sábado, 31 de dezembro de 2016

Um brinde a 2017


Relembra os momentos de tristeza e dor e a forma convicta e única como os ultrapassas-te, relembra quem fez de ti prioridade e ficou para te abraçar quando todos os outros foram embora, relembra aqueles momentos que te vêm logo à cabeça porque muitas vezes os mais singelos são os mais especiais, relembra os pequenos passos de concretização que foste superando porque cada um deles te levou ao auge onde chegaste, relembra aquele pedido de desculpas sincero por parte de ti e dos outros e admira a beleza que existe na humildade de assumir um erro, admira aquela palavra que preferiste omitir para não ferir alguém e que te fez perceber que o amor e a amizade implica sempre proteção, relembra aquela risada que te fez doer a barriga e acreditar que um sorriso tem sempre lugar na nossa rotina turbulenta, relembra aquela aula a que chegaste atrasado porque feliz é de quem se mantém ocupado a lutar pelos seus sonhos, relembra aquela preguiça ao sair da cama todos os dias de inverno porque é sinal que tiveste tantas noites quentes e reconfortantes, relembra todas as discussões insignificantes porque é sinal de que não tinhas um motivo maior para complicar a tua vida, relembra aqueles que desabafaram contigo e procuraram em ti um abrigo, relembra aquele abraço apertado quando tu mais precisaste, relembra quem te fez rir quando tudo em ti queria desmoronar, relembra os conselhos repetitivos dos teus pais porque é sinal que existe alguém a zelar por ti, relembra os teus atos voluntários porque é a prova de que existe humanidade dentro de ti, admira as tuas vaidades e os teus caprichos porque são eles a prova de que te valorizas, relembra o doce que deixaste de comer, a corrida matinal que te obrigaste a fazer ou o cigarro que deixaste de fumar porque isso é a prova da tua força de vontade, admira todas as vezes em que tiveste necessidade de olhar para o céu e pensar em vão sobre a vida porque é sinal de que valorizas a paz e, acima de tudo, admira todas as promessas que fizeste e cumpriste, porque a vida não se vive na teoria, mas na prática. 
Sê feliz. Apenas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Jornada Natalícia ´16


Mais uma bonita jornada natalícia que passou e nos invadiu a rotina com esperança e tudo o que seja duradouro. É, de facto, uma época mágica em que se cria a alegria mesmo nos corações mais gelados, um laço de ternura com as pessoas mais chegadas, um vínculo com algo invisível e contagiante a que chamamos de Natal. Mesmo perante circunstâncias menos boas da vida, existe sempre um espaço para a ceia e para brindar. É como uma paragem no tempo em que as pessoas percebem que o stress das responsabilidades e a azáfama da gestão do tempo não é o que as define verdadeiramente, mas sim toda a cumplicidade e carinho que vem ao de cima neste dia tão especial. E este sentimento não existe apenas por questões de calendário, somos nós mesmos que criamos este espírito no seio familiar, aprendemos que a receita para a felicidade é apenas e somente acreditar nela, o calendário apenas serve para sabermos em que dia criar este antro de paz. É o dia em que percebemos que somos seres humanos. Que percebemos que a vulgar rotina é tão efémera ao lado da humanidade que existe dentro das paredes da nossa casa, percebemos que o Natal é muito mais do que renas e enfeites encarnados, muito mais do que barrigas atulhadas e bocejos à lareira, o Natal é a nossa oportunidade de sermos felizes, de ver a vida com outros olhos e nos podermos dedicar a quem sempre se dedicou a nós a vida inteira. E a verdade é que nasce o menino Jesus, o nosso Salvador! Apesar de que poucos se lembrem disso. A manipulação do comércio e o poder da publicidade desenham o nosso mundo com contornos monetários, onde pouco espaço sobra em termos de tempo e alma para podermos dedicar ao verdadeiro significado do Natal e, sendo ou não católicos, devemos preservar e respeitar este crença de quem por nós deu a vida. A grandiosidade da persuasão em torno do Pai Natal, da cor vermelha, das renas e dos presentes, é tudo uma enorme bolha de dinheiro cintilante que está a engolir a sociedade, toda e qualquer faixa etária, sem qualquer tipo de cuidado com o sentimento das pessoas, com os seus ordenados e muito menos com o nascimento do menino Jesus. Dizer a uma criança que o Pai Natal foi inventado, que não existem renas e que a cor vermelha só existe no Natal por houve um pacto com a coca-cola parece demasiado doloroso, mas a verdade é que mesmo que o digamos, o sentimento e o ato de gastar dinheiro já é quase como um gene do ser humano. Que no meio de toda esta balbúrdia nos lembremos que Jesus nasceu num estábulo e que mesmo os mais céticos podem perfeitamente admirar esta bonita história como sendo uma prova de humildade, de calor humano e de gestos que, apesar de tudo, ainda são o pilar da humanidade.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Nuvens são sonhos de algodão

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Nuvens são como expectativas, não lhes tocamos mas somos os seus fiéis espectadores, queremos objetivá-las ao atribuir-lhe uma cor nos desenhos da infância, mas a verdade é que quando as perfuramos nos aviões dos sonhos tudo se dissipa. Nuvens e expectativas. Sabemos que o seu tom pálido rima com o seu horizonte infinitamente intocável, com sentimentos de falta e com tetos que nunca iremos tocar. Encaramos nuvens e expectativas como horizontes longínquos, que nos definem enquanto seres insatisfeitos, e que tanto devem aos sonhos. Porque os sonhos dão-nos asas enormes, maiores do que nós mesmos, enquanto a realidade encarna nas pontas afiadas das tesouras que as cortam. Nuvens são sonhos de algodão. Sonhos que flutuam sobre o seu ar meigo e singelo, são carícias impalpáveis em forma de expectativa. A expectativa sobrevoa a atmosfera da nossa rotina, expectamos acordar, respirar e andar, expectamos não cair na rua, receber uma sms que não seja de redes telefónicas ou ouvir algum elogio sempre que perdemos horas ao espelho, expectamos que o professor chegue a horas, que o dinheiro sempre chegue para aquela bola de berlim da vitrine ou que a nossa mãe não se irá esquecer de nos ligar. Nadamos em expectativas e a verdade é que expectar algo é como acreditar no destino, o que nos faz crer que todos, bem lá no fundo, acreditamos no destino. Não num testamento escrito prematuramente e que dita de forma objetiva todos os passos que iremos dar, mas um sentimento refugiante, sabes? Aquele sentimento de ausência que muitas vezes temos, ausência de uma amizade forte, de um romance incurável, de um conselho maduro e sincero, de um abraço apertado, ou até mesmo a vontade enorme de viajar! Entramos num antro de amargura e de questões que só o destino consegue responder e, mesmo que não consiga, é ao destino que entregamos grandes álbuns de frustrações e mágoas, como forma de pedido de viragem. A verdade é que quando algo é dúbio na nossa vida existe uma parte sonhadora e esperançosa de nós que acredita que a nossa sorte irá chegar. É aí que a expectativa e o destino dão as mãos num panorama sonhador e um tanto racional. Nuvens são sonhos de algodão. Sonhos que flutuam sobre o seu ar puro e inocente, são instintos humanos em forma de destino. O destino das nuvens é o vento, assim como a capacidade de sonhar é o nosso destino, aquilo que nos conduz para um lugar, que julgamos nós, idealizado como melhor do que a vulgar rotina que vestimos todos os dias. Mas a verdade é que sermos algemados pelo destino é como nos entregarmos a ventos remotos e nos deixarmos levar para caminhos que poderão não ser sequer os que merecemos, é por isso que temos de agir e acreditar que uma grande parte de nós é aquilo que nos vai levar à terra prometida. Temos de agir aqui e agora! Tudo aquilo que é merecido é porque outrora exigiu sacrifício e resiliência. Lembra-te que entregar tudo ao destino é uma fraqueza, é anularmo-nos a nós mesmos, é viver na penumbra das nossas expectativas. É a prova viva de que somos incapazes de traçar o rumo certo, e onde não existem rumos também não existem crenças e objetivos e, logo, não existe personalidade. Sejamos como as nuvens, moldáveis consoante as tempestades da vida mas sabedoras do vento a seguir, conhecedoras de dias de sol e dias atribulados mas sempre em direção ao rumo certo. Nuvens são sonhos de algodão. Sonhos que flutuam sobre as trevas e os contos de fada, são antagonismos implacáveis em formato de ser humano. Nuvens são sonhos de algodão porque assim têm de ser em todo o texto metafórico que fale sobre devaneios inconstantes, em todos os corações apaixonados pela vida e que nela procurem um sentido mais vincado para escrever sobre sonhos e amor.

