terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Aniversário do blog!


Tudo começou à uns belos 5 anos. Estreou-se como algo óbvio e objetivo, algo com pouca personalidade. Mas a mentalidades foi-se renovando e cresci alguns palmos em tamanho. Fui apostando na subjetividade e no caráter filosófico. Quis criar o meu mundo e um conteúdo a que as pessoas tivessem acesso apenas aqui, neste blog, neste cantinho personalizado. A ideia inicial era bem distinta. Apenas queria escavar uma mina de conforto e paz, queria absorver-me apenas dos meus pensamentos e desabafos, no fundo, queria ser a minha própria psicóloga. Penso que, no presente, o conceito vai bem mais além disso. Adotei uma postura diferente e persegui um rumo mais corajoso. Enquanto antes me limitava a esclarecer factos, agora exponho uma atitude crítica, faço de mim uma personagem dotada de sentimentos, de angústias, de vitórias, de medos, de traços efémeros de qualquer ser humano. O blog tornou-me mais humana, sem dúvida. A escrita levou-me à compreensão de mim própria e tem-me levado à aprendizagem contínua da vida. Sei que ao fim de um dia mau posso contar com as minhas teclas e com o pedaço de fundo branco que me dão para escrever, posso fazer de um dia de chuva um arco-íris, posso descortinar o porquê de uma lágrima ou a razão de uma discussão, posso desvendar o mistério de um beijo ou arranjar explicação para um sorriso exagerado. No fundo, ao fim de cada dia, sei que posso contar comigo própria. E sabem porquê? Porque entre mim e os meus devaneios não existe nada. Entre nós e a nossa verdadeira escrita não existe política, não existe injustiça, nem crenças, nem crueldade. Apenas existimos nós, os nossos dedos e a nossa mente. Todos os dias me foco na exclusividade literária e acho que é uma das coisas por que vale a pena viver.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Resumos natalícios


Mais uma consoada que passou e mais um nascimento do Menino festejado! Sim, vamos crer que ele nasceu realmente por esta altura, mesmo que os documentários da Discovery o refutem. Fechemos os olhos, vivamos o espírito e desfrutemos de momentos em família. Foi isso que aconteceu e foi, talvez, dos melhores natais de sempre! Não apenas pelas prendas, que foram estranhamente muitas, mas pela união de todos e pela vontade de sorrirmos genuinamente. Por entre piadas, histórias e jogos de cartas o Natal passou a correr e já deixa alguma saudade! O dia da consoada significa imenso para nós. Não é apenas o dia em que nos trancamos na cozinha a fazer bolos, não é apenas o banquete cheio que nos enche os olhos nem é apenas a árvore de natal nova a reluzir no canto da sala que nos faz viver o espírito mais intensamente. A verdade é que qualquer pormenor tem o seu destaque, mas a companhia é realmente especial todos os anos. O dia começa sempre com um levantar aflito da cama. Ingredientes comprados, aventais postos e toca a trabalhar! Num instante saíram da cozinha quase dez sobremesas, até que os preparativos para a mesa de jantar começaram. O que restou foram pequenas ilhas de farinha e açúcar espalhadas pela cozinha que foram o resultado de desastres típicos. A mesa é fulcral. Desde os guardanapos encarnados ao azeite caseiro, desde as entradas à masterchef às pinhas rodeadas de cetim vermelho, tudo conjugava na perfeição e rimava com as nossas maçãs rosadas! Pusemo-nos todos bonitos e caprichamos na ementa. Sabemos que depois do trabalho culinário todos nos encontramos com alegria na noite de consoada. É um encontro garantidamente mágico. As fotos reinaram, bem como o vídeo ao abrir as prendas. Foi a conjugação perfeita para uma consoada perfeita. A missa do galo seguiu-se e o fim da noite foi marcado pelo cansaço. Dormimos. Acordamos. E foi com os raios de sol que fizemos a mesa para o almoço de natal. Sim, era, finalmente, Natal! Lá pusemos os gorros de pai natal e fomos levados pelos filmes natalícios e pelo espírito competitivo do novo jogo de cartas que aprendi. Foi divino! Que hajam muitos natais assim.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ceia


Quando penso em Natal imagino automaticamente a pele rosada da minha mãe na ceia de Natal a condizer com o gorro vermelho que a obrigo a usar nessa noite, todos os anos. Atarefada com o banquete, de barriga já bastante cheia e mais uma refém do agradável calor da lareira. Mas o Natal vai bem mais além das maçãs encarnadas da minha mãe. Estar em família, numa completa harmonia é algo que só o Natal pode oferecer. O espírito é contagiante, especialmente quando se vê a árvore rodeada de prendas, por isso agradeçamos todos aos senhores Reis Magos. Sim, o ambiente é importante, mas a euforia de rasgar embrulhos é a mesma desde à muitos anos! A sala onde ceamos tem imensos pontos de destaque vermelhos e símbolos que respiram Natal. A alegria marca sempre esta altura do ano. Talvez o aconchego familiar apimente as piadas, talvez a luzes cintilantes da árvore façam os nossos olhos brilhar ou talvez a mesa recheada nos crie sorrisos, não sei, mas a verdade é que há sempre o que dizer, sempre que opinar e discutir. E quando há opiniões divergentes lá vem o meu pai oferecer o vinho maduro da garrafa que esperava pela sua abertura à anos. E com ideias destas ficamos todos ainda mais rosados. Às vezes, por entre silêncios e esperas pelo próximo prato, penso no frio que terão os mendigos, no pedaço de papelão que nunca irá substituir uma lareira, no simples pão que marca o seu jantar e no rosto gelado e desfalecido que terão todos aqueles que se iluminam debaixo de um candeeiro de rua. É triste. É egoísta da nossa parte. Mas mudar isso implicaria mudar o mundo, mudar as mentalidades. E como se muda o mundo se nenhum de nós se chama Deus?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Amnésia


