sexta-feira, 24 de março de 2017

Como as redes sociais matam o tempo e as relações

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Sabes aquela pessoa que está sentada num banco de jardim sozinha a olhar em vão? Sabes aquela pessoa desastrada que vai de encontro a ti e os vossos olhares se cruzam? Sabes aquela pessoa que está há horas a olhar para ti na esplanada e que pede ao empregado para te deixar uma rosa? Sabes aquela pessoa que te fotografa em segredo e depois te oferece a foto com o número de telemóvel por trás? Sabes aquela pessoa que te agarra com força quando um carro se aproxima? Esquece, isso não vai acontecer. A probabilidade de assistires a isso é igual à de um meteorito cair em cima da tua cabeça amanhã ou de ganhares o euromilhões. Eu diria melhor, é a mesma probabilidade de tu amanhã ressuscitares. Atualmente não há propriamente contos de fadas com o romantismo e a durabilidade que se idolatram na história da branca de neve. Talvez neste momento a maçã envenenada sejam as próprias pessoas. O mundo está bem oposto a essas histórias de infância! Há falta de tempo, falta de vontade em abdicar desse tempo e o entregar a outrem e, ainda, falta de noção do que é realmente viver e sentir o tempo. Eu passo a explicar. Há falta de tempo porque damos prioridade no nosso dia a dia a mandar mensagens e a ver se temos notificações, o que nos faz deixar a pontualidade de lado, há falta de tempo porque os snaps ganham mais importância do que uma boa conversa, há falta de tempo porque nós invertemos as prioridades e passámos a ver a nossa refeição em família ou o nosso trabalho como uma necessidade chata a que nos curvamos com frete, ao passo que as redes sociais tomam todo o destaque possível. É verdade que os horários de trabalho rígidos e as imposições constantes da sociedade nos tiram grande parte do tempo, mas porquê que o pouco tempo que temos todos os dias ao fim do dia são tão desperdiçados? Porque não tornar esse tempo numa minoria saudável? E depois partilhamos frases a dizer que a vida são dois dias e que temos de aproveitar os pequenos momentos, quando realmente não o fazemos porque o que estamos a fazer naquele momento é a partilhar a ideia e não a concretização. Depois temos a falta de vontade em abdicar desse tempo e o entregar a outrem. Novamente as redes sociais são fortemente culpadas. Tudo porque vivemos num mundo que aparenta dependência do próximo e expectativa na ideia que os outros têm de nós, mas no fundo somos exatamente o contrário: seres cada vez mais individualizados, egocêntricos e que se impedem de partilhar o seu verdadeiro tempo, aquele que se traduz por um sorriso ou um nervosismo por entre os dedos, um olhar sincero ou um abraço apertado, até mesmo por um café entornado porque é sinal que o momento existe e que o calor do café nas tuas calças não é algo virtual. Já ninguém aposta em likes reais, em gerar uma boa conversa pessoalmente, sem ser atrás de um computador com uma foto de perfil que em nada condiz com a sua cara ao acordar. Uma selfie ao espelho, por exemplo, traduz vaidade e vontade de elevar a auto-estima, e é nesta ironia e controvérsia que muitos vivem, neste compasso entre um extremo amor próprio e um uma extrema fragilidade, na medida em que essa auto-estima só vai ser afirmada consoante a aprovação dos outros. E como pode alguém viver nesta instabilidade e à mercê da opinião alheia e ainda assim conseguir reduzir o seu leque da plateia para apenas uma pessoa, aquela que supostamente amam? É esta redução da plateia que não deixa sequer que muitas relações comecem verdadeiramente. Há constantemente uma procura pela aprovação e pelos aplausos. Preferimos apegar-nos ao desconhecido do que a uma pessoa que poderíamos conhecer extremamente bem. Imaginamos a possibilidade de entrar na vida de um qualquer novo perfil de amizade e esquecemo-nos muitas vezes de quem temos ao nosso lado incondicionalmente e quem já do seu tempo abdicou e as portas da sua vida abriu para nós. A verdade é que as redes sociais geram um casulo em torno das pessoas, um casulo