quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Amor à expectativa

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Quem ama saberá que o medo de se perder alguém é semelhante ao medo da morte. Pensamos exatamente no grau de dor que iremos sentir. É como se uma grande parte de nós quisesse esquecer à força essa inevitabilidade e uma pequena parte racional saber que isso faz parte das probabilidades da vida. É tão doloroso imaginar um fim, chega a ser repugnante! Seria como a nossa morte em vida e, só de se imaginar, já se sente uma pequena morte dentro de nós. O problema está no amor à expectativa. Naquilo em que depositámos promessas, valores, sonhos e vidas! Naquilo a que demos o poder de segurar a nossa alma e a nossa essência e depois nos falhou. Nos largou. E de nós abdicou. Depois ficamos suspensos no ar, imóveis no pensamento, como se estivéssemos numa guerra e não nos quiséssemos mexer porque a morte era tudo aquilo que desejávamos, como se nos sentíssemos atingidos por balas e, apesar de sermos imortais nesse pesadelo, de facto sentimos essas balas e todas as perfurações, sentimos algo horrendo a propagar-se dentro de nós. Algo venenoso a alimentar-se da nossa felicidade! Ficamos com a certeza de não pertencer a este mundo e de que tudo, para nós, acabou. E aí percebemos que tudo é como a morte, inevitável. E compreendemos que a expectativa é a pior arma usada contra nós mesmos. E apesar de já ter abandonado qualquer expectativa e depois da confiança que já ganhei, ainda ouço ecos teus a dizer que não presto, ainda ouço balelas a convencer-me de que não tenho valor algum. É ultrapassável, mas não é indolor. É tido como devaneio, mas ocupa o nosso lado racional. São vozes e vozes a lembrar-me da minha idiotice em ter lutado tanto. Hoje percebo que melhor do que lutar por rotina é lutar apenas quando se sente um estímulo que nos faça abdicar do nosso tempo, mas nunca de nós mesmos! É preciso um objetivo na luta, e não apenas a cansada recorrência de uma ação. E uma ação sem troco, sem carinho, sem dedicação! Ainda tenho o ritmo de tantas músicas alojadas no cérebro. Músicas que ouvia enquanto esperava horas e horas por aquela presença especial. E quando a expectativa se aproximava de mim, eu era mandada embora. Fosse dito com seriedade ou não, eu estava ali de corpo e alma, a abdicar de pessoas que nunca abdicaram de mim. Magoou. Gelou. E ainda hoje existem esses flocos sob a forma de frieza. Foram quedas e quedas tão banais para os responsáveis e tão carregadas de brutalidade para quem as sentiu. Nunca tenhamos expectativas por alguém que nem sequer espera nada de nós. Nem sequer arranja um espaço no seu coração para sonhar alto em relação a nós, porque o pedaço de expectativa que temos pelos outros é um fruto do apreço por essa pessoa e, onde há expectativa, há inconscientemente uma espera constante por aquela pessoa, pelo seu olhar, pelo seu abraço, pelos seus passos. Queremos meramente a sua presença. Eu sei que quem é capaz disto, também será capaz de sentir um bocadinho de compaixão, acredito que existe um lado humano e que a maior causa desta destruição de sonhos é o egoísmo e não apenas a maldade. Eu sei que te vais lembrar de mim. Sei que há uma parte de ti que ainda me acha insubstituível e também sei que já nada disso me interessa. Mas doeu. E foi tudo por amor à expectativa.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