Esqueci-me de quem era e todos à minha volta pareciam confusos. O mundo deixou de ser concreto, ninguém se lembrava do avanço da tecnologia, do abalo das torres gémeas, do último livro a ser publicado ou da última notícia do telejornal. Ninguém se lembrava das crenças do seu país, do que comiam ao pequeno almoço, da frustração com que acordavam todos os dias, ninguém se lembrava do seu nome nem do que os definia. Senti uma estranha ligação às pessoas, às que outrora eram desconhecidas. Pairava tanta loucura, tanta estranheza, mas ao mesmo tempo tanta ternura, tanta magia. Garanto-vos que o mundo não era uma incerteza nem tinha pegadas de decadência. Era, sim, um mundo culto, onde podíamos confiar em qualquer ser com sangue nas veias. Consegues imaginar um mundo sem maldade onde te aproximas de alguém pelo facto de sermos todos humanos? Consegues imaginar uma igualdade de etnias, de valores, de estratos sociais, sem qualquer pirâmide a derrubar a justiça? Consegues imaginar a felicidade que é acordares e nunca mais te lembrares daquele dia triste que te queimou por dentro? Consegues imaginar o que é não saberes o conceito de fome, de lágrima, de dor, de pena, de orgulho? Consegues imaginar o que é acordar todos os dias e descobrir tudo novamente, com um sorriso singelo no rosto, sem protestar ou exigir um lugar reservado em frente ao computador? Eu sei que não consegues. Ninguém consegue. Queremos ser conhecedores de um mundo e de outro, somos ambiciosos, crescemos em mente a olhos vistos, sofremos pressões alheias que nos fazem querer ser superiores aos outros, enquanto que se vivêssemos na amnésia nunca saberíamos sequer verdadeiramente o nome de alguém. Saberíamos mas esqueceríamos mal olhássemos para uma rosa, que aos nossos olhos seria uma flor belíssima e rara de todas as vezes que olhássemos para ela. Todos sabemos que andamos de mãos dadas com a presunção, com a antecipação do verdadeiro viver, andamos numa corrida desenfreada pelo desassossego. Eu própria escrevo por egoísmo, porque me quero sentir melhor ou ouvir algum elogio, e tu, que estás a ler, lês por preguiça, porque não há nada mais cómodo do que ler. Todos escrevemos e lemos só para atingir pontos de intelectualidade. Diz lá que não é verdade? Vivemos na real ilusão, na consciente solidão, na perspectiva de que todos somos mais importantes do que aquela rosa que vemos no nosso jardim, mas não somos. No entanto, suplicar pela amnésia seria afirmar que o mundo acabasse, e pior do que o mundo acabar, era um dia acordares e não me conheceres.

sábado, 6 de dezembro de 2014

NATAL!



Lights everywhere 😁✨Estamos já a poucos dias do natal e o espírito envolve toda a casa com harmonia. As compras estão quase concluídas e mal posso esperar para saber se acertei nas minhas escolhas. Mas até lá, os embrulhos terão de se manter debaixo da árvore e a curiosidade será uma constante. Posso dizer que este ano paira realmente o ambiente natalício no ar, o que não aconteceu no ano passado. A vontade de decorar a árvore foi grande e a antecipação para todos os preparativos da ceia de Natal está a deixar-me ansiosa! Seja pelo cetim vermelho, seja pelas bolas de tecido da árvore, seja pelas luzes, pela velas, pelo presépio, o natal devolve sorrisos! Este ano fiz pressão para que a árvore fosse branca e os meus pais foram uns fofos e foram comprar uma de uma altura considerável, coisa que nunca tinha havido nesta casa. Ter uma árvore branca mais alta do que eu, transporta-me para as montanhas de neve por onde passa o trenó do Pai Natal. Sim, ele para mim sempre vai existir! Afinal, todos temos um lugar reservado para a criança que há em nós e já diz a frase que uma fruta madura demais apodrece. Por isso, esmerem-se na decoração e verão que o Natal se vai tornar mais convidativo e os momentos em família mais sorridentes. Bons preparativos!

Caloirices


Bem, aqui estou eu para falar da minha experiência sobre a nobre sensação de ter uma caloira! Sim, nobre! E não a trataria por caloira, nem afilhada, nem por sinónimos que façam subjugar a superioridade ao facto de eu já não o ser. Eu também olhei para o alcatrão da estrada, também suspirei para que as praxes acabassem, também olhei para o céu à procura de um raio de luz que me trouxesse paz, também senti nos joelhos o que era o "respeito" pelos doutores, o que era o declinar da cabeça para que passássemos despercebidos, também sei o que é esperar que nos venham dizer um simples "olá" pela manhã, para que nos transmitissem a segurança que só o lar, outrora, nos oferecia. É, por isso, que em nada me sinto superior a ela! Ela deu-me vida, deu-me um sorriso novo, deu-me as certezas que eu precisava para continuar a lutar. E tudo começou com um relógio em comum. Ela entende-me! Sorrimos e ela aproximou-se. A coragem foi o ponto forte até que o pedido foi tão instantâneo como a minha admiração. Julgava-a de excelente coração e de uma simpatia rara e acertei em cheio! À medida que as conversas se alongavam fui-me apercebendo cada vez mais da sorte que tinha tido. Ela sempre me compreendeu, sempre conversamos sobre todos os assuntos, desde a meteorologia aos assuntos amorosos, acolheu-me, aconselhou-me e respeitou-me com uma transparência como nunca ninguém o tinha feito. Sei que com ela posso contar, definitivamente! E ela comigo, só para que conste. Sabem o que sinto? ORGULHO. Orgulho por me ter escolhido e pelo futuro brilhante que sei que ela tem pela frente! Desejo-te a melhor vida que alguém poderia ter, porque eu cá estarei para te mimar e para te ouvir.
Um grande abraço I*

sábado, 29 de novembro de 2014

Escalar à sombra


⭐️

Escalamos tantas montanhas na vida, lutamos tanto para pisar o topo, para ver o horizonte com que sempre sonhámos, esfolamo-nos como se, por momentos, despíssemos a racionalidade que há nas leis da vida, tudo para nos depararmos com o pôr do sol da nossa ignorância. E aí, vamos traçar o cubo de gelo em que sempre vivemos. Mas vai ser tarde demais. As rugas já vão estar a ganhar espaço na nossa vida. E quando pressentirmos ter espasmos que nos trazem a realidade de volta é quando nos irão faltar as forças, o sorriso rasgado e os olhos límpidos, porque fomos cegos uma vida inteira. Cegos à nascença e agarrados a uma bengala na morte. Todas as crenças que seguimos enquanto agarrávamos os pedaços de terra do lado obscuro da montanha, onde nunca vimos o sol a brilhar, fizeram-nos encaixar aos poucos a nossa confiança, mas para quê, se quando nos apercebermos totalmente disso ela se desmorona como a terra que cobrirá o nosso caixão? Construímos, durante a vida, um castelo de frustrações que, no fundo, é a nossa aprendizagem, a nossa verdadeira essência, para depois deixarmos pegadas naquela terra coberta por ventos áridos e o castelo se destruir. Vivemos de asas imaginárias e quando percebemos que cada pena é uma ilusão, as asas são cortadas. A lucidez corta as asas fictícias e a morte corta as asas que queremos possuir, as reais e palpáveis. Terá de existir a meta, porque o corpo deixará de existir. E o pior é que mesmo no pico da montanha, mesmo depois do sol nos ter desvendado que vivemos na ignorância, que no fundo só respirámos tanto tempo para nos apercebermos daquilo que perdemos, é quando ainda questionamos o que é a verdadeira realidade. Será sermos ignorantes sorridentes ou sofredores racionais? São precisos ecos traumáticos, lágrimas por arrastamento, conformismos sucessivos, para que se abra uma porta para o respeito, para o orgulho. São precisas vidas inteiras para uma mente se preparar para o nascer da vida certa, no momento certo, com o coração certo. Uma vida é apenas o aquecimento para o fortalecimento da nossa alma. São estritamente necessários anos e anos de sobrevivência para um dia realmente vivermos. São necessárias colinas infinitas até que deixemos de viver no mistério, a terra se abata, o sol brilhe, as montanhas dêem lugar a planícies sustentadas pelo respeito por nós próprios e nunca cheguemos ao pôr do sol da nossa ignorância, por nunca o termos sido. É urgente vivermos em comunhão com as nossas faculdades, com a frieza das despedidas, com a injustiça da distância mas, no fundo, nunca estaremos preparados. A nossa pele não é forte ao ponto de recalcar o amor. E o coração muito menos. É por isso que vivermos na escuridão é o percurso natural das coisas. Existem, pois, motivos que transcendem a nossa existência na terra. Podem ser pouco inteligentes, mas talvez valham a pena... Será, suficiente, a vida que levamos?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Um espírito novo


