domingo, 27 de julho de 2014

Primeira aula de condução


Estreei-me logo com duas aulas de condução no primeiro dia! A curiosidade era grande, bem como o entusiasmo de pular para a vida independente. Entrei no carro e tudo me era novo, como se estar naquele lugar de relevo fosse algo de errado. Mas logo ouvi as primeiras explicações com atenção e lancei-me à estrada, ou vá, eu e o instrutor. Sim, porque a dependência dele era obviamente enorme. Nessa aula, a adrenalina e o sentimento de novidade sobrepuseram-se ao medo e ao nervosismo, de modo que foi uma aula positiva. A questão é que isso me levou a falsas expectativas e as aulas posteriores foram de mal a pior. Ainda não passei das 5 aulas, tenho ainda muito que aprender e há margem de manobra para a minha experiência crescer progressivamente. Eu a pensar positivo! A verdade é que a tensão apodera-se de mim e só acabo por ter o volante e a manete das mudanças para agarrar com força, procedimento não muito amigo das curvas e da descontração. Além disso, acho indecente o pé direito não ter sítio para descansar e o esquerdo ter uma rampa particular só para ele, e depois lá vou eu descansar o pé no acelerador, o que me deixa assustadíssima, porque os movimentos se tornam bruscos ou simplesmente porque a mudança não se adequa àquela velocidade, mas em algumas aulas foi mais forte que eu! Já fiz uma inversão de marcha e boa, não fui contra o passeio! Ainda me confundo bastante com tudo o que é preciso fazer antes de uma marcha-atrás ou uma manobra complicada. No fundo, penso demais em todos os passos que vou dar e depois só tenho o carro preparado para entrar numa rotunda quando já estou em cima dela. Mas caramba, são mil e um procedimentos e quando se vêm carros a passar muito perto às vezes acabo por bloquear. A desculpa tem sido "estás nas primeiras aulas, é normal", de modo que é urgente haver uma evolução porque depois passamos da desculpa típica para a humilhação desmotivadora, "talvez não tenhas mesmo queda para a condução". Mas vá, pensar sempre positivo! Isto afinal é um pequeno passo para o mundo, mas um grande passo para o ambiente das estradas em que vou circular. Por isso não vos digo que não pratiquem isto em casa, mas definitivamente não comecem por praticar sozinhos. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Tu e a minha janela

Love.

Foi a indecisão a marcar a partida, foi o medo a decidir a meta. Mas avanças-te com um sorriso escondido, daqueles sorrisos que ficam na ombreira da porta até chegar um vento alheio que o faça escorregar e apresentar-se ao mundo. Havia naturalidade, curiosidade e tudo o que rimasse com verdade. Cada passo era uma descoberta e uma expectativa, era como uma gota fresca a cair num galho seco. Quis mostrar-te o mundo, colher-te uma estrela como um jardineiro colhe o fruto mais apetecido, aquele fruto que ele viu crescer pela janela, que viu respirar sempre que lhe remexia a terra. Quis dirigir os ventos e tornar-te no papagaio do céu do meu quarto, mas o que fiz foi abrir a porta do meu coração e mostrar-te a minha essência, levar-te ao local onde as minhas emoções, sentimentos, desilusões e memórias se compactam. E isso bastou-me para ser feliz, para viver até ali e receber o teu beijo ao mesmo tempo que sentia o vento a tornar-nos livres. Foi esse beijo à janela que concretizou todos os meus devaneios de infância. Olhar em vão e apenas querer perder-me nos teus olhos, e poder fazê-lo porque estavas ali em carne e osso, fez-me, por momentos, acreditar em duendes e unicórnios. Antes, eu era uma criança naquele ninho inocente e, se adivinhasse que no futuro tu irias estar ali, na ombreira dos meus pensamentos, no horizonte da minha preguiça, no regaço dos meus sonhos, eu iria a correr para a rua a anunciar que tinha o dom de acolher anjos! Seria a criança que queria crescer depressa, que sonhava com o futuro, que pulava nas nuvens com força para que o paraíso descesse à terra. Seria a criança que vivia na ansiedade de ver alguém perfeito a ver a mesma paisagem que eu. E agora estavas ali! Sim, eu sentia o teu braço a empurrar o meu, porque nenhuma janela é suficientemente grande para o nosso amor, e ainda bem que não. No fundo, aquele espaço sempre fora a bíblia de ti convertida em eco durante anos. Ver-te ali foi mágico e, agora, a amnésia da infância seria cruel, sabendo que tu és o meu fóssil e o nosso amor é âmbar. Fora daquela janela a rotina olhava-nos, os preconceitos rugiam, os carros espelhavam a monotonia dos olhares alheios, todos pareciam ter rugas a mais do que nós. E sabes porquê? Porque este é um dos meus humildes sonhos que já concretizei contigo, ver-mos as montanhas do lado de dentro da janela do sítio onde cresci e me apaixonei por ti, onde acordei e adormeci contigo na presença da minha imaginação. E agora sim, posso dizer que sobrevoas o céu do meu quarto e até o papel de parede fizes-te sorrir!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Primeiro ano universitário


