quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Aquela infância

beach, kids, and happiness image

Ali vou eu de alma leve, a correr pela praia e a sentir a bravura daquelas pequenas ondas que me assustam. Mas vou feliz. Vou de coração cheio. Carrego sonhos concretizados a cada respiração e todo e qualquer movimento só emana de mim a mais bela juventude. Sou pequena demais para enfrentar aquelas ondas mas com uma coragem grande demais perante a vida. Mas a verdade é que nada é demais por esta altura. É o nosso mimo exagerado, a nossa carência levada ao extremo, que faz das crianças os seres mais bonitos e protegidos do planeta. Elas carregam os maiores dos antagonismos. Demonstram inquietude mas só possuem leveza, escondem a timidez com gargalhadas, atenuam a sua tristeza com brincadeiras, dizem frases simples mas poderosas, que fazem do seu intelecto o mais simplista mas aquele que mais nos surpreende. Era essa simplicidade que me fazia sentir aquela areia molhada com uma gigante alegria, apanhar conchas com uma enorme dedicação, e hoje penso que a natureza e os momentos plenos que temos com ela mereciam maior apreço por todos nós. Pena que muitas vezes estes momentos já só existam na forma de um papel retangular perdido no álbum do tempo. Era por entre corridas com o meu pai e sestas no colo da minha mãe que eu acreditava que tudo fazia sentido e que algo de muito bom estava garantido na minha vida. As garantias mantiveram-se, mas surgiram muitas outras exigências e objetivos que se sobrepuseram àquilo que já tínhamos. Sem nos apercebermos que continuamos a ter o que é realmente belo, os nossos pais e a areia da praia no mesmo local. É isso que a rotina nos faz esquecer, que já temos o suficiente para sermos capazes de lidar com os mundos profissionais e emocionais. Sempre tivémos o poder de escolher qual a onda a apanhar ou qual a velocidade a que queremos correr. Podemos já não trazer conchas nos bolsos ou o cabelo repleto de sal, mas a vida continua a ser uma breve corrida pela praia, ora serena, ora tempestiva, consoante o ritmo marítimo, onde percebemos que o que restou da nossa infância e da rotina da semana passada foi exatamente o mesmo: pegadas. O produto da infância e o produto do nosso presente vai apenas gerar mais pegadas, porque a areia continua e a tua força interior também. Há uns anos não raciocinávamos sobre a nossa sorte, sobre aquilo que nos transcendia e nos gerava o nosso conceito de felicidade, porque nos contentávamos com o deleite do presente. Hoje em dia somos robotizados de forma a ignorar o passado e o presente e adquirir um foco extremo no futuro. Estamos pouco preocupados com aquilo que fomos ou somos, mas com aquilo que queremos vir a ser. Estamos literalmente a agarrar-nos à utopia e é a nublina desse desconhecido que nos leva a esquecer aquilo que permaceu desde o dia em que nascemos, da constância de algumas pessoas que nos rodeiam, da nossa forma de estar, do nosso lar e das nossas pegadas na areia que provavelmente iam numa direção diferente daquela que tomamos agora. Se em criança nós voltaríamos atrás para apanhar uma concha perdida, hoje nós atiraríamos essa concha para bem longe, como forma de traçar o nosso alcance e alargar os nossos limites futuros, mesmo que isso se trate de um horizonte fusco, como se quiséssemos que a vida passasse mais depressa, como aquela viagem chata de comboio onde só queremos ver a estação de chegada. Mas num mundo ideal essa linha de comboio deveria terminar na praia da nossa existência. Ali estava eu a rebolar nas dunas dessa praia e a ver a minha figura espelhada na lucidez do mar, a observar a água a ir e a voltar e a relembrar-me vagamente daquilo que tinha e que mesmo que fosse, voltaria sempre. Era ilusório, mas era inspirador. Parecia delírio acreditar que tudo o que fosse também viesse, mas tem um pouco de verdade, porque mesmo o passado, que é a condição que nunca retorna, trás consigo tudo aquilo que tu foste, toda a premissa que faz ti, hoje, um argumento forte e coeso. O passado é a tua alma, a tua impressão digital. Foram as tuas quedas e fracassos que te duplicaram a força ao levantar hoje, foram as tuas escolhas bem sucedidas que te levaram a defender os ideaias que defendes, foram os teus medos que te levaram a acreditar em certas frases inspiradoras. Os conceitos básicos