A mesma cidade e o mesmo céu, no entanto, um espírito totalmente diferente! O primeiro ano foi o choque que foi, mas em toda a desgraça existe uma aprendizagem. Tentei entrar para Psicologia, fiquei devastada por não o conseguir, precisei de ombros para chorar durante semanas, mas o destino forçou-me a perseguir Farmácia. E agora que penso, sinto-me bem, sinto-me acolhida e pronta a acolher os outros, e não, não foi conformismo da minha parte, foi evolução e amadurecimento. Em toda a parte do mundo existem coisas boas e más, coisas que faremos com gosto e outras que faremos por frete, mas afinal todos gostamos de adormecer a ver um bom filme mas detestamos acordar ao som do despertador. A vida é assim mesmo, quando acordamos no início da luta tudo parece ser impossível e com demasiados obstáculos para uma pessoa só, no fundo a realidade torna-se sombria, mas quando domamos o sossego antes de dormir, atingimos a estabilidade que foi fruto do nosso dia, da vida pela qual lutámos, agarramos o equilíbrio de ter uma família e uma profissão e, finalmente, aprendemos a dar valor aos sacrifícios que outrora fizemos. Tudo para estarmos naquele momento a ver o nosso filme favorito no conforto da nossa meta alcançada. É por tudo isto que, no cenário universitário, à que saber levar a motivação das cadeiras que gostamos para as que gostamos menos. Não haverá orgulho maior em ter bons resultados até no que não gostamos e que antes repelíamos? De que serve ficar a dormir e a ver o nosso futuro a correr-nos pelas mãos? Como queremos que a esperança seja a última a morrer se matamos os nossos objetivos todos os dias? Porque não lutar se isso apenas depender de algum esforço da nossa parte? Porque não afirmar a nossa luta em cada salto que dermos da cama todas as manhãs? Podemos envolvermo-nos em futuros alheios, podemos cruzar sonhos e perspetivas de vida, delinear projetos e tomar decisões, mas o nosso futuro, esse é só nosso, somos apenas nós que o temos de agarrar, porque não há ninguém que o faça por nós. 
A verdade é que tudo começou com a mudança de casa, esse foi o grande passo no começo do ano! Fi-lo pela partilha de quarto, pela pouca privacidade, pelo próprio ambiente, pela senhoria, por todas as razões e mais algumas. Quando chegava a casa tinha uma amiga fantástica com quem desabafar à minha espera, tinha sempre os seus conselhos mesmo após dias difíceis, tinha aquele pedaço de lar e que me transmitia segurança todos os dias. Mas estudar torna-se complicado para quem decora a falar alto e os fones nunca minimizaram esses problemas! Quando chegava a casa mais tarde tinha de andar em pézinhos de lã e com o máximo de cuidado. Acabava por nunca sair para me divertir e ficava a remoer as saudades, tal como já descrevi aqui no blog. Dias e dias assim levaram-me a um estado quase depressivo! Agora não! Somos 8 raparigas e apesar de haver dias que não me apetece comer com outras pessoas à mesa e não quero simplesmente socializar, acabo sempre por o fazer e por fazer bem a mim mesma, porque qualquer conversa termina em sorrisos! Apesar de muitas, a casa é sossegada e todos respeitam o espaço dos outros. Adoro a mansão e, acima de tudo, as amigas que já lá fiz. São pessoas que me compreendem e que também desabafam comigo as suas histórias. Tem sido uma aventura. Estudar tornou-se num hábito diário e mesmo quando não tenho avaliações trato de adiantar trabalho. A motivação cresceu e estudar tornou-se uma terapia. Estudo não só para esquecer problemas, mas porque o ano passado deu-me forças para lutar. Talvez estivesse a precisar de um ano de repouso, já que o secundário foi muito intenso! Mas, de facto, antes os problemas serviam para eu adotar uma atitude derrotista e usava-os como uma capa de solidão, agora posso orgulhar-me que tenho o espírito certo e que uma simples tarde de estudo consegue fazer-me esquecer das coisas menos boas. 
Dito isto, as viagens para Coimbra deixaram de ser dramáticas, são apenas tristes, mas são mais uma experiência de vida e são mais um caminho que temos de percorrer para concluir o maior caminho de todos, a Licenciatura. Às vezes é bom distanciarmo-nos um pouco dos pais e crescermos sozinhos, deixarmos os contos de fadas e criarmos os contos do futuro, porque sabermos lutar sozinhos por alguma coisa na vida é uma dádiva que só o desprendimento do nosso lar nos possibilita. Agora sabe bem ir a caminho da faculdade, em plena cidade, todas as manhãs, com o espírito certo e um sorriso com as devidas proporções. É positivo saber que mesmo que alguma coisa não corra como o previsto, sabemos que demos tudo, que planeamos e agimos para que as coisas corressem bem.
Lembrem-se que cada um de nós tem todos os poderes reunidos em si mesmo para enfrentar a vida e, por isso mesmo, não desistam, porque um ano mau pode ser o trampolim para mil anos de sucesso. Qualquer um pode ser a prova disso, tu és a prova disso!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Armas de silêncio


