segunda-feira, 20 de junho de 2016

Mixórdia portuguesa


Revolta-me todo o filme de terror a que assistimos todos os dias e nada fazemos. Revolta-me os grandes ordenados à custa do suor dos mais fracos, revolta-me os políticos terem as regalias que têm, os bolsos que ajudamos a encher por cada emplastro da assembleia, sim! Nós indiretamente pagamos o seu motorista privado, pomos-lhes o marisco no prato, engraxamos os seus sapatos, damos tempo de antena, o nosso tempo, mas pior do que tudo, damos o nosso voto, a nossa aprovação, como se tudo estivesse saudável e equilibrado à nossa volta, porque as mentes se conformam e limitam-se a seguir a carruagem, porque se é assim que estamos é assim que continuaremos. Revolta-me os bancários reformados virem deitar lágrimas de crocodilo acerca das suas reformas, revolta-me perguntar a um idoso na rua porque votou em fulano x e ele responder "porque é o partido que lá tem estado" ou "porque é do psd", revolta-me que votem em partidos e não em convicções! Esquecem-se que a cor de um partido não exige o mesmo amor à camisola do que a cor de um clube. Revolta-me sermos escravos da Alemanha e de todo o mundo. Revolta-me que as grandes superfícies comerciais comprem os produtos aos agricultores e pescadores por uma ninharia, revolta-me que o trabalho árduo que ergue a nossa qualidade de vida todos os dias seja tão desprezada. Revolta-me que o povo continue a aprovar as touradas, a levar os seus filhos para sorrir perante uma atrocidade daquelas e a assumir isso como uma tradição, revolta-me que o sofrimento de um touro seja recebido com aplausos e como um pretexto para um passeio de domingo à tarde. Revolta-me que pessoas com doenças crónicas fiquem anos numa fila de espera e que na altura de serem atendidos possam ser negados porque o médico não está no seu horário de trabalho, revolta-me que se esqueçam que estamos a lidar com pessoas e com algo em comum a todos, a saúde. Revolta-me as escolas que fecharam e que fazem as crianças terem de sair de madrugada de casa e entrar à noite, sem contribuir para uma infância feliz e uma boa relação com os pais, revolta-me que a educação dos futuros homens deste país seja tão desprezível. Revolta-me tanta coisa. Depois surgem aqueles disfarces políticos como forma de nos fazer esquecer a lama onde vivemos como os Magalhães para as crianças, qual Magalhães qual quê! De lhes formatarmos as mentes já nós estamos fartos. Eles que aprendam primeiro a boa educação e os princípios antes de conhecerem o alfabeto e a fórmula resolvente. E depois tiram os feriados religiosos, como se se achassem descendentes dos Reis ou substitutos do Deus em que o povo português acredita. Depois enchem os telejornais com açoites ao Sócrates, como se ele tivesse sido o único político a desviar dinheiro. Já nem entro no assunto do telejornal que, para perfazer todo aquele tempo que não é praticado em mais nenhum país, se enchem de notícias incompletas, outras totalmente evitáveis, muitas mentiras pelo meio e sempre com o mesmo foco, política e futebol. Depois vêm as casas de órfãos com notícias de abusos relatadas, os idosos abandonados em casas solitárias, os assassinatos. Todos casos em que a justiça deve muito à verdade. E depois vêm os impostos, claro! Aqueles que todos pagam e ninguém questiona sobre o porquê de já o fazermos de forma tão automática. Ir a uma auto-estrada e pagar, viver numa casa da nossa posse e pagar, pagar um seguro apenas por questões estatísticas, querer estacionar o nosso carro e pagar, até ir a uma casa de banho e pagar. Saímos de casa e pagamos. Pagamos à mesma velocidade com que respiramos. Nascemos e já estamos a dever ao estado. Estamos a trabalhar para o estilo de vida de uma minoria de gananciosos que comanda o mundo. A escravatura, no sentido literal da palavra, ainda não acabou para nenhum de nós. E a pior escravatura é aquela que ninguém quer ver. Chegámos a um ponto em que nada é realmente nosso, é tudo do estado, e um estado em que o burro do povo vota sempre! Há ali uma ilha chamada de povo nórdico, uma raça cheia de garra e princípios, praticamente auto-sustentáveis, mas que não nos servem de exemplo, talvez porque seja demais para nós sonhar tão alto ou porque simplesmente o português se contenta em dizer "os estrangeiros são sempre melhor que nós", sem mexerem uma palha para mudarem isso. É outro dos nossos defeitos, não somos revolucionários. Nós protestamos e abanamos bandeiras em vez de termos ações com impacto, um impacto mais forte do que todas as fileiras de polícias em frente à assembleia. Mas vá, as pessoas das aldeias querem ir conhecer o Marquês de Pombal e depois já não há espaço na agenda para o que supostamente era mais importante, que é afirmar os seus direitos. Eu orgulho-me da nossa bandeira e do que ela representa, da valentia que estava no sangue dos fundadores do nosso país, por tudo aquilo que conquistaram e por terem colocado Portugal como um dos pilares do mundo. E, agora, o que vejo em nada se assemelha às nossas origens. Estamos a caminhar para um declínio que poucos têm a coragem de assumir ou sequer conseguir ver. Um declínio que talvez só terminará com o Apocalipse.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ainda fui a tempo

