sábado, 20 de agosto de 2011

"Pérfida Nostalgia"

(POEMA ORIGINAL SOBRE MEMÓRIAS DE INFÂNCIA)
Com uns espaventosos números de palmos,
Sou alguém etéreo, benévolo e com radiância;
Um ser sem ira, sem injúrias, sem alvos,
Todavia alteroso pela sua riqueza em substância;

Confesso, sou uma criança repleta de inocência,
Cicio-vos que gosto de olhar o mundo de outra forma;
Somente tenho um ar mordaz em situações de contingência,
Mas vivo livremente sem um padrão ou norma.

Já com o peso dos anos e da vileza,
Vence um laivo iniludível de agastamento,
Onde vem à tona o peraltismo inato sob a destreza,
E onde perdura um antro de refolhamento;

Sou portanto alguém crescido, maduro e com gravata,
Amarrado por estas apostas de jogadas estranhas,
Onde o cerne da questão está na roupa caricata;
Olho em volta e gere-se-me um sentimento que me revolve as entranhas;

Queremos ser um modelo de virtudes e elegância,
Enquanto que vivemos num antagonismo latente,
Mas esquecemo-nos de preservar o nosso interior com relutância,

Uma etapa onde vemos o próximo como repetente;
Perante esta síncope terei de viver com tamanha pujança,
Mas, espero, que com a alma e o coração de criança.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Dia na cidade (20º dia)

Já estou no autocarro a caminho da cidade, à qual só pus os pés uma vez e apenas pelo facto de ter de estar presente num casamento. Bem, eu explico. Vim com a minha grande amiga Diana, porque a minha mãe foi uma querida e decidiu dar-me algum dinheiro que ganhou nas lotarias da semana passada. A Diana aceitou como é óbvio, já que não lhe causa despesa. Então irei ficar num bom hotel da cidade, com uma paisagem simpática (tudo palavras da minha mãe Alice e meu avô Hélder), mas o que quero é ver o que se passa ao meu redor, naquele mundo tão distinto! Ainda não vi o hotel, pois veio cá o meu avô marcar, venho pois à deriva com um banal papel rasgado que me informa da morada e umas quantas malas a ocupar outros bancos. (…) Acabei de acordar neste belíssimo alojamento com toda a comodidade possível, e aqui reservo algum tempo para a escrita enquanto a Diana toma banho. Chega de eufemismos, chega de perífrases e hipérboles, apenas digo quando olho para a paisagem: Isto é horrendo! No campo nunca conseguia agarrar todos os hectares que me envolviam, apenas captava tudo aquilo com o olhar e onde sentia o vento a entrelaçar-me os dedos e sentia o cheirinho das frutas e das flores. Aqui, parece que consigo abraçar a paisagem por completo, como se de uma caixa se tratasse, bastando tocar nas montras, nos semáforos, nos carros, no alcatrão… Aqui domina o cinzento e o preto, como se a vida fosse um funeral onde estamos sempre de luto. Enchentes de gente enchem constantemente transportes que não tinha visto até então. Muitas senhoras aparecem todas peraltas com vestidos esbeltos e florescentes, a meu ver até demais, como se devessem alguma coisa aos outros. E depois nem sabem o que é uma sachola e nem devem conhecer o verbo “suar”. Não sabem o que custa a vida, portanto. Vamos sair de casa, não tão janotas como as “majestades”, mas de cabeça erguida e conhecedoras do trabalho árduo. Ver lojas, comer num restaurante, fazer compras, ir ao cinema,… será a rotina de hoje. A típica rotina dos estranhos cidadãos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quero gritar: Viva o Verão!

