terça-feira, 22 de agosto de 2017

Do medo do começo ao medo do fim

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Uma retrospetiva universitária é muito mais do que isso, é a interpretação dos melhores anos da tua vida, aqueles que se constituíram como um pilar dos teus ideais. Tudo começa com um enorme medo do começo, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de estudo mais sério e direcionado para o nosso futuro. É realmente assustadora a fase antes da mudança e todo o percurso durante o primeiro ano, porque existem desafios todos os dias, desde o novo professor que veio dar x aulas e se esse professor dá slides ou a que horas costuma colocar as fotocópias na papelaria, desde aquela cara nova pela faculdade ou o trabalhador estudante que resolveu aparecer na aula, desde as festas académicas de toda a ordem e feitio às praxes marcadas à última da hora, desde as personalidades dos colegas de casa àquelas noites em que todo o prédio está em festa e não nos deixa dormir, desde as saudades de casa ao medo da solidão. E no meio disto tudo ainda temos o maior dos nossos problemas e aquilo que é mais importante saber dominar e domesticar: o nosso psicológico. No meio de toda a azáfama o maior desafio está dentro de nós próprios, está em controlarmos a nossa mente, em mantermo-nos fiéis aos nossos princípios, saber dizer que não quando o nosso instinto assim o disser, controlar os ânimos e o entusiasmo face a festas e pessoas porque ambas são igualmente voláteis e tanto uma festa na véspera de uma avaliação não é o melhor a fazer, como amizades para a vida são apenas uma minoria, é importante saber receber as más energias com um abraço e conseguir emitir boas energias, retirar sempre um ensinamento construtivo de tudo, mesmo daquela praxe em que chorámos ou daquele almoço em que ficamos sozinhos numa mesa da cantina, porque afinal nada disso é relevante ao lado do nosso crescimento pessoal. Mas lembremo-nos que acolher esse conhecimento não é apenas absorver o que nos rodeia, temos também de fazer parte dessa história e intervir, temos de agir! Devemos puxar pela nossa vertente social, ainda que não seja muito aguçada, porque a verdade é que ser sociável não é darmo-nos com todo o tipo de gente, isso é ser moldável, podemos encontrar pessoas semelhantes a nós ou que nos façam criar uma zona de conforto em torno delas e confiar nelas, criar laços fortes e deixar soltar a pessoa extrovertida que mora dentro de nós, isso é ser sociável, mas é ainda mais do que isso, é saber viver. Lembremo-nos que se alguém nos vira costas mesmo sem nos conhecer o erro está nessa pessoa e não em nós e se por um lado devemos entender que uma pessoa não se resume aos seus erros por outro devemos saber que perante erros alheios a melhor resposta está na nossa não reação, porque agir com indiferença é efetivamente o primeiro passo para termos também o sentimento de indiferença. Falo de sociabilidade porque ela é a chave para quase tudo, para que assentes amizades, que troques apontamentos, que te desenrasques numa rua desconhecida, que te safes numa apresentação oral, que consigas perguntar na aula todas aquelas dúvidas que te inquietam e, claro, para que na reta final tenhas um bom estofo para apresentares a tua tese. Mesmo que não se trate de sociabilidade propriamente dita, então falemos de descontração em público, de um bom manejo verbal. Questionarmo-nos sobre coisas simples é fundamental, sobre se estás a gostar da nova etapa, se houvesse uma nova candidatura se escolherias o mesmo rumo, se confiarias um segredo teu a algum amigo de faculdade, se passasses um fim de semana na tua cidade se te causaria algum tipo de pânico, se mudarias alguma coisa caso tivesses esse poder, tudo questões que te oferecem respostas que te fazem perceber se estás feliz ou se estás a caminhar na direção certa. Falar com os pais sobre isso é das melhores formas de o fazer, mas aprende também a fazê-lo sozinho. Com a mente resolvida é bem mais fácil encarar o resto. Por outro lado, é claro que o facto do ano letivo ser dividido por semestres, e existir a constante troca de professores, conteúdos e dinâmicas, implanta-nos um