Existem armas feitas de silêncio. Existem balas revestidas de eco e que doem mais do que granadas. Existem farrapos ao vento, reféns das tempestades, que fui deixando para trás. Resquícios encarnados dos lábios que secaram, pedaços de confiança que sofreram mutações, cabelos ao vento arrancados pela frustração, sorrisos levados pelos trovões. Existe o brilho dos olhos escravizado pelo tempo, a cicatriz em chamas que o destino rasgou, a olheira desenhada que o presente delineou e o sofrimento que o mundo legitimou. Há pedaços de mim a desaparecer aos poucos, a entrar no cruel buraco negro do desgosto. Sabes o que é sentir que acordar todos os dias é dispendioso? Sim. Gastar energia em levantar-nos só para sofrer mais um dia e não fazer ninguém feliz. Não é o desgaste dos sonhos que nos faz acordar cansados, é a indiferença com que acordamos, a apatia perante a vida, a desilusão face aos naufrágios. É como se tivessemos aberto os olhos para que o mundo nos visse, para não termos falta de presença tal como na escola, para correspondermos às estatísticas dos nados-vivos. É triste, eu sei. São dias e dias levados pelo dilúvio, sem qualquer bom estímulo para recordar. Mas depois existe a tua voz todas as noites naquela gravação, as fotos que fazem parar o tempo e as memórias que a toda a hora brotam no meu coração. Depois existes tu e a nascente do sonho. Existe o conceito de felicidade outrora aprendido, o livro aberto da fantasia, o teu sorriso congelado na névoa de qualquer aparição. Existe o caminho tentador, os ombros macios, o abraço devorador, a estátua da virtude, existe o segredo do mistério, a chave do encanto. E, finalmente, existo eu, o espaço entre a esperança e a derrota. E isto tudo para não ter de dizer a palavra "saudade", porque existem armas feitas de silêncio.

domingo, 5 de outubro de 2014

Sala vazia



Ali estava eu, pela primeira vez. Um lugar inóspito, coberto de ecos angustiantes, de catos do deserto imaginários e psicologicamente mortíferos, revestido de pesadelos e benzido a lágrimas... Custa suportar as fronteiras e sentir o peso de quatro ombros em cima dos nossos. O ser humano não foi feito para isto. Sou um vaso feito em cacos, a ser varrido por dentro, e que outrora foi belo e vistoso. Faltam-me as flores, faltas-me tu. Falta-me o carinho que nunca era demais, o abraço que sempre fora a energia vinda de ti e que estava alojada em mim. Sentia-me sozinha e como se todas as correntes elétricas deixassem de ter energia, não para as lâmpadas, mas para o meu coração, para os meus músculos, para a minha alma! Só via à minha frente o vazio quase venenoso e sentia o sufoco do silêncio a lamber-me os poros. Podia afirmar e dizer "sim, fui derrotada", mas preferi lutar e gritar "sim, o amor vale sempre a pena"! E foi por isso que me envolveu toda aquela frieza, porque a coragem de um humano é o alimento dos fantasmas. Podia ter congelado a marca dos teus lábios na caneca em que bebias o leite todas as manhãs, podia ter gravado a tua voz a dizer que me amavas, podia ter roubado tinta só para tu pintares o meu diário com a tua impressão digital, podia ter raptado poetas, músicos e artistas para criarem a sinfonia perfeita, o teatro perfeito, a tela perfeita, o poema que te fizesse acreditar que eu estou aqui para ti, só para ti, e em toda a vida inteira, porque o teu desassossego é o meu sossego em consolar-te, a tua tristeza é a minha alegria em erguer-te a cabeça, as tuas frustrações são as minhas ambições em tornar cada tarde de chuva da tua vida numa rosa vermelha alimentada que te caia nas mãos. E ali estava eu a filosofar e a imaginar os homens a construir aquele lugar, a largar suor em cada tijolo que pegavam, a suspirar pela vida e pelos ponteiros do relógio, a trabalhar afincadamente para que um sítio, apesar de vazio, ficasse sustentado e protegido. E tudo só para o meu sofrimento, tudo só para chegar o momento de chegar à frente daquela porta, outrora desconhecida e invisível, e ela se abrir como uma pena e como se o vento estivesse a favor daquele sentimento injusto! Aquela sala eras tu e o vazio que deixas-te, o ar sedento de ti, o compartimento do meu coração que foi dolorosamente desvendado e que agora se tornou a minha casa, o meu abrigo e aquilo que me liga a ti. E aqueles trabalhadores famintos nunca saberão o porquê de construírem aquelas paredes.