permeável à virtualidade mas impermeável à realidade. O mundo palpável e a oportunidade de lutar por alguém está a ser substituído pela facilidade com que se encontram pessoas pelas redes sociais. E o pior é que as pessoas não reconhecem sequer a importância em oferecerem o seu tempo em prol de uma relação saudável. O tempo está, na verdade, reduzido aos minutos em que estamos online. Conhecer uma pessoa é meramente adicionar mais um amigo à lista. E depois temos a questão do não sabermos realmente viver e sentir o tempo, tudo porque já não sabemos o que é estar no topo de uma montanha sem que levemos uma tecnologia atrás, já não sabemos o que é sentir o salpicar de uma cascata sem que tenhamos a preocupação constante de limpar a lente do telemóvel, não sabemos o que é respirar ar puro, fazer boas ações, rodearmo-nos de natureza e de animais, propôr um jantar em família, pegar no carro e viajar sem destino... Há falta da verdadeira liberdade num mundo em que todos se acham extremamente livres. Acham-se livres por escolherem os seus horários mas reduzem-se à área de uma cadeira enquanto navegam pelo telemóvel, acham-se livres por terem os bares todos à disposição mas no fundo acabam sempre a noite encostados a uma rua banal, acham-se livres por fumarem vezes sem conta mas quando o dinheiro acaba a liberdade também acaba, acham-se livres por seduzirem alguém que escolheram mas no momento em que começa a inteligência da outra pessoa é o momento em que acabará a sua liberdade. Já não há quem cometa riscos. E cometer um risco não é ser sedutor pela milésima vez para a primeira pessoa bonita que vemos, porque isso é jogar pelo seguro, porque o seguro é o banal, é o esperado, para mim a exceção está em ser-se honesto, o risco está em mostrar o seu verdadeiro conteúdo sem mostrar fragilidade, sem vestir a capa de tranquilidade e simpatia que lhe é conseguida por alguns decilitros de álcool, isso seria o verdadeiro desafio para muitas pessoas. Se todos vivêssemos com a maior paz e tranquilidade possível saberíamos dar valor aos passos que damos na rua e percebíamos como seria importante partilhar com outra pessoa aquilo que de mais especial lhe poderíamos oferecer: o nosso valioso tempo. O problema é mesmo esse, o tempo não está a ser valorizado, cuidado e por isso não é tido como valioso e, portanto, não está a ser oferecido como algo prioritário. Um dos principais problemas está, também, na expectativa. Ela está enraizada ao ser humano, porque ter expectativa é ponderar sobre algo, é simplesmente pensar e, por isso mesmo, se torna tão inevitável. Gerar expectativas é automaticamente criar um cupido e enquanto alguns são peritos em criar cupidos outros são peritos em destrui-los ou então aproveitar-se inicialmente deles para depois abandonar essa ideia. A expectativa também é alimentada pelas redes sociais. A constante espera de uma mensagem, de uma troca de likes, de uma publicação, torna o processo de conhecer alguém em algo muito pouco saudável, porque o feedback que esperamos de um perfil de uma rede social torna-nos por si só possessivos e onde existe muita expectativa também existe muita ilusão e ambiguidade, que são facilmente decepcionáveis quando nos deparamos com uma atitude real, fora do quadrante virtual. Já para não falar que a espera constante por um sinal de luz no telemóvel é um objetivo de vida totalmente questionável e que nos anula bastante em termos de personalidade. A verdade é que, antes, onde existia uma bonita e inesperada coincidência em encontrar alguém que gostamos na rua, hoje passamos horas a decidir se enviamos mensagem onde tudo se resume a uma batalha entre orgulhos. Outro real problema de grande parte das pessoas é o de acharem que são elas próprias que têm de conquistar a outra pessoa pela sua beleza, investindo ao máximo nessa vertente. Estão demasiado preocupadas em mostrar o que valem como se fossem uma montra, mas a melhor montra vence pela sua simplicidade porque quando se descobre mais do que essa montra, é quando percebemos que o que estava visível era apenas uma pequena