ritmo alucinante de stress e responsabilidade. Até poderia dizer que estudando aquilo de que se gosta tudo se torna mais fácil, mas não creio que seja verdade, porque a rotina, o empenho e a independência que é exigida de nós rema com mais força e adquire mais destaque do que o nosso gosto pelo curso. Até porque estar na universidade não é apenas e somente um canudo, é experiência de vida, onde todo o meio envolvente nos direciona para um sonho que nos leva ao auto-conhecimento. A verdade é que estamos numa cidade nova e o edifício da faculdade provavelmente será aquele que menos pisamos e todo o pormenor, por mais pequeno que seja, irá fazer parte de ti e da tua caminhada. A universidade é, acima de tudo, uma jornada desafiante que te é oferecida para que conheças o valor da vida. E mais uma vez sublinho que esta jornada faz mais sentido quando cuidares do teu psicológico e aprenderes a ter uma mente livre, curiosa, mas sempre focada no objetivo. E é em torno de tudo isto que os anos vão passando, como uma jangada lenta mas que rapidamente chega à margem da ilha mais próxima. Tudo termina com um enorme medo do fim, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de vida ainda mais sério e de portas abertas para o nosso futuro. A nostalgia e o peso dos anos é tremenda! Não importa a idade ou a vontade em ser-se independente monetariamente, no momento da despedida só importa a saudade e quase todos voltariam a repetir cada segundo da sua vida académica. É por essa saudade antecipada que eu e muitos estudantes navegam, ao pensar que falta tão pouco, e queremos acolher essa saudade como nossa, porque sentir saudade é sentirmo-nos mais próximos daquilo que foram os melhores anos da nossa vida. Recordar é admitir que algo aconteceu e nos fez felizes.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sequela

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Chamo-lhe de sequela. Poderia ser uma guerra remota, mas chamo-lhe de sequela. Não apenas pelas suas raízes no passado e poder sobre o futuro, mas pelo caráter furtivo e indutor de fraqueza, em certa parte. É como um suspiro sensível ao tacto, como um frio moribundo em formato de escudo protetor, como uma pedra que foi engolida em troco de paz, como um eco agudo que rima com medo. Apodera-se de laços humanos e surge quando alguma empatia se avizinha. É a força que me leva a dar um passo atrás, que me retrai, que me altera a expressão facial, que me inverte a boa energia que emito e quebra a lei da ação/reação. É ela que cria uma redoma vazia em torno de mim e uma espécie de sentimento claustrofóbico perante a vida. É uma voz madura, mas ingrata e cruel. Como se fosse um rugido de um monstro sábio com música clássica de fundo. Uma voz que fala apenas de forma imperativa e que jamais admitiria uma falha minha. Ela refugia-se em lemas de vida inspiradores e veste-se com uma espécie de individualidade levada ao extremo. Os amadores caracterizá-la-iam como a força para enfrentar obstáculos. É útil para travar batalhas e enfrentar dilemas em que precisamos de fazer emergir a frieza, mas tira-nos um lado humano. Um lado que é o sentido de muitos passos apressados dados na rua. Talvez a característica mais comum por entre os humanos: a capacidade de amar. É como se já não houvesse espaço para essa vertente, como se a tela de um pintor já tivesse rascunhos no plano de fundo, como se as minhas forças já tivessem um destino. O de somente serem canalizadas para vias racionais. Uma profissão, uma viagem ou um hobbie. Como se este antagonismo de me fortalecer e me fazer valer uma guerreira, só me reduzisse mais o valor sentimental, como se cada vez mais eu fosse somente a minha aparência, como se uma enorme batalha interior ultrapassada fosse, agora, reconhecida como uma simples carcaça. Como se uma guerra mundial tivesse sido esquecida e tida como trivial e, agora, fossem admirados apenas os escudos dos guerreiros. Mas um guerreiro não é apenas a frieza do seu escudo ou a rigidez do seu aço, também não é apenas a guerra que travou ou a sua estratégia de combate, não se resume a isso. Um guerreiro é a face mais dolorosa por detrás da causa que despoletou