de bom ou mau, de medo ou curiosidade, de injustiça ou frustração, não foram apenas adquiridos na tua infância, estiveram e têm estado sempre em constante construção, limagem, atualização. O passado é mais presente do que o futuro. O incerto e aquilo que nunca aconteceu não poderá fazer parte de nós, de maneira nenhuma. O próprio ato de sonhar é totalmente baseado no nosso passado e na nossa experiência de vida. O passado é a garantia mais bonita que temos, que nos liga a pessoas e momentos perdidos, porque nos afirma que aquelas pegadas foram desenhadas por nós, enquando fazíamos parte da vida de alguém, enquanto travávamos uma luta interior, enquanto festejávamos ou chorávamos. O passado é a saudade e a saudade é a valorização de algo. Exércitos pensantes que só saibam olhar em frente não poderão nunca ser felizes nem conhecer os seus alicerces, a sua essência. Hoje em dia, um posto de trabalho, um parceiro de relação, uma refeição gourmet, um espetáculo famoso, uma viagem de barco ou um simples bilhete de cinema, são tudo coisas que não são garantidas e que, se forem embora, podem nunca mais voltar. Mudaram as circunstâncias na proporcionalidade da tua experiência de vida e da tua força interior, mas enquanto existiu um número crescente de coisas não garantidas, aquelas que eram garantidas mantiveram-se: a tua alma e o teu passado. Lembra-te que foram os teus pés que moldaram aquela margem, é o diâmetro da tua existência que ali está. Sobras sempre tu e o teu chão de areia. Lembra-te disso.

Sempre que o amor me quiser

Quando surgires estarei pronta para te receber. Prometo não vestir a minha melhor roupa, não criar uma ordem cronológica de acontecimentos, não planear a minha forma de estar. Prometo não gerar expectativas, não esperar pela sorte ao virar da esquina, não tentar adivinhar um possível cheiro de um ramo de flores, prometo não treinar a minha melhor letra para enviar pelo correio, não sonhar com vestidos de noiva, não apreciar tanto o cavalheirismo, prometo controlar a ansiedade, absorver o meu próprio discurso, ter firmeza na voz, prometo não me iludir com uma chegada arrebatadora, não me derreter face ao primeiro olhar, não estar demasiado atenta ao discurso, prometo não tentar sequer perceber se és o tal, porque a magia deve ser mantida e perguntas sem respostas são geradoras de ambiguidade que atenuam o grau de felicidade que poderíamos ter. Não irei ceder à penumbra da dependência, ao conformismo de uma rotina favorável e de um dia 14 de Fevereiro com motivos para festejar. Não irei mudar planos só porque o carro passará a ter mais uma pessoa para além de mim, irei sim acrescentar sonhos. Não irei catalogar-me como mais um cliché de amor que aumente a felicidade dos meus dias, mas como uma história única que melhore o meu conceito de felicidade e me faça fazer juz ao milagre da vida. Não irei sempre escolher os dois braços que me poderão abraçar em detrimento da natureza e do seu ruído provocante e apaziguador. Não irei permitir que existam rédeas, mas sim confiança. Não irei atender à quantidade de anos que me restam, mas à qualidade desses anos. Não irei esperar, gritar ou pedir. Não irei calcular, suplicar ou julgar. Não irei chorar, rezar ou reclamar. Apenas serei grata quando esse dia chegar. Alimentarei as diferenças quando elas me aproximarem da sanidade mental, proclamarei por um diálogo saudável que tome os contornos de uma linguagem universal, aplicarei as leis básicas da simplicidade e da pequenez humana, elevarei o poder do vento, do sol e da chuva, construirei não apenas um casamento, mas um lar doce e humano que seja um oásis de esperança e ternura. O que tiver de surgir, surgirá. Refiro-me ao amor e não à pessoa apaixonada. Como poderia reduzir o amor a um esqueleto envolto em carne e movido por personalidade? Como poderia o amor ser tão ínfimo como um ser humano? O amor é a premissa mais impactuante, mais pujante, mais inquestionável e menos palpável. Subordinado ao amor está o invisível, porque pessoas morrem e o amor permanece. É ele que brota em todas as almas de qualquer ser vivo sem necessitar de um ensinamento ou de uma passagem de testemunho. Toda a alma aprende a amar sem querer e a grandiosidade desse sentimento reside precisamente no tudo que se gera no meio do nada e, sobretudo, na ausência de um propósito, no facto de