parte e que a maior beleza não está na roupa ou no batom, mas no interior. Inconscientemente essa ideia de beleza pré-concebida, esse retrato concreto e estereotipado que queremos transmitir e que sabemos que será o nosso passaporte para a popularidade é, também, influenciada pelas redes sociais, na forma como criamos um sucesso em torno dos mais favorecidos esteticamente, no destaque que assume a expressão facial e a roupa, no próprio significado que se gera à volta do conceito de popularidade e na penumbra de todas as pessoas que aqui não se incluem. E damos por nós a servir a sociedade e não propriamente a pessoa que gostamos. Infelizmente são as redes sociais o grande impacto das relações de hoje em dia. Muitos se espera dos outros, mas pouco se concretiza. Geram-se histórias com muito enredo, mas pouco significado, muito amor próprio e pouco amor para dar. O importante é perceber que uma pessoa verdadeiramente merecedora do nosso tempo é aquela que também entrega o seu verdadeiro tempo, que acrescenta esse tempo ao nosso e torna ambos os trajetos de vida mais valiosos.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Coimbra: o amor mais apaixonante


Pelas cortinas do meu recanto vejo o sol a esconder-se ao sabor de mais um dia nesta bela cidade. É melancólica e silenciosa a forma como a saudade antecipada nos aperta o coração. Não vejo isto como mais um dia nas tuas ruas, mas como menos um dia nos teus braços, porque a saudade faz-nos contar de forma decrescente e o sentimento arrebatador de viver em ti só nos faz pensar no dia em que tudo irá terminar e na vontade de te querer descobrir todos os dias da nossa vida. Cada sombra desse escurecer desenha em mim um traço mais fundo e marcado dos teus fados, aquele ritmo inconfundível e que faz de nós mesmos um verso que compõe as tuas quadras e completa o teu espírito académico. E, assim, o dia adormece ao sabor da melhor academia, da cidade que não dorme, nem para festejar nem para sonhar. A ti, Coimbra, que me ensinaste a sonhar mais alto e a pular também mais alto para alcançar grandes feitos, só tenho umas quantas coisas a dizer-te: foi nas tuas ruas que se desenhou a minha liberdade, nos teus fados que descobri a efemeridade da vida, foi nas tuas festas que se despoletou a minha verdadeira felicidade, nos teus dias melancólicos que nasceu a minha força interior. Foi nos teus jardins que percebi que a paz também existia longe das nossas origens e que me fez pensar de uma forma universal, porque se sou feliz aqui também existe, agora, potencialidade dentro de mim para ser feliz em qualquer lado: a isso se chama ganhar asas. Tu deste-me essas asas! E todos os dias me dás os melhores ensinamentos para voar. Foi nas lágrimas que brotavam por entre as capas que me ensinaste que ser universitário é só a melhor experiência da nossa vida e que, afinal, a saudade existe e é passível de ser sentida e objetivada sempre que respiro o teu ar puro. És diferente do resto do mundo e de forma tão peculiar consegues suster tantas vidas e tantos sonhos, tantos gritos de euforia com um fundo de amor à vida enorme, tantas lágrimas de amor puro que por ti se verteram, tantas mãos que entrelaçaste com o teu amor, tantos passos apressados que limaram as tuas escadas monumentais, tantos sapatos que calçaste a todas as cinderelas, tantas guitarras gastas com o tempo que deram aos estudantes as melhores e mais grandiosas baladas, tantas boas vozes a quem deste a grandiosidade para que fizessem eco pela cidade em dias de serenata, tantas fitas de tantas cores a contrastar com os belos negros trajes académicos, tantos sorrisos implantados pelas ruas em dias de praxe ou em dias de batismo, tanta juventude, tanta rebeldia, tanta transparência! Obrigada pelo que nos fazes ser a cada dia e que tanto contribuas para o nosso crescimento. Obrigada por durante uns tempos eu, bem lá no fundo, te considerar o único motivo pelo qual remava em favor da minha valorização pessoal. Obrigada por me teres acolhido com tanto amor, mesmo com todos os meus defeitos, com todas as minhas