domingo, 26 de janeiro de 2014

Fadas de contos ♥

Eram dois adolescentes que aprenderam a amar
Que precisaram de fugir para poder respirar
Ir para longe de olhares, arrogância e problemas
Sentir a distância dos típicos telefonemas
Despir a rotina e fazer dela um poema
Poder acordar dentro de uma tela de cinema
O motor arrancou e o olhar ficou emocionado
Para ela aquele momento era mais que desejado
A paisagem não cativou, o preço do bilhete não foi discutido
Porque em cada beijo havia um futuro a ser construído
Existia neles a loucura e o segredo da ambição
A alegria de viver e a paixão de um campeão
Tinham lugar reservado em qualquer constelação
Na vida tinham a sorte e no paraíso a admissão
Ambos queriam que fosse um momento sem saída
Mas ver as rodas a andar era como possuir uma ferida
Ouviam juntos uma música que o fez chorar de saudade
Pelos tempos de escola em que só havia uma amizade
Pelos olhares nos corredores e pelos almoços apressados
Pela timidez envolvente e pelos amigos dos recados
Pela expectativa traçada e pelos “olás” acanhados
Pela coragem escondida até serem namorados
E agora ali aconchegados, parecia que estava a sonhar
Mas a mão dele na dela logo a fez acordar
“És linda, amo-te tanto”, disse-lhe ele tão de repente
O coração dela falou e deu-lhe um beijo no pescoço quente
Ela pediu-lhe para fazer outra viagem de novela
Ele respondeu que ia até ao fim do mundo com ela
Até que chegaram ao destino e sentiram-se como reis
Traçaram o amor e caminharam sem leis
Lá iam os dois de mãos dadas, totalmente independentes
A caminhar pela cidade com corações sorridentes
Jantaram, brincaram e criaram momentos mágicos
Por segundos foram crianças que não conheciam momentos trágicos
Desconheciam a maldade, o ódio e a corrupção
A norma que os movia era o um amor de explosão
Ele virou-lhe o telemóvel como se quisesse falar
Foi então que uma música começou a tocar
“Quando estou nos teus braços quase não consigo acreditar”
Era este o lindo refrão que o fazia abraçar
Ela só conseguia chorar e amá-lo cada vez mais
Esperaria por ele em qualquer desconhecido cais
Adormeceram como anjos e unidos pela escuridão
Mas o amor deles estava acordado, isto é uma afirmação
Apesar da pressa, de manhã deram risadas
Amores como este fazem falta nas calçadas
Ele levou-a à Faculdade com um enorme carinho
Mas a vontade dela era a de nunca o deixar sozinho
Quando ela chegou a casa abraçou-o como ninguém
Como é bom vir da escola e ter sempre o nosso alguém
Passaram a tarde a sorrir e a sonhar acordados
Naquela casa estavam os segredos do mundo abafados
Qualquer música de amor ali fazia sentido,
Até um velho romance por eles seria colorido
Em direção à estação lá foram os dois de mãos dadas
Levavam com eles todas as alegrias abarcadas
Ao fim de jantarem apressados apanharam o autocarro
Teria sido bom terem o seu próprio carro
A viagem de regresso indicara quase a despedida
Parecia que naquele tempo só se desceu uma avenida
Na viagem ela lhe disse que gostava de um pedido no passado
E ele disse “Está tudo acabado, queres ser meu namorado?”
Riram-se e ambos sentiram-se amados e felizes
Numa proporção muito maior do que meros aprendizes
Da viagem restou a saudade da despedida
O medo de o perder e de ter sido a última dormida
Seria bom poder entrar e fazer parte desta história
Mas já dela faço parte e a escrevo como dedicatória. ♥

domingo, 5 de janeiro de 2014

Milagre das pétalas


Caem pétalas frescas perfurando o nevoeiro cerrado, caem como amantes da força gravítica, como fugitivas dos ares da Antártida, como loucos pedaços de esperança. São elas a determinação dos dias cinzentos, a luz da noite pródiga, o novelo dos sonhos de lã, a paisagem de uma vida vista de um banco de jardim. Despoletam-se raios e rompe-se a negridão da metrópole triste, destroem-se os sussurros diabólicos atrás das torres dos sinos monótonos, dá-se fim à agonia em praça pública. Ouve-se o mundo a desacorrentar-se, a ceder à liberdade, ouve-se o tropear dos cavalos brancos nas fronteiras, ouvem-se notas musicais que outrora foram súplicas, cada pomba surgiu em cada casa derrubada pela tempestade, as traseiras húmidas das montanhas solitárias conheceram finalmente o sol e o aroma de cada flor foi viajando por pontes em carruagens do amor. Crianças olhavam para o céu com um olhar de porcelana, vestindo-se de cores e cheiros e abusando da beleza do milagre das pétalas. O tempo sorriu inocentemente para todas as vidas privadas de harmonia. Conheceu-se, talvez, o paraíso. Até que, num ápice, e antes que os humanos respirassem magia, tudo se destrói e o sorriso é desfeito misteriosamente, como se os lábios fossem marionetas manipuladas por alguém a viver no céu... ou no inferno.