domingo, 22 de maio de 2016

Bênção das Pastas ♥


Acordar cedo a um Domingo nunca me pareceu tão aliciante! A preguiça fica reduzida a nada quando sabemos que o dia que nos espera é o da Bênção das Pastas. A multidão instalou-se bem cedo pela zona da Sé Nova e todos esperavam ansiosamente pelo começo da celebração. Fotógrafos e barraquinhas era o que dominava todo o largo. Até que entrámos. De capa aos ombros, fitas dentro da pasta e cabeça erguida. Felizmente Farmácia tem o seu lugar na zona da frente, pelo que a panorâmica era boa. Sentadas no chão, por entre sapatos, capas e fitados de Direito, foi assim que começou a cerimónia. A fumaça espiritual de odor forte envolvia todos os estudantes de cada vez que era remexida a campânula que circulava pelo espaço, ouviam-se cânticos de perfeita sintonia que preenchiam as fileiras das batinas, as palavras fortalecedoras renovavam o espírito até dos mais distraídos e todos estavam ali feitos homens e mulheres depois de todo o percurso de caloiros e doutores, de angústias e medos, de indecisões e desilusões. Houve quem mexesse no cabelo para disfarçar as lágrimas, quem olhasse para o detalhado teto da Catedral para suster a sua emoção, houve quem lesse ali mesmo todas as suas fitas e sorrisse com o olhar para cada frase, quem tivesse os sapatos rasgados pela experiência mas um espírito jovem aos olhos da nossa mãe chamada Coimbra. Coragem, esperança, amor e sabedoria, era tudo aquilo que suportava aquele momento. Até que se pediu que cada Faculdade erguesse as suas pastas e foi aí o auge! Muita emoção num momento só! Mostrávamos a Deus a nossa bênção e com todas as nossas forças abanávamos cada fita cheios de orgulho, unidos pelo espírito arrebatador e nostálgico que Coimbra nos proporciona. Unidos, também, pelo silêncio e pela refleção e, acompanhados de uma lágrima, sabíamos que ali pertencíamos e que tínhamos sido inexplicavelmente felizes. Cada fita que me batia com força no cabelo era um novo acordar para a realidade. Ainda ontem entrara receosa após as colocações e, agora, abanava cada fita de cada obstáculo ultrapassado, com os meus pais orgulhosos lá fora à minha espera, juntamente com um sol radiante que rimava com a nossa força interior, e com trombetas e órgãos de fundo a anunciar esta Boa Nova, como se toda a caminhada pela licenciatura tivesse sido ao som desta sinfonia e as notas fossem, agora, tocadas mais alto! Como se estes três anos tivessem sido três dias em que se escolheu uma profissão, se conheceram mundos e mundos e se deu sentido a uma vida. Toda aquela tempestade de sentidos me fizera acreditar para sempre na felicidade eterna, em finais felizes e em recomeços divinos. Pensar no que virá e abarcar sempre e cada vez mais conhecimento é a missão daqui para a frente. Eternos insatisfeitos, é aquilo que todos somos, e o sonho em comum a todos nós era o de um dia fazermos o que amamos e o que nos deixa feliz e, ainda assim, chamar-lhe trabalho.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

DE Coimbra PARA Coimbra


8 de Setembro de 2013, foi quando fui “Colocada”
Ainda mal imaginava que por ti iria ser amada
“És a cidade que me viu nascer” e começar com desalento
Perdoa-me por antes não te amar e te associar ao céu cinzento
Era uma adolescente perdida e desligada do mundo
E, agora, toda eu sou feita do teu fado profundo
As lágrimas escorrem-me pela face quando penso em ti
Transformaste-me em fortaleza e, aqui, sei que cresci
“Os sonhos nascem aqui” e aqui são concretizados
É um capítulo da vida onde os estudantes são por ti amados
É um casulo de liberdade onde reina a juventude
Unidos pela batina e uma tradição que nunca desilude
“Deste-me tudo o que tinha para aprender”
E todos os dias deste sentido ao verbo “viver”
Escondes segredos em cada rua e em cada madrugada
Até o mocho do conhecimento escondes na lateral da Torre da Cabra
Tantas cartolas a passar por nós e caloiros a chegar,
És o berço de um futuro que ajudas a criar
És o símbolo do fado e fado simboliza destino
E não é por acaso que o teu canto será sempre o meu hino
Cristalino, genuíno, repleto de verdade e de histórias sem tino
“Mostras-te o que havia para viver”, mais um verso que não mente
Ensinaste-me a lutar e a encarar os problemas de frente
Grito dentro de mim para que não me leves daqui
Trajar dá-me a certeza de que foste um sonho que cumpri
Iluminaste o meu horizonte e sempre me reservaste o melhor
Ensinaste-me a valorizar cada pedaço de lágrima e suor
Guardo um mar de memórias, não sei se é por não beber
Ou se por ter tido a sorte de grandes histórias viver
Sinto-me como Álvaro de Campos, quero estar em todo o lugar
Abarcar todas as tuas ruas e ver todos os dias o teu luar
Quero contar o quanto fui feliz aqui e o quanto significa cada fita
Acolheste com amor cada um que em ti habita
Aquele mar de gente de estudantes com paixão
Que a todos os domingos lá iam na tua direção
Com uma lágrima contida e um coração apertado
Irei relembrar-te pelos teus ensinamentos em formato de fado
E mesmo quando o traje já não me servir
Vou lembrar-me dos belos anos em que aprendi a sorrir
Que um dia os meus filhos te tenham como um desejo fulcral
E te peçam para conhecer na sua carta ao Pai Natal
Que percorram as tuas ruas antigas mas brilhantes
E que um dia te possam chamar rainha dos estudantes
“Deixo agora, nesta hora, promessas de voltar”
Posso dar voltas ao mundo mas serás sempre o meu lar
Ensinaste-me a amar aos poucos a minha chegada
E na hora da despedida irei sentir as mãos cheias de nada
Ensina-me também a abandonar-te sem dor
Se poderei ficar mais um dia até o sol se pôr
Lembra-te que onde as memórias perduram, o espírito sempre acorda
E onde a saudade se implanta, o amor transborda