a guerra. Afinal nenhum guerreiro existira sem guerra, porque nas histórias de amor não são os guerreiros que fazem a guerra, quem a despoleta são precisamente os mais fracos, fracos de espírito, porque os guerreiros encaram essa guerra não como resposta ao inimigo, mas como uma auto-proteção e uma espécie de carta de alforria que os faça viver um novo capítulo, porque essa luta que travam não é nada mais do que a sua luta interior. É por isso que um guerreiro não é apenas a barreira que ele segura quando está de olhos postos para o precipício, é a sua história e a sua essência. Aquilo que o mantém de pé, a crença que o sustenta, os seus valores e as suas virtudes. Porque a sua firmeza hirta não tem origem na crueldade que sentiu, mas na forma como contornou o medo, no levantar dos seus joelhos, na capacidade de converter algo que o poderia matar numa poderosa força invencível. E é nesse momento que mostra ao mundo o quão pequenina é a maldade que lhe foi dirigida como lanças afiadas no coração. É esse espírito que o distingue de tantas outras frentes de combate, que o ressalta por entre qualquer outro lutador de escudo na mão, com o mesmo ferro, a mesma carcaça e a mesma ferida ao peito. Mas um coração diferente. Um coração que pode estar adormecido mas que oferece sensibilidade ao olhar e à abertura das pupilas, que ainda valoriza um toque macio entre duas mãos, que procura a amabilidade nos pequenos gestos altruístas, que ainda se rege pelos valores mestre da fieldade e respeito. Tudo porque fora dessa luta ainda existe um ser humano. Longe desse lado negro pelo qual tivémos de dar a cara, está a pequenez humana. Não importa apenas a grandeza de espírito de sacrifício que se idolatra, mas a vontade de se completar e de encontrar um propósito de vida em alguém, de se baixar e se reduzir ao tamanho de um humano. Esse sentimento pode ser aquilo que nos torna generalizáveis e seguidores do maior padrão da sociedade, o amor, mas é isso que efetivamente queremos possuir. Sim, o amor. Essa enorme pequenez humana! Insatisfeitos até mesmo na grandeza de se ser um lutador, ao ponto de se querer agarrar algo tão banal e lendário. Mas o propósito de vida de um ser humano também contempla essa lenda, escondida por detrás das rosas do jardim, onde só um guerreiro de mãos fortes poderá resistir aos seus espinhos e oferecer essa rosa à sua donzela. Por alguma coisa as rosas têm espinhos. Talvez porque antes de amar e ser-se detentor de uma rosa, é urgente sofrer. A dor e o amor são igualmente necessários. Ambos fortíssimos e devastadores e, por isso, os extremos que mais nos mostram a realidade da vida. As sequelas mais reais e intemporais.

(sugestão de música de fundo)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Não existe

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Gosto quando as plantas selvagens provam da sua própria liberdade e dançam ao sabor do vento, beijando-se suavemente, recortando o céu laranja do pôr do sol, como se existisse uma mensagem a ser transmitida e as fizesse falar entre elas. É bonita a forma como essa melodia dançante nos amplia a simplicidade, nos faz respirar com um ímpeto mais calmo e transparente, como nos torna tão pequeninos ao lado daquela imensidão de vales de caules melodiosos e silenciosos. Esse silêncio que é gerador de grandeza natural e pequenez humana. E na verdade somos realmente pequeninos. As plantas unem-se em redor do seu aroma, refrescam-se umas às outras, revelam os seus segredos, deixam-se ser livres. E nós, humanos, com o gigante problema de explicar as coisas, exteriorizar sentimentos e ler as pessoas. Vivemos debaixo de tetos de frases feitas que se refutam umas às outras e que, por sua vez, refutam a nossa identidade. Precisamos desse vento singelo e oco que nos mostre o paraíso e as trevas, porque é isso que é a realidade, e que nos ensine a partilhar um pouco do nosso pólen, a nossa essência. Afinal, mesmo as plantas espontâneas e insignificantes têm uma palavra a dar ao mundo, desde que não falte o cruzar das periferias das suas folhas. Somos o resultado de um mero compasso ritmado por onde fluem sonhos e conquistas, onde tomamos como