sermos aprendizes sem termos tido um mestre, e não sabermos sequer que ao mesmo tempo já o somos. O amor é como um livro aberto em que a premissa da nossa existência é suficiente como argumento. Haverá coisa mais bonita como entendermos que nos basta existir? Haverá algo mais belo do que sermos suficientes num mundo que nos faz crer que nada do que fazemos vale a pena? Sinto que o argumento do amor se resume não a uma espera constante de um príncipe, não à contagem do tempo e da idade ou à culpabilidade do destino, o amor resume-se ao orgulho e carinho por nós mesmos. Se a nossa alma quer usar o nosso corpo como meio para atingir o alvo apaixonado, se nós somos o nosso próprio objeto para alcançar o nosso objetivo, então temos de nutrir amor próprio. Se tivermos uma flecha na mão e quisermos acertar no alvo e se acreditarmos no fracasso dessa flecha certamente que o nosso nervosismo vencerá e nunca acertaremos no alvo. A mesma coisa acontece com os cupidos da vida, onde a nossa baixa auto-estima nos quebra as leis de ação reação e nos faz gerar uma tremura emocional que não nos permite ter a firmeza para suportar uma relação. Acredita na pontaria da tua flecha que reflete a tua ambição certeira e desmedida. Antes de quereres fazer a diferença na vida de alguém terás de fazer diferença na tua vida. Nutre o amor por ti mesmo.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

(Re)nascer


Quero falar de inspiração, de positivismo, de revolução. Quero falar-vos de um milagre belíssimo a que assistimos todos os dias: a vida. Não se trata apenas de respiração e de batimentos, trata-se do propósito com que o fazemos, do motivo inspirador que domina a razão de viver e da forma como acolhes os teus próprios passos. Eu acredito que tudo se resume à força da mente e à nossa vontade de viver e sentir a vida em nós. Resume-se sobretudo à nossa forma de interpretar as circunstâncias. Devemos entender que as repreensões dos nossos pais ao acordar nos espelham a sua vontade para que sejamos pessoas melhores, que o pássaro que nos borrou a camisola nos falou em liberdade, que uma resposta torta que recebemos nos falou em formato de desabafo. Devemos entender que música alta nos fala de boas vindas, que cusquices alheias nos falam da nossa importância, que o sentimento de saudade nos aproxima das coisas mais maravilhosas que já vivemos. Devemos entender que um engarrafamento nos fala sobre o valor do tempo, que a falta de rede ou de wifi te fala acerca de prioridades, que a proximidade dos bancos do comboio te fala de sociabilidade. Devemos entender que erros que cometem connosco nos potenciam o desafio de saber perdoar, que o afastamento dos outros nos dá a oportunidade de provar mais uma vez aquilo que somos ou de entender a sua incapacidade em lidar connosco, mas ao mesmo tempo entender que quando lutam por nós e nos fazem sentir especiais, que devemos saber aceitar isso, absorver essa felicidade, porque felicidade não se nega. Devemos aprender a lidar com despedidas e reencontros. Aceitar o que vai, porque certamente já não te acompanha ou acrescenta, e aceitar o que vem, porque existirá lugar na tua vida para essa vinda. Devemos entender que aquela bola que rebolou com força até aos nossos pés nos lembrou da inocência das crianças, que essa bola é o seu único objetivo e único problema com que estão preocupados naquele momento, e ainda assim dão um pontapé nesse problema, o que nos faz relembrar do quão grande é a amplitude que damos aos nossos problemas e tão pequena a resistência que lhes oferecemos. Sejamos a nossa prioridade, o começo e o fim das nossas carências, o nosso princípio básico e necessário para se ser feliz. Tudo o que depender dos outros que sejam acréscimos e nunca pilares. Valorizemos a solidão e lembro-nos que por detrás de alguém solitário está alguém que sabe apreciar o seu próprio tempo. Por detrás de alguém bajulador está uma pessoa a precisar de receber sem que isso seja uma exigência, desativar-lhe o conceito de bajular e o hábito de o fazer sempre que precisa de algo. Por detrás de alguém convencido está uma pessoa que precisa de ouvir um elogio sincero ou ter uma amizade duradoura para que isso preencha as falhas da sua auto estima. Por detrás de alguém durão está uma pessoa com um alvo sentimental enorme e que precisa de sentir que um elogio dado