domingo, 27 de novembro de 2016

A Sorte Protege Os Audazes


Aquele que ergueu a mão voluntariamente sabendo que a morte o esperava em cada esquina. Aquele que passou noites nas florestas a fazer do orvalho a sua fiel companhia. Aquele que fez dos seus medos a força invencível de continuar. Aquele que nunca temeu o fracasso mesmo quando fracasso significava morte. Aquele que não duvidava dos seus reflexos e instintos. Aquele que contemplava o rebentar das granadas e fazia disso o ritmo dos seus passos. Aquele que planeava a melhor estratégia em torno da sobrevivência. Aquele que mesmo sem injeções sempre se afirmou como defensor da pátria. Aquele que deu o corpo e a alma em nome de um país, em prol de uma nação. Aquele que lutou com a força dos seus músculos ao sabor de céus revoltados e tempestades moribundas, ao sabor de mortes rápidas e silenciosas. Aquele que se ergueu ao sabor de sentimentos aniquilados, de corpos esfarrapados, ao sabor de munições restritas, de âncoras perdidas. Aquele que navegou ao sabor das feridas e se rendeu à inconstância da vida. Aquele que priorizou o batimento do seu coração em redor de campos de batalha desfeitos, que moveu mundos com a sua perspicácia, aquele que correu de oração ao peito, que domou medos e receios e arrasou toda e qualquer probabilidade de morrer. E tudo com a simplicidade de viver. Aquele que sempre, em todo o momento, entregou e pôs em risco o que de mais valioso existe: a vida. Aquele que é o meu corajoso pai! Um pai, que acima de um portador de genes e um ser de que qualquer filho se alegra de ter, é um anjo da guarda, um protetor na terra a que posso chamar de pai. Um ser vitorioso e que, depois do buraco negro que foi a guerra, foi capaz de construir uma família e de provar que um comando é um ser repleto de humildade, bondade e pureza. Um homem que viveu horrores mas que soube criar um antro de paz para os seus filhos. O homem que me deu gelado à boca, que me levava à escola e segurava na mochila, que sabia a quantidade certa de açúcar na chupeta, que me protegia nos seus braços e me segurava em sítios altos só para eu sorrir para a fotografia, que me dava aquela moeda especial para dar mais uma volta no carrossel. O mesmo homem que, hoje, me compra fritos para me animar enquanto estudo, que desassossega quando me quer mandar um beijinho por telefone, que me avisa quando o piso da estrada está molhado, que sempre que cozinha não se esquece daquela pitada de caril que eu adoro, que me dá as únicas moedas que tem e as coloca no meu bolso, que me deixa um recado escrito a desejar boa sorte para o exame, que me deixa uma caixinha com um bolo saboroso para o lanche, que não me repreende por estar acordada às horas que ele sai para trabalhar. O homem que sempre me soube mostrar o que é o amor pela vida. Com ele vieram as marcas de estelhaços de balas, veio o toque impaciente das granadas que explodiram naquelas terras africanas, com ele veio a garra que não deixa que uma lágrima se escape, veio a coragem que pulsa no sangue quando fala do seu passado, com ele veio o sorriso de quando coloca uma boina vermelha, veio a forma convicta de falar e de afirmar os seus ideais, com ele veio o prazer do momento sem nunca recear o futuro, veio a capacidade de reagir face a situações não planeadas. É irónico, ele é uma vítima de guerra mas que nunca, em momento algum, foi vítima do que quer que seja. Eu posso, hoje, orgulhar-me de saber que também sou uma vítima de guerra e de afirmar que, pela coragem e resiliência do meu pai, eu tive a oportunidade de existir. Que bastava um tiro numa direção errada, um reflexo incoerente ou um maior raio de explosão, para hoje não estar aqui. Sou uma vítima de guerra. Vítima de mortes sangrentas, de granadas e preconceitos, vítima de dormidas ao relento, de fugas sobressaltadas e de medos noturnos, vítima de estelhaços, de desfiladeiros e florestas medonhas, vítima de tiros, de olhos que não dormem e forças que não acabam. Vítima de gritos abafados, de corações amargurados e sonhos despedaçados. Vítima de pesadelos eternos e de corações inconstantes no batimento e no tempo. Vítima da guerra. E sabem que nome chamo a tudo isto? Orgulho! Orgulho de ter o sangue de um comando a preencher-me as veias, de contemplar alguns dos seus vícios e tiques de personalidade, de saber que sou um fruto da sobrevivência da guerra, a prova viva de que a "sorte protege os audazes".

domingo, 13 de novembro de 2016

Não voltes aonde foste infeliz

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É amargo o silêncio da noite e tão desesperante a falta de sentido que ele dá à vida. Somos tão insignificantes no meio de antros escuros e cerrados, nem a própria silhueta se define nem tão pouco a essência dos nossos princípios e das nossas batalhas. A espada cai. O livro de contos e mistérios fecha-se pela escuridão e os sonhos são diluídos pela solidão. Os contornos do corpo desvanecem-se e resumem-se a arestas sentidas por brisas nómadas e incómodas. O que resta de um corpo preso pela nostalgia enquanto todos os outros dormem? Resta um pássaro livre que se desprende a cada madrugada. Resta uma brisa leve à qual chamam de alma. Resta um refúgio de cicatrizes silenciosas. Resta uma calma desassossegada como se fossem restos de poeiras após uma guerra mundial. Resta o medo do futuro e a amargura de não conseguir amar. Resta a racionalidade e a certeza de não querer voltar aonde fui infeliz. Não te massacres ao pensares que merecias melhor do que o teu passado, não te arrependas por aquilo que abdicaste enquanto outros de ti abdicaram, não faças da insignificância dos outros o teto que trava os teus sonhos, não permitas que almas negativas te façam parar no tempo. Reinventa-te. Sim, reinventa-te e nunca voltes aonde foste infeliz. Os clichés diriam para te afastares de onde foste feliz, talvez porque relembrar dói, talvez porque haja a tendência eminente em se comparar a felicidade passada com a presente, e a verdade é que comparar felicidades nunca foi um ato feliz, talvez porque estar num local desses faça pulsar os batimentos de uma forma que nos reduz a pedaços de fraqueza, ou simplesmente por mero orgulho... Portanto, são os mesmos motivos que não nos levam a dar um passo em direção aos locais onde chorámos. Tudo o que nos afasta da felicidade é exatamente o que nos afasta da tristeza. Associar um local a um sentimento é, por si só, uma mágoa, é um fenómeno de restrição onde catalogamos as coisas em função de sentimentos e não em função de experiências pessoais e de auto-valorização. Voltar a ilhas de sorrisos ou de lágrimas torna-nos impotentes porque, por momentos, sentimo-nos exatamente a mesma pessoa que fomos quando pisámos aquele local, tornamo-nos marionetas de sentimentos passados, personagens de histórias que já não existem e somos reduzidos ao vento gelado que nos trás a realidade aos poros. Há poeiras que por mais que assentem, a sua incógnita e bruta maldade faz-nos imaginar que elas ainda estão dispersas no ar. É então que surge um arrependimento que outrora não tinha surgido. É verdade que cresci, é verdade que me transcendi, que me superei e me ergui! É verdade que transpareci luta e vitória, orgulho e concretização. Mas... Mas também é verdade que o frio desta madrugada rima com o meu coração, que elevar as expectativas em relação a alguém só me faz recuar mais, é verdade que existe a falta de um impulso firme e duradouro que dê uma explicação ao meu sorriso, que o medo de sofrer novamente se eleva a um patamar que destrói toda e qualquer forma de esperança. Gostava de dizer que não vou esperar pela próxima madrugada para ser feliz, que o irei ser aqui e agora, mas a rotina está a ser feita de madrugadas inquietas e confusas e, dia após dia, sinto-me a entrar numa madrugada mais longa onde espero um dia ver nascer não apenas o sol mas também novos recomeços.

