segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Conspirações sobre amor e relações

Amor como crónica era algo que não esperava que tomasse espaço aqui no blogue, mas a verdade é que é um dos assuntos mais eminentes e com que mais me tenho confrontado em vidas paralelas à minha. Não irei mencionar frases clichés sobre o amor e escusado será dizer que o maior dos clichés é quando dizem que os apaixonados não conseguem explicar o amor e que quem o explica é porque não está apaixonado. Tretas. As pessoas não explicam o que é o amor porque simplesmente não sabem aquilo que lhe serve de pilar e, na verdade, nem sequer tentam explicar porque a partir do primeiro mês de namoro adotam a ideia de que já não precisam de conquistar a pessoa. As pessoas não são bens de consumo e qualquer ser humano vale muito mais do que o preço barato com que o comprámos com a sedução dos primeiros encontros. Às vezes passam anos, admitem-se falhas e traições, alimentam-se sofrimentos e arrependimentos, e só depois de cruéis separações é que percebem que "compraram" aquela pessoa em saldos e que, na verdade, ela valia muito mais do que aquilo que demos por ela. Esse é o primeiro problema que aqui retrato: reconhecer tarde de mais o valor das pessoas. Lutar hoje, aqui e agora, é um dos grandes lemas de uma relação. Admirar a pessoa todos os dias, oferecer pequenos gestos de dedicação e estar grato pela sorte de a ter, são tudo fortes premissas no argumento do amor. E no cerne desta falta de reconhecimento existe o orgulho. É ele que paira no ar quando não enviamos uma mensagem e ficamos repletos de rascunhos no telemóvel e na mente, quando estão ambos online nas redes sociais e na vida e se ignoram porque acham que deve ser a outra pessoa a ligar ou a acenar, tudo obstáculos criados pelas pessoas. Geramos problemas que não existem quando a própria tecnologia nos facilita o ato virtual de "dar a cara". Deixem-se disso e falem quando o vosso coração pede. Aí está outro dos principais problemas: o cansaço da rotina e a falta de iniciativa. Um gesto de carinho vem sempre a tempo e atrai sucessivos gestos de carinho, onde poderá desenrolar-se muita reciprocidade e continuidade pelo pequeno e simples facto de alguém ter tomado iniciativa. São essas lufadas de amor que faltam e que, quando ausentes, levam à monotonia da relação. Outro entrave ao amor: a falta de capacidade em se acolher uma pessoa por inteiro, deixando de amar os defeitos do outro. Noto que as pessoas não estão preparadas para acolher os defeitos dos outros, para abraçar uma pessoa que nem sempre vai acordar sorridente, não estão preparados para ter mente aberta e aceitar uma viagem que não planeavam ou ir ver um filme que não gostem, para se moldarem ao estado de espírito da outra pessoa e ter sensibilidade emocional, não estão preparados para aceitar grandes desafios como casarem, apresentarem os seus pais ou simplesmente praticarem um desporto que nenhum aprecie, para fazerem coisas únicas e aventureiras às escondidas e em segredo de toda a gente, não estão preparados para aguentar a distância e entender que são os sentimentos que movem a felicidade e não as estradas que os separam, para surpreender com uma refeição quente numa manhã de inverno ou uma flor vinda do nada, não estão preparados para sorrir e festejar juntos mas, principalmente, não estão preparados para chorar, rezar e suplicar juntos, para dar as mãos com força e partilhar a sua fé e o seu amor pela vida. Chega-se à conclusão de que se procuram pessoas perfeitas. Umbigos egocêntricos e imperfeitos procuram intensivamente a beleza exterior até que se fartam e entendem que o interior também poderá ser importante ter em conta, esquecendo-se de que aquilo que exigem já está a ser mais do que aquilo que merecem, esquecendo-se principalmente da sua própria beleza, por tanto se cansarem de procurar esse atributo nos outros. Acontece que essas pessoas estão a nutrir mais a beleza dos outros do que a sua e isso potencia o afastamento entre duas pessoas, porque passamos a ter uma beleza idolatrada e estereotipada em contraste com a nossa própria beleza, que é nula, porque a maior beleza não é a que existe nos elogios, é aquela que nós acreditamos ser real. E assim surge uma outra preocupação: a falta de amor próprio. Ama-te a ti primeiro para depois amares os outros. Eu sei que não queria cometer o erro de referir clichés, mas como poderemos