light, indie, and city image

Ainda fui a tempo de ser eu própria. De me entregar à realidade e viver de tréguas com a minha essência. Ainda fui a tempo de pensar em mim e em como era racional eu ser a minha prioridade. De me ver ao espelho e acreditar que não há nada de errado. Ainda fui a tempo de fugir do labirinto de emoções que mitigava as promessas de um futuro melhor. De criar um antro de paz e positivismo para mim mesma, onde eu pudesse viver sem ser obrigada a recompor-me, sem sentir que tinha sido despejada numa ilha abandonada. Ainda fui a tempo de me afastar do foco da história e me encontrar nas entrelinhas. De entender que eu sou a protagonista da minha vida e que esse é um lugar que ninguém poderá ocupar. Ainda fui a tempo de perceber que dar o meu melhor sempre será o suficiente para aqueles que me merecem. Ainda fui a tempo de me transcender e encontrar uma força luminosa que julgava nem sequer existir. De, sozinha, ser tão mais completa! Ainda fui a tempo de me converter em alguém melhor e mais inspirador. De encerrar um capítulo para ganhar ímpeto de entrega para novos caminhos, com novos contornos e formatos de vida. Ainda fui a tempo de abandonar os retratos masuquistas que se impunham como rédeas. De descomplexar todo e qualquer sentimento e pensar em amor da mesma forma que penso numa flor. Ainda fui a tempo de perceber que se os problemas partem de nós, sendo que o sofrimento é nosso, então também as soluções terão de partir de nós mesmos. Ou talvez as soluções tenham estado sempre vivas dentro de nós à espera de serem agarradas. Chega o dia em que nos conseguimos mudar a nós mesmos e é aí que passamos a concentrar toda e qualquer capacidade de mudar o mundo. De nos tornarmos um exemplo porque, afinal, a mudança do mundo começa em nós. Continuamos fiéis aos nossos sonhos de criança, simplesmente mais maduros e realistas. Podemos saber que existem caminhos que vão doer a percorrer, mas saberemos tornar isso num conto de fadas por sabermos das vitórias e do orgulho que nos saberão tão bem receber no final. A vida é difícil e injusta e o segredo está em ver a beleza de uma caminhada que é percorrida sozinha. E então, se um dia as coisas mudarem, será somente um acréscimo e não um alicerce. Tudo se baseia no conformismo e na brusca mudança. Parece contradição, mas está cheio de verdade. Saberemos converter qualquer pedaço de lixo sentimental numa paz interior e reconfortante que se acumulará na proporção dos desgostos. É linear, é matemático. Por um lado, o conformismo é inevitável e forçado, mas por mais dispensável que possa parecer no momento, é ele que permite a aceitação do nosso ser, aos poucos e poucos. É ele que ergue as bandeiras da pátria, de dia para dia, e nos faz agarrar ao nosso valor enquanto seres humanos. Depois vem a mudança. Ela trás consigo uma experiência de adulto que nos faz ver bem além do horizonte. Para lá dessa nuvem cinzenta passamos a ver os nossos feitos passados e todos aqueles que temos capacidade de ainda concretizar. São essencialmente estes últimos que nos fazem voar. Agarramo-nos, agora, não apenas ao nosso valor emocional, ao subjetivo, mas à ambição que julgamos concreta no nosso projeto de vida. A ambição que nos levará a provar a tudo e todos que somos inteligentes, dignos, humildes e vitoriosos. Passamos a sonhar de forma ainda mais rebuscada e é então que percebemos que os sonhos de criança apenas estiveram em stand-by. Que, passada a tempestade, voltámos a proferir que aquilo que queremos é aquilo que irá acontecer mas, agora, com mais de um palmo e meio, com a veracidade da idade e com a certeza acentuada de que o mal que nos fazem se multiplica no bem que floresce em nós próprios. Sim, ainda fui a tempo. Fui a tempo de mudar o mundo. O meu mundo.