fraquezas e mesmo quando te culpei por todos os meus erros. Obrigada por teres sido persistente e, de dia para dia, me teres mostrado o mundo que tinha à minha frente, me ensinares que às vezes a vida é como um teatro, onde nos basta levantar o pano para vermos e saborearmos a vida que está mesmo à frente dos nossos olhos. Mostraste-me a beleza de cada esquina ainda por percorrer e mesmo quando percorridas ensinaste-me a viver cada momento sempre de uma forma única e diferente, pisar cada paralelo como se fosse a primeira vez, com os meus passos de caloira, mas um amor à vida gigante. Quero levar o teu céu estrelado no meu bolso, quero a força do leito do teu mondego a tomar as rédeas das minhas decisões, quero poder refugiar-me em ti sempre que o meu coração pedir, quero que pelo menos um sapato do traje que me deste me possa sempre servir mesmo quando já for velhinha, quero continuar a valorizar-me da forma como tu sempre me valorizas-te, quero poder ir espreitar as tuas igrejas e sempre encontrar uma cerimónia de benção das pastas que me faça relembrar do quanto fui feliz e do misto de emoções a abanar aquelas fitas. Quero, acima de tudo, que nunca te esqueças de mim e do quanto me ergui graças a ti. Quero que, apesar de eu ser só mais uma estudante que por aqui passa, te lembres que te adoro e que nada do que aqui passei me foi indiferente. Que continues, ao longo de geração em geração, a seres amada e a aumentares as multidões de capa negra que em nada rimam com luto. É ao teu pôr do sol que nascem textos como este e é ao sabor da tua perfeição e autenticidade que existe sentido em cada palavra. E assim me despeço com paixão e saudade, com alegria e tristeza, com amargura e tranquilidade, com um sabor doce e amargo, mas com a certeza de que é este misto de emoções que me mantém viva.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

14 de Fevereiro


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Aprende a amar-te no dia de São Valentim, coisa que oitento por cento das pessoas se esquece. Sim! Primeiro de tudo porque oitenta por cento das pessoas têm parceiro, mas confesso que essa não é a principal razão, apesar de ser inevitável dizê-lo. É o dia do ano em que as pessoas menos pensam em si mesmas e menos investem no seu amor próprio, os apaixonados porque passam o dia a tirar selfies aos chocolates que receberam ou ao filme romântico que foram ver, e os solteiros porque, sabendo que se tratam de uma minoria, têm a tendência para cair na frustração e se ausentarem das redes sociais para simplesmente ver um filme sobre solteiros. E por isso mesmo é, também, o dia do ano mais previsível. A verdade é que há tantos dias do ano para mostrar afeto mas neste dia parece que tudo se torna numa competição pela prenda mais original ou pelo parceiro mas romântico, sem dúvida que haveriam muitos candidatos ao óscar. Para nós, solteiros, pode haver neste dia uma enorme atração para a melancolia, mas a meu ver temos tudo do nosso lado! Temos a liberdade de escolher o que fazer, qual o primeiro passo a dar quando saímos da cama, qual o programa a realizar, se virar a casa ao contrário e resolver mudar a decoração, se dedicar o dia à culinária ou simplesmente ficar horas ao telefone com a melhor amiga, podemos decidir por nossa livre opção entre um fato de treino ou um vestido, a qual café ir ao fim de almoço, se pela música ambiente ou por podermos falar e rir com alguém simpático que se sente ao nosso lado, podemos programar todos os horários sem nunca nos atrasarmos porque conhecemos o nosso ritmo e a forma de lidarmos com isso, podemos ir ao parque, ao museu ou ao teatro sem a constante aprovação de alguém, sem um estado de espírito que não combina com o nosso dia e sem garantir exclusivamente dois bilhetes em lugares lado a lado, podemos fugir de onde estamos para ir atender a um contratempo sem deixar outra pessoa na mão e lhe ficarmos a dever uma, podemos ter um pacote de pipocas só para nós no cinema, podemos comprar as rosas que julgamos mais bonitas e mais cheirosas sem termos de fingir que as