aceitar menos do que aquilo que merecemos? Essencialmente pela baixa auto-estima e uma maturidade também pouco aguçada. Auto-estima e maturidade, juntas, oferecem-nos a racionalidade de que precisamos, para que nos distanciemos de um problema e o passemos a interpretar de forma imparcial, sem admitir que somos nós os protagonistas da história. Com o tempo percebi que não se trata de inteligência, porque muitas vezes nos chamamos de burros e de cegos e temos a total sobriedade em afirmar que estamos a rastajer ou agir de maneira errada ou contra os nossos princípios. Trata-se totalmente da nossa confiança, do nosso ego, do valor que damos a nós próprios, porque sem auto-estima não saberemos domesticar o amor, é como tentar interpretar um texto sem ter aprendido a ler. A maturidade é, também, importante, mas por ela não se luta, ela simplesmente vai-se conquistando com o peso dos anos e da experiência e, com base em capítulos passados, saberemos melhor aquilo que queremos para nós e aquilo que nos gera aversão, saberemos tomar decisões mais acertadamente, afastarmo-nos de uma pessoa no momento certo e antes de sentirmos que a paixão poderá surgir, é como uma espécie de diagnóstico que oferecemos a nós mesmos e com base em prognósticos passados sabemos qual a melhor decisão a tomar. Outro problema que vejo por aí: o de depositar fielmente e ingenuamente a nossa felicidade em mãos alheias. Como se o nosso propósito de vida fosse um pedaço de pão oferecido com um sorriso, enquanto estamos famintos. A verdade é que por mais nobre que seja depositar a nossa felicidade nos outros, é preferível adotar outros atos nobres como ajudar os pobres ou praticar voluntariado. Com a felicidade não se brinca e por isso mesmo ela só pode ser depositada nas mãos de nós próprios, porque somos a única pessoa neste mundo que sabemos com toda a certeza que não nos quer mal. Somos os únicos com o direito de tratar a nossa felicidade como uma marioneta. Tudo bem, é uma espécie de auto-defesa, mas será assim tão mau vivermos com esse escudo? Podemos logicamente partilhar grande parte da nossa felicidade e quando o amor é real é claro que ela também está ligada às ações dos outros, mas não podemos depender totalmente dessa pessoa, esse é um dos enormes problemas da sociedade: a dependência. Se por um lado o desprendimento e a frieza é um dos problemas do amor, também o apego excessivo e dependência é uma forte preocupação. Independência é caminhar lado a lado mas focado no seu caminho, significa abdicar pela outra pessoa mas não significa perder o seu rumo ou anular os seus objetivos. A dependência leva a que não consigamos retribuir com indiferença quando nos tratam como tal, mas é preciso recordar que tudo aquilo que seja uma retribuição é porque não começou por nós, e a não reação que nós oferecemos é como um pedido de ajuda, um grito de quem está desejoso para que tudo corra bem. O problema seguinte: falta de sensibilidade. Muitas pessoas não têm essa sensibilidade face aos problemas dos outros e dificilmente interpretam um longo silêncio como sendo uma intensa tristeza. Às vezes temos mesmo de cruzar os braços e esperar que a outra pessoa ganhe essa sensibilidade e aprenda a dar aquilo que sempre recebeu da nossa parte. Mas como a aprendizagem é repulsiva nas pessoas com pouca sensibilidade, talvez o problema não se resolva e o melhor mesmo é expôr os nossos sentimentos antes que a corda rebente. Assumir o interior que tanto nos consome e tanto quer explodir, longe de jogos e subentendidos, porque assim saberemos que a outra pessoa está a reagir face ao que sentimos e não em relação ao que ela achava que sentíamos. E se mesmo com as cartas reveladas o jogo não for vencido, é porque o destino não quis que existisse um vencedor, e nesse caso é momento de seguir em frente. Desculparmo-nos com o destino pode, também, não ser um forte argumento mas a verdade é que no amor, quando se trata de uma recuperação pessoal após algum erro por parte da outra pessoa, eu considero legítimo agarrarmo-nos a esse desconhecido a que chamamos de destino. No fundo, ele é o argumento que nos pode dar algum alento e o qual nos oferece a certeza de que estamos a procurar a nossa felicidade. Que argumento pode ser totalmente refutável quando tem em vista a nossa reabilitação e paz? Outro problema: quando a justificação recai na genética. São aquelas pessoas que se desculpam com a sua