebo pelo seu nervosismo entre dedos o quão forte foi a falta de conformismo com aquela ausência súbita. Mais do que o peso da idade, é o fardo da morte. A coroa de espinhos da saudade. Há coisas que exigem os nossos cinco sentidos, mas amar é o nosso sexto sentido, e às vezes é apenas dele que precisamos. Elas sabem que o seu cabelo fraco foi o resultado de todas as idas ao cabeleireiro para o impressionar, sabem que eram eles a acender a chama do fósforo que chamuscava as paredes das suas casas quando vinham do trabalho, sabem que as pequenas rugas que iam surgindo eram devido a pequenas birras, sabem que a sua bengala foi construída com um pedaço de madeira e umas marteladas feitas por ele... Ele, sempre ele... Esgotamos tantos pedaços de tempo ao longo da vida, sofremos até ao último segundo e terminamos na meta com a morte física da pessoa que é metade de nós, quando já passámos pela morte psicológica tantas e tantas vezes. É cruel, não é? É como já termos sentido essa perda muito antes do tempo. Termos chorado loucamente como quem chora vestido de preto e a fazer luto. É como já termos gritado prematuramente pela injustiça da vida. Termos perdido todas as forças antes de, sequer, conhecer o mundo. É como termos tido o desejo de pôr fim à nossa vida, quando ainda nem as flores tinham desabrochado. E pior do que isso, é termos tido a certeza de que já conhecíamos o amor e percebermos que a planta a ser regada deixou de ser o sentimento, mas sim nós mesmas, porque estávamos à deriva naquele sentimento, era ele que nos domava e que domou tantas mulheres. É cruel termos a certeza de que perdemos aquela pessoa que é mais de nós do que nós próprios. O amor move mundos. Ele é uma imensidão única que nos leva a sonhar num patamar transcendente, e é tão leve, tão puro, tão reconfortante e reconciliador de almas... mas o que sobra dele? O que sobra dele quando a outra pessoa deixa de saber o que é lutar, o que é chorar, o que é sentir os poros a dilatar? O que sobra quando todas as premissas do argumento do amor falham? O que sobra quando o chão te falha e te sentes perdida, sem o pilar garantido de todas manhãs? O que é que sobra do gozo que sentias ao ser ingenuamente feliz e do gozo que deu à outra pessoa em deixar-te? O que sobra do pedaço de lixo em que julgas que te tornaste? A verdade é esta: tu sabes que chegaste ao fundo quando deixaste de ter pena dos outros, para teres apenas pena de ti mesmo. A solidão enfraquece e as rugas surgem, mas a aprendizagem é cada vez maior. E quando nos tornamos novamente conscientes de tudo e recuperados dessa perda, é quando nos questionamos sobre a nossa capacidade de amar. É esse o meu medo. Medo de ter perdido os ingredientes dentro de mim que me levaram a um grande amor, medo de que esta sequela de não conseguir confiar em alguém perdure para sempre, medo de não me entregar por medo, por querer estar constantemente sozinha mesmo já tendo sabido o que é o amor. Medo de não voltar a ser aquela pessoa que tudo aquilo que era, era tudo aquilo que oferecia. Tudo para dizer que uma viúva sem nome somos todas nós, com ou sem rugas, e que esta é a ferida de todas as mulheres. O nosso dilema. Aquilo que restou de uma queda provocada por amor.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Crónica: Refugiados em Portugal



Sou totalmente contra a vinda dos refugiados para Portugal. O impacto a longo prazo pode ser brutal a todos os níveis. Seja da educação, empregabilidade, criminalidade e paz. São os grandes nomes que poderão ser bombardeados. Se eu mandasse nunca faria parte da Convenção de Genebra que, em 1951, atribuiu responsabilidade aos países que os iriam acolher. É claro que todos eles têm direitos, são pessoas exatamente como nós e é por isso mesmo que não acho correto eles serem despejados em terras que nada têm a ver com os seus valores, as suas etnias, as suas crenças. É claro que as entidades defendem que existem condições em Portugal para os receber, óbvio, afinal eles só querem o problema resolvido. Estamos a ultrapassar uma crise e nem assim nos valorizamos a nós primeiro! Quantas Alemanhas e Noruegas já recusaram a entrada de estrangeiros, já defenderam a sua prosperidade! Nós, portugueses, gostamos de estar no fundo. E se a Alemanha vai ser o país que mais refugiados vai receber é porque soube negar muitas vezes para que, agora, tenha condições para tal. Se a economia de Portugal estivesse na média ou acima dela, se não houvesse uma fatia tão grande de imigrações, porque não aceitar essas pessoas? A questão é que Portugal não está nem perto dessas condições. E a verdade é que o problema não é para os superiores que vivem bem e guardados por