sábado, 1 de outubro de 2016

Fortaleza da Desistência


Imagina o som das trombetas medievais. Transfere o seu tom de plenitude para a tua vida. Imagina a textura da areia da praia e faz dela o degrau coeso de que precisas. Admira as nuvens e faz delas o teto dos teus objetivos. Sincroniza-te com o som das aves e faz dele a pureza simplificada do teu sorriso. Eleva-te e ama a simplicidade de viver. É imperativo mudares o mundo! Há biliões de pessoas à tua espera. Dá um passo em frente, esgota as tuas forças e lembra-te do que te fez chegar ao lugar onde estás hoje. Lembra-te que dares corpo à tua alma é como dares voz a todos aqueles que acreditam em ti. Recorda-te que o calor das tuas mãos pode fazer quebrar a frieza de espírito, que o teu grito profundo pode libertar ecos das entranhas da tua alma. Desbrava caminhos, desterra medos e receios, sê o guerreiro a que todos chamarão de lenda. Quando lutares por algo que não seja um ato de resistência onde apenas queres reabilitar a tua vida, que não seja o engolir de um argumento falacioso que torne a tua vida, por si só, numa falácia. Luta acreditando que, lutar, é a única causa credível desenhada na tua espada. Refugia-te nas maiores mágoas, pois serão elas as maiores teias de inspiração e força divina em que te poderás enredar. Preenche-te de sinfonias épicas para que o teu respirar rime com cada nota e essa respiração seja igualmente memorável. Alimenta-te de atos dignos e que implantem saudade mesmo nos rostos mais insensíveis e nos corações mais frios. Muda o mundo, mas antes, muda-te a ti. Sê algo melhor todos os dias, transforma-te naquilo que idealizas e promete a um Deus qualquer que irás cumprir. Cria um vínculo com qualquer coisa grandiosa em que o teu íntimo acredite para que lhe proves a força de viver e a verdade que existe na respiração dos seres vivos, que a efemeridade da vida é apenas um sopro equiparada à guerra épica e convicta a morar nas tuas veias. Sê a flor do teu jardim, a fórmula da sua cor e o conceito do seu cheiro, sê a força que a faz brotar contra a gravidade e que transporta a sua seiva, sê o sol que comanda a direção do seu caule ou o vento forasteiro que quer dominar a sua existência. Sê o arco-íris que paira nesse jardim e oferece laivos de alegria a cada semente de planta e a cada coração humano, sê esse gradiente de cores que todos os dias te acrescenta sonhos ao contornar a tua janela. Sê o parapeito gelado dessa janela que se conforma com a posição das portadas, com a sua cor pálida e o tormento em dias de neve. Sê essa neve corajosa que se lança às entranhas da terra mesmo sabendo que irá derreter numa fogueira qualquer de uma floresta selvagem. Sê essa fogueira a que o mundo apelidou de vulgar mas que contempla o segredo do amor, que perante ventos fracos se apaga mas perante ventos fortes se engrandece. Sê a sua fragilidade em noites de inverno e a sua valentia em se afirmar nos recantos mais escuros da noite. Sê, também, essa noite negra de caráter misterioso e que reporta a esperança de novos reencontros nos notívagos mais sonhadores. Sê esse sonho que se eleva e se fortalece com o tempo. Muda o mundo antes que ele te mude a ti. Que viver seja sinónimo de vencer e que vencer seja o oposto de desistir. Mas que desistir não seja apenas o apelido do elo mais fraco e entendamos que o nosso lado invencível teve origem nas nossas maiores desistências, quando o nosso coração gritou de mágoa por saber que desistir seria o nosso único e maior ato de coragem. "Desistir é para os fortes", não é cliché, é vontade de viver. A desistência é sempre vista como uma derrota para a sociedade, mas ela não é um molde quando sabemos estar certos e quando acarinhamos a nossa luta como algo nosso, de quem já se habituou a ver-se como um lutador e com um escudo de sofrimento nas mãos. Às vezes não desistimos porque queremos, mas porque precisamos. E é a desistência que cria as maiores e mais convictas raízes da nossa personalidade, porque é como dizermos a nós próprios o que é bom ou mau para nós, é uma espécie de auto-educação seletiva que nos afirma. A desistência é também, muitas vezes, uma prova de respeito, uma prova de que estamos vivos e de que não é o sangue da sociedade que nos corre nas veias. A desistência é resistência, é relutância e amor à vida. Por isso, sigamos o gemer dos sinos da torre, o tropear dos cavalos e os vibratos das trombetas, sigamos as multidões que lutam por uma causa, as pegadas da dignidade e as ações que são uma continuidade de nós mesmos, sigamos as revoluções e tudo aquilo que fugir às normas formais e criteriosas que só existem para que haja uma diferença abismal entre fortes e fracos, para que se alimentem continuamente as hierarquias. Sigamos aquilo a que o nosso instinto se rende, aquilo em que a nossa razão acredita e, muitas vezes, aquilo que o nosso coração não quer.

sábado, 20 de agosto de 2016

Príncipes não existem

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Chego a casa. É de madrugada. A solidão ganha um peso tremendo e a esperança de ser feliz segue os passos das estrelas que, àquela hora, vão desaparecendo. Encaro a vida como uma injustiça, onde os restos de felicidade de uns não chega sequer para alimentar outros... Um mundo onde existe desequilíbrio na fome e no amor. É isto que as madrugadas me fazem, mitigam sonhos e projetos de vida. Penso em futuros risonhos, em rotinas feitas à pressa, em mãos entrelaçadas e em corpos que se aquecem, penso em caminhadas que não cansam, em beijos ao acordar, em leituras de romances e em pombas esvoaçantes, penso em crianças a correr pela casa, em alianças brilhantes, em ramos de flores e filmes no sofá, penso em duas sombras ao pôr do sol, em tendas onde o luar não acaba, penso em dois perfumes que se unem, em dois versos humanos que sempre irão rimar, penso em objetivos que se cruzam, em personalidades que se completam, penso em duas almofadas, em gestos de carinho, penso em estômagos e borboletas, penso em varinhas e fadas, penso em anéis e véus, penso em promessas e concretizações. É verdade que o frio da madrugada me eleva os sonhos, mas é destruidor quando a consciência nos eleva a razão. Aí descemos à realidade, um lugar ainda mais frio do que o vento que percorre as frestas das portas e contorna os meus pés. E os sonhos simplesmente evaporam. Às vezes quero chorar e não consigo, sinto-me um flagelo submerso no tempo e eu quero chorar, porque chorar é vibrar por algo, é ter sentimento, e eu quero esse sentimento a latejar nos poros, quero alma a conduzir-me os passos, só quero um pretexto ainda maior para acordar todos os dias. Vive-se de fraquezas e é entre as palavras coesas e convictas que existem as nossas maiores derrotas. Não direi derrotas dos caminhos que deixámos para trás nem daqueles que, hoje, percorremos, porque a derrota não vem de opções mas de frustrações, a derrota cria a sua raíz no cansaço pela vida, na falta de estímulo em continuar a caminhar. A derrota é saber que príncipes não existem. É sonhar todas as madrugadas com algo bonito e isso se destruir quando o sol começa a nascer, quando surge a realidade, e nos faz crer que os sonhos não podem ser sonhados. Aí percebemos que as pessoas à nossa volta são como flores murchas que nunca irão corresponder às expectativas, não crescem, não amadurecem, não acrescentam cor ao seu jardim e em todos os dias da sua existência vão apenas camuflar-se no seu tom seco e triste, juntamente com as restantes flores murchas, as quais já quase perfazem oceanos, sem que uma flor se eleve e revolucione a alma e a cor de um coração. Príncipes não existem porque há falta de valores, de educação, de prioridades, e não é isso que rege um amor verdadeiro? Claro que sim, o que rege o mundo é exatamente o que sustenta o amor. Há falta de conhecimento sobre ele e sobre os alicerces que o constituem, o que é preciso fazer para o construir e preservar, para o manter vivo todos os dias sem que o cansaço invada as rotinas e a melancolia se torne um hábito. Quebrar rotinas é, também, amor. Príncipes não existem porque a valorização já só existe depositada em monopólios e em juros e não em pessoas. Valorizar alguém parece demasiado complexo por estar fora do palpável, do objetivo, mas se investirmos o nosso tempo em vez do nosso dinheiro daremos conta que estamos a descomplexar o amor. Bem, mas a verdade é que o amor não se pode procurar, ele surge quando menos esperamos. Tem tanto de cliché como de verdade. Eu e muitos espreitamos cabisbaixos para os que passam na rua, como quem vê o horizonte com um peso nos ombros, aguardamos imóveis por Sebastiões e nevoeiros, na esperança de que uma luz brilhe para nós, quando a única luz que existe é a do sol a afirmar que a madrugada chegou ao fim e que a triste realidade sempre vence e finaliza todos os textos que falem sobre príncipes... E assim começa o dia.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Licenciada! ♥♥♥