Carta de Condução ✔


Sim, estou radiante! Estou orgulhosa! Foi um percurso longo e doloroso, porque pegar num carro sempre foi uma aventura que me exigia ultrapassar os limites do comodismo, do sossego, do "estar em casa" e de tudo me vir parar à porta, sem ter de manobrar três pedais ao mesmo tempo. Digo que foi doloroso porque chumbei a primeira vez na condução. Foi desolador e deitou-me muito a baixo. Vinha confiante do código, mas vinha também ciente de que são coisas distintas! Muitos distintas! A verdade é que mesmo com um chá de folhas de laranjeira e três calmantes, os nervos apoderaram-se do meu coração e das minhas mãos. Mas passo a contar. Os primeiros treinos foram levados na desportiva, mas logo de manhã apercebi-me que tinha de abrir os olhos e que aquelas ruelas, aquelas passadeiras, toda aquela azáfama em torno da sinalização não era mais do que a minha obrigação, mas o choque foi grande e o primeiro contacto com a estrada foi desastroso! Mais tarde, o almoço fez-nos descontrair por entre piadas e histórias cómicas, e a parte da tarde foi bem mais positiva, até porque trouxe o carro à vinda e após sucessivas conduções já me sentia completamente relaxada e até confiante. Os treinos valeram-me de muito, sinto que evoluí o dobro num dia inteiro do que nas 30 aulas que tive até lá, o que também se deveu à calma da instrutora que me acompanhou. Até que, num ápice, chegou o dia seguinte. No dia do primeiro exame lá estavam os nervos a atacarem-me como pulgas! Na sala de espera só queria que saísse da porta alguém de sorriso rasgado, que chamasse pelo meu nome e me transmitisse segurança. Não foi isso que aconteceu. Era demasiado sério, apesar de simpático e benevolente. Entrei no carro e pensei no amor da minha vida, nos nossos futuros passeios, no orgulho que poderia dar aos meus pais ao fim daquela manhã e no alívio que teria para sempre! Arranquei, fiz-me de forte e mostrei-me aparentemente calma. Atendia a tudo o que ele dizia, na condução urbana preferi andar super devagar, ser prudente, ter cuidado com o STOP e com os trânsitos proíbidos e com os sentidos únicos, esses pequenos e grandes pormenores ao mesmo tempo. As coisas não estavam a correr como o previsto, porque sou super pessimista e estava conduzir realmente bem, fiz as primeiras manobras de forma correta e sempre que emendava um erro era ágil e terminava da melhor forma. Até que um estacionamento me estragou tudo... era o chamado estacionamento em "espinha", do qual não tinha praticado quase nada nas trinta aulas, enfim. A obrigação de os relembrar não era minha e a minha atenção era sempre enorme para captar todas informações da estrada, por isso não me ocorria perguntar para praticar exclusivamente essa manobra. Foi, portanto, de esperar que não corresse bem e que nem sequer soubesse como começar a manobra e em que altura rodar o volante, por isso quase fui contra o carro da frente e o examinador nem me deu outra oportunidade. Assim sendo, até acabar o exame da outra rapariga fui super desanimada, ainda com um resto de esperança porque queria ouvir a confirmação, mas um pouco crente de que ele compreendia a minha situação. No fim do percurso ficou confirmado o meu maior medo. Ele disse que numa próxima vez iria fazer aquilo a brincar, que já conduzia bem e dominava o carro, que aprendia depressa e era inteligente, mas que não podia desculpar aquele estacionamento. Foi a porra de 5 metros quadrados, nem isso, que me roubou 250€! Vim a chorar a viagem toda, porque era algo realmente importante para mim e só pensava que nunca iria conseguir ser independente e conduzir o meu próprio carro, que nem valia a pena lutar e gastar mais dinheiro e pior, como é que se dá uma notícia destas a alguém? Os meus pais não trabalham para pagar os meus chumbos. Mas logo a minha mãe me levantou a cabeça e me fez lembrar que ela própria também chumbou. Fui arrastada à escola de condução ainda nesse dia e como por milagre havia uma vaga para daí a duas semanas ter novamente exame, ao qual a minha mãe concordou e me disse que já tinha um dinheirinho de parte caso isto acontecesse. Foi aliviante saber que tinha mais uma oportunidade antes de começarem as aulas a sério na Faculdade! Não pensei duas vezes, faltei os dois primeiros dias, tratei de arranjar justificação e lá fui para um dia de treinos e mais um dia de exame. Sim, um frete! Mas desta vez levava um espírito diferente, apesar de pensar sempre na possibilidade de chumbar e de andar a pé para o resto da vida. Agarrei-em com unhas e dentes a esta oportunidade e não a deixei escapar! Voltei a tremer, é óbvio, afinal sou humana e já diz a frase que tremer é o começo de todas as coragens. Assim chegou o dia do segundo exame. O senhor era super calmo e com ar de simpático e mandou-me logo ir abrir o capom. Disse tudo bem, a teoria corre sempre bem, exceto quando não pensei no que disse e afirmei que havia uma parte onde se colocava o óleo dos vidros. Sim, óleo nos vidros. Imaginar o vidro com gordura tornou-se engraçado. Quando entrei ele disse para estar sempre super atenta aos sinais e respeitar todas as regras rodoviárias. Assim foi. Fui prudente, às vezes ele até me pedia para acelerar, tentei ganhar confiança, ainda que forçadamente, e meti na cabeça que não podia ter mais um carimbo naquela licença! O senhor pôs-me super à vontade porque ia sempre a falar do noticiário com o meu instrutor, parecia que eu nem estava ali a ser avaliada, o que foi ótimo. Mas sempre que falava para mim e, especialmente, quando me chamava à atenção quase que berrava e me fazia pedir mil desculpas. Sim, ele era bipolar, só pode. A inversão de marcha podia ter sido mais rápida e numa situação de trânsito proibido podia ter virado com mais antecedência, mas foram pequenas falhas e só olhava para o relógio para que o tempo passasse e o percurso fosse em estradas mais amplas, até que chegou o maldito estacionamento em espinha, mas agora muito mais isolado, sem carros à volta e com mais ângulo de manobra, por isso correu bem!! Quando passei para o banco de trás ia mais que feliz, mais uma vez só precisava da confirmação saída da boca dele, mas desta vez ia com um sorriso na cara e com a grande vontade de espalhar a notícia! Por isso, não desistam, porque no fim a felicidade apaga completamente as noites de frustração. Superem-se a vocês próprios e acima de tudo sejam educados, fiéis a vocês e mantenham-se calmos. A receita é um banho na noite anterior, o tal chá e, para pessoas mais nervosas, um calmante qualquer. Isso "bastou-me" para não atingir a loucura, por isso aprovo. Boas conduções!

sábado, 20 de setembro de 2014

Fronteiras

Ali estávamos nós outra vez a enfrentar as despedidas
Éramos os restos de um naufrágio e de duas vidas despidas
Rodeavam-nos na rua tantas mentes alheias
E ninguém imaginava o que era haver amor nas veias
O que aquele curto momento significava para nós
Era como a aventura de um rio a chegar à sua foz
Ambicionávamos coragem e a força do além
Mas sem os teus braços não existe mais ninguém
Somos tão novos e já enfrentamos o mundo
Mas o amor não escolhe idades nem o quanto é profundo
É cruel passar por isto e uma lágrima é involuntária
Mas esta prova de amor é a cura para a malária
Sinto o peso das fronteiras que quase me esfaqueia
Quem se lamenta e está perto queixa-se de boca cheia
És quem chamo de horizonte, és o meu grande amor
És tudo o que desejo, és o meu esplendor
Mas agora és linha ténue, és friamente intocável
Deixas-te em mim um remoinho altamente desconfortável
Não duvido do que sinto nem do frio do inverno
Mas quando congelar a solidez vai ser de amor eterno
Se dizes para ser forte, eu serei o betão da estrada
E se dizes para ser paciente, eu serei a tua jangada
Quero ser dona da tua pele, madrasta da tua respiração
Sei que ambicionar o mundo é saber que estou no teu coração
Dá-me notícias tuas, dá-me sinal que eu estou viva
Porque se um dia dançares o meu corpo vibra
E se um dia tremeres de frio vou pegar num cobertor
Mesmo sem saber o porquê, mas vou fazê-lo com amor
Que encontres paz em cada rua, esperança em cada esquina
Alegria em cada pássaro e no trabalho adrenalina
A força nasce dentro de ti e a coragem acompanhou-te no berço
És senhor do teu mundo e o príncipe do meu universo
Senti-me desorientada e completamente sem norte
Estremeço por dentro e nenhum pedaço de mim é forte
Foi embora metade de mim e apoderou-se a palidez
Deixas-te um lugar vazio e a ânsia de te ver outra vez
Não te iludas com o salário ou com o que poderás ter
Agradece a Deus por assistires a mais um amanhecer
Lembra-te da natureza e das coisas simples da vida
Foi isso que nos uniu e é isso que nos consolida
Preserva o teu coração e toda a magia de que és feito
Porque a tua essência é o meu único conceito
Cada minuto que passei contigo sinto que evoluí
Não te esqueças que noutro país há quem reze por ti
A dor é tanta e a estranheza é imensa
Quem mais sofre é sempre quem mais pensa
Quando peguei numa flor, enquanto esperava por ti
Senti tanta tristeza que aquelas pétalas destruí
Senti-me a combater como um soldado em guerra
Onde uma simples flor a alegria e a paz desterra
Mas sou o teu porto de abrigo, estou de pé à tua espera
Juntos seremos reconhecidos como o amor desta era.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Natureza humana