por si é importante, que existem pessoas a aguardar o seu carinho e a sua dedicação. Por detrás de alguém egoísta está uma pessoa que no passado já deu demasiado de si mesmo e precisa somente de reconsideração. Todo o defeito precisa de um reforço que o faça dominar e fazer brotar o lado humano de cada um. Cada uma destas pessoas precisa de se completar. Nós somos seres sociais e que devemos saber lidar com o mundo e as pessoas que nele habitam. O segredo está em ajudar os outros, em dar-lhes a mão, até que a construção humana seja tão alheia como pessoal. Construir os outros e deixarmo-nos construir é a melhor forma de evolução recíproca. Praticar o bem e implantar bons ensinamentos é o lema. Acima de um bom profissional, de uma alargada popularidade, de grandes círculos de amigos, de prestígio, de dores e sofrimentos, de pobreza ou riqueza e, principalmente, acima da cara metade que tanto procuramos está o bonito ser humano que somos. Penso que tudo se resume a uma incessante busca pela simplicidade, praticando a resiliência e a aceitação. A vida é demasiado bela para a passarmos a questionar sobre o porquê de não reconhecerem o nosso valor, porque nós temos o nosso valor intrínseco e por detrás de cada lição de vida que pregamos e por cada mão que estendemos existe alguém grato pela nossa presença e preocupação, alguém a agradecer e a valorizar, alguém cujo olhar nos pede para permanecer na sua vida. Essas pessoas não precisam de ser aquela que nos coloca a aliança no dedo, são aquelas que partilham a sua vida connosco de outras formas, que viajam connosco, nos atendem os telefonemas e dão sentido ao nosso dia a dia. Porquê esconder-nos por detrás de um esteriótipo que nos consome? De um padrão social que nos poderá trazer baixeza?  Focarmo-nos no bem da sociedade nunca poderá ser levado como perda de tempo.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Conspirações sobre amor e relações

Amor como crónica era algo que não esperava que tomasse espaço aqui no blogue, mas a verdade é que é um dos assuntos mais eminentes e com que mais me tenho confrontado em vidas paralelas à minha. Não irei mencionar frases clichés sobre o amor e escusado será dizer que o maior dos clichés é quando dizem que os apaixonados não conseguem explicar o amor e que quem o explica é porque não está apaixonado. Tretas. As pessoas não explicam o que é o amor porque simplesmente não sabem aquilo que lhe serve de pilar e, na verdade, nem sequer tentam explicar porque a partir do primeiro mês de namoro adotam a ideia de que já não precisam de conquistar a pessoa. As pessoas não são bens de consumo e qualquer ser humano vale muito mais do que o preço barato com que o comprámos com a sedução dos primeiros encontros. Às vezes passam anos, admitem-se falhas e traições, alimentam-se sofrimentos e arrependimentos, e só depois de cruéis separações é que percebem que "compraram" aquela pessoa em saldos e que, na verdade, ela valia muito mais do que aquilo que demos por ela. Esse é o primeiro problema que aqui retrato: reconhecer tarde de mais o valor das pessoas. Lutar hoje, aqui e agora, é um dos grandes lemas de uma relação. Admirar a pessoa todos os dias, oferecer pequenos gestos de dedicação e estar grato pela sorte de a ter, são tudo fortes premissas no argumento do amor. E no cerne desta falta de reconhecimento existe o orgulho. É ele que paira no ar quando não enviamos uma mensagem e ficamos repletos de rascunhos no telemóvel e na mente, quando estão ambos online nas redes sociais e na vida e se ignoram porque acham que deve ser a outra pessoa a ligar ou a acenar, tudo obstáculos criados pelas pessoas. Geramos problemas que não existem quando a própria tecnologia nos facilita o ato virtual de "dar a cara". Deixem-se disso e falem quando o vosso coração pede. Aí está outro dos principais problemas: o cansaço da rotina e a falta de iniciativa. Um gesto de carinho vem sempre a tempo e atrai sucessivos gestos de carinho, onde poderá desenrolar-se muita reciprocidade e continuidade pelo pequeno e simples facto de alguém ter tomado iniciativa. São essas lufadas de amor que faltam e que, quando ausentes, levam à monotonia da relação. Outro entrave ao amor: a falta de capacidade em se acolher uma pessoa por inteiro, deixando de amar os defeitos do outro. Noto que as pessoas não estão preparadas