domingo, 15 de janeiro de 2017

Brisa de inverno

winter, snow, and christmas image

Tanta coisa nos diz esta subtil brisa de inverno. Fala-nos de dor e desilusão, de laços gelados que se quebraram à mera fricção, fala-nos daquele gelo das antártidas que nunca derrete, de longas esperas que nos fizeram desfalecer o coração e a temperatura corporal. E de forma tão convicta é ela que nos invade todas as manhas por entre as arestas quentes do nosso corpo, que nos segue a planta dos pés enquanto caminhamos na orla da praia, que nos veste e reveste enquanto seres humanos. Entregamos prémios nobel aos romances, continuamos a achar que uma rosa no início de um namoro é o que de mais romântico existe, julgamos que um pedido de joelhos e uma aliança no dedo é tudo aquilo de que uma mulher precisa, mas no fundo somos uma pedra fria que nos mantém de pé mesmo face às maiores desilusões e que, de dia para dia, nos faz voltar a entregar ao nosso egoísmo e vida própria. Precisaríamos de uma brisa fria de inverno para despertar se já não vivêssemos num casulo frio chamado de humanidade. Essa mesma brisa que nos descreve o frio da derrocada, o medo em formato de graus celsius a invadir o nosso corpo, uma brisa que rima com sentimentos de fúria, com pesadelos transpostos da imaginação para a realidade, uma brisa crua e dura, repleta de metáforas e de um silêncio latente. Uma brisa tão fria quanto a nossa existência. Um ar gélido que nos impede de ir mais além, que nos impõe uma área restrita para viver e respirar, um nicho geométrico e inacessível a visitantes, um local grande demais para se viver mas pequeno demais para acolher o desconhecido, um lugar alimentado por ecos e expectativas. É uma brisa fria que não se apaga por entre mantas de lã, é constante no tempo e prolonga-se por todas as estações do ano, é como o vento: não se vê, mas sente-se. Tentamos conviver com ela mas constantemente a catalogamos como a causadora de insónias, o motivo por detrás daquelas paragens no tempo em que olhamos em vão, daqueles passos curtos e receosos que damos na rua e na vida sem qualquer tipo de destino, é a razão de pegarmos na areia da praia e a atirarmos com vigor para longe, de partirmos um pau porque sentimos uma raiva súbita, de rasgarmos todos os papéis que falem sobre sonhos... É a causa daquele andar cabisbaixo, aquele olhar triste quando olhamos para um banco de jardim com lugar para dois. É uma brisa que tem tanto de leve como de nostálgica, tanto de fria como de amarga, é um sopro que nos move e contorna cada lágrima contida, cada suspiro abafado e cada sorriso desejoso de ver o mundo. É incontrolável no espaço e no tempo e é essa impotência de a domar que a torna ainda mais fria e o percurso ainda mais longo. Talvez a felicidade pura ainda demore a chegar, e talvez se assemelhe a um calor humano reconfortante e que derreta toda e qualquer forma de frieza.