3º ano e o atirar do nabo

O terceiro ano é diferente de todos os outros! Vejo o primeiro como a adaptação, o segundo como um esforço contínuo e o terceiro como um equilíbrio entre o sucesso e a liberdade. É neste ano que nos sentimos verdadeiramente acolhidos por Coimbra e carregamos o orgulho em estar nesta cidade em todos os passos que damos na rua. Já é um acumular de vivências, de emoções, de obstáculos ultrapassados que nos fazem olhar para trás, para todo o suor e todas as lágrimas, e perceber que o tempo passa a voar e que até então já suportámos muita coisa e já fomos vencedores! É por esta altura que, já sentindo um pouco a nostalgia da despedida, aprendemos a valorizar as pequenas coisas enquanto cá estamos e arranjamos sempre tempo para um passeio pela cidade. O dia do cortejo contempla tudo isto, desde a dor da primeira despedida dos nossos pais à comunhão com as grandes tradições de Coimbra! O cansaço é imenso, todos sabemos, mas o que se leva no coração é ainda maior, sabemos que o orgulho que levamos foi uma conquista só nossa, apenas nossa. É das maiores provas que podemos dar a nós mesmos! O atirar do nabo é o simbolismo do passar do tempo, é o atirar dos medos, das angústias e dos poderes do mal. É a ponderação de toda a caminhada, é o equilíbrio de todos os feitos, é a pesagem de tudo o que nos sucedeu e o renascimento de uma parte de nós. Sim, passa a existir uma porção privilegiada de orgulho dentro de nós que olha para a vida já com experiência e sabedoria, já com vitórias dentro de si que custaram e exigiram sofrimento da nossa parte e, é neste cortejo, que percebemos que foi esse o grande salto. Atirar o nabo é, também, como o recuperar do tempo que abdicámos por motivos, agora, pouco significativos, é o recolher da esperança, da motivação e do ânimo que precisamos. E conquista após conquista ali estamos nós exaustos, já de meia rota ou sapato encravado, mas estamos de pé e sabemos que cada pedaço de cansaço tem na sua base a alegria e a determinação. E depois, enquanto atiramos o nabo naquela fração de segundo, pensamos em tanta coisa bela! Os amigos de curso inseparáveis, as noitadas enérgicas, a subida à torre, os fados em cada esquina, as fitas das pastas, os cortejos incansáveis, os emblemas, a capa forte e protetora, os sapatos a tropear nas calçadas, as afilhadas, as serenatas, os mares de gente e todo o tempo investido neste percurso que nos deu vida e que nos trará vida sempre que cá voltarmos! É uma bênção poder acolher Coimbra e deixarmo-nos acolher por ela! Imagino-me um dia, já com família, a olhar em vão para Coimbra e a ver-me no auge da juventude a atirar o nabo com tamanha euforia. São coisas que marcam! E tudo o que marca segue-nos a vida inteira! Foi um dia emocionante e afirmá-lo penso que será pouco. É então que o nabo beija as águas do Mondego e por momentos a nossa respiração é feita tanto de alívio como de nostalgia. É um misto de emoções que só um estudante universitário poderá saber ao certo. Olha-se para o nabo e o silêncio invade toda e qualquer forma de vida que, por momentos, rima com uma espécie de luto. E assim fica o nabo a navegar, sem sustento ou ritmo de vida, e assim ficamos nós, também a navegar pelas boas memórias que temos para contar. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Primeiro carro!!


Foi das melhores notícias dos últimos tempos! Passou cerca de ano e meio desde a carta na mão e, apesar da necessidade em ter carro não ser enorme, a vontade de a ter já o era. Claro que não passa apenas por uma mera vontade, há que olhar a orçamentos e à virtude de ser paciente, mas conduzir o carro dos nossos pais e o nosso próprio carro é totalmente diferente. É o nosso primeiro brinquedo a sério, é a nossa dedicação, a nossa responsabilidade em estado contratual e, no fundo, é uma parte de nós que deve ser prezada e cuidada. A procura foi longa, sem dúvida, mas é algo que requer tempo e firmeza da nossa parte. Tendo objetivos fixos as coisas aparecem. E apareceu! Apareceu uma maravilha que foi feita exatamente para mim. Fiquei super entusiasmada quando os olhos dos meus pais diziam que queriam fechar negócio. Lá pensei: "É desta!". É desta que dou este passo gigante na minha vida e que percebo que, de facto, os meus pais confiam na minha condução. Existia muito medo da parte deles inicialmente, como é natural, e transmitiam-me um nervosismo inquietante que eu própria já nem sentia, porque a verdade é que a minha confiança na condução cresceu imenso e ganhei um domínio sobre o carro que esperava nunca vir a ganhar. Este tempo de prática com o carro dos meus pais não foi em vão e sei que eles quiseram esperar pelo momento certo. Como sempre, os pais adotam o papel de destino e nós, filhos, aceitamos como se já tudo estivesse escrito desde a antiguidade. E ali estava eu a estrear o carro num parque de estacionamento, com um pouco da inquietação que o vendedor me transmitiu, pois parecia um instrutor a ver se a condução estava nos conformes. Mas tudo correu bem e o dia acabou da melhor maneira possível! Após digerir a excelente notícia pensei que tudo fosse começar do zero e que a intermitência na minha condução fosse voltar por se tratar de um novo veículo, mas não, estava totalmente errada! As bases estão lá, a confiança apenas se reafirmou e a verdade é que me habituei ao carro com uma enorme facilidade. Estou felicíssima e pronta para uma vida independente, sobre quatro rodas! 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Horizontes de gente




