sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As palavras não me cativam. As letras não me alegram. O tempo não me sorri.
Sem motivação alguma!

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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ricardo Araújo Pereira 2*

“No tempo em que os animais falavam, havia tamanha quantidade de ocorrências alegóricas que ninguém se lembrava de assinalar que a existência de animais falantes também era notável. Os fabulistas eram gente que se maravilhava mais depressa com os prodígios morais do que com os prodígios naturais, e por isso deram muita atenção aos primeiros e nenhuma aos segundos. Como se não fosse mais frequente encontrar na natureza uma lebre fanfarrona, uma cigarra preguiçosa ou uma raposa hipócrita do que um único bicho falante. O tempo em que os jornais contavam parece agora tão distante como o das fábulas. Não sei se o leitor se lembra: um jornal dava uma notícia que embaraçava um membro do Governo e este, movido por vergonha própria ou pressão alheia, demitia-se. Hoje, há pouca pressão e ainda menos vergonha. Aquilo que vem nos jornais já não demite ministros.”

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Asas do tempo

Como gostava eu de adquirir asas e presenciar uma história de vida, fazendo uma prolepse no tempo. Poderia voar a sério, pois saberia que o vento que me soprava na cara não seria mais um fruto dos meus sonhos ou de um provável sonambulismo. Poderia vir à tona deste mar de curiosidade que me afoga. Voaria até um sítio lá no além, um sítio entre o horizonte e a nossa vida, um sítio longínquo e que um dia todos esperam alcançar. O futuro. Queria ver alguém com um sorriso rasgado e um espírito incandescente. Alguém a crepitar de alegria, a empreender solidariedade e a espalhar palavras de alento. Alguém a fomentar a paz, a crescer em ética, a transpirar inovações e a reservar algumas poupanças. Alguém a rir que nem uma criança inocente, alguém a banir os cruéis, alguém a dar-se ao respeito, alguém rodeado de animais e alguém a viver fervorosamente. Ou talvez visse alguém com um histórico de desilusões aguentadas, olhares sufocados e pupilas tremendamente grandes. Alguém com pestanejares cessantes, más recordações, furtos de alma e lágrimas precoces. Alguém dotado de ríspidos devaneios e ásperas incógnitas ocupadas por pretextos. Quereria escrever sobre uma profissão. Abordar uma família. Reter o nome de grandes amigos. Descrever o seu marido. Descrever, quem sabe, os seus filhos. Poder ver como seria a sua casa. Desde a brisa de primavera a dançar com as cortinas de renda da sala de jantar à varanda com roupa a pingar as últimas gotas de detergente. Desde a tinta ousada das paredes às modestas portadas de madeira antiga. Desde a toalha usada da mesa do jardim à colcha neutra da sua cama. Desde a erva fresca aparada à uns minutos às espécies autóctones e tropicais a competirem entre si. Desde os recantos da lareira negra aos vasos de porcelana. Desde os trevos a brotar livremente à macieira que daria maçãs todos os anos. Seria este belo aparato repleto de segredos que faria da sua vida um sonho até à última diástole do seu coração.
E se fosse eu a protagonista da história?

quinta-feira, 2 de agosto de 2012