quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Armas de silêncio


Existem armas feitas de silêncio. Existem balas revestidas de eco e que doem mais do que granadas. Existem farrapos ao vento, reféns das tempestades, que fui deixando para trás. Resquícios encarnados dos lábios que secaram, pedaços de confiança que sofreram mutações, cabelos ao vento arrancados pela frustração, sorrisos levados pelos trovões. Existe o brilho dos olhos escravizado pelo tempo, a cicatriz em chamas que o destino rasgou, a olheira desenhada que o presente delineou e o sofrimento que o mundo legitimou. Há pedaços de mim a desaparecer aos poucos, a entrar no cruel buraco negro do desgosto. Sabes o que é sentir que acordar todos os dias é dispendioso? Sim. Gastar energia em levantar-nos só para sofrer mais um dia e não fazer ninguém feliz. Não é o desgaste dos sonhos que nos faz acordar cansados, é a indiferença com que acordamos, a apatia perante a vida, a desilusão face aos naufrágios. É como se tivessemos aberto os olhos para que o mundo nos visse, para não termos falta de presença tal como na escola, para correspondermos às estatísticas dos nados-vivos. É triste, eu sei. São dias e dias levados pelo dilúvio, sem qualquer bom estímulo para recordar. Mas depois existe a tua voz todas as noites naquela gravação, as fotos que fazem parar o tempo e as memórias que a toda a hora brotam no meu coração. Depois existes tu e a nascente do sonho. Existe o conceito de felicidade outrora aprendido, o livro aberto da fantasia, o teu sorriso congelado na névoa de qualquer aparição. Existe o caminho tentador, os ombros macios, o abraço devorador, a estátua da virtude, existe o segredo do mistério, a chave do encanto. E, finalmente, existo eu, o espaço entre a esperança e a derrota. E isto tudo para não ter de dizer a palavra "saudade", porque existem armas feitas de silêncio.

domingo, 5 de outubro de 2014

Sala vazia



Ali estava eu, pela primeira vez. Um lugar inóspito, coberto de ecos angustiantes, de catos do deserto imaginários e psicologicamente mortíferos, revestido de pesadelos e benzido a lágrimas... Custa suportar as fronteiras e sentir o peso de quatro ombros em cima dos nossos. O ser humano não foi feito para isto. Sou um vaso feito em cacos, a ser varrido por dentro, e que outrora foi belo e vistoso. Faltam-me as flores, faltas-me tu. Falta-me o carinho que nunca era demais, o abraço que sempre fora a energia vinda de ti e que estava alojada em mim. Sentia-me sozinha e como se todas as correntes elétricas deixassem de ter energia, não para as lâmpadas, mas para o meu coração, para os meus músculos, para a minha alma! Só via à minha frente o vazio quase venenoso e sentia o sufoco do silêncio a lamber-me os poros. Podia afirmar e dizer "sim, fui derrotada", mas preferi lutar e gritar "sim, o amor vale sempre a pena"! E foi por isso que me envolveu toda aquela frieza, porque a coragem de um humano é o alimento dos fantasmas. Podia ter congelado a marca dos teus lábios na caneca em que bebias o leite todas as manhãs, podia ter gravado a tua voz a dizer que me amavas, podia ter roubado tinta só para tu pintares o meu diário com a tua impressão digital, podia ter raptado poetas, músicos e artistas para criarem a sinfonia perfeita, o teatro perfeito, a tela perfeita, o poema que te fizesse acreditar que eu estou aqui para ti, só para ti, e em toda a vida inteira, porque o teu desassossego é o meu sossego em consolar-te, a tua tristeza é a minha alegria em erguer-te a cabeça, as tuas frustrações são as minhas ambições em tornar cada tarde de chuva da tua vida numa rosa vermelha alimentada que te caia nas mãos. E ali estava eu a filosofar e a imaginar os homens a construir aquele lugar, a largar suor em cada tijolo que pegavam, a suspirar pela vida e pelos ponteiros do relógio, a trabalhar afincadamente para que um sítio, apesar de vazio, ficasse sustentado e protegido. E tudo só para o meu sofrimento, tudo só para chegar o momento de chegar à frente daquela porta, outrora desconhecida e invisível, e ela se abrir como uma pena e como se o vento estivesse a favor daquele sentimento injusto! Aquela sala eras tu e o vazio que deixas-te, o ar sedento de ti, o compartimento do meu coração que foi dolorosamente desvendado e que agora se tornou a minha casa, o meu abrigo e aquilo que me liga a ti. E aqueles trabalhadores famintos nunca saberão o porquê de construírem aquelas paredes.