A minha primeira discoteca (19º dia)

Foi na cidade, como seria de esperar. A vila daqui de perto já me surpreende pela negativa, mas ainda não tiveram a ideia de pôr lá uma discoteca. Vou com a minha prima Vera, como é óbvio, mas desta vez a mãe dela pediu-me que a acompanhasse e que encarasse esta entrada na discoteca como um teste à sua força de vontade em deixar a bebida. Eu cá acho que entrar numa discoteca é bastante prematuro ainda, o mais provável é cair no mesmo erro… (…) A minha tia Constância acabou de chegar e estou pronta para entrar no carro. Ao chegarmos, mal a Vera abriu a porta quando ainda estava a escrever sob os solavancos que outrora passámos. A minha tia piscou-me o olho e saímos. Eu bem sei o que lhe ia na cabeça. (…) Entrámos e a Vera foi abraçar uns amigos que, ao que parecia, conhecia de longa data. Para variar, isolei-me um pouco e vim parar a um cantinho simpático onde preside mais luz, menos barulho e menos gente. Estas discotecas são o passaporte para o declínio da vida. Mas mais que isso, as pessoas compram esse passaporte e usam-no vezes sem conta. O tecto deste edifício mal se consegue ver, aquelas bolas brilhantes que nem sei se servem de candeeiros fazem questão de me irritar e fechar os meus olhos. Olho em volta e está tudo embriagado, não exceptuando a Vera. Eu juro que tentei ser sociável com os amigos dela, até perguntei as horas e tudo. Mas eles insistiam em olhar-me de alto a baixo com tamanho desdém e onde rematavam o seu olhar para o meu diário. Aí sim, aqueles olhos pareciam punhais. Depois vi a Vera a cair. Corri na sua direcção e ajudei-a a levantar-se. Ela disse-me: Eu sabia levantar-me sozinha, gaja. Ainda andas com essa m**** de livro atrás? Nem na Universidade eu escrevia quanto mais… E eu respondi: Eu tenho noção que é demais andar com um diário atrás, mas pelo menos reflicto sobre a minha vida a qualquer momento, especialmente se bebesse álcool, se estraga-se a minha vida e sobretudo se fosse uma desilusão para a minha família! Cresce Vera, cresce uns bons palmos mentalmente. (…) Achei por bem ficar em casa da Vera esta noite para amanhã conversarmos com calma. O dia de ontem foi péssimo, mas percebi que sou mais forte do que pensava.   

Na cascata (18º dia)

Vestido, chinelos, mala, óculos de sol, toalha. Estou pronta para o dia de hoje. Depois da minha prima Vera estar a atinar e o meu avô ter finalmente conseguido um carrinho vermelho, as coisas parecem estar a encaminhar-se. Hoje foi uma questão de telefonar para a minha vizinha Diana, que ao que parece é a minha única amiga fora da família e que vive cá na aldeia. Por outras palavras, foi a única que resistiu ao cenário da vila ou da cidade. Ela acabou de chegar e a minha mãe vai levar-nos. (…) Não estou na Madeira a ver o “Véu da Noiva”, mas perece que me deparo com tal. Estou maravilhada com a paisagem e ainda mais com este ar fresco que não conhecera há uns largos anos! Vou só ficar a tostar-me um bocadinho e depois conto tudo. (……) Depois de chegar a casa, tomar um bom banho e estar quase a cair para o lado com este arrebatamento de sono recostei-me na cama. Bem, o dia de hoje foi fantástico. Um tanto perigoso, mas quando o objectivo é unicamente a diversão não se pensa em perigos. Andámos pelas partes mais baixas e demos uns valentes mergulhos. Finalmente consegui fazer o pino na água, ahaha. Contámos umas boas anedotas e tentámos apanhar uns peixinhos cinzentos e vermelhos! No fim rematámos o dia com um valente piquenique cheio de coisinhas boas, inclusive o bolo com mais chocolate que já vi na vida. Como a maluqueira não bastou, descemos a cascata na prancha da Diana sujeitas a que nos parasse a digestão. Foi uma loucura, quero mesmo repetir! Não paro de bocejar… boas noites querido diário.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Minha bicicleta

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Isto enerva-me! Tanta vez que já foi arranjada e agora por estar parada por uns tempos começou a chiar. Já me vieram com a história que é pela falta de uso, eu até já andei um bocadinho à noite com ela, já que não há muita gente na rua para ter de suportar aquilo, mas ela insiste em lançar aqueles barulhos horrendos. Logo agora, pá!
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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Nos alcoólicos anónimos (17º dia)