que nos dão são exatamente as nossas preferidas, podemos preferir o ginásio aos típicos chocolates em forma de coração e se os quisermos verdadeiramente basta irmos comprá-los ao supermercado mais próximo, sempre queimamos calorias a vir para casa, podemos ir a uma festa com um grupo de amigas e dançar aquela batida que realmente mexe connosco e nos oferece juventude, podemos mostrar o quanto o nosso sorriso reflete felicidade mesmo quando sabemos que ao chegar a casa não temos ninguém à nossa espera, é essa a verdadeira felicidade, aquela que existe por nós próprios e sem um motivo aparente e que condiga com os estereótipos da sociedade, porque quem está completo em todas as áreas da sua vida nunca saberá ser feliz sozinho. E o melhor de tudo isto é que o podemos voltar a fazer no dia seguinte e nos 365 dias do ano! Por isso, se neste dia ficarmos em casa arroxados à almofada não é por lamento nem pena de nós próprios, mas porque saberemos que temos um mundo livre de oportunidades quando nos apetecer, sem nos subjugarmos a uma data ou a uma assinatura num cartão vermelho. Ser solteiro torna-nos versáteis, lutadores e realistas mas, acima de tudo, torna-nos donos das nossas escolhas.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Crença

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Enquanto um sonho não se concretiza parece que é tudo tão lento e custoso, mas deveras desafiante, e quando um sonho se realiza parece que foi tudo depressa demais. E esse depressa demais resume-se à nossa existência, aquele sopro a que chamamos de vida. Como se o carvão que nos mantém quentes acabasse, como se a inutilidade emergisse. Como se fôssemos pequenos demais para abarcar os nossos sonhos e demasiado fracos para tomar as rédeas do seu seguimento. Como se, afinal, nenhum de nós estivesse realmente preparado para colher e nutrir um sonho. Como se o nosso trajeto de vida se baseasse numa luta pela ilusão, como se a vida se alimentasse do seu próprio estímulo. E é exatamente isso. O que faz os seres humanos dominar o mundo é a sua crença em algo. Seja um racional que só acredite nos valores morais e nas leis, seja um viajante que faz do sol a sua bússola, seja um pescador que reze para atenuar a força das marés, seja um poeta que sonha em ser correspondido, seja um atleta que sonhe em rasgar a meta, seja um louco que grite na rua por acreditar que vai ser ouvido, seja um religioso que carrega a bíblia ao peito, seja um amante de festas que acredita no prazer do momento, seja um político que acredita que pode fazer a diferença, seja um ditador que acredita no impacto das suas palavras, seja um mendigo que acredita que o sol irá nascer amanhã, seja uma criança que acredita na inocência das pessoas, seja quem for, sejas tu, seja eu mesma. Todos nos baseamos em algo que acreditamos. Chamemos-lhe de essência, de valores ou de educação, mas a verdade é que não é nada mais do que a esperança em formato de crença. Não pode haver céticos perante a vida, quem só acredita no que vê não poderá nunca lutar por um sonho, porque a vida é isso mesmo, é a luta por algo que traça a nossa rota. Cada pormenor da nossa vida é desenhado em parte pelo futuro, pelo ambíguo, por aquilo que ainda está por realizar. Somos feitos das pessoas com quem lidamos, dos locais que visitamos, dos livros que lemos, dos pedaços de sacrifício que carregamos mas, principalmente, somos feitos de sonhos e ambições. Somos criados a partir do desconhecido e é com vista ao desconhecido que vivemos. Não importa a cor da nossa medalha, importa aquilo em que nos tornámos ao lutar por ela, não importa o sabor amargo de algumas quedas, importa a forma como aprendemos a levantar-nos. Importa que continuemos de pé em nome da convicção que temos em algo ou alguém, continuamos de pé porque temos forças e ter força é sinal de que a crença existe, é sinónimo de poder sobre nós mesmos. Todos nós acreditamos em algo superior a nós que nos sustém. Chamem-lhe lema de vida ou vontade de viver, chamem-lhe destino ou bruxaria, chamem-lhe Deus ou fé, mas nomeiem-no como