Era dia 29 de Julho de 2016 e, onde por um lado reinava o cansaço de uma sexta feira, por outro, reinava a magia em relação ao que o destino me iria proporcionar dali a uns minutos. O tempo para digerir a notícia fora pouquíssimo, ou talvez toda a notícia grandiosa o seja pela sua carga inesperada. A alegria foi arrebatadora e o coração sobressaltado era o que marcava o ritmo dos instintos, de cada pedaço de choro e grito. Era um sentimento despejado e que há muito queria vir cá para fora, era como algo a dar à luz e que fosse fortemente desejado por todos. Vesti-me, peguei no carro e fui em direção à igreja, ao antro de paz de que precisava naquele momento para chegar perto de Deus rapidamente e ele pudesse ver o quão orgulhosa e aliviada me sentia! Estava de consciência tranquila e livre de fantasmas, sentia-me leve e sem necessidade de chorar, mas apenas sorrir e refletir sobre as pegadas fortes e delineadas que fui deixando como rasto e que provam a garra destes três anos. O pôr do sol entrava pelas portas da igreja, as quais raramente tivera visto abertas durante o dia, e cada passo na sua direção eram raios de luz em sintonia com a minha felicidade. Passadas as portas, julgara que ali era o paraíso, que significava a nova etapa e encerrava um capítulo. Foram momentos emotivos que quis reservar para mim própria porque, afinal, era o meu momento de brilhar. Tudo rimava com sonhos e concretização, onde eu me sentia a rainha dos sonhos concretizados. Agora entendo que nada é em vão, que nenhum sofrimento aparece sem um motivo construtivo, que nenhuma dor nos surge se dela não formos capazes de retirar força, entendo que os caminhos mais difíceis são os que seguem os melhores propósitos, que as maiores quedas são as que nos podem dar mais orgulho a levantar, entendo que a vida nos dá apenas os caminhos e, por vezes, as oportunidades, mas cabe-nos a nós decidir e fazer escolhas e agarrar cada oportunidade como se fosse a última. Houveram desilusões nestes três anos, se houveram! Amizades que não cumpriram as expectativas, planos que correram mal, laços que se cortaram para sempre. Houve muita mágoa a pintar o meu céu de negro, muita promessa falhada a tornar-nos a nós próprios falhados, houve tanta falta de gestos bonitos e de compaixão, falta de sorrisos genuínos e de uma felicidade eterna. Muito do que idealizámos simplesmente não aconteceu. Mas mais importante do que as circunstâncias por que passamos é a forma como lidamos com elas, porque situações desesperantes toda e qualquer pessoa já teve e terá. O que distingue uma pessoa da outra é o seu interior, a sua força de vencer, o seu olhar fixo para a meta. Eu quero ser relembrada pelo que fiz e nunca pelo que me aconteceu. Quero que se lembrem do que concretizei e nunca dos dias tristes que me abalavam. Quero sentir o meu pulso a bater verdadeiramente em dias sol, mas principalmente em dias de tempestade porque é aí que existe desafio, é aí que podemos mostrar o nosso caráter e remar contra a maré, sem andar meramente ao sabor das ondas ritmadas. Gosto de falta de ritmo, de me desamarrar de um desgosto profundo e atingir as águas límpidas, onde novamente o sol chegará para nos aquecer. Gosto de poder gritar que tenho bons amigos, poucos mas incrivelmente exemplares. Gosto de chorar de alegria por pensar na minha família e no amor e preserverança que têm por mim. Abanar as fitas pela primeira vez ao seu lado não foi em vão, cada palavra da bênção das pastas não foi em vão, a queima do grelo não foi em vão, cada lágrima que se soltou de madrugada não foi em vão, cada página atulhada de matéria e que me massacrava a cada segundo não foi em vão, cada chumbo não foi em vão, cada ida à pressa para Coimbra não foi em vão, cada hora de seca não foi em vão, cada pesadelo ou desassossego, cada remorso ou desgosto, não foi em vão. Nada é em vão sabendo que o esforço acompanha o sonho e que a fé é levada ao limite. E mesmo as pequenas vitórias do dia a dia que, agora, julgamos efémeras também não foram em vão. São coisas como um dia de sol que surgiu em pleno inverno, uma sopa quente antes de sair de casa, um casaco aconchegante que afinal a nossa mãe pusera na mala, o som de um passarinho a cantar à nossa janela, que tornam o dia mais esperançoso, são laivos de paz a que nos temos de agarrar. Estar numa cidade nova não é fácil a princípio, mas quando entramos por um acaso acabamos por sair com um propósito. Fui alvejada com sonhos e objetivos, onde Coimbra assistiu ao meu crescimento interior. Nunca será fácil dizer adeus, quem conheceu Coimbra quer ver para sempre a despedida como uma inevitabilidade. Coimbra é a história menos cliché que se vive na vida, é uma montanha russa de experiências e sentimentos, é um capítulo inovador e que todos vivem freneticamente, são meia dúzia de anos que vamos querer sempre contar e recordar. A verdade é que me transformei em fortaleza e positivismo e tudo porque aprendi a eleger objetivos e a querer cumpri-los com todas as forças. Coimbra dá-nos isso, a capacidade de sonhar. A sua despedida gera tanta nostalgia, é uma dor silenciosa mas feliz, com um toque de carência prematura mas de muita concretização pessoal.
Próxima etapa: mestrado. Coimbra, ainda não te vais livrar de mim!



segunda-feira, 4 de julho de 2016

(in)dependência

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Quero um amor tão certo como o galão da manhã ou o pôr do sol ao fim da tarde. Quero um amor como um pombo correio, que seja livre e descomplicado mas que sabemos que sempre irá voltar. Quero um amor tão simples como uma parede pintada de branco, tão especial como o desabrochar de uma flor, tão seguro como os alicerces da minha casa e ao mesmo tempo tão leve quanto a brisa de primavera. Quero um amor que rime com natureza, com sementes a florescer, com raízes fortes, que rime com sonhos e com o calor entre duas mãos. Quero um amor um tanto controverso e incoerente, um amor que rime com comédia e seriedade, com desapego e posse, com aventura e sedentarismo, quero um amor que rime com as quatro fases da lua. Quero um amor que seja o prolongamento do meu gosto pela brisa doce ao fim da tarde, do equilíbrio que ela trás e do sentido que nos dá à vida. É isso que um amor nunca nos deve tirar. Um verdadeiro amor preserva a simplicidade da vida, dá continuidade à paz que vivemos e que queremos criar e proliferar. Se antes de amar gostamos de viver a natureza, depois de amar é normal gostarmos ainda mais. O amor preserva rotinas. Apenas acrescenta sonhos. Eu sei que quando eu tiver de lutar, luto, sei exatamente o que fazer quando chegar a pessoa certa, sei abdicar da minha fragilidade, assumir os meus erros e admitir vezes sem conta o que preenche o meu coração. Sei que existe dentro de mim a potencialidade de um grande amor, mas por enquanto guardo as minhas energias para cuidar de mim e viver a vida com a intensidade que não pode ser vivida por quem está envolvido em sentimentos de posse constante e em problemas impossíveis de resolver. Porque o amor não morre, ele apenas reacende perante a esperança de um futuro. Percebi que sou completa ao sentir-me sozinha e isso não é apenas força e valorização, é dádiva. Uma dádiva que nós mesmos criamos com a nossa fé e amor próprio. Sim, nós, seres humanos, somos criadores de dádivas e criadores da nossa própria sorte, porque a sorte vem dos caminhos que escolhemos seguir. Neste mundo podemos escolher ser frustrados ou lutadores e, apesar da segunda opção ser bem mais custosa, a primeira mostra-nos o peso do remorso e da dor constante. Se temos a opção de não nos alimentarmos de frustração então vamos lutar por nós, pelo nosso amor pela vida e se, eventualmente, esse amor que temos à vida tiver origem numa pessoa, então encontras-te o tesouro. Se a pessoa te acrescenta esse amor a tudo o que te rodeia e te acrescenta sonhos e ambições, então é a pessoa certa. Por isso não desistas de ti para que um dia tenhas forças para também não desistir de alguém. Luta por ti e pelos teus atributos para que a pessoa certa se cruze contigo e repare em ti, porque se desistires de ti essa pessoa será só mais uma que passa na rua e te vai fazer falar mal do destino. Não percas essa oportunidade! Não percas a oportunidade de investir em ti, porque ao fazê-lo estás um passo mais perto de encontrar a pessoa certa. É por isso que muitas desilusões existem na vida pela escolha de pessoas erradas, e porquê? Porque não estavas a investir em ti próprio. Não desistas de ti!

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Mixórdia portuguesa


Revolta-me todo o filme de terror a que assistimos todos os dias e nada fazemos. Revolta-me os grandes ordenados à custa do suor dos mais fracos, revolta-me os políticos terem as regalias que têm, os bolsos que ajudamos a encher por cada emplastro da assembleia, sim! Nós indiretamente pagamos o seu motorista privado, pomos-lhes o marisco no prato, engraxamos os seus sapatos, damos tempo de antena, o nosso tempo, mas pior do que tudo, damos o nosso voto, a nossa aprovação, como se tudo estivesse saudável e equilibrado à nossa volta, porque as mentes se conformam e limitam-se a seguir a carruagem, porque se é assim que estamos é assim que continuaremos. Revolta-me os bancários reformados virem deitar lágrimas de crocodilo acerca das suas reformas, revolta-me perguntar a um idoso na rua porque votou em fulano x e ele responder "porque é o partido que lá tem estado" ou "porque é do psd", revolta-me que votem em partidos e não em convicções! Esquecem-se que a cor de um partido não exige o mesmo amor à camisola do que a cor de um clube. Revolta-me sermos escravos da Alemanha e de todo o mundo. Revolta-me que as grandes superfícies comerciais comprem os produtos aos agricultores e pescadores por uma ninharia, revolta-me que o trabalho árduo que ergue a nossa qualidade de vida todos os dias seja tão desprezada. Revolta-me que o povo continue a aprovar as touradas, a levar os seus filhos para sorrir perante uma atrocidade daquelas e a assumir isso como uma tradição, revolta-me que o sofrimento de um touro seja recebido com aplausos e como um pretexto para um passeio de domingo à tarde. Revolta-me que pessoas com doenças crónicas fiquem anos numa fila de espera e que na altura de serem atendidos possam ser negados porque o médico não está no seu horário de trabalho, revolta-me que se esqueçam que estamos a lidar com pessoas e com algo em comum a todos, a saúde. Revolta-me as escolas que fecharam e que fazem as crianças terem de sair de madrugada de casa e entrar à noite, sem contribuir para uma infância feliz e uma boa relação com os pais, revolta-me que a educação dos futuros homens deste país seja tão desprezível. Revolta-me tanta coisa. Depois surgem aqueles disfarces políticos como forma de nos fazer esquecer a lama onde vivemos como os Magalhães para as crianças, qual Magalhães qual quê! De lhes formatarmos as mentes já nós estamos fartos. Eles que aprendam primeiro a boa educação e os princípios antes de conhecerem o alfabeto e a fórmula resolvente. E depois tiram os feriados religiosos, como se se achassem descendentes dos Reis ou substitutos do Deus em que o povo português acredita. Depois enchem os telejornais com açoites ao Sócrates, como se ele tivesse sido o único político a desviar dinheiro. Já nem entro no assunto do telejornal que, para perfazer todo aquele tempo que não é praticado em mais nenhum país, se enchem de notícias incompletas, outras totalmente evitáveis, muitas mentiras pelo meio e sempre com o mesmo foco, política e futebol. Depois vêm as casas de órfãos com notícias de abusos relatadas, os idosos abandonados em casas solitárias, os assassinatos. Todos casos em que a justiça deve muito à verdade. E depois vêm os impostos, claro! Aqueles que todos pagam e ninguém questiona sobre o porquê de já o fazermos de forma tão automática. Ir a uma auto-estrada e pagar, viver numa casa da nossa posse e pagar, pagar um seguro apenas por questões estatísticas, querer estacionar o nosso carro e pagar, até ir a uma casa de banho e pagar. Saímos de casa e pagamos. Pagamos à mesma velocidade com que respiramos. Nascemos e já estamos a dever ao estado. Estamos a trabalhar para o estilo de vida de uma minoria de gananciosos que comanda o mundo. A escravatura, no sentido literal da palavra, ainda não acabou para nenhum de nós. E a pior escravatura é aquela que ninguém quer ver. Chegámos a um ponto em que nada é realmente nosso, é tudo do estado, e um estado em que o burro do povo vota sempre! Há ali uma ilha chamada de povo nórdico, uma raça cheia de garra e princípios, praticamente auto-sustentáveis, mas que não nos servem de exemplo, talvez porque seja demais para nós sonhar tão alto ou porque simplesmente o português se contenta em dizer "os estrangeiros são sempre melhor que nós", sem mexerem uma palha para mudarem isso. É outro dos nossos defeitos, não somos revolucionários. Nós protestamos e abanamos bandeiras em vez de termos ações com impacto, um impacto mais forte do que todas as fileiras de polícias em frente à assembleia. Mas vá, as pessoas das aldeias querem ir conhecer o Marquês de Pombal e depois já não há espaço na agenda para o que supostamente era mais importante, que é afirmar os seus direitos. Eu orgulho-me da nossa bandeira e do que ela representa, da valentia que estava no sangue dos fundadores do nosso país, por tudo aquilo que conquistaram e por terem colocado Portugal como um dos pilares do mundo. E, agora, o que vejo em nada se assemelha às nossas origens. Estamos a caminhar para um declínio que poucos têm a coragem de assumir ou sequer conseguir ver. Um declínio que talvez só terminará com o Apocalipse.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ainda fui a tempo