trivial a nossa vida na terra. Queremos ser perfeitos e idolatrados, queremos aceitação social e admiração, e o espaço que sobra para a nossa essência é ínfimo e decrescente com o tempo. É incrível como os detalhes rugosos dos troncos mais ásperos não seguem esquadrias e simetrias, regem-se pela natureza da criação e é isso que os torna belos, enquanto nós procuramos contornar a criação e domar a inteligência que o próprio universo nos ofereceu, moldar e afinar cada aresta com a forma do nosso egoísmo. A capacidade que tem o vento de nos potenciar o olhar e de nos elevar a sensatez faz brotar em nós gestos mais puros e humanos. Os gestos são intemporais, a forma segura com que se abraça o mundo é intemporal, o amor verdadeiro é intemporal. Talvez seja a componente intemporal de cada sentimento que faz com que ele persista no tempo. Ser temporal é ser tempestivo, questionável, fugaz, é ser esfumado com o passar dos anos. E é aquela pequena porção intemporal, com jeito de pilar forte e seguro, a porção mágica e inexplicável a que damos o nome de amor, que persiste no tempo, que nos leva a ser crianças por momentos e a acreditar que podemos ser mortais mas com sentimentos imortais. Talvez sejam os atos mais básicos e banais que unifiquem as pessoas e que estejam a fazer falta neste mundo perverso. Não há toques suaves entre mãos, como aquelas plantas que apesar de selvagens contemplam uma loucura saudável e inocente. Não há silhuetas ao pôr do sol, como aqueles recortes que os prados constroem fielmente todos os dias. Não há aquela empatia secreta revelada na mensagem levada pelos campos, de pétala em pétala. Não existe a promessa de se ser feliz, existe a obrigação em não se estar sozinho. Não existe o amor como dádiva, existe uma espécie de sequestro em nome das aparências. Não existe o beijo tímido, o passeio à chuva ou a canção que se improvisou, não existe a carta de amor, o poema que nos ocupou a madrugada ou a pedra a bater na janela, não existem os planos que nos tiram o sono, o pedido de joelhos ou o olhar emocionado, não existe o conselho sincero, a oração de esperança ou o lenço de mão que não foi pedido, não existe o abraço reconfortante, a mão que não nos larga ou o orgulho de se ter alguém. Não existe o ciúme verdadeiro, sem que traga consigo o sentimento de posse. Não existe o objetivo de assentar um sentimento e de alimentar a ideia que se quer alguém para a vida toda. A efemeridade domina o mundo e cada vez mais somos como aquele pôr do sol com diversos começos e fins, com um breve intervalo de tempo e com a previsibilidade daqueles tons laranja em dias de verão.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Como as redes sociais matam o tempo e as relações

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Sabes aquela pessoa que está sentada num banco de jardim sozinha a olhar em vão? Sabes aquela pessoa desastrada que vai de encontro a ti e os vossos olhares se cruzam? Sabes aquela pessoa que está há horas a olhar para ti na esplanada e que pede ao empregado para te deixar uma rosa? Sabes aquela pessoa que te fotografa em segredo e depois te oferece a foto com o número de telemóvel por trás? Sabes aquela pessoa que te agarra com força quando um carro se aproxima? Esquece, isso não vai acontecer. A probabilidade de assistires a isso é igual à de um meteorito cair em cima da tua cabeça amanhã ou de ganhares o euromilhões. Eu diria melhor, é a mesma probabilidade de tu amanhã ressuscitares. Atualmente não há propriamente contos de fadas com o romantismo e a durabilidade que se idolatram na história da branca de neve. Talvez neste momento a maçã envenenada sejam as próprias pessoas. O mundo está bem oposto a essas histórias de infância! Há falta de tempo, falta de vontade em abdicar desse tempo e o entregar a outrem e, ainda, falta de noção do que é realmente viver e sentir o tempo. Eu passo a explicar. Há falta de tempo porque damos prioridade no nosso dia a dia a mandar mensagens e a ver se temos notificações, o que nos faz deixar a pontualidade de lado, há falta de tempo porque os snaps ganham mais importância do que uma boa conversa, há falta de tempo porque nós invertemos