domingo, 27 de novembro de 2016

A Sorte Protege Os Audazes


Aquele que ergueu a mão voluntariamente sabendo que a morte o esperava em cada esquina. Aquele que passou noites nas florestas a fazer do orvalho a sua fiel companhia. Aquele que fez dos seus medos a força invencível de continuar. Aquele que nunca temeu o fracasso mesmo quando fracasso significava morte. Aquele que não duvidava dos seus reflexos e instintos. Aquele que contemplava o rebentar das granadas e fazia disso o ritmo dos seus passos. Aquele que planeava a melhor estratégia em torno da sobrevivência. Aquele que mesmo sem injeções sempre se afirmou como defensor da pátria. Aquele que deu o corpo e a alma em nome de um país, em prol de uma nação. Aquele que lutou com a força dos seus músculos ao sabor de céus revoltados e tempestades moribundas, ao sabor de mortes rápidas e silenciosas. Aquele que se ergueu ao sabor de sentimentos aniquilados, de corpos esfarrapados, ao sabor de munições restritas, de âncoras perdidas. Aquele que navegou ao sabor das feridas e se rendeu à inconstância da vida. Aquele que priorizou o batimento do seu coração em redor de campos de batalha desfeitos, que moveu mundos com a sua perspicácia, aquele que correu de oração ao peito, que domou medos e receios e arrasou toda e qualquer probabilidade de morrer. E tudo com a simplicidade de viver. Aquele que sempre, em todo o momento, entregou e pôs em risco o que de mais valioso existe: a vida. Aquele que é o meu corajoso pai! Um pai, que acima de um portador de genes e um ser de que qualquer filho se alegra de ter, é um anjo da guarda, um protetor na terra a que posso chamar de pai. Um ser vitorioso e que, depois do buraco negro que foi a guerra, foi capaz de construir uma família e de provar que um comando é um ser repleto de humildade, bondade e pureza. Um homem que viveu horrores mas que soube criar um antro de paz para os seus filhos. O homem que me deu gelado à boca, que me levava à escola e segurava na mochila, que sabia a quantidade certa de açúcar na chupeta, que me protegia nos seus braços e me segurava em sítios altos só para eu sorrir para a fotografia, que me dava aquela moeda especial para dar mais uma volta no carrossel. O mesmo homem que, hoje, me compra fritos para me animar enquanto estudo, que desassossega quando me quer mandar um beijinho por telefone, que me avisa quando o piso da estrada está molhado, que sempre que cozinha não se esquece daquela pitada de caril que eu adoro, que me dá as únicas moedas que tem e as coloca no meu bolso, que me deixa um recado escrito a desejar boa sorte para o exame, que me deixa uma caixinha com um bolo saboroso para o lanche, que não me repreende por estar acordada às horas que ele sai para trabalhar. O homem que sempre me soube mostrar o que é o amor pela vida. Com ele vieram as marcas de estelhaços de balas, veio o toque impaciente das granadas que explodiram naquelas terras africanas, com ele veio a garra que não deixa que uma lágrima se escape, veio a coragem que pulsa no sangue quando fala do seu passado, com ele veio o sorriso de quando coloca uma boina vermelha, veio a forma convicta de falar e de afirmar os seus ideais, com ele veio o prazer do momento sem nunca recear o futuro, veio a capacidade de reagir face a situações não planeadas. É irónico, ele é uma vítima de guerra mas que nunca, em momento algum, foi vítima do que quer que seja. Eu posso, hoje, orgulhar-me de saber que também sou uma vítima de guerra e de afirmar que, pela coragem e resiliência do meu pai, eu tive a oportunidade de existir. Que bastava um tiro numa direção errada, um reflexo incoerente ou um maior raio de explosão, para hoje não estar aqui. Sou uma vítima de guerra. Vítima de mortes sangrentas, de granadas e preconceitos, vítima de dormidas ao relento, de fugas sobressaltadas e de medos noturnos, vítima de estelhaços, de desfiladeiros e florestas medonhas, vítima de tiros, de olhos que não dormem e forças que não acabam. Vítima de gritos abafados, de corações amargurados e sonhos despedaçados. Vítima de pesadelos eternos e de corações inconstantes no batimento e no tempo. Vítima da guerra. E sabem que nome chamo a tudo isto? Orgulho! Orgulho de ter o sangue de um comando a preencher-me as veias, de contemplar alguns dos seus vícios e tiques de personalidade, de saber que sou um fruto da sobrevivência da guerra, a prova viva de que a "sorte protege os audazes".