O tema principal deste meu dia não é positivo, é um facto. A minha prima Vera, da qual eu sou bastante próxima, finalmente se decidiu a participar nos alcoólicos anónimos. Ela tem 29 anos e já envereda por esta vida? É certo que é graças a ela que sei de muitas histórias, loucuras e vícios das adolescentes e jovens das cidades e por estranho que me pareça compreende-me sempre, fazendo-me pensar até ao momento que ela está naquela transição entre uma vida urbana e uma vida pacata. No entanto, parece que escolheu o vício da bebida, tão típico das cidades, de modo que a primeira vida a subornou. Infelizmente de todas as vezes que ela concordava comigo certamente era porque estava sob o efeito da bebida, o que me deixa muito em baixo, pois ela era o único motivo para que eu pensasse que seria uma rapariga normal, agora acho-me anormal, uma atada, uma “fora do mundo” e das vivências normais, tudo o que sentia antes de a conhecer melhor. (…) Enquanto ela estava na reunião, vá chamemos assim, eu aproveitei para escrever. Este sítio assombra-me, afligi-me. Só vejo mulheres com batas brancas, como se se tratasse de um hospício. Caramba, a bebida é só uma questão de fraqueza na vida, onde não existe mais nada onde nos possamos agarrar, mas sei que no fundo nunca o faria e o que eu quero é minimizar os erros da Vera. Irrita-me profundamente quando as mulheres de cá se põe com sorrisinhos para as alcoólicas, como se vendessem escrúpulos, como se fossem as rainhas do mundo, enquanto que muitas já passaram pelo mesmo e estão sôfregas por receber elogios e de se convencer de que os outros não se vão desprender do vício como elas. Quando ela saiu abracei-a calorosamente e disse-lhe: Que lição tiras-te do dia de hoje? E ela respondeu: percebi que a partir de agora a bebida é como um punhal, que me olha com fervor e apenas me quer mal.

Yellow car (16º dia)

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Hoje vim dar uma voltinha no buggy do meu avô. Já estava cansada de ver todos os anos aquela bela relíquia a ser pintada de fresco e a levar peças novas graças à estima que o meu querido avô Hélder tem por ele, talvez por ter sido a prenda de alguém muito especial. Mas eu sei bem que o que realmente queria o meu avô era um carrinho vermelho, enfim, fanatismo pelo seu clube! Arranquei com ele, completamente livre, livre de companhia e de espírito, depois de muito prometer e enumerar os cuidados que iria ter com ele. Nos filmes estes carros chiam sempre a arrancar ou os travões fazem barulhos estridentes, mas este está novinho em folha. A janela era bem pequenina, mas deu para desfrutar a paisagem e dar o devido valor à minha aldeia. Mais tarde deparei-me com imensos carros como o meu, mas de outras cores e formatos. Não havia bandeiras, público, repórteres e flashes de máquinas, de modo que certamente não se tratava de uma corrida. Começaram a arrancar e eu sem pensar fui atrás deles! Fiz derrapagens que mal sabia que conseguia fazer, enchi-me de lama, efectuei ultrapassagens bruscas, dei umas valentes risadas, parecia histérica como as raparigas da vila no shopping. Quando me pareceu ser a única a partilhar aquela euforia de vida, vim nas calmas para casa, talvez pelo receio de que levasse um sermão que me fizesse temer para sempre o meu avô. (…) Hoje de manhã fui ao correio e vi um bilhetinho um tanto semelhante ao que era dourado do Charlie da fábrica de chocolates Wonka. Dizia: parabéns, ganhou um carocha vermelho pela sua prestação na corrida de ontem, onde obteve um 1º lugar! Estou em pulgas para contar ao Hélder.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

No shopping (15º dia)

