segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Estranheza


blood flowers 🍎

Hoje lembrei-me dos tempos em que chorava na rua... E lembrei-me de muitas outras coisas. Daquele espírito vivo e egoísta ao pensar que a vida era apenas minha e da ilha em que vivia e a que chamava de amor. Lembrei-me das tempestades, das mentiras, dos furacões e das desilusões. Foi apenas um relâmpago moribundo que me assolou de noite e tentou unir os sonhos com os pesadelos. Ou talvez não. Talvez tenha sido um relâmpago num céu real. Não pareceu uma lembrança credível e muito menos nítida. Na verdade, a coisa mais real foi sentir que o chão que me sustentava desapareceu. Foi aí que percebi que Deus sempre me tivera dado os pressentimentos corretos, nas alturas certas. Foi terrivelmente estranho, uma sensação horrivelmente diferente. E como toda e qualquer sensação nova deve ser imortalizada, resolvi escrevê-la. Mas como se descreve a estranheza? Foi algo tão dúbio que me fez questionar o porquê do destino me levar ali. Pensar que foram uns quantos meses que mudaram a minha posição na pista de dança, naquela pista de dança. No fundo, a minha atitude no palco da vida. Por um lado cheia de garra, por outro detentora de uma enorme fraqueza. Afinal, quem se sente forte perante o desconhecido? Quem não sente um eco dentro de si ao saber que esse desconhecido já foi a única pessoa que o nosso coração conhecia? Lembro-me de não sentir nada que não apenas um susto. Não, rigorosamente nada... foi aí o cerne da estranheza. Estranheza essa que não sabia sequer definir como boa ou má, doce ou amarga, cruel ou sincera. Agi fora de mim, contra todas as teorias que me suportavam, todas as normas que faziam de mim aquilo que sou e que me identificavam como uma impressão digital, e foquei-me meramente em dançar. Não sou de fã de atitudes frias e distantes, mas a vida obriga-nos a isso ou as pessoas ensinam-nos a usar tal escudo. E foi na minha inocente estupidez que ainda me julguei e achei egoísta por uns segundos. Mas depois pensei na forma como adquiri o conceito de egoísmo, na maneira brusca e injusta como senti na pele esse traço que fazia parte de outro carácter que não eu. Não foi algo teatral, foi simplesmente um convite momentâneo que a vida me ofereceu sem querer nada em troca. Apenas soube que seria impensável recusar esse convite e agir de outra maneira. Não preciso de dizer "estou aqui, eu existo", preciso apenas de sentir que cuidei de mim própria onde a única sequela foi a indiferença. Aquela que foi estranha por entre luzes ofuscantes. Mas uma coisa eu sei, que quando não guardamos raiva ou rancor, nos devemos contentar com a indiferença. Afinal, esse é um sentimento que custou a adquirir. Pode ser ténue, despercebido, monótono e vazio, pode ser o sentimento do qual surgem mais explicações, mas é o mais difícil de conquistar. Parecia que tudo tinha parado no tempo, não houve vontade de sorrir, de ouvir uma explicação, foi estranho. Tudo como se tivesse deixado de existir espaço para aquela pessoa. Por isso, aprendamos que o maior orgulho que podemos abarcar na vida é saber que já não lutamos por nós próprios por necessidade, mas o passamos a fazer por ambição.

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