as prioridades e passámos a ver a nossa refeição em família ou o nosso trabalho como uma necessidade chata a que nos curvamos com frete, ao passo que as redes sociais tomam todo o destaque possível. É verdade que os horários de trabalho rígidos e as imposições constantes da sociedade nos tiram grande parte do tempo, mas porquê que o pouco tempo que temos todos os dias ao fim do dia são tão desperdiçados? Porque não tornar esse tempo numa minoria saudável? E depois partilhamos frases a dizer que a vida são dois dias e que temos de aproveitar os pequenos momentos, quando realmente não o fazemos porque o que estamos a fazer naquele momento é a partilhar a ideia e não a concretização. Depois temos a falta de vontade em abdicar desse tempo e o entregar a outrem. Novamente as redes sociais são fortemente culpadas. Tudo porque vivemos num mundo que aparenta dependência do próximo e expectativa na ideia que os outros têm de nós, mas no fundo somos exatamente o contrário: seres cada vez mais individualizados, egocêntricos e que se impedem de partilhar o seu verdadeiro tempo, aquele que se traduz por um sorriso ou um nervosismo por entre os dedos, um olhar sincero ou um abraço apertado, até mesmo por um café entornado porque é sinal que o momento existe e que o calor do café nas tuas calças não é algo virtual. Já ninguém aposta em likes reais, em gerar uma boa conversa pessoalmente, sem ser atrás de um computador com uma foto de perfil que em nada condiz com a sua cara ao acordar. Uma selfie ao espelho, por exemplo, traduz vaidade e vontade de elevar a auto-estima, e é nesta ironia e controvérsia que muitos vivem, neste compasso entre um extremo amor próprio e um uma extrema fragilidade, na medida em que essa auto-estima só vai ser afirmada consoante a aprovação dos outros. E como pode alguém viver nesta instabilidade e à mercê da opinião alheia e ainda assim conseguir reduzir o seu leque da plateia para apenas uma pessoa, aquela que supostamente amam? É esta redução da plateia que não deixa sequer que muitas relações comecem verdadeiramente. Há constantemente uma procura pela aprovação e pelos aplausos. Preferimos apegar-nos ao desconhecido do que a uma pessoa que poderíamos conhecer extremamente bem. Imaginamos a possibilidade de entrar na vida de um qualquer novo perfil de amizade e esquecemo-nos muitas vezes de quem temos ao nosso lado incondicionalmente e quem já do seu tempo abdicou e as portas da sua vida abriu para nós. A verdade é que as redes sociais geram um casulo em torno das pessoas, um casulo permeável à virtualidade mas impermeável à realidade. O mundo palpável e a oportunidade de lutar por alguém está a ser substituído pela facilidade com que se encontram pessoas pelas redes sociais. E o pior é que as pessoas não reconhecem sequer a importância em oferecerem o seu tempo em prol de uma relação saudável. O tempo está, na verdade, reduzido aos minutos em que estamos online. Conhecer uma pessoa é meramente adicionar mais um amigo à lista. E depois temos a questão do não sabermos realmente viver e sentir o tempo, tudo porque já não sabemos o que é estar no topo de uma montanha sem que levemos uma tecnologia atrás, já não sabemos o que é sentir o salpicar de uma cascata sem que tenhamos a preocupação constante de limpar a lente do telemóvel, não sabemos o que é respirar ar puro, fazer boas ações, rodearmo-nos de natureza e de animais, propôr um jantar em família, pegar no carro e viajar sem destino... Há falta da verdadeira liberdade num mundo em que todos se acham extremamente livres. Acham-se livres por escolherem os seus horários mas reduzem-se à área de uma cadeira enquanto navegam pelo telemóvel, acham-se livres por terem os bares todos à disposição mas no fundo acabam sempre a noite encostados a uma rua banal, acham-se livres por fumarem vezes sem conta mas quando o dinheiro acaba a liberdade também acaba, acham-se livres por seduzirem alguém que escolheram mas no momento em que começa a inteligência da outra pessoa é o momento em que acabará a sua liberdade. Já não há quem cometa riscos. E cometer um risco não é ser sedutor pela milésima vez para a primeira pessoa bonita que vemos, porque