forma de ser, de pensar, de estar, e isso são autênticas balelas. Um argumento não pode ser simplesmente do género "porque sim" ou "porque não", como se uma pessoa não fosse capaz de se moldar às situações e aos outros. É só mais uma forma de não admitirem que não sabem lutar por alguém, porque lutar nunca foi sinónimo de se desculpar. Outra grave falha: confundirmos exigências com aquilo que merecemos. Lembremo-nos que tudo aquilo que esperamos dos outros, como carinho e dedicação, não são exigências da nossa parte, são apenas aquilo que merecemos, e quem nos fizer acreditar de que se tratam de exigências, não pode ser alguém que nos mereça. E neste contexto surge outro problema: a não aceitação do final da relação. É uma situação que só nos fará abdicar mais e mais sem nos apercebermos que a outra pessoa não dá sequer um passo em frente, fica-se numa hipnose e nem se questiona sobre o porquê do afastamento entre duas pessoas, quando na verdade às vezes tudo depende de nós e da separação que queremos negar mas que temos de aceitar. É preferível fugir a uma relação intermitente e que nos tira a oportunidade de conhecer novas pessoas e novas portas do que alimentar essa vida fugaz e a que a que nenhum equilíbrio nos poderá levar. Lembremo-nos que o oxigénio que precisamos advém da nossa liberdade e não conseguir aceitar que uma relação acabe, como se se tratasse de uma espécie de loucura, é a maneira mais fácil de perdemos a nossa liberdade e ficarmos presos nessa falta de lucidez. Depois há aquelas pessoas que surgem na nossa vida de pára-quedas e para esses casos o importante é: medir prioridades. Logicamente que a confiança que a pessoa conquista e tudo aquilo que sabe sobre ti tem de ser proporcional à importância que lhe dás e não podemos ter como prioritário alguém que surgiu do nada e quer saber tudo sobre nós. A melhor dica é testar a paciência da pessoa porque é o parâmetro que mais pode vacilar numa pessoa que mal te conheça. Não deixes que se torne excluivo do dia para o dia, dá espaço para que lute e preste provas e se vencer na paciência então aí já haverá possibilidade de seres alguém especial, mas até lá não te sintas especial. Esse é outro erro crasso: sentirmo-nos especiais com pequenas palavras. Primeiro de tudo são as ações que determinam se somos especiais, se te dá a mão, se não tem vergonha das tuas risadas, se a pessoa fica babada a olhar para ti mesmo quando o cabelo está virado do avesso, se ouve as tuas lamúrias mais ridículas, se te gaba em frente aos amigos, tudo aquilo que não vejas a acontecer com outras pessoas. Não aceites um "és linda" de bom grado porque a beleza existe em todas as pessoas, não te prendas a elogios exteriores porque eles fazem de ti uma pessoa generalizável, aprende a apreciar um "és culta" ou um "adoro esse teu tique", coisas que sejam tuas, apenas tuas, e que saibas que a outra pessoa só irá ver isso em ti. Outro problema gigante: enumerar qualidades e defeitos. Um vício de pessoas solteiras é imaginar tudo por tópicos na mente, se corresponde ao que idealizamos em termos de personalidade, de estudos, de vícios, de família, de amigos, de estilo, etc. Catalogar as coisas é o primeiro passo para que não se sinta amor. Daí tantas vezes nos queixarmos de nos apaixonar por pessoas erradas, porque são as pessoas erradas, de quem nós nunca apontámos as virtudes por elas não existirem, por quem o nosso coração se atrai. E o mesmo acontece quando nos afastamos de pessoas que não têm uma dessas virtudes e às vezes nos levam a perder pessoas com enormes potencialidades de viverem connosco um grande amor.  Digo que é um pensamento de solteiros porque a partir do momento que se apaixonam deixam de idealizar uma lista para passar a idealizar a pessoa que gostam e o esteriótipo é completamente invertido, por isso é escusado fazer listas porque contrariamente às listas de compras, nós não iremos encontrar nas prateleiras aquilo que está idealizado. Outro problema: o de apostar tudo numa pessoa ou não apostar nada. Muitas vezes dizemos "esta é a pessoa que quero para mim, é perfeita, vou entregar-me" ou "se falhou uma vez vai falhar mais por isso afasto-me", mas as coisas não têm de ser vistas com esta fatalidade. Uma qualidade ou um erro não definem uma pessoa, mas sim toda a forma de estar, as suas manias, aquilo que valoriza e que tem como prioritário na vida. Acolher ou rejeitar alguém de forma súbita