domingo, 28 de outubro de 2012

Voluntariado 18#

É um lar (talvez) como tantos outros. Alberga tantas e tantas personalidades. E quem diria que essas mesmas personalidades me completassem tanto? Desde a senhora sem um único cabelo branco, aos senhores adeptos de cartas. Desde a senhora com o colar do seu marido ao peito, à que tem saudades de costurar. Desde a vida dos campos que elas tanto recordam, às vidas dos filhos e netos de que tanto se orgulham. Desde a estima que umas têm pelos seus brincos de ouro, à saudade de cozinhar e de ter a casa cheia. Desde os apreciadores do sol a entrar pela janela, aos que gostam de cantar. Desde aqueles que não se cançam de repetir o seu nome, às unhas lindíssimas que muitas conservam. Desde os que nunca se esquecem de desejar felicidades, à fé que muitas possuem. Desde os conselhos sábios que guardam na ponta da língua, aos abraços sentidos.
E é por gostar tanto deles e lhes dar tanta dedicação que tenho medo que amanhã já não os encontre...

Domingos à tarde

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Subtilezas

Era de manhã e as pupilas tinham acabado de se retrair. Tal como ontem, o sol já ia alto. Muitos passos já se tinham dado nas ruas. Muitas decisões já se tinham tomado. O dia já não era uma criança. E pensava cá para mim: que grande lontra sou! Espreitei pela janela com os meus olhos paralelos ao rebordo da mesma, como quem tem medo da civilização.
Não sou alguém que tenha nascido na Grécia por entre templos, ideias ousadas e teorias promissoras. Não sou uma filósofa. Mas a lógica das coisas seduz-me e as dicotomias alimentam-me. E, apesar de limitada pela geometria desta janela, ponho-me a divagar por entre humildes pensamentos, até me perder nos labirintos da razão e do coração. Ou até que leve um abanão da consciência e desça à terra. Mas, por enquanto, debruço-me sobre este cenário deleitoso, onde me ponho a dissecar ações e pensamentos preliminares. Fico a imaginar o quão trabalhoso deve ter sido pintar aquelas riscas brancas da estrada, a observar em como o grupo de crianças ao fundo da rua se tornou numa ilha de júbilo por entre preconceitos humanos, a pensar se o empresário do ramo de flores o vai entregar a alguém que realmente ama. Pergunto-me porque as pessoas se desviam do sol, sendo provavelmente a coisa mais genuína das suas vidas. Porque somos uma espécie bípede, se isso só nos tornou mais imponentes e fanfarrões, alardeando valentias próprias. Porque não dizemos bom dia às pessoas, se sentimos os nossos pulsos a bater. E ponho-me a conspirar sobre os pensamentos atarefados das pessoas. O que irão fazer a seguir? Qual será o seu destino? Onde irão almoçar? Ou será que amanhã estarão noutro país? E lá continuo absorta aos meus afazeres, descortinando o singelo e repelindo formalidades.
Esta sou eu. Uma fiel sonhadora, inimiga de utopias e amante dos porquês.

domingo, 7 de outubro de 2012

Voluntariado 17#

Retomei as minhas idas ao lar. Que bom que foi! Encontrei pessoas bem melhores de saúde. Outras com novas histórias que contar. E outras sempre prontas a ensinar-me novos vocábulos. Que melhor presente pode haver que este? Tinha já saudades do seu carinho e da sua cara sorridente a desejar felicidades. Conheci três pessoas novas. E bem novas que parecem! Adorei-as.
Tive, ainda, o prazer de conhecer familiares seus de Lisboa. E lá me disse um senhor, ironicamente, a acenar com a cabeça que aqui, o campo, é um bocadinho diferente de lá, da cidade.

Frase do dia: "Ainda ontem à noite estava a pensar na menina. E digo-lhe isto de coração."