isso é jogar pelo seguro, porque o seguro é o banal, é o esperado, para mim a exceção está em ser-se honesto, o risco está em mostrar o seu verdadeiro conteúdo sem mostrar fragilidade, sem vestir a capa de tranquilidade e simpatia que lhe é conseguida por alguns decilitros de álcool, isso seria o verdadeiro desafio para muitas pessoas. Se todos vivêssemos com a maior paz e tranquilidade possível saberíamos dar valor aos passos que damos na rua e percebíamos como seria importante partilhar com outra pessoa aquilo que de mais especial lhe poderíamos oferecer: o nosso valioso tempo. O problema é mesmo esse, o tempo não está a ser valorizado, cuidado e por isso não é tido como valioso e, portanto, não está a ser oferecido como algo prioritário. Um dos principais problemas está, também, na expectativa. Ela está enraizada ao ser humano, porque ter expectativa é ponderar sobre algo, é simplesmente pensar e, por isso mesmo, se torna tão inevitável. Gerar expectativas é automaticamente criar um cupido e enquanto alguns são peritos em criar cupidos outros são peritos em destrui-los ou então aproveitar-se inicialmente deles para depois abandonar essa ideia. A expectativa também é alimentada pelas redes sociais. A constante espera de uma mensagem, de uma troca de likes, de uma publicação, torna o processo de conhecer alguém em algo muito pouco saudável, porque o feedback que esperamos de um perfil de uma rede social torna-nos por si só possessivos e onde existe muita expectativa também existe muita ilusão e ambiguidade, que são facilmente decepcionáveis quando nos deparamos com uma atitude real, fora do quadrante virtual. Já para não falar que a espera constante por um sinal de luz no telemóvel é um objetivo de vida totalmente questionável e que nos anula bastante em termos de personalidade. A verdade é que, antes, onde existia uma bonita e inesperada coincidência em encontrar alguém que gostamos na rua, hoje passamos horas a decidir se enviamos mensagem onde tudo se resume a uma batalha entre orgulhos. Outro real problema de grande parte das pessoas é o de acharem que são elas próprias que têm de conquistar a outra pessoa pela sua beleza, investindo ao máximo nessa vertente. Estão demasiado preocupadas em mostrar o que valem como se fossem uma montra, mas a melhor montra vence pela sua simplicidade porque quando se descobre mais do que essa montra, é quando percebemos que o que estava visível era apenas uma pequena parte e que a maior beleza não está na roupa ou no batom, mas no interior. Inconscientemente essa ideia de beleza pré-concebida, esse retrato concreto e estereotipado que queremos transmitir e que sabemos que será o nosso passaporte para a popularidade é, também, influenciada pelas redes sociais, na forma como criamos um sucesso em torno dos mais favorecidos esteticamente, no destaque que assume a expressão facial e a roupa, no próprio significado que se gera à volta do conceito de popularidade e na penumbra de todas as pessoas que aqui não se incluem. E damos por nós a servir a sociedade e não propriamente a pessoa que gostamos. Infelizmente são as redes sociais o grande impacto das relações de hoje em dia. Muitos se espera dos outros, mas pouco se concretiza. Geram-se histórias com muito enredo, mas pouco significado, muito amor próprio e pouco amor para dar. O importante é perceber que uma pessoa verdadeiramente merecedora do nosso tempo é aquela que também entrega o seu verdadeiro tempo, que acrescenta esse tempo ao nosso e torna ambos os trajetos de vida mais valiosos.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Coimbra: o amor mais apaixonante