És a falta de compaixão, és o segredo da solidificação, o auge do silêncio, a essência do inverno, és a falta de coragem, o refúgio de um desesperado, os pulmões cansados de um fracassado, a crueldade de um olhar, és a mágoa afogada, a banheira ensanguentada, és a espada de Lúcifer, a cobardia dos tronos, a intocável presunção das coroas, a palavra de ferro de quem ordena. Estás no sangue das feridas de quem mata ou manda matar, estás nos rios de lava do inferno, na astúcia de um servo do diabo, na terra que cobre as campas, no machado dos matadouros e nos poros de um ser humano. És o que gerou a Inquisição, o Holocausto, o extermínio em massa, as valas de esqueletos, a perseguição! És o pilar do muro de Berlim, o projeto de um fuzileiro, a arquitetura de um campo de concentração, os contornos de uma forca. És a arrogância dos ditadores e a ignorância em bruto. És a flor da morte. És a chave da destruição e a fechadura do Homem. Vais do berço ao caixão, tornas-te indizível e ambíguo, fazes da natureza dos homens algo malévolo, quase corrosivo e um tanto mortífero. Mascaras-te nos atentados e na ausência de escrúpulos e o mundo não fala de ti. Fala-se de mau caráter, de falta de coração, de maldade, de atrocidade, mas não se fala de ti. És invisível como o vento e escapas-te como a sua leveza. Há quem te veja como satisfação pessoal, mas tu és a sobrevalorização de um dever, és o desejo de querer sempre mais, a ambição de voar por cima dos outros, a luta desmedida pelo umbigo do mundo. És o que todos chamamos de orgulho! Os arranha-céus que se vêm do deserto, a luxúria que vêm os tristes olhos amendoados daquela pobre gente é orgulho. Uma mãe que abandona um filho é orgulho. Todo o sangue nazi é orgulho. Uma ameaça é orgulho, uma granada também. Os ferros que sustêm as nossas casas são orgulho. O café que tomamos é orgulho, orgulho de quem explorou os mais fracos. Uma fábrica de gravatas é orgulho. O cachimbo pousado na janela é orgulho. A almofada de seda é orgulho. O tapete vermelho é orgulho. O lugar vazio na plateia é orgulho. Os holofotes são orgulho. A caixa de papelão que um mendigo tem para se aquecer é orgulho. A propaganda política é orgulho. O alcatrão das estradas é orgulho. Os orfanatos são orgulho. Um cão abandonado é orgulho. Enchutarmos uma mosca é orgulho. Ignorar o despertador é orgulho. Talvez viver seja orgulho. Orgulho, orgulho, o eco do orgulho.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Código feito!


É mais uma etapa ultrapassada! É bom poder sentir-me realmente de férias, sem ter a obrigação de ir às aulas de código. Foi um percurso interessante porque a matéria em si é mais divertida do que qualquer outra dada na escola. Um conselho que dou é assistirem a bastantes aulas, porque ouvir o instrutor a explicar pormenores que o livro não explica e a mostrar-nos maneiras cómodas de decorarmos certos números é fundamental e não existe nenhuma pen de testes do imt que pague isso. Além disso, podemos expôr as nossas dúvidas e colocar questões particulares acerca de situações ambíguas que poderão haver nas estradas. Eu não faltei a nenhuma aula durante uma semana, o que equivalia a 4 horas todas as tardes, em que 1 hora de intervalo usava para fazer testes no computador. Na outra semana já ia à escola com menos frequência, dia sim dia não e apenas duas horas, até ao dia do exame, para nunca esquecer a minha obrigação. Claro que ainda ouvi matérias repetidas e fiz outros ouvirem também coisas que já tinham dado, mas afinal nunca é demais ouvir a mesma coisa! A par disso, o livro é, pois, um pilar. Eu estudei-o e sublinhei-o ao pormenor e posso dizer que é mesmo a bíblia da estrada. Muita coisa parece óbvia, mas grande parte é novidade e há termos que só o livro reflete perfeitamente, para além da organização que em nada se compara aos meus apontamentos apressados. Outro conselho que dou é fazerem inúmeros testes, porque isso é a chave da aprovação final. Há testes mais difíceis do que os exames, podem surgir as mesmas perguntas ou situações idênticas e um teste é sempre completo e tem o modelo que nos é exigido no dia da decisão final. Por tudo isso, devem fazer o máximo até se cansarem e nunca se assustarem por errarem muitas no início, porque ninguém nasce ensinado. No primeiro teste que fiz errei 12 nas 30 e tantas e tantas vezes errava 9 ou 5, no mínimo, até que fui evoluindo e passando nos primeiros testes, até chegar ao exame e errar 0. É tudo uma questão de prática! Ou teoria, neste caso. Depois de tudo estudado, só a sorte nos segura. Podemos ter um exame fácil ou não, podemos estar especialmente nervosos ou estranhamente descontraídos, mas temos de ser positivos e não pensar constantemente no dinheiro que gastamos caso não passemos. O que mais me abalou foi ver o grupo de pessoas anterior a sair uma a uma e ver as caras tristonhas ou com um sorriso rasgado. Foi isso que nos afligiu porque havia muita deceção em alguns rostos. Mas mal entramos e cumprimos as formalidades todas, todos se concentraram e em geral correu bem a toda a gente. Uma rapariga que conheci e que chumbou disse que não tinha ido a aulas nenhumas, mas que tinha feito dezenas de testes. Acho que isso é a prova de que realmente é importante sermos ensinados por alguém e não apenas por um sistema virtual. À saída da sala fui super sorridente, pelo orgulho que levava, pelo dinheiro bem gasto e acima de tudo, por não ter de passar por isto outra vez.
Boa sorte para quem está nesta etapa! 