leva-nos a que tratemos novamente as pessoas como bens de consumo descartáveis. Relacionado com este erro está um outro: acharmos que estamos destinados a ficar sozinhos para sempre. Ou porque já nos bateram à porta alguns azares ou porque a pessoa que julgávamos a tal nos desiludiu e achamos que se não for com ela não será com mais ninguém, são tudo motivos que nos levam a vestir a pele de vítimas e a culpar o destino. Não pode ser. Culpa-te a ti! Culpa a outra pessoa! Culpa as circunstâncias! Novas pessoas e histórias implicam novas premissas e esperanças e não há motivos para acreditarmos que tudo vai dar novamente errado, devemos preservar o caráter sonhador em nós mesmos e, ainda assim, termos a plena consciência que se sofrermos novamente já irá ser uma dor menor e mais suportável. No momento em que o teu coração sofrer ele vai lembrar-se "eu já passei por isto e sei como agir". Temos de dar oportunidade a quem surge na nossa vida e não tentar prever desde cedo os danos que essa pessoa poderá causar. E decorrente desse erro, falo-vos finalmente do terrível vício de: ter medo de sofrer. Ter medo de sofrer é por si só sofrer e se o medo nos movesse realmente duvido que alguém saísse de casa. Se não dermos um passo em frente vamos estar constantemente a lidar com esse medo, nessa redoma pouco lúcida em que nada somos para além de vítimas de nós mesmos. Enquanto não ultrapassarmos a linha da coragem e da astúcia vamos sempre idolatrá-las como coisas impossíveis e vamos sempre lembrar-nos do porquê de ainda não as termos alcançado. Ficar parado é ficar a dialogar com o medo, frente a frente, sem abrirmos novas janelas e deixarmos novos raios de luz entrarem na nossa vida.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Telhal´17 ♥


Vou falar-vos de uma comunidade ou recanto canalizado para o foro psiquiátrico constituído por cinco unidades, cuja distribuição de utentes se rege por idades, patologias e dependências. Trata-se da Ordem Hospitaleira de São João de Deus que é representada pelo país fora por várias casas de saúde, entre elas a casa de saúde do Telhal, aquela que vos irei mencionar. Poderia ficar a falar-vos de espaços físicos e de rotinas, de condições mentais e debilitantes, mas aprendi que a doença é quase esquecida quando se lida com seres humanos. Aprendi também que devemos separar o espaço do tempo e que o tempo de vida que ganhei naquelas unidades foi algo avassalador e muito especial. A aprendizagem. A construção pessoal. O inverter de prioridades. A valorização de gestos. O intercâmbio de ideias. Quando há um coração terno e sedento de afeto e carinho, aquilo que está escrito no seu boletim clínico é somente um acrescento. Aquilo que vemos são exteriorizações diferentes e difíceis de prever e interpretar, mas que existem em torno de sentimentos universais. O ato de pensar e sentir é igual para todos e por mais indelicada que seja a sua forma de expressão, encaremo-la como a voz da sua doença e não uma caracterização daquilo que a pessoa é ou vale. A sua voz fala por gestos, por olhares, é uma voz que chega ao coração de forma subtil mas marcante. Como uma jangada que navega lentamente e que, de forma inocente, se seduz pela ilha mais próxima e nela quer atracar. Essas pessoas têm essa capacidade, a de verem a beleza em qualquer ser humano, sem diferenciar nem rotular ninguém, querer atracar num coração alheio só porque fez do sorriso a ponte que chega à outra pessoa. O espaço que ali existe é somente um servo do tempo, e o tempo é dominado por todos eles, os utentes. Eles constroem o seu tempo e acrescentam anos de vida e sabedoria a quem passa por lá. Reféns de feridas psicológicas, de incertezas perante a vida e dúvidas sobre aquilo que são e o papel que desempenham ali e na vida dos outros, mas engrandecidos pela sua luta constante e convicta em expôr o seu coração. Mesmo quando existem pequenos laivos de violência, devemos entender que por detrás de uma pessoa que fere está uma pessoa ferida, está alguém solitário, está uma vítima de uma doença psicológica, um rejeitado pela sociedade, quando na verdade a sua desordem interior não é maior do que a desordem da sociedade. Eles não conhecem hierarquias nem vivem consoante o dinheiro e mesmo quando se mostram dependentes do café, na verdade a sua maior dependência é a do contacto humano e puro. A felicidade em ter alguém ao seu lado e a firmeza com que tocam