sábado, 29 de novembro de 2014

Escalar à sombra


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Escalamos tantas montanhas na vida, lutamos tanto para pisar o topo, para ver o horizonte com que sempre sonhámos, esfolamo-nos como se, por momentos, despíssemos a racionalidade que há nas leis da vida, tudo para nos depararmos com o pôr do sol da nossa ignorância. E aí, vamos traçar o cubo de gelo em que sempre vivemos. Mas vai ser tarde demais. As rugas já vão estar a ganhar espaço na nossa vida. E quando pressentirmos ter espasmos que nos trazem a realidade de volta é quando nos irão faltar as forças, o sorriso rasgado e os olhos límpidos, porque fomos cegos uma vida inteira. Cegos à nascença e agarrados a uma bengala na morte. Todas as crenças que seguimos enquanto agarrávamos os pedaços de terra do lado obscuro da montanha, onde nunca vimos o sol a brilhar, fizeram-nos encaixar aos poucos a nossa confiança, mas para quê, se quando nos apercebermos totalmente disso ela se desmorona como a terra que cobrirá o nosso caixão? Construímos, durante a vida, um castelo de frustrações que, no fundo, é a nossa aprendizagem, a nossa verdadeira essência, para depois deixarmos pegadas naquela terra coberta por ventos áridos e o castelo se destruir. Vivemos de asas imaginárias e quando percebemos que cada pena é uma ilusão, as asas são cortadas. A lucidez corta as asas fictícias e a morte corta as asas que queremos possuir, as reais e palpáveis. Terá de existir a meta, porque o corpo deixará de existir. E o pior é que mesmo no pico da montanha, mesmo depois do sol nos ter desvendado que vivemos na ignorância, que no fundo só respirámos tanto tempo para nos apercebermos daquilo que perdemos, é quando ainda questionamos o que é a verdadeira realidade. Será sermos ignorantes sorridentes ou sofredores racionais? São precisos ecos traumáticos, lágrimas por arrastamento, conformismos sucessivos, para que se abra uma porta para o respeito, para o orgulho. São precisas vidas inteiras para uma mente se preparar para o nascer da vida certa, no momento certo, com o coração certo. Uma vida é apenas o aquecimento para o fortalecimento da nossa alma. São estritamente necessários anos e anos de sobrevivência para um dia realmente vivermos. São necessárias colinas infinitas até que deixemos de viver no mistério, a terra se abata, o sol brilhe, as montanhas dêem lugar a planícies sustentadas pelo respeito por nós próprios e nunca cheguemos ao pôr do sol da nossa ignorância, por nunca o termos sido. É urgente vivermos em comunhão com as nossas faculdades, com a frieza das despedidas, com a injustiça da distância mas, no fundo, nunca estaremos preparados. A nossa pele não é forte ao ponto de recalcar o amor. E o coração muito menos. É por isso que vivermos na escuridão é o percurso natural das coisas. Existem, pois, motivos que transcendem a nossa existência na terra. Podem ser pouco inteligentes, mas talvez valham a pena... Será, suficiente, a vida que levamos?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Um espírito novo