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Ainda fui a tempo de ser eu própria. De me entregar à realidade e viver de tréguas com a minha essência. Ainda fui a tempo de pensar em mim e em como era racional eu ser a minha prioridade. De me ver ao espelho e acreditar que não há nada de errado. Ainda fui a tempo de fugir do labirinto de emoções que mitigava as promessas de um futuro melhor. De criar um antro de paz e positivismo para mim mesma, onde eu pudesse viver sem ser obrigada a recompor-me, sem sentir que tinha sido despejada numa ilha abandonada. Ainda fui a tempo de me afastar do foco da história e me encontrar nas entrelinhas. De entender que eu sou a protagonista da minha vida e que esse é um lugar que ninguém poderá ocupar. Ainda fui a tempo de perceber que dar o meu melhor sempre será o suficiente para aqueles que me merecem. Ainda fui a tempo de me transcender e encontrar uma força luminosa que julgava nem sequer existir. De, sozinha, ser tão mais completa! Ainda fui a tempo de me converter em alguém melhor e mais inspirador. De encerrar um capítulo para ganhar ímpeto de entrega para novos caminhos, com novos contornos e formatos de vida. Ainda fui a tempo de abandonar os retratos masuquistas que se impunham como rédeas. De descomplexar todo e qualquer sentimento e pensar em amor da mesma forma que penso numa flor. Ainda fui a tempo de perceber que se os problemas partem de nós, sendo que o sofrimento é nosso, então também as soluções terão de partir de nós mesmos. Ou talvez as soluções tenham estado sempre vivas dentro de nós à espera de serem agarradas. Chega o dia em que nos conseguimos mudar a nós mesmos e é aí que passamos a concentrar toda e qualquer capacidade de mudar o mundo. De nos tornarmos um exemplo porque, afinal, a mudança do mundo começa em nós. Continuamos fiéis aos nossos sonhos de criança, simplesmente mais maduros e realistas. Podemos saber que existem caminhos que vão doer a percorrer, mas saberemos tornar isso num conto de fadas por sabermos das vitórias e do orgulho que nos saberão tão bem receber no final. A vida é difícil e injusta e o segredo está em ver a beleza de uma caminhada que é percorrida sozinha. E então, se um dia as coisas mudarem, será somente um acréscimo e não um alicerce. Tudo se baseia no conformismo e na brusca mudança. Parece contradição, mas está cheio de verdade. Saberemos converter qualquer pedaço de lixo sentimental numa paz interior e reconfortante que se acumulará na proporção dos desgostos. É linear, é matemático. Por um lado, o conformismo é inevitável e forçado, mas por mais dispensável que possa parecer no momento, é ele que permite a aceitação do nosso ser, aos poucos e poucos. É ele que ergue as bandeiras da pátria, de dia para dia, e nos faz agarrar ao nosso valor enquanto seres humanos. Depois vem a mudança. Ela trás consigo uma experiência de adulto que nos faz ver bem além do horizonte. Para lá dessa nuvem cinzenta passamos a ver os nossos feitos passados e todos aqueles que temos capacidade de ainda concretizar. São essencialmente estes últimos que nos fazem voar. Agarramo-nos, agora, não apenas ao nosso valor emocional, ao subjetivo, mas à ambição que julgamos concreta no nosso projeto de vida. A ambição que nos levará a provar a tudo e todos que somos inteligentes, dignos, humildes e vitoriosos. Passamos a sonhar de forma ainda mais rebuscada e é então que percebemos que os sonhos de criança apenas estiveram em stand-by. Que, passada a tempestade, voltámos a proferir que aquilo que queremos é aquilo que irá acontecer mas, agora, com mais de um palmo e meio, com a veracidade da idade e com a certeza acentuada de que o mal que nos fazem se multiplica no bem que floresce em nós próprios. Sim, ainda fui a tempo. Fui a tempo de mudar o mundo. O meu mundo.

domingo, 22 de maio de 2016

Bênção das Pastas ♥


Acordar cedo a um Domingo nunca me pareceu tão aliciante! A preguiça fica reduzida a nada quando sabemos que o dia que nos espera é o da Bênção das Pastas. A multidão instalou-se bem cedo pela zona da Sé Nova e todos esperavam ansiosamente pelo começo da celebração. Fotógrafos e barraquinhas era o que dominava todo o largo. Até que entrámos. De capa aos ombros, fitas dentro da pasta e cabeça erguida. Felizmente Farmácia tem o seu lugar na zona da frente, pelo que a panorâmica era boa. Sentadas no chão, por entre sapatos, capas e fitados de Direito, foi assim que começou a cerimónia. A fumaça espiritual de odor forte envolvia todos os estudantes de cada vez que era remexida a campânula que circulava pelo espaço, ouviam-se cânticos de perfeita sintonia que preenchiam as fileiras das batinas, as palavras fortalecedoras renovavam o espírito até dos mais distraídos e todos estavam ali feitos homens e mulheres depois de todo o percurso de caloiros e doutores, de angústias e medos, de indecisões e desilusões. Houve quem mexesse no cabelo para disfarçar as lágrimas, quem olhasse para o detalhado teto da Catedral para suster a sua emoção, houve quem lesse ali mesmo todas as suas fitas e sorrisse com o olhar para cada frase, quem tivesse os sapatos rasgados pela experiência mas um espírito jovem aos olhos da nossa mãe chamada Coimbra. Coragem, esperança, amor e sabedoria, era tudo aquilo que suportava aquele momento. Até que se pediu que cada Faculdade erguesse as suas pastas e foi aí o auge! Muita emoção num momento só! Mostrávamos a Deus a nossa bênção e com todas as nossas forças abanávamos cada fita cheios de orgulho, unidos pelo espírito arrebatador e nostálgico que Coimbra nos proporciona. Unidos, também, pelo silêncio e pela refleção e, acompanhados de uma lágrima, sabíamos que ali pertencíamos e que tínhamos sido inexplicavelmente felizes. Cada fita que me batia com força no cabelo era um novo acordar para a realidade. Ainda ontem entrara receosa após as colocações e, agora, abanava cada fita de cada obstáculo ultrapassado, com os meus pais orgulhosos lá fora à minha espera, juntamente com um sol radiante que rimava com a nossa força interior, e com trombetas e órgãos de fundo a anunciar esta Boa Nova, como se toda a caminhada pela licenciatura tivesse sido ao som desta sinfonia e as notas fossem, agora, tocadas mais alto! Como se estes três anos tivessem sido três dias em que se escolheu uma profissão, se conheceram mundos e mundos e se deu sentido a uma vida. Toda aquela tempestade de sentidos me fizera acreditar para sempre na felicidade eterna, em finais felizes e em recomeços divinos. Pensar no que virá e abarcar sempre e cada vez mais conhecimento é a missão daqui para a frente. Eternos insatisfeitos, é aquilo que todos somos, e o sonho em comum a todos nós era o de um dia fazermos o que amamos e o que nos deixa feliz e, ainda assim, chamar-lhe trabalho.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