domingo, 13 de novembro de 2016

Não voltes aonde foste infeliz

girl, flowers, and love image

É amargo o silêncio da noite e tão desesperante a falta de sentido que ele dá à vida. Somos tão insignificantes no meio de antros escuros e cerrados, nem a própria silhueta se define nem tão pouco a essência dos nossos princípios e das nossas batalhas. A espada cai. O livro de contos e mistérios fecha-se pela escuridão e os sonhos são diluídos pela solidão. Os contornos do corpo desvanecem-se e resumem-se a arestas sentidas por brisas nómadas e incómodas. O que resta de um corpo preso pela nostalgia enquanto todos os outros dormem? Resta um pássaro livre que se desprende a cada madrugada. Resta uma brisa leve à qual chamam de alma. Resta um refúgio de cicatrizes silenciosas. Resta uma calma desassossegada como se fossem restos de poeiras após uma guerra mundial. Resta o medo do futuro e a amargura de não conseguir amar. Resta a racionalidade e a certeza de não querer voltar aonde fui infeliz. Não te massacres ao pensares que merecias melhor do que o teu passado, não te arrependas por aquilo que abdicaste enquanto outros de ti abdicaram, não faças da insignificância dos outros o teto que trava os teus sonhos, não permitas que almas negativas te façam parar no tempo. Reinventa-te. Sim, reinventa-te e nunca voltes aonde foste infeliz. Os clichés diriam para te afastares de onde foste feliz, talvez porque relembrar dói, talvez porque haja a tendência eminente em se comparar a felicidade passada com a presente, e a verdade é que comparar felicidades nunca foi um ato feliz, talvez porque estar num local desses faça pulsar os batimentos de uma forma que nos reduz a pedaços de fraqueza, ou simplesmente por mero orgulho... Portanto, são os mesmos motivos que não nos levam a dar um passo em direção aos locais onde chorámos. Tudo o que nos afasta da felicidade é exatamente o que nos afasta da tristeza. Associar um local a um sentimento é, por si só, uma mágoa, é um fenómeno de restrição onde catalogamos as coisas em função de sentimentos e não em função de experiências pessoais e de auto-valorização. Voltar a ilhas de sorrisos ou de lágrimas torna-nos impotentes porque, por momentos, sentimo-nos exatamente a mesma pessoa que fomos quando pisámos aquele local, tornamo-nos marionetas de sentimentos passados, personagens de histórias que já não existem e somos reduzidos ao vento gelado que nos trás a realidade aos poros. Há poeiras que por mais que assentem, a sua incógnita e bruta maldade faz-nos imaginar que elas ainda estão dispersas no ar. É então que surge um arrependimento que outrora não tinha surgido. É verdade que cresci, é verdade que me transcendi, que me superei e me ergui! É verdade que transpareci luta e vitória, orgulho e concretização. Mas... Mas também é verdade que o frio desta madrugada rima com o meu coração, que elevar as expectativas em relação a alguém só me faz recuar mais, é verdade que existe a falta de um impulso firme e duradouro que dê uma explicação ao meu sorriso, que o medo de sofrer novamente se eleva a um patamar que destrói toda e qualquer forma de esperança. Gostava de dizer que não vou esperar pela próxima madrugada para ser feliz, que o irei ser aqui e agora, mas a rotina está a ser feita de madrugadas inquietas e confusas e, dia após dia, sinto-me a entrar numa madrugada mais longa onde espero um dia ver nascer não apenas o sol mas também novos recomeços.