para acolher os defeitos dos outros, para abraçar uma pessoa que nem sempre vai acordar sorridente, não estão preparados para ter mente aberta e aceitar uma viagem que não planeavam ou ir ver um filme que não gostem, para se moldarem ao estado de espírito da outra pessoa e ter sensibilidade emocional, não estão preparados para aceitar grandes desafios como casarem, apresentarem os seus pais ou simplesmente praticarem um desporto que nenhum aprecie, para fazerem coisas únicas e aventureiras às escondidas e em segredo de toda a gente, não estão preparados para aguentar a distância e entender que são os sentimentos que movem a felicidade e não as estradas que os separam, para surpreender com uma refeição quente numa manhã de inverno ou uma flor vinda do nada, não estão preparados para sorrir e festejar juntos mas, principalmente, não estão preparados para chorar, rezar e suplicar juntos, para dar as mãos com força e partilhar a sua fé e o seu amor pela vida. Chega-se à conclusão de que se procuram pessoas perfeitas. Umbigos egocêntricos e imperfeitos procuram intensivamente a beleza exterior até que se fartam e entendem que o interior também poderá ser importante ter em conta, esquecendo-se de que aquilo que exigem já está a ser mais do que aquilo que merecem, esquecendo-se principalmente da sua própria beleza, por tanto se cansarem de procurar esse atributo nos outros. Acontece que essas pessoas estão a nutrir mais a beleza dos outros do que a sua e isso potencia o afastamento entre duas pessoas, porque passamos a ter uma beleza idolatrada e estereotipada em contraste com a nossa própria beleza, que é nula, porque a maior beleza não é a que existe nos elogios, é aquela que nós acreditamos ser real. E assim surge uma outra preocupação: a falta de amor próprio. Ama-te a ti primeiro para depois amares os outros. Eu sei que não queria cometer o erro de referir clichés, mas como poderemos aceitar menos do que aquilo que merecemos? Essencialmente pela baixa auto-estima e uma maturidade também pouco aguçada. Auto-estima e maturidade, juntas, oferecem-nos a racionalidade de que precisamos, para que nos distanciemos de um problema e o passemos a interpretar de forma imparcial, sem admitir que somos nós os protagonistas da história. Com o tempo percebi que não se trata de inteligência, porque muitas vezes nos chamamos de burros e de cegos e temos a total sobriedade em afirmar que estamos a rastajer ou agir de maneira errada ou contra os nossos princípios. Trata-se totalmente da nossa confiança, do nosso ego, do valor que damos a nós próprios, porque sem auto-estima não saberemos domesticar o amor, é como tentar interpretar um texto sem ter aprendido a ler. A maturidade é, também, importante, mas por ela não se luta, ela simplesmente vai-se conquistando com o peso dos anos e da experiência e, com base em capítulos passados, saberemos melhor aquilo que queremos para nós e aquilo que nos gera aversão, saberemos tomar decisões mais acertadamente, afastarmo-nos de uma pessoa no momento certo e antes de sentirmos que a paixão poderá surgir, é como uma espécie de diagnóstico que oferecemos a nós mesmos e com base em prognósticos passados sabemos qual a melhor decisão a tomar. Outro problema que vejo por aí: o de depositar fielmente e ingenuamente a nossa felicidade em mãos alheias. Como se o nosso propósito de vida fosse um pedaço de pão oferecido com um sorriso, enquanto estamos famintos. A verdade é que por mais nobre que seja depositar a nossa felicidade nos outros, é preferível adotar outros atos nobres como ajudar os pobres ou praticar voluntariado. Com a felicidade não se brinca e por isso mesmo ela só pode ser depositada nas mãos de nós próprios, porque somos a única pessoa neste mundo que sabemos com toda a certeza que não nos quer mal. Somos os únicos com o direito de tratar a nossa felicidade como uma marioneta. Tudo bem, é uma espécie de auto-defesa, mas será assim tão mau vivermos com esse escudo? Podemos logicamente partilhar grande parte da nossa felicidade e quando o amor é real é claro que ela também está ligada às ações dos outros, mas não podemos depender totalmente dessa pessoa, esse é um dos enormes problemas da sociedade: a dependência. Se por um lado o desprendimento e a frieza é um dos problemas do amor, também o apego excessivo e dependência é uma forte