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Última serenata do curso


Tantos bicos de cegonha que trouxeram estudantes a esta cidade e por ela foram acolhidos com o maior carinho, como se se tratasse de uma mãe comum a todos, de uma rainha que nos acolhe e transforma as mágoas em emoção! A chuva fria batia-me na cara com alegria, como se cada pinga representasse um objetivo cumprido e como se O próprio Deus chorasse pelo meu curso estar a terminar, como se todos chorássemos em harmonia por algo que move centenas de pessoas, motivos e sentimentos. Foi uma serenata chuvosa mas memorável. Tinha comigo as minhas afilhadas, lado a lado, e a minha grande amiga de curso. Afinal, que mais poderia pedir? É um momento em que sentimos que todos estão a torcer por nós, que a vida nos deu uma oportunidade para estar ali e que a nossa luta reforçou todo o caminho que ceifámos. Passa-nos um compacto de momentos na cabeça, momentos com que idealizamos e que sabemos que, efetivamente, vivemos e que estivémos sempre lá nesses sonhos cumpridos. É isso que Coimbra faz, realiza sonhos. Ainda ontem estava a entrar receosa na faculdade, rodeada de doutores e de obstáculos por cumprir, conhecedora apenas do desconhecido e sem saber do orgulho que era trajar e da vitória que era ver o sorriso dos nossos pais nos dias de cortejo e o seu abraço em todas as sextas feiras. E agora ali estava eu, na última serenata do curso, a presenciar o ponto alto da emoção. Ainda vão haver quatro serenatas pela frente, no mestrado, mas a verdade é que a licenciatura vai terminar e só isso já faz rebentar pequenas ondas de saudade, pequenos arrepios do medo de partir. Aquilo que se sente é um misto de tudo aquilo que traduz a vida universitária e que só saberá quem passou por tal. Senti medo e tristeza, senti alegria e compaixão, senti virtude e orgulho, senti Coimbra no meu peito! É tão forte aquilo que une todos os estudantes, cada vulto negro naquela serenata conta uma história, representa uma família de praxe, uma luta interior, representa um objetivo, uma história de amor, um segredo de um grupo de amigos, um hábito que Coimbra lhes trouxe ou representam simplesmente a tradição que se implantou nas suas vidas. E, acima de tudo, cada um de nós, representa um antro de saudade. É isso. Todos retratamos o amor que Coimbra nos deu, e que assim seja por muitos e longos anos para que este espírito vá de geração em geração e esta folia misturada com paixão se dissemine por todas as ruas da cidade e do nosso coração, para sempre. As fitas vão ser escritas em formato de saudade e serão queimadas já com alguma nostalgia. A verdade é que até agora eu queria ver o tempo passar, com aquela sensação de ter o poder de controlar o tempo e poder brincar com os ponteiros do relógio e as folhas do calendário, mas tudo se inverteu e a ânsia de continuar abraçada neste espírito é maior do que tudo! Quero aproveitar cada segundo como se fosse o último por ter a certeza de que no último minuto tudo o que fizer vai rimar com choros de agonia. Transformamo-nos em algo melhor e saímos daqui convertidos em pedaços de fortaleza. Coimbra, conheceste-me como alguém que trazia na cara o medo do começo e a indecisão de continuar, e agora vês na minha cara o medo da partida e o amor de trajar. As lágrimas eram de fragilidade e, as que hoje trago, são de orgulho. Eterno orgulho.