Bem, foi mais um ano que passou, mas não foi um ano qualquer. Foi atribulado e sofredor, lento e dramático. E não, não estou a ser pessimista, simplesmente posso dizer que nem me senti eu própria, que não soube como agir em situações que antes nem sequer pestanejava, mas a universidade assusta qualquer um. Nem a pessoa mais capaz se sente com estofo no meio daquelas constantes todas. Já muito se falou aqui no blog, mas de uma forma resumida posso dizer que, no fundo, as amizades que considero que valeram a pena foi a melhor coisa que restou. Nada mais considero que tenha sido espetacular... As praxes e todo o enredo que já abordei, na minha opinião, deviam acabar, porque só deitam mais abaixo uma pessoa, o facto de ser tudo novo para nós, desde a cidade à nossa almofada, o chegarmos a casa e não termos a nossa mãe a chamar-nos a ir para a mesa e a dizer que fez a nossa comida favorita, as pessoas que se aproximam de nós e no dia seguinte nos vêm como sombras, os telefonemas diários que sabem sempre a pouco, tudo isso mexe connosco, mesmo parecendo que não. Mesmo os momentos de abandonarmos a cidade e irmos de férias me faziam sofrer por antecipação, porque só pensava que ia ser tudo passageiro e que daqui a nada tinha de apanhar novamente o expresso, ir de noite a ouvir músicas melancólicas e a esconder as lágrimas. A minha mãe sempre me disse o ano todo que eu era uma exagerada e que precisava de crescer, mas então porque me mandam para uma cidade sozinha se ainda não cresci? Ela não entende, nunca ninguém vai entender... E ela lá reforçava que no tempo dela o quarto e a cozinha eram na mesma divisão e que a mesma casa de banho era dividida por dez pessoas, mas eu tenho alguma coisa haver com o que se passou à cinquenta anos? Será que era por eu adormecer com o cheiro a comida nos lençóis que ia ter menos saudades? Que por passar horas na fila da casa de banho ia esquecer a distância? Óbvio que não! As saudades para mim pesam tanto como se tivesse um mundo de pedra à costas, o querer estar perto de alguém e não conseguir é dos sentimentos mais terríveis, porque é humanamente impossível voar ou encurtar estradas com o pensamento, é totalmente ridículo pedir ao vento que se transforme na respiração de alguém. É claro que quando a rotina se instalou a minha capacidade para pensar positivo foi maior, afinal limitava-me a fazer o trajeto casa-escola e como ia sozinha podia ir por percursos mais longos para poder pensar na vida mais tempo. No fundo, isso era bom, porque não tinha a minha mãe a ligar-me super preocupada, é claro que qualquer adolescente gosta de um pouco de liberdade. Mas também se não estivesse tão longe de casa nem sequer tinha necessidade de pensar na vida, de refletir sobre o aqui e o agora, não me sentia obrigada a olhar para o céu, forçada a pedir paz. A minha vida prende-se totalmente às minhas origens, mas qualquer pessoa que não sinta uma relação excessivamente próxima com o lugar da sua infância eu aconselho a aproveitar ao máximo as novas amizades, a liberdade com prudência, os cenários novos que vemos ao ir para a escola todos os dias, as novas crenças, novas formas de pensar e preservar a mente, é sempre interessante fazer uma viagem prolongada, mas é apenas para quem não se importe que a sua vida vire do avesso. Porque acima de tudo, é preciso coragem!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Garras de Leão