dezenas de polícias, é sim para o povo que vai habitar as mesmas ruas que eles, não vai dormir descansado porque vão surgir conflitos, o povo vai ter filhos a brincar com crianças Sírias, habituadas a pegar em armas e a ver granadas a explodir. É aí que a educação vai ter um impacto enorme. E depois vem a parte mais grave, que é quando eles se acomodarem. Quando acharem que são da nossa Pátria mesmo quando o espelho lhes diz o quão diferentes são de nós. Eles vão começar a exigir, a exigir algo que é um direito para um cidadão Português. E quem vai ser atendido em primeiro? O refugiado. O refugiado que passará a andar de gravata, enquanto o Português se esfola por ganhar para ter uma casa que foi oferecida ao Sírio. Sim, por cada Sírio e Eritreu vão ser oferecidos 6000€!!! Quanto custa isso a ganhar a um Português? Tantos que imigram e são obrigados a refazer as suas vidas com o ordenado mínimo de Portugal! Como se sentirão as famílias que choram pelas pessoas do seu sangue estarem longe ao ver raças alheias a serem acolhidas de braços abertos, a receberem empregos que supostamente não existiam e que foram a causa de menos um membro numa família portuguesa, a receber um emprego que poderá ser o nosso ou dos nossos filhos! Portugal começou por propôr 1500 refugiados e já se prevê que exceda os 3000! E depois quem os vai mandar embora? Quem vai arrancar as raízes que eles já tiverem construído? Quem é que os vai atirar das fronteiras já com casas, empregos e filhos criados? Isto vai ser um paraíso para eles e duvido que alguém vá querer ir embora de livre vontade. Eles não são burros, muitos deles eram pessoas com bons empregos, com ideias fixas, enfim, com vontade própria! Sei que esta avalanche de pessoas é uma obrigação de cada país e é emergente distribuir a solidariedade de cada um, sim, eu sei disso. Mas, se eles têm forçosamente de vir, porquê comprar casas se existem tantas abandonadas e em condições razoáveis. Tudo será melhor do que recear a morte a cada segundo, certo? Arriscamo-nos a um dia apresentar o nosso país aos nossos filhos e netos da seguinte forma: os Portugueses estão um pouco por todo o mundo e os que ficam são os pobres do país, já as classes altas pertencem a desconhecidos quase do outro lado do mundo, dos quais não conhecemos a história do seu país, que vieram e nem precisaram de lutar para ficar, simplesmente entraram e ganharam o nosso território. Tão submissos que somos, não acham?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Telhal no nosso coração


O trajeto era longo e as expectativas eram tão grandes como a nossa viagem o foi. Chegámos com um brilho nos olhos e cheios de vontade de cumprir o nosso dever. Não era apenas uma casa de saúde, era o refúgio mais nobre e puro que eu poderia ter encontrado. Acolheram-nos pessoas excelentes, com dicções e vozes incríveis, dotados de uma visão do mundo extremamente realista, implacável e motivadora. Entrei receosa e curiosa, mas comecei a apaixonar-me aos poucos por toda aquela energia, toda aquela força transcendente que acompanhava o sabor dos meus passos. Era tudo novo e inspirador. O vento a soprar nas janelas do sótão, o silêncio renovador a assumir as rédeas de nós mesmos, aquele "gosto muito de ti" no meio de silêncios e passos apressados, aquela euforia à porta de entrada aquando de ouvirem a nossa chave a abrir ansiosamente aquela fechadura, aquele mistério genuíno que pairava no ar quando as respostas eram menos expressivas, aquela asneirola que sabemos que não foi por mal porque logo a seguir existia um ato bonito de carinho, aquele abraço apertado que seria impossível de recusar, a expectativa de carinho que depositavam em nós e nós depositámos neles. O conceito alargado de amor que levámos para casa. Acima de tudo. Lembro-me das ambições tão pequeninas e tão genuínas que eles tinham: havia quem sonhasse ser pescador, quem quisesse casar, quem gostasse de ter coragem de cantar, havia quem planeasse o seu próximo livro a ser lido, quem quisesse sempre entrar na foto, quem tivesse o desejo de sonhar, meramente sonhar e lutar contra as insónias da medicação. Havia quem, simplesmente, quisesse apanhar sol à porta do café, quem quisesse ir passear apenas para ver gente e agradecer a bênção de existir mais um dia, havia quem quisesse apenas e somente beijar a nossa mão. Foi uma experiência arrebatadora, emotiva e construtiva! Tocou-me a autenticidade das pessoas, o seu sorriso encantador, a sua expectativa em ver a nossa chegada, o facto de priorizarem um simples abraço e de terem como único desejo, o de fazerem amizades verdadeiras. Um dia podemos ser nós a pedir para ir ao bar desenfreadamente, ver os