Pelas cortinas do meu recanto vejo o sol a esconder-se ao sabor de mais um dia nesta bela cidade. É melancólica e silenciosa a forma como a saudade antecipada nos aperta o coração. Não vejo isto como mais um dia nas tuas ruas, mas como menos um dia nos teus braços, porque a saudade faz-nos contar de forma decrescente e o sentimento arrebatador de viver em ti só nos faz pensar no dia em que tudo irá terminar e na vontade de te querer descobrir todos os dias da nossa vida. Cada sombra desse escurecer desenha em mim um traço mais fundo e marcado dos teus fados, aquele ritmo inconfundível e que faz de nós mesmos um verso que compõe as tuas quadras e completa o teu espírito académico. E, assim, o dia adormece ao sabor da melhor academia, da cidade que não dorme, nem para festejar nem para sonhar. A ti, Coimbra, que me ensinaste a sonhar mais alto e a pular também mais alto para alcançar grandes feitos, só tenho umas quantas coisas a dizer-te: foi nas tuas ruas que se desenhou a minha liberdade, nos teus fados que descobri a efemeridade da vida, foi nas tuas festas que se despoletou a minha verdadeira felicidade, nos teus dias melancólicos que nasceu a minha força interior. Foi nos teus jardins que percebi que a paz também existia longe das nossas origens e que me fez pensar de uma forma universal, porque se sou feliz aqui também existe, agora, potencialidade dentro de mim para ser feliz em qualquer lado: a isso se chama ganhar asas. Tu deste-me essas asas! E todos os dias me dás os melhores ensinamentos para voar. Foi nas lágrimas que brotavam por entre as capas que me ensinaste que ser universitário é só a melhor experiência da nossa vida e que, afinal, a saudade existe e é passível de ser sentida e objetivada sempre que respiro o teu ar puro. És diferente do resto do mundo e de forma tão peculiar consegues suster tantas vidas e tantos sonhos, tantos gritos de euforia com um fundo de amor à vida enorme, tantas lágrimas de amor puro que por ti se verteram, tantas mãos que entrelaçaste com o teu amor, tantos passos apressados que limaram as tuas escadas monumentais, tantos sapatos que calçaste a todas as cinderelas, tantas guitarras gastas com o tempo que deram aos estudantes as melhores e mais grandiosas baladas, tantas boas vozes a quem deste a grandiosidade para que fizessem eco pela cidade em dias de serenata, tantas fitas de tantas cores a contrastar com os belos negros trajes académicos, tantos sorrisos implantados pelas ruas em dias de praxe ou em dias de batismo, tanta juventude, tanta rebeldia, tanta transparência! Obrigada pelo que nos fazes ser a cada dia e que tanto contribuas para o nosso crescimento. Obrigada por durante uns tempos eu, bem lá no fundo, te considerar o único motivo pelo qual remava em favor da minha valorização pessoal. Obrigada por me teres acolhido com tanto amor, mesmo com todos os meus defeitos, com todas as minhas fraquezas e mesmo quando te culpei por todos os meus erros. Obrigada por teres sido persistente e, de dia para dia, me teres mostrado o mundo que tinha à minha frente, me ensinares que às vezes a vida é como um teatro, onde nos basta levantar o pano para vermos e saborearmos a vida que está mesmo à frente dos nossos olhos. Mostraste-me a beleza de cada esquina ainda por percorrer e mesmo quando percorridas ensinaste-me a viver cada momento sempre de uma forma única e diferente, pisar cada paralelo como se fosse a primeira vez, com os meus passos de caloira, mas um amor à vida gigante. Quero levar o teu céu estrelado no meu bolso, quero a força do leito do teu mondego a tomar as rédeas das minhas decisões, quero poder refugiar-me em ti sempre que o meu coração pedir, quero que pelo menos um sapato do traje que me deste me possa sempre servir mesmo quando já for velhinha, quero continuar a valorizar-me da forma como tu sempre me valorizas-te, quero poder ir espreitar as tuas igrejas e sempre encontrar uma cerimónia de benção das pastas que me faça relembrar do quanto fui feliz e do misto de emoções a abanar aquelas fitas. Quero, acima de tudo, que nunca te esqueças de mim e do quanto me ergui graças a ti. Quero que, apesar de eu ser só mais uma estudante que por aqui passa, te lembres que te adoro e que nada do que aqui passei me foi indiferente. Que continues, ao longo de geração em geração, a seres amada e a aumentares as multidões de capa negra que em nada rimam com luto. É ao teu pôr do sol que nascem textos como este e é ao sabor da tua perfeição e autenticidade que existe sentido em cada palavra. E assim me despeço com paixão e saudade, com alegria e tristeza, com amargura e tranquilidade, com um sabor doce e amargo, mas com a certeza de que é este misto de emoções que me mantém viva.