quinta-feira, 25 de junho de 2015

Aquilo que nunca se perde


Sabes daquela manta esquecida no sótão que mais tarde foi a alegria dos grandes piqueniques? Sabes daquela rosa que secou e por milagre desabrochou num dia de inverno? Sabes daquele cão que fora abandonado e acabou por encontrar a família mais acolhedora? Sabes aquele papel que foi amarrotado mas que tu usas-te para escrever a tua empolgante lista de compras? Sabes aquele pedaço solitário de areia da praia que acolheste e colocaste no teu vaso preferido? Sabes aquele perfume esquecido que agora não abandona a tua rotina? Sabes daqueles livros sobre positivismo que tu queimavas com o olhar e agora são a essência da tua estante? É verídico. Todos ainda podemos ser felizes. E valorizados, acima de tudo. Sabes o que nunca se perde? As coisas bonitas da vida. Os raios de sol a entrar pela janela todas as manhãs. A primeira brisa de primavera que nos saúda com harmonia. O bater das asas dos passarinhos mais madrugadores. Os pescadores que se levantaram muito antes de nós para nos garantir sustento. Aquele beijo de boa noite aos nossos pais. O nosso reflexo no café quente que nos acolhe. O orvalho a afirmar a força da gravidade. As gotas de chuva a lavar-nos a cara. O calor natural dos gatinhos aos nossos pés. O conforto do nosso cobertor preferido. As lições de vida dos nossos avós. As memórias de infância. As paredes quentes ao fim de um dia de verão. A combinação do chá e da lareira nas noites de inverno. A baba natural do nosso cão. As pupilas a dilatarem. As estrelas a cintilarem. O almoço a fumegar na panela. As olheiras do descanso a latejar nos dias de férias. O céu azul à espera do nosso sorriso. Deus à espera da nossa convicção. Recebemos toda esta atenção todos os dias, somos alvos das coisas mais maravilhosas que algum dia poderíamos imaginar. Sabes o melhor equívoco destas coisas simples da vida? É que são garantidas. Nunca, em momento algum, precisei de pedir para continuarem, para ficarem comigo a garantir-me esperança de vida, porque estas pequenas coisas, estes meros momentos, estarão sempre comigo em qualquer lugar, em qualquer idade, perante qualquer estado de espírito. O amor existe, sim, mas em baús. Vemos muito mais beleza no quotidiano se estivermos desprendidos do sofrimento, se esquecermos o que é o amor e se fingirmos nunca o ter conhecido nem praticado. O amor existe no dia-a-dia, nos passos saltitantes que damos na rua, nas gargalhadas espontâneas, nas palavras amigas, existe nas paisagens mágicas que visitamos, no esforço que depositamos em nós próprios para orgulharmos os que nos rodeiam, o amor existe num olhar inocente pela janela, nos contos de fadas que estão em todos os livros da infância, existe nos pensamentos bonitos e puros, o amor existe em todos os lugares onde há bondade, respeito e muita consideração e carinho. O amor surge das pétalas frescas da primavera. Tem um significado meramente simbólico, porque poucos o praticam. E as cartas que escrevi?... essas! Estão bem guardadas. Mas estão longe do meu olhar para que não me lembre do quanto o nosso amor era enorme.

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