preocupação. Independência é caminhar lado a lado mas focado no seu caminho, significa abdicar pela outra pessoa mas não significa perder o seu rumo ou anular os seus objetivos. A dependência leva a que não consigamos retribuir com indiferença quando nos tratam como tal, mas é preciso recordar que tudo aquilo que seja uma retribuição é porque não começou por nós, e a não reação que nós oferecemos é como um pedido de ajuda, um grito de quem está desejoso para que tudo corra bem. O problema seguinte: falta de sensibilidade. Muitas pessoas não têm essa sensibilidade face aos problemas dos outros e dificilmente interpretam um longo silêncio como sendo uma intensa tristeza. Às vezes temos mesmo de cruzar os braços e esperar que a outra pessoa ganhe essa sensibilidade e aprenda a dar aquilo que sempre recebeu da nossa parte. Mas como a aprendizagem é repulsiva nas pessoas com pouca sensibilidade, talvez o problema não se resolva e o melhor mesmo é expôr os nossos sentimentos antes que a corda rebente. Assumir o interior que tanto nos consome e tanto quer explodir, longe de jogos e subentendidos, porque assim saberemos que a outra pessoa está a reagir face ao que sentimos e não em relação ao que ela achava que sentíamos. E se mesmo com as cartas reveladas o jogo não for vencido, é porque o destino não quis que existisse um vencedor, e nesse caso é momento de seguir em frente. Desculparmo-nos com o destino pode, também, não ser um forte argumento mas a verdade é que no amor, quando se trata de uma recuperação pessoal após algum erro por parte da outra pessoa, eu considero legítimo agarrarmo-nos a esse desconhecido a que chamamos de destino. No fundo, ele é o argumento que nos pode dar algum alento e o qual nos oferece a certeza de que estamos a procurar a nossa felicidade. Que argumento pode ser totalmente refutável quando tem em vista a nossa reabilitação e paz? Outro problema: quando a justificação recai na genética. São aquelas pessoas que se desculpam com a sua forma de ser, de pensar, de estar, e isso são autênticas balelas. Um argumento não pode ser simplesmente do género "porque sim" ou "porque não", como se uma pessoa não fosse capaz de se moldar às situações e aos outros. É só mais uma forma de não admitirem que não sabem lutar por alguém, porque lutar nunca foi sinónimo de se desculpar. Outra grave falha: confundirmos exigências com aquilo que merecemos. Lembremo-nos que tudo aquilo que esperamos dos outros, como carinho e dedicação, não são exigências da nossa parte, são apenas aquilo que merecemos, e quem nos fizer acreditar de que se tratam de exigências, não pode ser alguém que nos mereça. E neste contexto surge outro problema: a não aceitação do final da relação. É uma situação que só nos fará abdicar mais e mais sem nos apercebermos que a outra pessoa não dá sequer um passo em frente, fica-se numa hipnose e nem se questiona sobre o porquê do afastamento entre duas pessoas, quando na verdade às vezes tudo depende de nós e da separação que queremos negar mas que temos de aceitar. É preferível fugir a uma relação intermitente e que nos tira a oportunidade de conhecer novas pessoas e novas portas do que alimentar essa vida fugaz e a que a que nenhum equilíbrio nos poderá levar. Lembremo-nos que o oxigénio que precisamos advém da nossa liberdade e não conseguir aceitar que uma relação acabe, como se se tratasse de uma espécie de loucura, é a maneira mais fácil de perdemos a nossa liberdade e ficarmos presos nessa falta de lucidez. Depois há aquelas pessoas que surgem na nossa vida de pára-quedas e para esses casos o importante é: medir prioridades. Logicamente que a confiança que a pessoa conquista e tudo aquilo que sabe sobre ti tem de ser proporcional à importância que lhe dás e não podemos ter como prioritário alguém que surgiu do nada e quer saber tudo sobre nós. A melhor dica é testar a paciência da pessoa porque é o parâmetro que mais pode vacilar numa pessoa que mal te conheça. Não deixes que se torne excluivo do dia para o dia, dá espaço para que lute e preste provas e se vencer na paciência então aí já haverá possibilidade de seres alguém especial, mas até lá não te sintas especial. Esse é outro erro crasso: sentirmo-nos especiais com pequenas palavras. Primeiro de tudo são as ações que determinam se somos especiais, se te dá a mão, se não tem vergonha das tuas