A mesma cidade e o mesmo céu, no entanto, um espírito totalmente diferente! O primeiro ano foi o choque que foi, mas em toda a desgraça existe uma aprendizagem. Tentei entrar para Psicologia, fiquei devastada por não o conseguir, precisei de ombros para chorar durante semanas, mas o destino forçou-me a perseguir Farmácia. E agora que penso, sinto-me bem, sinto-me acolhida e pronta a acolher os outros, e não, não foi conformismo da minha parte, foi evolução e amadurecimento. Em toda a parte do mundo existem coisas boas e más, coisas que faremos com gosto e outras que faremos por frete, mas afinal todos gostamos de adormecer a ver um bom filme mas detestamos acordar ao som do despertador. A vida é assim mesmo, quando acordamos no início da luta tudo parece ser impossível e com demasiados obstáculos para uma pessoa só, no fundo a realidade torna-se sombria, mas quando domamos o sossego antes de dormir, atingimos a estabilidade que foi fruto do nosso dia, da vida pela qual lutámos, agarramos o equilíbrio de ter uma família e uma profissão e, finalmente, aprendemos a dar valor aos sacrifícios que outrora fizemos. Tudo para estarmos naquele momento a ver o nosso filme favorito no conforto da nossa meta alcançada. É por tudo isto que, no cenário universitário, à que saber levar a motivação das cadeiras que gostamos para as que gostamos menos. Não haverá orgulho maior em ter bons resultados até no que não gostamos e que antes repelíamos? De que serve ficar a dormir e a ver o nosso futuro a correr-nos pelas mãos? Como queremos que a esperança seja a última a morrer se matamos os nossos objetivos todos os dias? Porque não lutar se isso apenas depender de algum esforço da nossa parte? Porque não afirmar a nossa luta em cada salto que dermos da cama todas as manhãs? Podemos envolvermo-nos em futuros alheios, podemos cruzar sonhos e perspetivas de vida, delinear projetos e tomar decisões, mas o nosso futuro, esse é só nosso, somos apenas nós que o temos de agarrar, porque não há ninguém que o faça por nós. 
A verdade é que tudo começou com a mudança de casa, esse foi o grande passo no começo do ano! Fi-lo pela partilha de quarto, pela pouca privacidade, pelo próprio ambiente, pela senhoria, por todas as razões e mais algumas. Quando chegava a casa tinha uma amiga fantástica com quem desabafar à minha espera, tinha sempre os seus conselhos mesmo após dias difíceis, tinha aquele pedaço de lar e que me transmitia segurança todos os dias. Mas estudar torna-se complicado para quem decora a falar alto e os fones nunca minimizaram esses problemas! Quando chegava a casa mais tarde tinha de andar em pézinhos de lã e com o máximo de cuidado. Acabava por nunca sair para me divertir e ficava a remoer as saudades, tal como já descrevi aqui no blog. Dias e dias assim levaram-me a um estado quase depressivo! Agora não! Somos 8 raparigas e apesar de haver dias que não me apetece comer com outras pessoas à mesa e não quero simplesmente socializar, acabo sempre por o fazer e por fazer bem a mim mesma, porque qualquer conversa termina em sorrisos! Apesar de muitas, a casa é sossegada e todos respeitam o espaço dos outros. Adoro a mansão e, acima de tudo, as amigas que já lá fiz. São pessoas que me compreendem e que também desabafam comigo as suas histórias. Tem sido uma aventura. Estudar tornou-se num hábito diário e mesmo quando não tenho avaliações trato de adiantar trabalho. A motivação cresceu e estudar tornou-se uma terapia. Estudo não só para esquecer problemas, mas porque o ano passado deu-me forças para lutar. Talvez estivesse a precisar de um ano de repouso, já que o secundário foi muito intenso! Mas, de facto, antes os problemas serviam para eu adotar uma atitude derrotista e usava-os como uma capa de solidão, agora posso orgulhar-me que tenho o espírito certo e que uma simples tarde de estudo consegue fazer-me esquecer das coisas menos boas. 
Dito isto, as viagens para Coimbra deixaram de ser dramáticas, são apenas tristes, mas são mais uma experiência de vida e são mais um caminho que temos de percorrer para concluir o maior caminho de todos, a Licenciatura. Às vezes é bom distanciarmo-nos um pouco dos pais e crescermos sozinhos, deixarmos os contos de fadas e criarmos os contos do futuro, porque sabermos lutar sozinhos por alguma coisa na vida é uma dádiva que só o desprendimento do nosso lar nos possibilita. Agora sabe bem ir a caminho da faculdade, em plena cidade, todas as manhãs, com o espírito certo e um sorriso com as devidas proporções. É positivo saber que mesmo que alguma coisa não corra como o previsto, sabemos que demos tudo, que planeamos e agimos para que as coisas corressem bem.
Lembrem-se que cada um de nós tem todos os poderes reunidos em si mesmo para enfrentar a vida e, por isso mesmo, não desistam, porque um ano mau pode ser o trampolim para mil anos de sucesso. Qualquer um pode ser a prova disso, tu és a prova disso!