na nossa mão, maior do que aquela com que pegam no seu café. Eles são aqueles que nunca se deram nem por vencedores nem por vencidos, são aqueles que nos recordam do quão egoístas e exigentes somos, por encararmos um abraço ou um "obrigado" como algo trivial e dito sem significado. Eles conhecem o valor real de um gesto de carinho, porque expressam a sua necessidade em tê-lo e quando o têm libertam a sua gratidão com um enorme esplendor. Nós banalizamos tudo isso ao ponto de não exigir afeto, ao ponto de negar criar laços, comportamo-nos como se fôssemos tudo menos pessoas normais. Crescemos a acreditar que a vida que levamos será garantida para todo o sempre, quando no fundo aquilo que nos separa daquelas condições físicas e psicológicas é uma linha extremamente ténue, é um colocar de pés numa escada errada, é a perda de algum familiar, é a dependência que passámos a ter de algo ou alguém, tudo porque a única premissa para se ser uma pessoa doente é ser-se um ser humano. A única condição que uma doença exige é a nossa respiração, é o estarmos vivos. Percebemos que nada na vida é garantido quando entendemos que mesmo a própria vida pode ser fugaz. É difícil a transição para a nossa realidade e ainda mais quando entramos no comboio de partida e nos apercebemos do compasso individualista que se gera à nossa volta, da pequenez humana de que afinal somos feitos. O caminhar monótono e frio. A melancolia em torno da tecnologia. A barreira psicológica e emocional maior do que a divisão física entre os bancos das pessoas. A paisagem despercebida. Os bocejos do cansaço da vida. Gera-se a vontade de fundir as realidades e acabar com preconceitos, de mostrar àquelas pessoas o quão valiosas são aquelas que deixei para trás e que vivem longe da rotina da metrópole. Agora restam as memórias e as lições de vida. Mais do que uma bonita casa de saúde, foi uma jornada única em torno de seres humanos incríveis. Quando fui embora um voluntário disse alto "-ela vai embora" e eis que um utente respondeu "-mas fica sempre cá dentro (com a mão no peito)", e aí percebi que parte de mim ficaria ali para sempre e que agora iria começar a missão cá fora, a continuidade de toda a bondade que de dali recebi.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Do medo do começo ao medo do fim

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Uma retrospetiva universitária é muito mais do que isso, é a interpretação dos melhores anos da tua vida, aqueles que se constituíram como um pilar dos teus ideais. Tudo começa com um enorme medo do começo, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de estudo mais sério e direcionado para o nosso futuro. É realmente assustadora a fase antes da mudança e todo o percurso durante o primeiro ano, porque existem desafios todos os dias, desde o novo professor que veio dar x aulas e se esse professor dá slides ou a que horas costuma colocar as fotocópias na papelaria, desde aquela cara nova pela faculdade ou o trabalhador estudante que resolveu aparecer na aula, desde as festas académicas de toda a ordem e feitio às praxes marcadas à última da hora, desde as personalidades dos colegas de casa àquelas noites em que todo o prédio está em festa e não nos deixa dormir, desde as saudades de casa ao medo da solidão. E no meio disto tudo ainda temos o maior dos nossos problemas e aquilo que é mais importante saber dominar e domesticar: o nosso psicológico. No meio de toda a azáfama o maior desafio está dentro de nós próprios, está em controlarmos a nossa mente, em mantermo-nos fiéis aos nossos princípios, saber dizer que não quando o nosso instinto assim o disser, controlar os ânimos e o entusiasmo face a festas e pessoas porque ambas são igualmente voláteis e tanto uma festa na véspera de uma avaliação não é o melhor a fazer, como amizades para a vida são apenas uma minoria, é importante saber receber as más energias com um abraço e conseguir emitir boas energias, retirar sempre um ensinamento construtivo de tudo, mesmo daquela praxe em que chorámos ou daquele almoço em que ficamos sozinhos numa mesa da cantina, porque afinal nada disso é relevante ao lado do nosso crescimento pessoal. Mas lembremo-nos que acolher esse conhecimento não é apenas absorver o que nos rodeia, temos também de fazer parte dessa história e intervir, temos de agir! Devemos puxar pela nossa vertente social, ainda que não seja muito aguçada, porque a verdade