DE Coimbra PARA Coimbra


8 de Setembro de 2013, foi quando fui “Colocada”
Ainda mal imaginava que por ti iria ser amada
“És a cidade que me viu nascer” e começar com desalento
Perdoa-me por antes não te amar e te associar ao céu cinzento
Era uma adolescente perdida e desligada do mundo
E, agora, toda eu sou feita do teu fado profundo
As lágrimas escorrem-me pela face quando penso em ti
Transformaste-me em fortaleza e, aqui, sei que cresci
“Os sonhos nascem aqui” e aqui são concretizados
É um capítulo da vida onde os estudantes são por ti amados
É um casulo de liberdade onde reina a juventude
Unidos pela batina e uma tradição que nunca desilude
“Deste-me tudo o que tinha para aprender”
E todos os dias deste sentido ao verbo “viver”
Escondes segredos em cada rua e em cada madrugada
Até o mocho do conhecimento escondes na lateral da Torre da Cabra
Tantas cartolas a passar por nós e caloiros a chegar,
És o berço de um futuro que ajudas a criar
És o símbolo do fado e fado simboliza destino
E não é por acaso que o teu canto será sempre o meu hino
Cristalino, genuíno, repleto de verdade e de histórias sem tino
“Mostras-te o que havia para viver”, mais um verso que não mente
Ensinaste-me a lutar e a encarar os problemas de frente
Grito dentro de mim para que não me leves daqui
Trajar dá-me a certeza de que foste um sonho que cumpri
Iluminaste o meu horizonte e sempre me reservaste o melhor
Ensinaste-me a valorizar cada pedaço de lágrima e suor
Guardo um mar de memórias, não sei se é por não beber
Ou se por ter tido a sorte de grandes histórias viver
Sinto-me como Álvaro de Campos, quero estar em todo o lugar
Abarcar todas as tuas ruas e ver todos os dias o teu luar
Quero contar o quanto fui feliz aqui e o quanto significa cada fita
Acolheste com amor cada um que em ti habita
Aquele mar de gente de estudantes com paixão
Que a todos os domingos lá iam na tua direção
Com uma lágrima contida e um coração apertado
Irei relembrar-te pelos teus ensinamentos em formato de fado
E mesmo quando o traje já não me servir
Vou lembrar-me dos belos anos em que aprendi a sorrir
Que um dia os meus filhos te tenham como um desejo fulcral
E te peçam para conhecer na sua carta ao Pai Natal
Que percorram as tuas ruas antigas mas brilhantes
E que um dia te possam chamar rainha dos estudantes
“Deixo agora, nesta hora, promessas de voltar”
Posso dar voltas ao mundo mas serás sempre o meu lar
Ensinaste-me a amar aos poucos a minha chegada
E na hora da despedida irei sentir as mãos cheias de nada
Ensina-me também a abandonar-te sem dor
Se poderei ficar mais um dia até o sol se pôr
Lembra-te que onde as memórias perduram, o espírito sempre acorda
E onde a saudade se implanta, o amor transborda

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Última serenata do curso


Tantos bicos de cegonha que trouxeram estudantes a esta cidade e por ela foram acolhidos com o maior carinho, como se se tratasse de uma mãe comum a todos, de uma rainha que nos acolhe e transforma as mágoas em emoção! A chuva fria batia-me na cara com alegria, como se cada pinga representasse um objetivo cumprido e como se O próprio Deus chorasse pelo meu curso estar a terminar, como se todos chorássemos em harmonia por algo que move centenas de pessoas, motivos e sentimentos. Foi uma serenata chuvosa mas memorável. Tinha comigo as minhas afilhadas, lado a lado, e a minha grande amiga de curso. Afinal, que mais poderia pedir? É um momento em que sentimos que todos estão a torcer por nós, que a vida nos deu uma oportunidade para estar ali e que a nossa luta reforçou todo o caminho que ceifámos. Passa-nos um compacto de momentos na cabeça, momentos com que idealizamos e que sabemos que, efetivamente, vivemos e que estivémos sempre lá nesses sonhos cumpridos. É isso que Coimbra faz, realiza sonhos. Ainda ontem estava a entrar receosa na faculdade, rodeada de doutores e de obstáculos por cumprir, conhecedora apenas do desconhecido e sem saber do orgulho que era trajar e da vitória que era ver o sorriso dos nossos pais nos dias de cortejo e o seu abraço em todas as sextas feiras. E agora ali estava eu, na última serenata do curso, a presenciar o ponto alto da emoção. Ainda vão haver quatro serenatas pela frente, no mestrado, mas a verdade é que a licenciatura vai terminar e só isso já faz rebentar pequenas ondas de saudade, pequenos arrepios do medo de partir. Aquilo que se sente é um misto de tudo aquilo que traduz a vida universitária e que só saberá quem passou por tal. Senti medo e tristeza, senti alegria e compaixão, senti virtude e orgulho, senti Coimbra no meu peito! É tão forte aquilo que une todos os estudantes, cada vulto negro naquela serenata conta uma história, representa uma família de praxe, uma luta interior, representa um objetivo, uma história de amor, um segredo de um grupo de amigos, um hábito que Coimbra lhes trouxe ou representam simplesmente a tradição que se implantou nas suas vidas. E, acima de tudo, cada um de nós, representa um antro de saudade. É isso. Todos retratamos o amor que Coimbra nos deu, e que assim seja por muitos e longos anos para que este espírito vá de geração em geração e esta folia misturada com paixão se dissemine por todas as ruas da cidade e do nosso coração, para sempre. As fitas vão ser escritas em formato de saudade e serão queimadas já com alguma nostalgia. A verdade é que até agora eu queria ver o tempo passar, com aquela sensação de ter o poder de controlar o tempo e poder brincar com os ponteiros do relógio e as folhas do calendário, mas tudo se inverteu e a ânsia de continuar abraçada neste espírito é maior do que tudo! Quero aproveitar cada segundo como se fosse o último por ter a certeza de que no último minuto tudo o que fizer vai rimar com choros de agonia. Transformamo-nos em algo melhor e saímos daqui convertidos em pedaços de fortaleza. Coimbra, conheceste-me como alguém que trazia na cara o medo do começo e a indecisão de continuar, e agora vês na minha cara o medo da partida e o amor de trajar. As lágrimas eram de fragilidade e, as que hoje trago, são de orgulho. Eterno orgulho.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que te leva a "merecer"


Image by Sara

Dizem-me que "eu mereço" ser feliz, que eu mereço isto e aquilo, mas o que faz com que nós mereçamos algo? Termos tido o azar de sermos magoados? Será a pena que deixamos nos outros que nos torna mais merecedores de algo? Parece que sim. Olham para o nosso passado como uma lista de caminhos sofredores que nos tornam dignos de merecer algo melhor. Porquê que o ontem tem tanto peso nos outros como em nós? De facto, nós às vezes pensamos em como foi tudo tão difícil e que não demos valor ao nascer do sol durante dias e dias... mas isso cabe à nossa consciência lembrar-nos. Aquilo que queremos ouvir é que merecemos algo bonito porque tornamos a vida dos outros mais risonha, porque uma pessoa respeitadora ao nosso lado é tudo aquilo que nos falta para sermos completos, ou simplesmente porque não há contos de fada sem príncipe. Até podia não concordar, mas iria saber bem ouvir que mereço algo por mim própria, e não pelas infelicidades que os outros me criaram. Quero que os meus atos sejam o reflexo daquilo que mereço, que os meus abraços sejam cada vez mais genuínos sem que isso implique que eu seja todos os dias abraçada, que o meu caráter seja mais firme de dia para dia sem que isso implique vencer nas discussões, que o meu sorriso seja reluzente mesmo sem poemas de amor todas as manhãs, que eu seja uma prova de força e inspiração pelo positivismo com que encaro os desafios. E se tudo continuar a apontar para o passado, vou gritar bem alto que os meus ensinamentos não vieram apenas da dor, mas vieram também dos meus pais e da educação que me mantém de pé todos os dias. Quero meramente que me olhem como se eu tivesse nascido hoje, como se apenas o presente existisse e nenhum rasto me definisse. Mas sim, não digo que não tenha saudades. Sou humana e um humano é feito de saudade. Saudades de sentir que sou ouvida, de sentir que um abraço meu é visto como um porto seguro, que as minhas palavras contribuem para melhorar as perspetivas da vida de alguém, que o simples facto de eu existir é fundamental para que outra pessoa exista também e acorde feliz por esse facto tão simples e banal. Tenho saudades de ver as constelações e de saber que alguém poderá imaginar desenhos diferentes no céu, tenho saudades de ver o mar e de porventura imaginar que a força das suas ondas é uma metáfora real da força entre duas mãos que se apertam, tenho saudades de andar na rua à noite e sentir-me rodeada de uma segurança transcendente, tenho saudades de pronunciar afirmações que muitos teriam medo de dizer alto, tenho saudades de correr sem meta só porque a euforia assim o diz, tenho saudades de sonhar acordada e de sentir que faço parte de uma história de um livro bonito, tenho saudades de sentir à flor da pele tudo aquilo que me envolve, tenho saudades de conseguir confiar nos outros sem questionar, tenho saudades de mostrar tudo aquilo que eu sou e orgulhar-me disso, tenho saudades de desabafar verdadeiramente sobre tudo o que me sufoca e tudo o que trago cá dentro e que nem sempre é despoletado, tenho saudades de me sentir única e diferente, tenho saudades de ser mais vulnerável e sentimental. Mas, efetivamente, se antes soubesse da garra que passaria a ter agora, iria também proclamar por isso. Pela pitada de frieza, pela racionalidade, pela maturidade, era isso que faltava e que agora transborda. Deixei de esperar por alguém que venha mudar a minha vida. Deixei de exigir porque, afinal, eu mereço algo que surja apenas por obra do destino, sem que isso implique esforço da minha parte, gastos contínuos de energia e desvalorização de mim própria e da vida. Amar não precisa de ser um esgotamento. Gostava que algo perfeito surgisse, algo bem delineado, como se fosse uma receita que o destino criou apenas para mim. Essa seria a forma de eu voltar a acreditar. Mas para já, prefiro mudar eu mesma a minha vida. Prefiro dar o sentido aos meus passos, sem que eles fiquem parados numa estação à espera de alguém ou que fiquem sufocados em areias movediças, que nos dão a sensação ilusória de estar a andar, mas a sensação intragável de nunca sair do lugar. Quero merecer algo pela garra que tenho e pela pessoa que sou. Mereço tudo aquilo que for fiel à minha pessoa, tudo aquilo que me acrescentar e me tornar numa pessoa melhor. O que me trouxe aqui não sei, mas sei que o que me motiva é muito forte. O que me motiva chama-se vida e é o sangue que corre nas veias e nos faz acreditar que somos especiais e que "merecemos" algo.