Ainda à pouco nasceras e já estás capturado. A tua cerca nada te fala acerca de liberdade. Estás aí por possuíres o potencial de um dom e, aos olhos de quem te massacra, vais ter um futuro risonho. Tão antitético! Na verdade, há vozes que chamam por ti, existem ecos anónimos que insistem em agarrar-te, sobrevoa-te a vontade de concluir um sonho, mas primeiro, a coragem é a mãe de qualquer começo. Moram psicoses mascaradas nos teus estímulos, habitam diabos com vozes urgentes em cada neurónio teu e em cada canto dás de caras com a tua consciência. É pelo teu sofrimento existir que existem lágrimas enterradas em cais esquecidos, que existem suspiros alojados à portas dos tribunais, que existem cartas de amor levadas pelo vento, que existem peixes mortos no fundo do mar que escorregaram da rede e nem para comer serviram! É por tu estares aí que existiu o fim de Romeu e Julieta. Flutuam escolhas na tua mente tão corrosivas como o dia em que foste levado, tão cruéis como alguém receber o sangue errado. Foste mais um fantoche da pressão moral e agora a esperança tem de ser arrancada a ferros. Vejo-te a crescer por entre saltos, sejam das competições da vida sejam das tentativas de fuga, até que te encontro no topo da cerca, a um passo de veres o sol, a um passo de seres livre. O teu sangue escorre e preenche as marcas profundas que deixas-te na madeira, os teus olhos refletem coragem e respiras, agora, natureza, que é tudo o que faz parte de ti. É pela tua determinação existir que qualquer cais é o porto de abrigo de um pescador, que em qualquer tribunal se luta pela verdade e pela justiça, que por cada carta de amor existe uma vida que faz sentido, que tantos peixes se unem contra a força elétrica que levanta as redes! É por tu estares aí que existem flores na Primavera. É por tu estares aí que a Terra nunca saiu de órbita. E não precisas de te vangloriar, porque o sangue seco que tomou a forma do teu sofrimento vai ser o fóssil da tua ambição. Contigo levas as garras mais afiadas do que nunca e a sensação de que o medo e o sofrimento te fez subir um patamar na vida. Agora já posso chamar-te de leão e mostrar-te as garras que me surgiram após esta longa metáfora. Porque o que não mata torna-nos mais fortes.

sábado, 5 de julho de 2014

Nova âncora, novo porto

Memórias derretem-se por dentro como fragmentos flamejantes com a certeza de que vão deixar rasto, pequenos excertos visionários corroem-me por dentro, mas ainda assim mantêm-me viva, existem segundos, minutos, horas e até dias que estão congelados no meu coração, porque ele aquece para guardar as pessoas, mas congela para preservar os momentos, porque a frieza é o alimento da distância, quando a amizade é o alimento da vida. É tempo de mudar de rumo, de remar contra o misto de emoções que se tornaram ondas em marés de inseguranças, é tempo de respirar fundo e de inverter o foco para onde olho, é tempo de contrariar os ares frios que me percorrem a pele, é tempo de decifrar o código do meu futuro. Vou caminhar em direção ao mar, vou em busca de novos horizontes, seja metaforicamente ou não, mas vou com a convicção de que noutro lugar esteja uma parte de mim, intocável e sonhadora. Vou guardar-te a areia da praia, vou trazer-te a leveza dos ventos do norte, vou ensinar-te como a brisa de todas as manhãs, por segundos, me levou a ti e ao teu abraço, vou explicar-te como é bom sentir o ar salgado e como a margem com espuma branca me pode levar a ti no pensamento, porque afinal posso navegar em barcos imaginários e ver-te a acordar, ver-te a chegar tarde à faculdade e ver-te a adormecer por entre histórias de televisão. Também a nossa poderia estar iluminada por holofotes e também eu poderia não estar a suplicar por forças neste momento, mas o comboio segue sempre a sua linha, as gaivotas todos os anos migram, as mercadorias seguem o seu caminho, os próprios caixões têm um destino traçado, os caules das flores dançam consoante o sol ou simplesmente eu calço botas quando está frio. Há coisas destinadas, mas a amizade é, por si só, um destino e já diz o fado, que não é por uma andorinha morrer que acaba a primavera. E lembra-te que, espacialmente, pode mudar o porto, mas nunca o porto de abrigo!