sábado, 2 de agosto de 2014

Reencontro comigo própria


Há sentimentos frios que rimam com o latejar dos músculos cansados. Também os sentimentos estão cansados de se revelarem o suporte do mundo e de erguerem estátuas fragmentadas. A vida é subtil na forma como nos impõe o sofrimento. Tudo começa com o despertar da incredulidade, do gélido olhar que penetra mas quer voar, que espreita mas quer fugir, que observa mas quer ser cego. Que mora na imaginação mas quer ser amnésia. Depois somos fantoches levados pelo vento, rebentos frágeis que não se agarraram à terra da razão, até sermos humanos vulneráveis e substituíveis. Dói sermos a prova da pressão que o mundo exerce sobre cada recém nascido, magoa sermos o resultado da compaixão escondida na bengala de um idoso, rebaixa-nos saber que somos a origem dos resquícios de claridade que só chegam aos cantos escuros da casa quando há pôr do sol e reduz-nos ao invisível o facto de sermos reféns do desassossego dos pesadelos. Fraquejar é humano, mas correr sem chão é impossível. São precisos anjos para nos segurarem. Ou basta haver amor embutido num corpo de anjo. Talvez seja o amor que lhe faz crescer as asas. Talvez seja. Mas é do amor que nascem almas flamejantes, ardentes, puras, mas inconscientes. É ele que me faz levantar da cama e que me serve de bandeja a mais tórrida esperança. É ele que me acolhe como um ventre caloroso, que me dá a capacidade para pegar no volante e conduzir eu própria a minha vida! É um sentimento enorme e repleto de bondade, mas é uma opção vulnerável e sujeita a tempestades. Sou feliz por ter livre arbítrio e por saber que a minha escolha vai sempre recair no amor, sou feliz por ter o dom de cuidar quem faz de mim vida, sou feliz nos braços que sempre me abraçaram, sou feliz na incerteza dos beijos que sempre me fizeram tremer, sou feliz por sempre relembrar momentos em cada esquina de um olhar, sou feliz por não me envergonhar de o ser. Porque amar é abrir a jaula a um pássaro e acreditar que ele permanece na palma da nossa mão. Acreditar que a distância entre estar pousado e a voar é enorme. Acreditar que não basta um bater de asas para o mundo se destruir, mas um movimento profundo das montanhas, a devastadora libertação das órbitas e da gravidade. E mais do que isso, é primeiramente criar esse pássaro com toda a entrega e sinceridade, domá-lo, torná-lo parte de nós e chamá-lo de amor. Para depois sim, o libertarmos e termos a certeza de que permanece mesmo com o mundo à sua frente e a liberdade a remexer-me os impulsos. Amar é para quem tem coragem.

domingo, 27 de julho de 2014

Primeira aula de condução


Estreei-me logo com duas aulas de condução no primeiro dia! A curiosidade era grande, bem como o entusiasmo de pular para a vida independente. Entrei no carro e tudo me era novo, como se estar naquele lugar de relevo fosse algo de errado. Mas logo ouvi as primeiras explicações com atenção e lancei-me à estrada, ou vá, eu e o instrutor. Sim, porque a dependência dele era obviamente enorme. Nessa aula, a adrenalina e o sentimento de novidade sobrepuseram-se ao medo e ao nervosismo, de modo que foi uma aula positiva. A questão é que isso me levou a falsas expectativas e as aulas posteriores foram de mal a pior. Ainda não passei das 5 aulas, tenho ainda muito que aprender e há margem de manobra para a minha experiência crescer progressivamente. Eu a pensar positivo! A verdade é que a tensão apodera-se de mim e só acabo por ter o volante e a manete das mudanças para agarrar com força, procedimento não muito amigo das curvas e da descontração. Além disso, acho indecente o pé direito não ter sítio para descansar e o esquerdo ter uma rampa particular só para ele, e depois lá vou eu descansar o pé no acelerador, o que me deixa assustadíssima, porque os movimentos se tornam bruscos ou simplesmente porque a mudança não se adequa àquela velocidade, mas em algumas aulas foi mais forte que eu! Já fiz uma inversão de marcha e boa, não fui contra o passeio! Ainda me confundo bastante com tudo o que é preciso fazer antes de uma marcha-atrás ou uma manobra complicada. No fundo, penso demais em todos os passos que vou dar e depois só tenho o carro preparado para entrar numa rotunda quando já estou em cima dela. Mas caramba, são mil e um procedimentos e quando se vêm carros a passar muito perto às vezes acabo por bloquear. A desculpa tem sido "estás nas primeiras aulas, é normal", de modo que é urgente haver uma evolução porque depois passamos da desculpa típica para a humilhação desmotivadora, "talvez não tenhas mesmo queda para a condução". Mas vá, pensar sempre positivo! Isto afinal é um pequeno passo para o mundo, mas um grande passo para o ambiente das estradas em que vou circular. Por isso não vos digo que não pratiquem isto em casa, mas definitivamente não comecem por praticar sozinhos. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Tu e a minha janela

Love.

Foi a indecisão a marcar a partida, foi o medo a decidir a meta. Mas avanças-te com um sorriso escondido, daqueles sorrisos que ficam na ombreira da porta até chegar um vento alheio que o faça escorregar e apresentar-se ao mundo. Havia naturalidade, curiosidade e tudo o que rimasse com verdade. Cada passo era uma descoberta e uma expectativa, era como uma gota fresca a cair num galho seco. Quis mostrar-te o mundo, colher-te uma estrela como um jardineiro colhe o fruto mais apetecido, aquele fruto que ele viu crescer pela janela, que viu respirar sempre que lhe remexia a terra. Quis dirigir os ventos e tornar-te no papagaio do céu do meu quarto, mas o que fiz foi abrir a porta do meu coração e mostrar-te a minha essência, levar-te ao local onde as minhas emoções, sentimentos, desilusões e memórias se compactam. E isso bastou-me para ser feliz, para viver até ali e receber o teu beijo ao mesmo tempo que sentia o vento a tornar-nos livres. Foi esse beijo à janela que concretizou todos os meus devaneios de infância. Olhar em vão e apenas querer perder-me nos teus olhos, e poder fazê-lo porque estavas ali em carne e osso, fez-me, por momentos, acreditar em duendes e unicórnios. Antes, eu era uma criança naquele ninho inocente e, se adivinhasse que no futuro tu irias estar ali, na ombreira dos meus pensamentos, no horizonte da minha preguiça, no regaço dos meus sonhos, eu iria a correr para a rua a anunciar que tinha o dom de acolher anjos! Seria a criança que queria crescer depressa, que sonhava com o futuro, que pulava nas nuvens com força para que o paraíso descesse à terra. Seria a criança que vivia na ansiedade de ver alguém perfeito a ver a mesma paisagem que eu. E agora estavas ali! Sim, eu sentia o teu braço a empurrar o meu, porque nenhuma janela é suficientemente grande para o nosso amor, e ainda bem que não. No fundo, aquele espaço sempre fora a bíblia de ti convertida em eco durante anos. Ver-te ali foi mágico e, agora, a amnésia da infância seria cruel, sabendo que tu és o meu fóssil e o nosso amor é âmbar. Fora daquela janela a rotina olhava-nos, os preconceitos rugiam, os carros espelhavam a monotonia dos olhares alheios, todos pareciam ter rugas a mais do que nós. E sabes porquê? Porque este é um dos meus humildes sonhos que já concretizei contigo, ver-mos as montanhas do lado de dentro da janela do sítio onde cresci e me apaixonei por ti, onde acordei e adormeci contigo na presença da minha imaginação. E agora sim, posso dizer que sobrevoas o céu do meu quarto e até o papel de parede fizes-te sorrir!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Primeiro ano universitário