risadas, se a pessoa fica babada a olhar para ti mesmo quando o cabelo está virado do avesso, se ouve as tuas lamúrias mais ridículas, se te gaba em frente aos amigos, tudo aquilo que não vejas a acontecer com outras pessoas. Não aceites um "és linda" de bom grado porque a beleza existe em todas as pessoas, não te prendas a elogios exteriores porque eles fazem de ti uma pessoa generalizável, aprende a apreciar um "és culta" ou um "adoro esse teu tique", coisas que sejam tuas, apenas tuas, e que saibas que a outra pessoa só irá ver isso em ti. Outro problema gigante: enumerar qualidades e defeitos. Um vício de pessoas solteiras é imaginar tudo por tópicos na mente, se corresponde ao que idealizamos em termos de personalidade, de estudos, de vícios, de família, de amigos, de estilo, etc. Catalogar as coisas é o primeiro passo para que não se sinta amor. Daí tantas vezes nos queixarmos de nos apaixonar por pessoas erradas, porque são as pessoas erradas, de quem nós nunca apontámos as virtudes por elas não existirem, por quem o nosso coração se atrai. E o mesmo acontece quando nos afastamos de pessoas que não têm uma dessas virtudes e às vezes nos levam a perder pessoas com enormes potencialidades de viverem connosco um grande amor.  Digo que é um pensamento de solteiros porque a partir do momento que se apaixonam deixam de idealizar uma lista para passar a idealizar a pessoa que gostam e o esteriótipo é completamente invertido, por isso é escusado fazer listas porque contrariamente às listas de compras, nós não iremos encontrar nas prateleiras aquilo que está idealizado. Outro problema: o de apostar tudo numa pessoa ou não apostar nada. Muitas vezes dizemos "esta é a pessoa que quero para mim, é perfeita, vou entregar-me" ou "se falhou uma vez vai falhar mais por isso afasto-me", mas as coisas não têm de ser vistas com esta fatalidade. Uma qualidade ou um erro não definem uma pessoa, mas sim toda a forma de estar, as suas manias, aquilo que valoriza e que tem como prioritário na vida. Acolher ou rejeitar alguém de forma súbita leva-nos a que tratemos novamente as pessoas como bens de consumo descartáveis. Relacionado com este erro está um outro: acharmos que estamos destinados a ficar sozinhos para sempre. Ou porque já nos bateram à porta alguns azares ou porque a pessoa que julgávamos a tal nos desiludiu e achamos que se não for com ela não será com mais ninguém, são tudo motivos que nos levam a vestir a pele de vítimas e a culpar o destino. Não pode ser. Culpa-te a ti! Culpa a outra pessoa! Culpa as circunstâncias! Novas pessoas e histórias implicam novas premissas e esperanças e não há motivos para acreditarmos que tudo vai dar novamente errado, devemos preservar o caráter sonhador em nós mesmos e, ainda assim, termos a plena consciência que se sofrermos novamente já irá ser uma dor menor e mais suportável. No momento em que o teu coração sofrer ele vai lembrar-se "eu já passei por isto e sei como agir". Temos de dar oportunidade a quem surge na nossa vida e não tentar prever desde cedo os danos que essa pessoa poderá causar. E decorrente desse erro, falo-vos finalmente do terrível vício de: ter medo de sofrer. Ter medo de sofrer é por si só sofrer e se o medo nos movesse realmente duvido que alguém saísse de casa. Se não dermos um passo em frente vamos estar constantemente a lidar com esse medo, nessa redoma pouco lúcida em que nada somos para além de vítimas de nós mesmos. Enquanto não ultrapassarmos a linha da coragem e da astúcia vamos sempre idolatrá-las como coisas impossíveis e vamos sempre lembrar-nos do porquê de ainda não as termos alcançado. Ficar parado é ficar a dialogar com o medo, frente a frente, sem abrirmos novas janelas e deixarmos novos raios de luz entrarem na nossa vida.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Telhal´17 ♥