é que ser sociável não é darmo-nos com todo o tipo de gente, isso é ser moldável, podemos encontrar pessoas semelhantes a nós ou que nos façam criar uma zona de conforto em torno delas e confiar nelas, criar laços fortes e deixar soltar a pessoa extrovertida que mora dentro de nós, isso é ser sociável, mas é ainda mais do que isso, é saber viver. Lembremo-nos que se alguém nos vira costas mesmo sem nos conhecer o erro está nessa pessoa e não em nós e se por um lado devemos entender que uma pessoa não se resume aos seus erros por outro devemos saber que perante erros alheios a melhor resposta está na nossa não reação, porque agir com indiferença é efetivamente o primeiro passo para termos também o sentimento de indiferença. Falo de sociabilidade porque ela é a chave para quase tudo, para que assentes amizades, que troques apontamentos, que te desenrasques numa rua desconhecida, que te safes numa apresentação oral, que consigas perguntar na aula todas aquelas dúvidas que te inquietam e, claro, para que na reta final tenhas um bom estofo para apresentares a tua tese. Mesmo que não se trate de sociabilidade propriamente dita, então falemos de descontração em público, de um bom manejo verbal. Questionarmo-nos sobre coisas simples é fundamental, sobre se estás a gostar da nova etapa, se houvesse uma nova candidatura se escolherias o mesmo rumo, se confiarias um segredo teu a algum amigo de faculdade, se passasses um fim de semana na tua cidade se te causaria algum tipo de pânico, se mudarias alguma coisa caso tivesses esse poder, tudo questões que te oferecem respostas que te fazem perceber se estás feliz ou se estás a caminhar na direção certa. Falar com os pais sobre isso é das melhores formas de o fazer, mas aprende também a fazê-lo sozinho. Com a mente resolvida é bem mais fácil encarar o resto. Por outro lado, é claro que o facto do ano letivo ser dividido por semestres, e existir a constante troca de professores, conteúdos e dinâmicas, implanta-nos um ritmo alucinante de stress e responsabilidade. Até poderia dizer que estudando aquilo de que se gosta tudo se torna mais fácil, mas não creio que seja verdade, porque a rotina, o empenho e a independência que é exigida de nós rema com mais força e adquire mais destaque do que o nosso gosto pelo curso. Até porque estar na universidade não é apenas e somente um canudo, é experiência de vida, onde todo o meio envolvente nos direciona para um sonho que nos leva ao auto-conhecimento. A verdade é que estamos numa cidade nova e o edifício da faculdade provavelmente será aquele que menos pisamos e todo o pormenor, por mais pequeno que seja, irá fazer parte de ti e da tua caminhada. A universidade é, acima de tudo, uma jornada desafiante que te é oferecida para que conheças o valor da vida. E mais uma vez sublinho que esta jornada faz mais sentido quando cuidares do teu psicológico e aprenderes a ter uma mente livre, curiosa, mas sempre focada no objetivo. E é em torno de tudo isto que os anos vão passando, como uma jangada lenta mas que rapidamente chega à margem da ilha mais próxima. Tudo termina com um enorme medo do fim, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de vida ainda mais sério e de portas abertas para o nosso futuro. A nostalgia e o peso dos anos é tremenda! Não importa a idade ou a vontade em ser-se independente monetariamente, no momento da despedida só importa a saudade e quase todos voltariam a repetir cada segundo da sua vida académica. É por essa saudade antecipada que eu e muitos estudantes navegam, ao pensar que falta tão pouco, e queremos acolher essa saudade como nossa, porque sentir saudade é sentirmo-nos mais próximos daquilo que foram os melhores anos da nossa vida. Recordar é admitir que algo aconteceu e nos fez felizes.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sequela