voluntários a chegar e a ir embora, e a sentirmo-nos solitários ao fim de cada dia... podes vir a ser tu, pensa nisto. Os momentos de reflexão e oração eram, também, muito intensos, repletos de emoção e alegria, era a parte do dia direcionada um pouco mais para nós, onde nos compreendíamos a nós próprios e à nossa missão na casa, em comunhão com Deus. Era nos momentos de silêncio que me questionava sobre o porquê das pessoas ignorarem o sofrimento e caminharem apenas ao ritmo das suas ínfimas vidas, de se vestirem de preconceitos como se vestem de luxúria, o porquê de não alargarmos os nossos horizontes e estendermos a mão aos outros, de não existirem sequer remorsos ao saber que todos os dias apenas acordamos para nós mesmos, o porquê de existirem pessoas que choram do coração e nós ignoramos mesmo sabendo que pisam a mesma terra que nós, que têm direito aos mesmos sonhos que nós, que foram um rebento igualmente regado por Deus. Os braços deles às vezes podem vacilar e não nos acenar, as pernas deles podem falhar e ficar sem forças para ir ao nosso encontro, a voz pode estar, também, impedida de nos chamar, mas o seu olhar chama-nos a cada segundo e o brilho que nele falta retrata a nossa missão como voluntários. Eles podem ser chamados de loucos e incompreensíveis, muitos vêm neles estranheza e um poço de negatividade, mas eles estão abatidos pela sociedade, oprimidos pelo verdadeiro antro de negatividade, que são as pessoas que pisam as ruas todos os dias. Imaginem-se a serem abandonados pela família, a deixar de saber o que é sorrir, a ouvir gritos de um lado e uma colher repleta de comida do outro, imaginem sentir a solidão no meio de tanta gente à sua volta, porque essa é a pior solidão, imaginem acordar e terem de esperar pela próxima funcionária, não conseguirem adormecer porque se esqueceram do último comprimido, imaginem o que é vermos apenas o sol e o céu por detrás do vidro da janela, por detrás do ferro enferrujado que acompanha o seu coração solitário. Imagina agora se fosses consciente de tudo, se a tua consciência despertasse o quão injusto aquilo tudo é, o quão leviana foi a vida e surreal foi o seu fim. Imagina-te. Conseguirias, sozinho, ser alguém positivo? Claro que não. A negatividade nasceu na sociedade. Aquela que tem almofadas de penas e janelas viradas para a lua, quando nem sequer sabem sonhar. O amor não é construir uma grande casa para os nossos filhos, não é poupar para oferecer um telemóvel à nossa mãe, o amor não é limpar o quarto dos nossos irmãos a troco de dinheiro, não é vestir uma bata e dizer que se é voluntário. É, pois, revolucionar o mundo com pequenos gestos. Um abraço, um aperto de mão, um beijo, uma oração, uma cantiga ou a simples presença física. Amar é oferecer carinho de mãos abertas e sem querer nada em troca, é querer tocar em qualquer coração que esteja sufocado e perceber que de cada vez que nos entregamos, o amor é mais transcendente do que alguma vez foi. Agora, após a chegada, parece tudo tão insignificante, tão superficial... É como sentir pela primeira vez na vida que o mundo precisa, efetivamente, de nós. Irá custar não dizer bom dia a quem passa na rua, assumirmos o papel arrogante da sociedade... mas vivamos sem máscaras! Assim foi pregado no Telhal e assim façamos disso um lema. Há falta de carinho, de inocência, de dependência de pessoas! Há falta de coragem para substituir um telemóvel por um abraço caloroso, a nossa série favorita por um sorriso verdadeiro, uma ida às compras por um passeio pelo jardim, uma sesta no sofá pelo ato de estender a mão e ajudar a erguer quem caiu... A verdade é que há uma linha muito ténue entre nós e eles, e percebi que vendo o amor que eles têm para dar comparando com o amor que a sociedade nos dá, no meio disto tudo a normalidade precide neles, apenas neles. Não em nós. Nós somos apenas um meio, um aqueduto que os leva ao seu próprio encontro. O mesmo aqueduto que fortaleceu a nossa confiança e nos fez perceber que mais difícil do que entrarmos em vidas alheias e confiar nos outros, é abrirmos portas e deixá-los a eles entrar na nossa vida e nós confiarmos realmente neles. Não eram apenas cinco metros de queda nas laterais de um aqueduto, era o retrato fiel da confiança e em como a sua inexistência nos levaria a um impacto brutal no coração, nos valores, na razão de viver. É difícil transmitir por palavras ou gestos o meu entusiasmo! Peço-vos, somente, que venham e cumpram o vosso dever. O resto serão vocês a contar, porque quem vive esta realidade é que saberá o quão arrebatador é. Na partida, há que arrumar não apenas as malas, mas também os nossos pensamentos. Os nossos novos e renovados pensamentos.