quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O que a minha mãe diz não se escreve

"Este ano não há árvore de Natal cá em casa!", disse a minha mãe em jeito de raspanete e determinada em convencer-me. Depois destas palavras quiz arrancar-lhe as razões para dizer uma barbaridade dessas. Falou-me da crise e das dificuldades que Portugal atravessa. Revoltei-me! Uma crise não pode destruir tradições. A árvore de Natal não é sinónimo de presentes em abundância. É sim um bonito símbolo que deve ser preservado. O que seria da união das famílias ao decorar a árvore? O que seria das crianças que acreditam no Pai Natal? O que seria da sua inocência que tanto é alimentada pelas luzinhas cintilantes? O que seria da sua criatividade em fazer o presépio? E tanto eu me divirto a arrancar musgo para fazer o presépio, pensava eu. O Natal inclui a árvore, do tronco às folhas, das raízes à copa! Porque a árvore é um típico símbolo. E os típicos símbolos não podem desaparecer. O Natal não é só o frio e, obviamente o signicado religioso, mas a árvore verdejante do canto da sala. Nem que se ponham presentes de esferovite, mas árvore de Natal tem de haver! E assim acordamos que sempre haverá árvore de natal.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A febre e o telejornal

A manhã começou de termómetro na mão. E o dia passou por entre espreitadelas ao relógio. Chegada a noite, dei por mim entusiasmada ao ver o telejornal. Tá certo. Só podia estar doente!

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Ricardo Araújo Pereira 4*

"Quando, em 1917, a Mãe de Deus, Todo-Poderoso, Senhor do Universo, decidiu visitar o concelho de Ourém, toda a gente percebeu que o futuro de Portugal estava no turismo. Se a zona centro, menos favorecida do que outras na beleza da paisagem, era capaz de atrair viajantes pertencentes àquele importante segmento do mercado turístico, que sucesso poderia ter, por exemplo, o Algarve? Para o Governo, contudo, o turismo será uma fonte de rendimento interessante, mas não a principal. O futuro de Portugal passa sobretudo pelos impostos, e é neles que o Governo tem aplicado toda a sua criatividade e iniciativa. De todas as vezes que as medidas foram apresentadas, houve sempre alguém - fosse uma pessoa com influência e prestígio na sociedade portuguesa, fosse o Presidente da República - que tomou a palavra para dizer: cuidado, há um limite para os sacrifícios do povo português. E, no entanto, semanas depois, novos aumentos. E as mesmas vozes voltavam a avisar: atenção, os sacrifícios têm um limite. O limite da algibeira dos portugueses é como a linha do horizonte: por mais que nos aproximemos dele, nunca o atingimos. Passos Coelho e Vítor Gaspar descobriram que, tal como a terra, também a algibeira dos portugueses é redonda - e serão ambos apontados como pioneiros quando se fizer a história da astronomia dos bolsos. Atrás de sacrifícios, sacrifícios vêm. E só os sacrifícios que fizemos no passado nos oferecem agora a possibilidade de estar na posição privilegiada de poder fazer novos sacrifícios. Mas são as leis do mercado: quando um bem escasseia, o seu valor aumenta. Como há poucos empregos, os que existem são caros. E estaremos perto do momento de viragem, em que o Governo deixará de pedir aos portugueses e passará a oferecer-lhes. É por volta da altura em que se atinge este volume de impostos que se costuma oferecer ao trabalhador dois presentes: umas grilhetas e um chicote."

sábado, 3 de novembro de 2012

Dirigindo-me à saudade

Não me lembro de ti. Não, enquanto não tive despedidas. Subornaste-me enquanto pudeste. Tiraste-me a amnésia, mas tornaste-te no sol negro da minha vida. Lambeste-me os preconceitos, mas revestiste-me de paradoxos. Não passas de uma estadista que negoceia sentimentos. És despudorada, abominável e corrosiva. Saboreio a tua eloquência logo pela manhã. Cheiro-te nos sonhos. Toco-te através do vento. E tão desavergonhadamente finges que não existes! Escondes-te nos penhascos da vida, mas és detentora de multidões. És a criadora de angústia. És a origem da autodestruição. És o gemer da alma. És a esperança morta. És a tesoura dos tendões e o aspirador dos anticorpos. És a tinta preta do coração. És o recalcamento dos vestígios da finda presença. És a razão da frieza da noite. És a insónia. És a chave das portas outrora encerradas. És o préstimo do superego. És o que resta de um grandioso sentimento. És o cupido das recordações. Mas, no fundo, declaras-te Némesis a ti própria. És real, quando o tremer dos pilares do mundo gera um compasso perfeito com os batimentos do meu coração. Quando te tornas na muralha espancada do desassossego. És fictícia, quando consigo viver sem ti. Quando te tornas esbatida ao lado da fúria. Não tenho justificações para ti. Apenas guardo um livro de memórias coloridas que construí e, que por desaparecer, tu apareceste. Estás presente nos carrinhos de rolamentos, nos bibes do jardim, nas fronteiras dos países, nos ácaros das malas de viagem, no ladrar de um cão, no miar de uma gata, numa porta de apartamento, nas aventuras do passado, na areia da praia… Mostra que é possível resistir à tua existência. Porque não te sentir, seria tão mágico como um cão ladrar em versos.