Sabemos tão pouco sobre o mundo. Sobre as pessoas. Apenas ouvimos os seus passos a bater nas calçadas, lemos os seus sentimentos pelo ritmo do seu pestanejar, percebemos o seu medo pela inquietação dos seus dedos, sabemos da sua constipação pelo lenço branco que espreita pelo bolso. Mas isso não chega. Continuamos sem conhecer a pessoa que caminha ao nosso lado na rua, a que nos diz bom dia só porque também dissemos, a que se senta ao nosso lado na sala de aula, a que comenta quando passamos, a que já te viu a chorar e ainda assim não fez nada ou a que sorri para ti e tu nem sabes se a conheces. O conhecimento dos outros é tão repleto de escuridão, tão separado por barreiras infinitas, por sorrisos estanques e atitudes pouco previsíveis. Somos a areia criada por Deus, mas a ilha cavada por nós. Somos ilhas desertas e vãs, inconstantes e sufocantes. Somos metrópoles de vaidades, antros de solidão, somos os resquícios de um lado primórdio e selvagem. Somos feras que sabem sorrir, vultos que escondem sentimentos, somos feitos de vidas descartáveis, de gritos de dor que ninguém ouve, de amarguras desprezadas por quem não as sente, somos feitos de respirações artificiais, de sonhos ilusórios e provas de amor em vão. Estamos constantemente numa busca pelo afável, por um sentimento tal que possa condizer com a felicidade de sonhar em coisas bonitas. Queremos algo sólido e confiável, porque sabemos que é impossível amar quem já amamos, porque a dor que a despedida te causou já te mudou por dentro, já te fez traçar novos caminhos, em busca de novas perspectivas, com uma bagagem completamente diferente. A dor que sentiste talvez seja a dor que faz de ti aquilo que és hoje, é uma dor que levas contigo para toda a vida e que te impede de sentires dores igualmente insuportáveis. No fundo, é essa dor passada a base dos sorrisos do presente. Talvez seja em direção a essa dor ou a uma outra dor qualquer, que caminhamos pelas calçadas e criamos horizontes de gente com corações despedaçados, mas que querem ir ao encontro de novas imunidades, de novos escudos de fortaleza, cujos alicerces são as dores mais dolorosas que aguentaria a força humana. Seria, esta, uma busca pela dor e, acima de tudo, uma busca pelo prazer de cada vez sentir menos essa dor e crescer com cada pedaço de grito e cada pedaço de lágrima. São horizontes de gente manipulados por crueldade, e uma crueldade criada por nós mesmos e pela ilha que nos sustenta. São horizontes incertos e de raras silhuetas, onde muitas ilhas já se afogaram e poucas permanecem, aqui e além, de pé a suster o nada e o vazio que é o amor que recebemos. Somos meros retratos, somos lendas que todos julgam que existem, somos quimeras a latejar nos pilares do mundo, somos uma simples forma de viver, uma singela presença no meio de tantas outras e é por isso mesmo que acabaremos com a forma de um punhado de cinzas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A emoção da serenata ♥



Não foi exatamente a última serenata, está até um pouco longe de o ser, porque o mestrado ainda me vai trazer muitas emoções nestes dias tão especiais. Mas a verdade é que, não sei se por estar no último ano da licenciatura, esta serenata comoveu-me bastante! Estes são aqueles dias em que, logo ao acordar, começamos com uma ânsia enorme de ouvir aquelas belas vozes e de sentir Coimbra ao rubro. A noite começa com a euforia dos jantares e, de seguida, são de esperar mil passos comoventes em direção àquele momento. Tudo porque as serenatas são muito mais do que noites particularmente negras, do que vultos com o mesmo destino, muito mais do que um frete em estar de pé. A serenata é algo para ser vivido de forma intensa e única, é uma forma muito pessoal de nos afirmarmos em silêncio, de criarmos um pequenino espaço dentro de nós para o nosso orgulho enquanto estudantes universitários, é uma forma de benzermos todos os nossos momentos vividos naquela cidade até ali. Para mil pessoas existem mil formas diferentes de se sentir a serenata. Cada um com uma história, com uma lágrima impiedosa que se soltou, com todas as vitórias dentro de si, mesmo as mais pequenas, porque a serenata engrandece os nossos pequenos feitos, cada um com a sua carga especial de felicidade e de emoção no rosto. Ficamos, por segundos, com a sensação de que somos úteis para a sociedade, lutadores na vida e jovens na forma de viver. Percebemos, nas entranhas do nosso coração, que nos momentos em que todos se afastam de nós temos a cidade de Coimbra de braços abertos a acolher-nos como nunca ninguém de carne e osso o fará. Ganhamos a certeza de que, por entre aquelas badaladas e lágrimas de saudade, pisámos o topo do mundo, fomos filhos acolhidos por todos os invernos, todos os outonos e todas as primaveras, porque cada um de nós não é só mais um no meio da multidão, é sim mais um rebento cuidado e acarinhado por Coimbra, mais uma pessoa, cuja sua vida mudou, os seus horizontes ampliou e a sua maturidade afirmou. Muita coisa vem ao de cima quando se chora, podem vir desilusões, desentendimentos, podem vir histórias das quais nunca entenderemos o seu cruel fim, mas saberemos sempre aquilo que representamos, o valor que temos e os trilhos que todos os dias criamos! E tão bom que é haver oportunidade de poder desabafar com a vida numa linguagem de lágrimas onde ninguém nos poderá julgar, onde todos nos expressamos na mesma língua e todos sabemos que Coimbra é o nosso ponto em comum. É a fraqueza da nossa saudade e a lança dos nossos méritos. Poderia dizer que todos entendem as lágrimas que lá deixei, mas a verdade é que apenas Coimbra entende. Apenas tu, Coimbra.

Latada, 2015