o objetivo pelo qual estão vivos e conscientes. O curto espaço de tempo em que vivemos só poderia ser criado para que lutemos, para que o fervor da conquista assuma o nosso dever. Que sentido faria vivermos tão pouco e ver continuamente os sonhos concretizados? A não concretização é o que faz brotar os pilares da fé. A frustração consome-nos por momentos mas é ela que, a longo prazo, nos dá a força incansável de retomar a caminhada. Recebamos com carinho todo o sofrimento passado, toda a revolta que nos queimou por dentro, toda a desilusão e falsidade, porque sentir dor é estar vivo. Se nos erguemos face a tudo isso é porque somos os maiores amantes da vida, porque conhecemos da vida o melhor e o pior e, ainda assim, continuamos a amá-la e a recebê-la todos os dias em que acordamos. Acarinhemos as nossas mãos magoadas, a nossa voz cansada, a nossa face enrugada e o nosso coração desfeito porque é sinal de que tudo valeu a pena. É sinal que não andámos à deriva, mas que remámos contra as imperfeições da vida e que soubemos retirar dela as maiores lições. Tudo porque acreditámos. Não importa em quê nem em quem, mas acreditámos. 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Brisa de inverno

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Tanta coisa nos diz esta subtil brisa de inverno. Fala-nos de dor e desilusão, de laços gelados que se quebraram à mera fricção, fala-nos daquele gelo das antártidas que nunca derrete, de longas esperas que nos fizeram desfalecer o coração e a temperatura corporal. E de forma tão convicta é ela que nos invade todas as manhas por entre as arestas quentes do nosso corpo, que nos segue a planta dos pés enquanto caminhamos na orla da praia, que nos veste e reveste enquanto seres humanos. Entregamos prémios nobel aos romances, continuamos a achar que uma rosa no início de um namoro é o que de mais romântico existe, julgamos que um pedido de joelhos e uma aliança no dedo é tudo aquilo de que uma mulher precisa, mas no fundo somos uma pedra fria que nos mantém de pé mesmo face às maiores desilusões e que, de dia para dia, nos faz voltar a entregar ao nosso egoísmo e vida própria. Precisaríamos de uma brisa fria de inverno para despertar se já não vivêssemos num casulo frio chamado de humanidade. Essa mesma brisa que nos descreve o frio da derrocada, o medo em formato de graus celsius a invadir o nosso corpo, uma brisa que rima com sentimentos de fúria, com pesadelos transpostos da imaginação para a realidade, uma brisa crua e dura, repleta de metáforas e de um silêncio latente. Uma brisa tão fria quanto a nossa existência. Um ar gélido que nos impede de ir mais além, que nos impõe uma área restrita para viver e respirar, um nicho geométrico e inacessível a visitantes, um local grande demais para se viver mas pequeno demais para acolher o desconhecido, um lugar alimentado por ecos e expectativas. É uma brisa fria que não se apaga por entre mantas de lã, é constante no tempo e prolonga-se por todas as estações do ano, é como o vento: não se vê, mas sente-se. Tentamos conviver com ela mas constantemente a catalogamos como a causadora de insónias, o motivo por detrás daquelas paragens no tempo em que olhamos em vão, daqueles passos curtos e receosos que damos na rua e na vida sem qualquer tipo de destino, é a razão de pegarmos na areia da praia e a atirarmos com vigor para longe, de partirmos um pau porque sentimos uma raiva súbita, de rasgarmos todos os papéis que falem sobre sonhos... É a causa daquele andar cabisbaixo, aquele olhar triste quando olhamos para um banco de jardim com lugar para dois. É uma brisa que tem tanto de leve como de nostálgica, tanto de fria como de amarga, é um sopro que nos move e contorna cada lágrima contida, cada suspiro abafado e cada sorriso desejoso de ver o mundo. É incontrolável no espaço e no tempo e é essa impotência de a domar que a torna ainda mais fria e o percurso ainda mais longo. Talvez a felicidade pura ainda demore a chegar, e talvez se assemelhe a um calor humano reconfortante e que derreta toda e qualquer forma de frieza.