domingo, 6 de março de 2016

Firelight ♥

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A sensação de subir as escadas era diferente. Sentia o tacto de forma mais profunda no corrimão, o som dos meus pés era mais intenso, o próprio cheiro do ambiente não condizia com a vulgaridade daquela rotina. A maciez do cobertor de todas as noites era, agora, mais intensa, as teclas do computador tinham relevos perfeitamente desenhados, o toque do cabelo na cara era algo tão suave e tranquilizante, a espuma da praia era algo tão mágico e digno de ser sentido. Os poros tinham mais sensibilidade. A planta dos pés contava novas histórias. O toque na maçaneta era diferente, era mais firme, mais único. Cada olhar pela janela era algo novo que se acrescentava ao viver. A maneira como as cores surgiam com a inclinação do olhar e como o verde das árvores dançava ao ritmo do vento, até que esse vento das montanhas chegasse até mim e resfriasse as minhas orelhas. A forma paciente com que ouvia o som dos camiões nos paralelos ou sentia o frio da fresta da janela que ficara aberta, eram provas de paz. O calor dos ninhos era a incessante chegada de espíritos voadores, o último farol a ser apagado era o segredo de todos aqueles que não se esquecem dos últimos a chegar, os detalhes das nuvens eram harmoniosos com a força das almas, os búzios perdidos eram a delicada amostragem das esculturas de Deus, os raios de sol eram como fatias de calor entregues com carinho e saudação, as pétalas das flores a esbugalhar-se nas minhas mãos eram resíduos puros de perfumes oriundos da Mãe Natureza, as tartarugas a dar à costa eram a prova real e sensata de que são os instintos a mover a vida, o som moribundo dos sinos a tocar a mostrar-nos a força inabalável que nos leva a assistir a mais um amanhecer, a almofada gentil que desde sempre segurou os nossos sonhos, o calor dos nossos pés em harmonia com a circulação do nosso sangue. Todos os dias a vida nos mostra como a paz pode domar o nosso estado de espírito. Somos batalhões treinados, quadrilhas obedientes, tripulações que não pestanejam. Somos fracos por dentro e não condizemos com o que vestimos ou a vida que levamos, com as bebidas energéticas que bebemos ou com os olhos esfumados que usamos. Somos irreverentes por fora e conformistas por dentro. Mas é preciso dar valor! Agarrar as coisas simples que nos são entregues todos os dias da nossa vida e acreditar piamente que elas nos trazem o equilíbrio de que precisamos. Descobri que a paz é muito mais do que tudo o que julgamos que ela seja, porque quanto menos a soubermos explicar, mais a sentimos. Objectivamente, a paz não é aquela pomba branca a pousar na Arca de Noé com um ramo de oliveira no bico, mas encaremo-la como tal. Encaremos a paz não como um golpe de sorte, mas como algo que esteve sempre à nossa espera, como a terra tão desejada por Noé e que inevitavelmente iria aparecer, com ou sem pomba. Encaremos a paz como a fé em chegar à terra prometida, porque é essa fé a essência de que precisamos para acreditar. Sejamos nós próprios a pomba que sempre soube que existia um pedaço de terra para nós pisarmos, um pedaço de sonho a ser concretizado por nós. E sejamos essa pomba não apenas por saber que a paz sempre nos espera, mas por querermos disseminar essa dádiva como aquela pomba o fez. Transmitir boas energias e tornar invasiva a ideia de todos a podem alcançar. A paz é uma máxima! Procura-la, encontra-la e transmite-a.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Ser Universitário


Bem, ser universitário é muito mais do que a palavra o dita. É muito mais do que trajar nas noites académicas, do que trocar de casa aos fins de semana, muito mais do que trocar livros por fotocópias ou apanhar transportes públicos, muito mais do que comer atum e chorar nas serenatas. É importante que se encontre os amigos certos, o espírito certo e o curso que julgamos certo para nós. E vais perceber que, às vezes, mesmo com estes requisitos preenchidos te vais sentir triste e incompreendido. É o que tipicamente acontece no primeiro ano e é legítimo que tudo nos assuste. Mas lembra-te que não é por estares na universidade que as coisas estão a correr mal. Se algo corre mal é porque tinha de correr, e correrá em qualquer parte do mundo! Vais perceber que às vezes nem o melhor de ti é o suficiente. Podes esfolar-te a estudar que não vais conseguir aquele 10 que tanto desejas. Podes ser a melhor versão de ti perante os teus amigos, que por vezes te vais sentir ignorada. Podes sair de casa num domingo à noite cheia de garra e confiança e chegas a segunda de manhã com vontade de desistir de tudo. Podes ir a todas as praxes e cumprir todas as presenças, que não é por isso que vais ser mais acolhido do que os outros. Podes ir a todas as festas para que te sintas presente na vida académica, mas se não fores por vontade própria, a tua presença pouco vai importar. Mas pensa positivo! Ergue a cabeça, sai de casa sozinho e valoriza-te! Aprecia a solidão dos teus passos, a tua força interior para enfrentares a época de exames, aprecia a tua maneira de ser e dá-te a conhecer, aprecia o orgulho de andar na faculdade, aprecia a tua personalidade e respeita-la não indo aos eventos onde tu sinceramente não queres estar e só vais prestar aparências, aprecia um bom café com os amigos ao fim da tarde, aprecia a euforia dos outros ao ver o preço dos shot´s, aprecia os recantos snobs onde se ouve música ao vivo, aprecias as frases escritas nas paredes das ruas mais antigas, aprecia os teus jantares de curso, o teu traje feito à medida, aprecia o teu nome na lista de presenças, aprecia a tua maquilhagem feita à pressa nas manhãs em que nenhum minuto rende, aprecia as chamadas dos teus pais, o email do amigo distante ou a foto do teu cão, aprecia a tua idade e as tuas pequenas vitórias, aprecia o choro das serenatas, porque é ele a mais pura afirmação dos mágicos segredos da universidade, aprecia os batismos, o chão colante de cerveja e os cantares académicos, aprecia a euforia dos cortejos, os cabelos lastimáveis e as meias rotas, aprecia os rostos dos pais babados, o frete das avós e a diversão dos irmãos mais novos, aprecia as cores das fitas, as cartolas e os fatos dos caloiros, aprecia as multidões com um sonho em comum a ti e com sorrisos fiéis à juventude. A universidade resume-se a apreciar a vida e a colher dela os frutos do nosso mérito. Podes não te identificar com muita coisa, e que mal isso tem? Afinal, tens personalidade própria e podes odiar praxes ou nunca te divertires com uma saída à noite. O segredo está em construir um equilíbrio e fazer o que adoramos e suportar o que não gostamos. Devemos aprender a apreciar mesmo aquilo que não encaixa connosco, isso é uma capacidade que serve para a universidade e para cada dia das nossas vidas. Se existe uma saída de curso, então vamos lá! Podes não te sentir verdadeiramente confortável, mas a verdade é que só se nunca saíssemos da cama é que estaríamos realmente confortáveis. Se está a ser secante, vens embora, e trazes contigo a tua dignidade. O importante é que valorizes a importância de certas tradições, que entres no espírito, que mostres que és capaz de mudar os teus planos para estar presente e que o teu conformismo e caseirice são perfeitamente ultrapassáveis. Apesar de às vezes termos de ir contra os nossos instintos, é importante não nos mostrarmos anti-sociais, porque uma pequena atenção faz toda a diferença. Se o teu problema não for sair nem socializar, ótimo, só precisas de manter a tua sanidade mental, o que às vezes também se poderá tornar num desafio. Não te iludas demasiado com as queimas e as latadas, diverte-te e vive o momento, claro, mas combina com as pessoas que valem a pena e com quem sabes que te vais divertir à brava e ao mesmo tempo estarem todos sóbrios, porque para mim a maior e melhor diversão é aquela que perdura na memória e que não fica afogada em garrafas de cerveja. Estipula os dias a viver essa liberdade e depois, caso tenhas muito que estudar, faz-te à vida, faz as malas, apanha um autocarro e vem para casa. Não te rendas àquela euforia de que no dia a seguir já ninguém se lembra. No que toca a amizades, acho tudo muito melhor e mais natural. Deixa de haver uma proximidade entre alunos que se baseia no facto de terem pais que são amigos ou de determinada pessoa ser discriminada e que, por isso, a temos de acolher. Deixa de existir aquele relacionamento mais próximo e pessoal entre as pessoas e o local de ensino deixa de ser uma espécie de família alargada. Acho isso ótimo! Faz-nos pensar que estamos todos em pé de igualdade e faz parecer que existe mais justiça, porque começamos todos com os mesmos medos, perguntas e receios. Se nos damos com alguém é meramente por afinidade, por isso é que grandes amizades se criam por esta altura. Além disso, não conhecer ninguém à nossa volta é um passo para a nossa independência. Olha sempre para o teu novo lugar como uma dádiva e nunca como uma injustiça ou frete. Tudo te pode correr mal, mas aprende a aceitar a situação em que estás e lembra-te que a vida nunca foi fácil, em momento algum. Não penses que a Universidade é só farra, porque não é, de modo nenhum. É uma altura da tua vida em que tens tudo doseado e percebes que existe tempo para tudo. Tanto tens a euforia onde as ruas se enchem nas madrugadas como tens a cidade deserta com estudantes a estudar e que só saem de casa para ir ao supermercado. A farra é boa, mas o estudo também é intensivo. É totalmente proporcional. Sê sempre humilde e não faças frente a ninguém. Lembra-te que ninguém se interessa pelas tuas origens ou pela fama que tinhas na secundária. A faculdade é um recomeço. Constróis uma nova reputação, novos círculos de amigos, novos hábitos, novos horizontes... E nada disto custa se fores sempre fiel a ti próprio! Lembra-te que o segredo é saber apreciar, porque mesmo que algo não faça sentido tens de sorrir e levar cada lembrança no teu coração. E a verdade é que, inconscientemente, vais levar para toda a vida várias lições e modos de encarar as dificuldades que só a cidade universitária te proporcionará. Por outro lado, há coisas que não vão mudar. Vais continuar a ouvir das pessoas que vão chumbar e depois quase rebentam com a escala, vão continuar a haver aqueles que têm acesso aos testes e não te dizem nada e uma minoria em quem poderás confiar e acreditar que estão realmente no mesmo barco que tu. Vais passar por momentos de força e fraqueza, de felicidade e desilusão, vai ser uma completa montanha russa. Depois, no fim do curso, olharás para trás e verás uma pessoa insignificante e imatura, que és tu quando chegaste, e terás orgulho daquilo que conquistas-te e o quanto cresces-te.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Voltar a ser criança