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Chamo-lhe de sequela. Poderia ser uma guerra remota, mas chamo-lhe de sequela. Não apenas pelas suas raízes no passado e poder sobre o futuro, mas pelo caráter furtivo e indutor de fraqueza, em certa parte. É como um suspiro sensível ao tacto, como um frio moribundo em formato de escudo protetor, como uma pedra que foi engolida em troco de paz, como um eco agudo que rima com medo. Apodera-se de laços humanos e surge quando alguma empatia se avizinha. É a força que me leva a dar um passo atrás, que me retrai, que me altera a expressão facial, que me inverte a boa energia que emito e quebra a lei da ação/reação. É ela que cria uma redoma vazia em torno de mim e uma espécie de sentimento claustrofóbico perante a vida. É uma voz madura, mas ingrata e cruel. Como se fosse um rugido de um monstro sábio com música clássica de fundo. Uma voz que fala apenas de forma imperativa e que jamais admitiria uma falha minha. Ela refugia-se em lemas de vida inspiradores e veste-se com uma espécie de individualidade levada ao extremo. Os amadores caracterizá-la-iam como a força para enfrentar obstáculos. É útil para travar batalhas e enfrentar dilemas em que precisamos de fazer emergir a frieza, mas tira-nos um lado humano. Um lado que é o sentido de muitos passos apressados dados na rua. Talvez a característica mais comum por entre os humanos: a capacidade de amar. É como se já não houvesse espaço para essa vertente, como se a tela de um pintor já tivesse rascunhos no plano de fundo, como se as minhas forças já tivessem um destino. O de somente serem canalizadas para vias racionais. Uma profissão, uma viagem ou um hobbie. Como se este antagonismo de me fortalecer e me fazer valer uma guerreira, só me reduzisse mais o valor sentimental, como se cada vez mais eu fosse somente a minha aparência, como se uma enorme batalha interior ultrapassada fosse, agora, reconhecida como uma simples carcaça. Como se uma guerra mundial tivesse sido esquecida e tida como trivial e, agora, fossem admirados apenas os escudos dos guerreiros. Mas um guerreiro não é apenas a frieza do seu escudo ou a rigidez do seu aço, também não é apenas a guerra que travou ou a sua estratégia de combate, não se resume a isso. Um guerreiro é a face mais dolorosa por detrás da causa que despoletou a guerra. Afinal nenhum guerreiro existira sem guerra, porque nas histórias de amor não são os guerreiros que fazem a guerra, quem a despoleta são precisamente os mais fracos, fracos de espírito, porque os guerreiros encaram essa guerra não como resposta ao inimigo, mas como uma auto-proteção e uma espécie de carta de alforria que os faça viver um novo capítulo, porque essa luta que travam não é nada mais do que a sua luta interior. É por isso que um guerreiro não é apenas a barreira que ele segura quando está de olhos postos para o precipício, é a sua história e a sua essência. Aquilo que o mantém de pé, a crença que o sustenta, os seus valores e as suas virtudes. Porque a sua firmeza hirta não tem origem na crueldade que sentiu, mas na forma como contornou o medo, no levantar dos seus joelhos, na capacidade de converter algo que o poderia matar numa poderosa força invencível. E é nesse momento que mostra ao mundo o quão pequenina é a maldade que lhe foi dirigida como lanças afiadas no coração. É esse espírito que o distingue de tantas outras frentes de combate, que o ressalta por entre qualquer outro lutador de escudo na mão, com o mesmo ferro, a mesma carcaça e a mesma ferida ao peito. Mas um coração diferente. Um coração que pode estar adormecido mas que oferece sensibilidade ao olhar e à abertura das pupilas, que ainda valoriza um toque macio entre duas mãos, que procura a amabilidade nos pequenos gestos altruístas, que ainda se rege pelos valores mestre da fieldade e respeito. Tudo porque fora dessa luta ainda existe um ser humano. Longe desse lado negro pelo qual tivémos de dar a cara, está a pequenez humana. Não importa apenas a grandeza de espírito de sacrifício que se idolatra, mas a vontade de se completar e de encontrar um propósito de vida em alguém, de se baixar e se reduzir ao tamanho de um humano. Esse sentimento pode ser aquilo que nos torna generalizáveis e seguidores do maior padrão da sociedade, o amor, mas é isso que efetivamente queremos possuir. Sim, o amor. Essa enorme pequenez humana! Insatisfeitos até mesmo na grandeza de se ser um lutador, ao ponto de se querer agarrar algo tão banal e lendário. Mas o propósito de vida de um ser humano também contempla essa lenda, escondida por detrás das rosas do jardim, onde só um guerreiro de mãos fortes poderá resistir aos seus espinhos e oferecer essa rosa à sua donzela. Por alguma coisa as rosas têm espinhos. Talvez porque antes de amar e ser-se detentor de uma rosa, é urgente sofrer. A dor e o amor são igualmente necessários. Ambos fortíssimos e devastadores e, por isso, os extremos que mais nos mostram a realidade da vida. As sequelas mais reais e intemporais.