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Hoje vim com umas amigas ao que se chama “shopping”! Sou uma típica rapariga da aldeia, mal convivi com espaços públicos quanto mais um local que ao que dizem está sempre repleto de gente bem arranjadinha, como lhes chamo. Acho surreal o aspecto dos tecidos ter um papel tão importante a desempenhar. Vamos ver o que me espera. (…) Chegámos a este grande edifício de bicicleta e mal eu imaginava que convencê-las a andar fosse tão suplicante. Eu bem lhes disse para não irem morar para a vila, agora estão mal habituadas. Enquanto as três investem o tempo a abordarem as novas tendências da moda e a olhar com ar dissimulado para quem julgam estar mal vestido, eu prefiro estar recatada neste banquinho de pedra tão só. (…) Depois agarraram-me na mão e fomos todas ver as montras. Fiquei boquiaberta ao ver os preços detalhados e com inúmeros dígitos e sobretudo apreciar aquele panorama eufórico que tanto as iludia, enquanto já tinham gasto balúrdios em coisas supérfluas. Foi aí que a Madalena me chamou: Irina! Vem cá! Vi este vestido lindo para ti! É claro que era caríssimo e nem pensei duas vezes em recusar. (…) Já cá fora, quando elas descansavam e bebiam um refresco, eu fiquei a pensar que seria algo novo para mim levar uma recordação daquele lugar, daquela futilidade, daquele mundo. De certa forma fiquei prendida com tudo aquilo e receava até as saudades que poderia ter daquela experiência tão diferente, a qual passou ao lado da atenção das minhas amigas. Fui a correr, dizendo que fui à casa de banho. Vim com a mochila mais cheia, mas mal elas repararam. Saímos. (…) Cheguei a casa e estou exausta, mas nada que se compare com o trabalho dos campos. Mal elas sabem que trouxe um par de sapatos de saltos altos!!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sonhar em praça pública (14º dia)

Não é que andava eu a pedalar perto da minha zona e oiço uma excelente sinfonia lá ao longe, que mesmo entre os ruídos dos autocarros, me parece acatar o meu coração e subornar a minha audição. (…) É claro que não ia consentir ouvir aquele tom melodioso sem ir ao cerne da questão! Cá estou eu, entre badalos, cânticos e notas afinadíssimas. Olhei em volta e deparei-me com uma rotunda linda, como as que há no centro de Madrid! Estava numa praça que outrora não tinha conhecimento, que ignorância a minha. (......) Quando dei por mim, tinha acabado de acordar sobre um pedragulho imundo, recheado de musgos de diversas texturas. É certo que ali ninguém me vira, mas podia ter sido atacada por algum animal. Bem, na verdade, o pensamento que me envolveu durante sensivelmente 24 minutos, tinha a ver com a própria música. Há uns largos anos fui trompetista numa grande banda na França. Eu vivia lá e sinceramente foram os melhores momentos da minha vida. Até choro quando me imagino lá nessa banda, bem na linha da frente. Parece que todos os meus problemas se dissipavam mal saía de casa, tal como o álcool ao sair do frasco. Sempre dei imenso valor à música, isto porque estive cega durante o segundo ano da minha vida, mas felizmente tudo se resolveu. Agora, deparar-me com uma banda destas num ápice só me podia ter feito sonhar.

domingo, 7 de agosto de 2011

No topo da montanha (13º dia)

Cá estou eu no topo da montanha mais próxima da minha residência, apenas 12km! Estou com os músculos desfalecidos, com o olhar ressequido e com o cabelo desgrenhado. Como poderia ter pior aspecto? Parece fácil e encorajador subir para esta ilha aérea, mas deu cabo de mim, agora até de descer tenho medo. (…) Estar aqui em cima é… soberbo e… sumptuoso! Sabendo que despendi de tamanha garra para agarrar esta paisagem, cujo suporte é o horizonte. (…) Neste momento estou a presenciar o pôr-do-sol e se bem me lembro nunca escrevi tão lentamente, pelo facto do meu ser estar obstinado por tamanha realeza. Quem disse que a noite mete medo? Aqui em cima sinto-me completamente segura sob esta festa de sentidos, onde penetro o ar e procuro chegar à origem daquela luz, e sobretudo onde danço com as estrelas que começam a aparecer, onde vislumbro o luar a assaltar as casas e as florestas, onde repousa o amanhecer neste sossegado cume. Quanto mais permaneço rígida, mais repenso neste quadro real ofuscado, que me deixara a mim também ofuscada, obcecada. Quero desprender-me deste diário, mas sinto que este sentimento épico tem de ser gravado nalgum lugar, num instante qualquer, numa hora indefinida.