O dever de uma criança passa por respirar euforicamente, viver a vida intensamente e saber que tal é feito pela força intrínseca e inexplicável a residir dentro de nós. Eu era uma simples criança com a sensação de dever cumprido. Sempre estive no caminho certo, que era o caminho que me exigia força e ritmo de vida, um caminho que me levava ao limite! O limite da felicidade. Da ambição. Do sonho. É isso que torna uma criança tão especial, porque cada uma contempla em si a magia da resolução de todos os problemas que todo o mundo insiste em resolver e não consegue. A alma de criança é a cura que todos ansiamos. A vida tinha um sentido imenso, porque eu fazia dela a palma da minha mão. Cada traço bem delineado nas minhas convicções era mais um rasgo fundo a ser desenhado nas minhas mãos. Pulava com a força dos meus sonhos e sentia as nuvens a encher-me o peito. Não pela atmosfera repleta de gases, que mal eu imaginava existir, mas pela inexperiência de conduzir os meus próprios sonhos. Por me sentir sôfrega por possuir o mundo dentro de mim. Franzina e com asas nos pés, era assim que me definia. Mal eu esperava que a vida me iria trazer tantas quedas, tantas mágoas não correspondidas, tantos pedidos de ajuda que se resumiam ao meu eco ao fundo de uma igreja, tantos psicólogos dentro de mim sem saber o que dizer, tanta dor que chegara às minhas portas e que certamente se enganara na morada. Mas o meu instinto foi voltar a ser criança. Voltar a amar-me. Voltar a assumir as rédeas de tudo aquilo que poderia gerar a minha felicidade, de tudo aquilo que dependia de mim. Foi então que retomei a minha caminhada e provei da minha própria força. Virei-me para a beleza da vida e foi aí que percebi que a alma de criança perdura sempre. Que a minha caminhada deixou de ser um antro de resistência ou um objetivo de reabilitação. A autenticidade das flores dos canteiros, os seus aromas genuínos, os raios de sol virgens a domar o meu sorriso ao acordar, o chilrear dos primeiros aventureiros do dia a espreitar pela fresta de sol, a brisa com textura de penas a lavar-me a cara, o sabor flutuante do almoço na panela a invadir a minha almofada... Tudo me dizia que eu era alguém especial. Que algo esperava por mim. Que a aventura estava à minha espera na próxima esquina e que a alegria estava à distância dos meus braços. Deixei de ser aquela pessoa que vê a sua fragilidade como algo que pode ser elogiado pelos outros, porque a fragilidade deixou de existir ou porque simplesmente deixei de viver de elogios. É a minha auto-estima que devo cultivar, a minha confiança que me deve dar ímpeto, é a luta pelos meus objetivos que deve dar sentido à minha vida. E a minha vida passou a ter sentido. Eu dei-lhe o meu próprio sentido. E se me perguntam, "estás sozinha?", eu respondo "não, tenho a minha dignidade sempre comigo".

sábado, 9 de janeiro de 2016

Civilizar emoções

Somos metrópoles da amnésia com meros passos ritmados 
Mas não passamos de uma multidão de carros blindados
Esquecemo-nos de nós próprios, nas nossas vidas paralelas
Vamos acabar por ver as estrelas apenas das nossas janelas
É o degelo das calotes e o congelar dos corações
São estalos entre o gelo e vidas entregues a leilões
Sociedade que sai de casa e enfrenta a maior das tempestades
Mas a frieza do coração é algo que não escolhe idades
Sociedade que cumpre horas extra e depende do café
Mas não é a confiança que nos sustenta de pé
Sociedade domada pelas ruas da cidade
Onde cumprimos deveres e devemos tudo à liberdade
Aquilo que se carrega é ilusão mascarada de dor
Não deixemos que truques de circo envenenem o nosso amor
Aquilo que nos define é beleza mascarada de banalidade
Não permitamos que essências raras sejam entregues à crueldade
Achamos que águas diluem mágoas e que sorrisos atraem esperança
Não nos entreguemos aos galanteios de quem nos pede uma dança
Achamos que perseguir um sonho é sempre algo fidedigno
Mas entendamos que há pessoas com o apelido de maligno
Julgamos que a nossa vida se desenrola ao sabor de uma balada
Mas não nos agarremos a penhascos quando já houve derrocada
Queremos abarcar a percentagem de sorte de um malmequer
Mas que nunca nos tirem a pureza de ser mulher
Sejamos crentes racionais que saibam lutar e abraçar
Capazes de virar as costas, mas se valer a pena, brindar
Se a vida está uma porcaria passa a chamá-la de sonho
E se todos te desiludem, adota um presente risonho
Sorri para as flores e colhe sempre as mais belas
Que a sua essência aromática seja aquela que tu revelas
Será que o que fazes pelos outros é o que por ti farão?
E na hora da tua queda é por ti que correrão?
Será que merecerão o encanto que tu lhes dás?
E o caminho que, pelos outros, tu sempre percorrerás?
Merecerão a paz que encontras em ti para lhes poder oferecer?
Ou assumerás o papel em que terás de ser tu a ceder?
Tudo o que reproduzimos é aquilo que recebemos
E o motivo de ação é aquilo por quem vivemos
Mas às vezes não é bem assim, e brotam lágrimas erradas
Porque o motivo pelo qual choras não era o que tu esperavas
Aprendi que quando nos queimam os sonhos temos de criar novos trajetos
Forçadamente ou não, temos de torná-los lúcidos e concretos
Às vezes aquilo que move as pessoas não se chama de amor
É como escrever um livro e descobrir mais um leitor
É como uma promessa vestida de vaidade
Ou como uma espécie de carência em formato de saudade
É como um cordial contrato que se faz por castidade
Ou como um conceito demente e isento de verdade
Somos muitos mais do que o nosso apelido
Muito mais do que o nosso jardim florido
Somos muito mais do que os nossos dias tristonhos
Muito mais do que a interpretação dos nossos sonhos
Somos de carne e osso e de cidades ditas civilizadas
Por isso, civilizemos o amor em vez de o ver apenas em contos de fadas