Vou falar-vos de uma comunidade ou recanto canalizado para o foro psiquiátrico constituído por cinco unidades, cuja distribuição de utentes se rege por idades, patologias e dependências. Trata-se da Ordem Hospitaleira de São João de Deus que é representada pelo país fora por várias casas de saúde, entre elas a casa de saúde do Telhal, aquela que vos irei mencionar. Poderia ficar a falar-vos de espaços físicos e de rotinas, de condições mentais e debilitantes, mas aprendi que a doença é quase esquecida quando se lida com seres humanos. Aprendi também que devemos separar o espaço do tempo e que o tempo de vida que ganhei naquelas unidades foi algo avassalador e muito especial. A aprendizagem. A construção pessoal. O inverter de prioridades. A valorização de gestos. O intercâmbio de ideias. Quando há um coração terno e sedento de afeto e carinho, aquilo que está escrito no seu boletim clínico é somente um acrescento. Aquilo que vemos são exteriorizações diferentes e difíceis de prever e interpretar, mas que existem em torno de sentimentos universais. O ato de pensar e sentir é igual para todos e por mais indelicada que seja a sua forma de expressão, encaremo-la como a voz da sua doença e não uma caracterização daquilo que a pessoa é ou vale. A sua voz fala por gestos, por olhares, é uma voz que chega ao coração de forma subtil mas marcante. Como uma jangada que navega lentamente e que, de forma inocente, se seduz pela ilha mais próxima e nela quer atracar. Essas pessoas têm essa capacidade, a de verem a beleza em qualquer ser humano, sem diferenciar nem rotular ninguém, querer atracar num coração alheio só porque fez do sorriso a ponte que chega à outra pessoa. O espaço que ali existe é somente um servo do tempo, e o tempo é dominado por todos eles, os utentes. Eles constroem o seu tempo e acrescentam anos de vida e sabedoria a quem passa por lá. Reféns de feridas psicológicas, de incertezas perante a vida e dúvidas sobre aquilo que são e o papel que desempenham ali e na vida dos outros, mas engrandecidos pela sua luta constante e convicta em expôr o seu coração. Mesmo quando existem pequenos laivos de violência, devemos entender que por detrás de uma pessoa que fere está uma pessoa ferida, está alguém solitário, está uma vítima de uma doença psicológica, um rejeitado pela sociedade, quando na verdade a sua desordem interior não é maior do que a desordem da sociedade. Eles não conhecem hierarquias nem vivem consoante o dinheiro e mesmo quando se mostram dependentes do café, na verdade a sua maior dependência é a do contacto humano e puro. A felicidade em ter alguém ao seu lado e a firmeza com que tocam na nossa mão, maior do que aquela com que pegam no seu café. Eles são aqueles que nunca se deram nem por vencedores nem por vencidos, são aqueles que nos recordam do quão egoístas e exigentes somos, por encararmos um abraço ou um "obrigado" como algo trivial e dito sem significado. Eles conhecem o valor real de um gesto de carinho, porque expressam a sua necessidade em tê-lo e quando o têm libertam a sua gratidão com um enorme esplendor. Nós banalizamos tudo isso ao ponto de não exigir afeto, ao ponto de negar criar laços, comportamo-nos como se fôssemos tudo menos pessoas normais. Crescemos a acreditar que a vida que levamos será garantida para todo o sempre, quando no fundo aquilo que nos separa daquelas condições físicas e psicológicas é uma linha extremamente ténue, é um colocar de pés numa escada errada, é a perda de algum familiar, é a dependência que passámos a ter de algo ou alguém, tudo porque a única premissa para se ser uma pessoa doente é ser-se um ser humano. A única condição que uma doença exige é a nossa respiração, é o estarmos vivos. Percebemos que nada na vida é garantido quando entendemos que mesmo a própria vida pode ser fugaz. É difícil a transição para a nossa realidade e ainda mais quando entramos no comboio de partida e nos apercebemos do compasso individualista que se gera à nossa volta, da pequenez humana de que afinal somos feitos. O caminhar monótono e frio. A melancolia em torno da tecnologia. A barreira psicológica e emocional maior do que a divisão física entre os bancos das pessoas. A paisagem despercebida. Os bocejos do cansaço da vida. Gera-se a vontade de fundir as realidades e acabar com preconceitos, de mostrar àquelas pessoas o quão valiosas são aquelas que deixei para trás e que vivem longe da rotina da metrópole. Agora restam as memórias e as lições de vida. Mais do que uma bonita casa de saúde, foi uma jornada única em torno de seres humanos incríveis. Quando fui embora um voluntário disse alto "-ela vai embora" e eis que um utente respondeu "-mas fica sempre cá dentro (com a mão no peito)", e aí percebi que parte de mim ficaria ali para sempre e que agora iria começar a missão cá fora, a continuidade de toda a bondade que de dali recebi.