(sugestão de música de fundo)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Não existe

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Gosto quando as plantas selvagens provam da sua própria liberdade e dançam ao sabor do vento, beijando-se suavemente, recortando o céu laranja do pôr do sol, como se existisse uma mensagem a ser transmitida e as fizesse falar entre elas. É bonita a forma como essa melodia dançante nos amplia a simplicidade, nos faz respirar com um ímpeto mais calmo e transparente, como nos torna tão pequeninos ao lado daquela imensidão de vales de caules melodiosos e silenciosos. Esse silêncio que é gerador de grandeza natural e pequenez humana. E na verdade somos realmente pequeninos. As plantas unem-se em redor do seu aroma, refrescam-se umas às outras, revelam os seus segredos, deixam-se ser livres. E nós, humanos, com o gigante problema de explicar as coisas, exteriorizar sentimentos e ler as pessoas. Vivemos debaixo de tetos de frases feitas que se refutam umas às outras e que, por sua vez, refutam a nossa identidade. Precisamos desse vento singelo e oco que nos mostre o paraíso e as trevas, porque é isso que é a realidade, e que nos ensine a partilhar um pouco do nosso pólen, a nossa essência. Afinal, mesmo as plantas espontâneas e insignificantes têm uma palavra a dar ao mundo, desde que não falte o cruzar das periferias das suas folhas. Somos o resultado de um mero compasso ritmado por onde fluem sonhos e conquistas, onde tomamos como trivial a nossa vida na terra. Queremos ser perfeitos e idolatrados, queremos aceitação social e admiração, e o espaço que sobra para a nossa essência é ínfimo e decrescente com o tempo. É incrível como os detalhes rugosos dos troncos mais ásperos não seguem esquadrias e simetrias, regem-se pela natureza da criação e é isso que os torna belos, enquanto nós procuramos contornar a criação e domar a inteligência que o próprio universo nos ofereceu, moldar e afinar cada aresta com a forma do nosso egoísmo. A capacidade que tem o vento de nos potenciar o olhar e de nos elevar a sensatez faz brotar em nós gestos mais puros e humanos. Os gestos são intemporais, a forma segura com que se abraça o mundo é intemporal, o amor verdadeiro é intemporal. Talvez seja a componente intemporal de cada sentimento que faz com que ele persista no tempo. Ser temporal é ser tempestivo, questionável, fugaz, é ser esfumado com o passar dos anos. E é aquela pequena porção intemporal, com jeito de pilar forte e seguro, a porção mágica e inexplicável a que damos o nome de amor, que persiste no tempo, que nos leva a ser crianças por momentos e a acreditar que podemos ser mortais mas com sentimentos imortais. Talvez sejam os atos mais básicos e banais que unifiquem as pessoas e que estejam a fazer falta neste mundo perverso. Não há toques suaves entre mãos, como aquelas plantas que apesar de selvagens contemplam uma loucura saudável e inocente. Não há silhuetas ao pôr do sol, como aqueles recortes que os prados constroem fielmente todos os dias. Não há aquela empatia secreta revelada na mensagem levada pelos campos, de pétala em pétala. Não existe a promessa de se ser feliz, existe a obrigação em não se estar sozinho. Não existe o amor como dádiva, existe uma espécie de sequestro em nome das aparências. Não existe o beijo tímido, o passeio à chuva ou a canção que se improvisou, não existe a carta de amor, o poema que nos ocupou a madrugada ou a pedra a bater na janela, não existem os planos que nos tiram o sono, o pedido de joelhos ou o olhar emocionado, não existe o conselho sincero, a oração de esperança ou o lenço de mão que não foi pedido, não existe o abraço reconfortante, a mão que não nos larga ou o orgulho de se ter alguém. Não existe o ciúme verdadeiro, sem que traga consigo o sentimento de posse. Não existe o objetivo de assentar um sentimento e de alimentar a ideia que se quer alguém para a vida toda. A efemeridade domina o mundo e cada vez mais somos como aquele pôr do sol com diversos começos e fins, com um breve intervalo de tempo e com a previsibilidade daqueles tons laranja em dias de verão.