Carta de Condução ✔


Sim, estou radiante! Estou orgulhosa! Foi um percurso longo e doloroso, porque pegar num carro sempre foi uma aventura que me exigia ultrapassar os limites do comodismo, do sossego, do "estar em casa" e de tudo me vir parar à porta, sem ter de manobrar três pedais ao mesmo tempo. Digo que foi doloroso porque chumbei a primeira vez na condução. Foi desolador e deitou-me muito a baixo. Vinha confiante do código, mas vinha também ciente de que são coisas distintas! Muitos distintas! A verdade é que mesmo com um chá de folhas de laranjeira e três calmantes, os nervos apoderaram-se do meu coração e das minhas mãos. Mas passo a contar. Os primeiros treinos foram levados na desportiva, mas logo de manhã apercebi-me que tinha de abrir os olhos e que aquelas ruelas, aquelas passadeiras, toda aquela azáfama em torno da sinalização não era mais do que a minha obrigação, mas o choque foi grande e o primeiro contacto com a estrada foi desastroso! Mais tarde, o almoço fez-nos descontrair por entre piadas e histórias cómicas, e a parte da tarde foi bem mais positiva, até porque trouxe o carro à vinda e após sucessivas conduções já me sentia completamente relaxada e até confiante. Os treinos valeram-me de muito, sinto que evoluí o dobro num dia inteiro do que nas 30 aulas que tive até lá, o que também se deveu à calma da instrutora que me acompanhou. Até que, num ápice, chegou o dia seguinte. No dia do primeiro exame lá estavam os nervos a atacarem-me como pulgas! Na sala de espera só queria que saísse da porta alguém de sorriso rasgado, que chamasse pelo meu nome e me transmitisse segurança. Não foi isso que aconteceu. Era demasiado sério, apesar de simpático e benevolente. Entrei no carro e pensei no amor da minha vida, nos nossos futuros passeios, no orgulho que poderia dar aos meus pais ao fim daquela manhã e no alívio que teria para sempre! Arranquei, fiz-me de forte e mostrei-me aparentemente calma. Atendia a tudo o que ele dizia, na condução urbana preferi andar super devagar, ser prudente, ter cuidado com o STOP e com os trânsitos proíbidos e com os sentidos únicos, esses pequenos e grandes pormenores ao mesmo tempo. As coisas não estavam a correr como o previsto, porque sou super pessimista e estava conduzir realmente bem, fiz as primeiras manobras de forma correta e sempre que emendava um erro era ágil e terminava da melhor forma. Até que um estacionamento me estragou tudo... era o chamado estacionamento em "espinha", do qual não tinha praticado quase nada nas trinta aulas, enfim. A obrigação de os relembrar não era minha e a minha atenção era sempre enorme para captar todas informações da estrada, por isso não me ocorria perguntar para praticar exclusivamente essa manobra. Foi, portanto, de esperar que não corresse bem e que nem sequer soubesse como começar a manobra e em que altura rodar o volante, por isso quase fui contra o carro da frente e o examinador nem me deu outra oportunidade. Assim sendo, até acabar o exame da outra rapariga fui super desanimada, ainda com um resto de esperança porque queria ouvir a confirmação, mas um pouco crente de que ele compreendia a minha situação. No fim do percurso ficou confirmado o meu maior medo. Ele disse que numa próxima vez iria fazer aquilo a brincar, que já conduzia bem e dominava o carro, que aprendia depressa e era inteligente, mas que não podia desculpar aquele estacionamento. Foi a porra de 5 metros quadrados, nem isso, que me roubou 250€! Vim a chorar a viagem toda, porque era algo realmente importante para mim e só pensava que nunca iria conseguir ser independente e conduzir o meu próprio carro, que nem valia a pena lutar e gastar mais dinheiro e pior, como é que se dá uma notícia destas a alguém? Os meus pais não trabalham para pagar os meus chumbos. Mas logo a minha mãe me levantou a cabeça e me fez lembrar que ela própria também chumbou. Fui arrastada à escola de condução ainda nesse dia e como por milagre havia uma vaga para daí a duas semanas ter novamente exame, ao qual a minha mãe concordou e me disse que já tinha um dinheirinho de parte caso isto acontecesse. Foi aliviante saber que tinha mais uma oportunidade antes de começarem as aulas a sério na Faculdade! Não pensei duas vezes, faltei os dois primeiros dias, tratei de arranjar justificação e lá fui para um dia de treinos e mais um dia de exame. Sim, um frete! Mas desta vez levava um espírito diferente, apesar de pensar sempre na possibilidade de chumbar e de andar a pé para o resto da vida. Agarrei-em com unhas e dentes a esta oportunidade e não a deixei escapar! Voltei a tremer, é óbvio, afinal sou humana e já diz a frase que tremer é o começo de todas as coragens. Assim chegou o dia do segundo exame. O senhor era super calmo e com ar de simpático e mandou-me logo ir abrir o capom. Disse tudo bem, a teoria corre sempre bem, exceto quando não pensei no que disse e afirmei que havia uma parte onde se colocava o óleo dos vidros. Sim, óleo nos vidros. Imaginar o vidro com gordura tornou-se engraçado. Quando entrei ele disse para estar sempre super atenta aos sinais e respeitar todas as regras rodoviárias. Assim foi. Fui prudente, às vezes ele até me pedia para acelerar, tentei ganhar confiança, ainda que forçadamente, e meti na cabeça que não podia ter mais um carimbo naquela licença! O senhor pôs-me super à vontade porque ia sempre a falar do noticiário com o meu instrutor, parecia que eu nem estava ali a ser avaliada, o que foi ótimo. Mas sempre que falava para mim e, especialmente, quando me chamava à atenção quase que berrava e me fazia pedir mil desculpas. Sim, ele era bipolar, só pode. A inversão de marcha podia ter sido mais rápida e numa situação de trânsito proibido podia ter virado com mais antecedência, mas foram pequenas falhas e só olhava para o relógio para que o tempo passasse e o percurso fosse em estradas mais amplas, até que chegou o maldito estacionamento em espinha, mas agora muito mais isolado, sem carros à volta e com mais ângulo de manobra, por isso correu bem!! Quando passei para o banco de trás ia mais que feliz, mais uma vez só precisava da confirmação saída da boca dele, mas desta vez ia com um sorriso na cara e com a grande vontade de espalhar a notícia! Por isso, não desistam, porque no fim a felicidade apaga completamente as noites de frustração. Superem-se a vocês próprios e acima de tudo sejam educados, fiéis a vocês e mantenham-se calmos. A receita é um banho na noite anterior, o tal chá e, para pessoas mais nervosas, um calmante qualquer. Isso "bastou-me" para não atingir a loucura, por isso aprovo. Boas conduções!