Bem, foi mais um ano que passou, mas não foi um ano qualquer. Foi atribulado e sofredor, lento e dramático. E não, não estou a ser pessimista, simplesmente posso dizer que nem me senti eu própria, que não soube como agir em situações que antes nem sequer pestanejava, mas a universidade assusta qualquer um. Nem a pessoa mais capaz se sente com estofo no meio daquelas constantes todas. Já muito se falou aqui no blog, mas de uma forma resumida posso dizer que, no fundo, as amizades que considero que valeram a pena foi a melhor coisa que restou. Nada mais considero que tenha sido espetacular... As praxes e todo o enredo que já abordei, na minha opinião, deviam acabar, porque só deitam mais abaixo uma pessoa, o facto de ser tudo novo para nós, desde a cidade à nossa almofada, o chegarmos a casa e não termos a nossa mãe a chamar-nos a ir para a mesa e a dizer que fez a nossa comida favorita, as pessoas que se aproximam de nós e no dia seguinte nos vêm como sombras, os telefonemas diários que sabem sempre a pouco, tudo isso mexe connosco, mesmo parecendo que não. Mesmo os momentos de abandonarmos a cidade e irmos de férias me faziam sofrer por antecipação, porque só pensava que ia ser tudo passageiro e que daqui a nada tinha de apanhar novamente o expresso, ir de noite a ouvir músicas melancólicas e a esconder as lágrimas. A minha mãe sempre me disse o ano todo que eu era uma exagerada e que precisava de crescer, mas então porque me mandam para uma cidade sozinha se ainda não cresci? Ela não entende, nunca ninguém vai entender... E ela lá reforçava que no tempo dela o quarto e a cozinha eram na mesma divisão e que a mesma casa de banho era dividida por dez pessoas, mas eu tenho alguma coisa haver com o que se passou à cinquenta anos? Será que era por eu adormecer com o cheiro a comida nos lençóis que ia ter menos saudades? Que por passar horas na fila da casa de banho ia esquecer a distância? Óbvio que não! As saudades para mim pesam tanto como se tivesse um mundo de pedra à costas, o querer estar perto de alguém e não conseguir é dos sentimentos mais terríveis, porque é humanamente impossível voar ou encurtar estradas com o pensamento, é totalmente ridículo pedir ao vento que se transforme na respiração de alguém. É claro que quando a rotina se instalou a minha capacidade para pensar positivo foi maior, afinal limitava-me a fazer o trajeto casa-escola e como ia sozinha podia ir por percursos mais longos para poder pensar na vida mais tempo. No fundo, isso era bom, porque não tinha a minha mãe a ligar-me super preocupada, é claro que qualquer adolescente gosta de um pouco de liberdade. Mas também se não estivesse tão longe de casa nem sequer tinha necessidade de pensar na vida, de refletir sobre o aqui e o agora, não me sentia obrigada a olhar para o céu, forçada a pedir paz. A minha vida prende-se totalmente às minhas origens, mas qualquer pessoa que não sinta uma relação excessivamente próxima com o lugar da sua infância eu aconselho a aproveitar ao máximo as novas amizades, a liberdade com prudência, os cenários novos que vemos ao ir para a escola todos os dias, as novas crenças, novas formas de pensar e preservar a mente, é sempre interessante fazer uma viagem prolongada, mas é apenas para quem não se importe que a sua vida vire do avesso. Porque acima de tudo, é preciso coragem!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Garras de Leão



Ainda à pouco nasceras e já estás capturado. A tua cerca nada te fala acerca de liberdade. Estás aí por possuíres o potencial de um dom e, aos olhos de quem te massacra, vais ter um futuro risonho. Tão antitético! Na verdade, há vozes que chamam por ti, existem ecos anónimos que insistem em agarrar-te, sobrevoa-te a vontade de concluir um sonho, mas primeiro, a coragem é a mãe de qualquer começo. Moram psicoses mascaradas nos teus estímulos, habitam diabos com vozes urgentes em cada neurónio teu e em cada canto dás de caras com a tua consciência. É pelo teu sofrimento existir que existem lágrimas enterradas em cais esquecidos, que existem suspiros alojados à portas dos tribunais, que existem cartas de amor levadas pelo vento, que existem peixes mortos no fundo do mar que escorregaram da rede e nem para comer serviram! É por tu estares aí que existiu o fim de Romeu e Julieta. Flutuam escolhas na tua mente tão corrosivas como o dia em que foste levado, tão cruéis como alguém receber o sangue errado. Foste mais um fantoche da pressão moral e agora a esperança tem de ser arrancada a ferros. Vejo-te a crescer por entre saltos, sejam das competições da vida sejam das tentativas de fuga, até que te encontro no topo da cerca, a um passo de veres o sol, a um passo de seres livre. O teu sangue escorre e preenche as marcas profundas que deixas-te na madeira, os teus olhos refletem coragem e respiras, agora, natureza, que é tudo o que faz parte de ti. É pela tua determinação existir que qualquer cais é o porto de abrigo de um pescador, que em qualquer tribunal se luta pela verdade e pela justiça, que por cada carta de amor existe uma vida que faz sentido, que tantos peixes se unem contra a força elétrica que levanta as redes! É por tu estares aí que existem flores na Primavera. É por tu estares aí que a Terra nunca saiu de órbita. E não precisas de te vangloriar, porque o sangue seco que tomou a forma do teu sofrimento vai ser o fóssil da tua ambição. Contigo levas as garras mais afiadas do que nunca e a sensação de que o medo e o sofrimento te fez subir um patamar na vida. Agora já posso chamar-te de leão e mostrar-te as garras que me surgiram após esta longa metáfora. Porque o que não mata torna-nos mais fortes.

sábado, 5 de julho de 2014

Nova âncora, novo porto

Memórias derretem-se por dentro como fragmentos flamejantes com a certeza de que vão deixar rasto, pequenos excertos visionários corroem-me por dentro, mas ainda assim mantêm-me viva, existem segundos, minutos, horas e até dias que estão congelados no meu coração, porque ele aquece para guardar as pessoas, mas congela para preservar os momentos, porque a frieza é o alimento da distância, quando a amizade é o alimento da vida. É tempo de mudar de rumo, de remar contra o misto de emoções que se tornaram ondas em marés de inseguranças, é tempo de respirar fundo e de inverter o foco para onde olho, é tempo de contrariar os ares frios que me percorrem a pele, é tempo de decifrar o código do meu futuro. Vou caminhar em direção ao mar, vou em busca de novos horizontes, seja metaforicamente ou não, mas vou com a convicção de que noutro lugar esteja uma parte de mim, intocável e sonhadora. Vou guardar-te a areia da praia, vou trazer-te a leveza dos ventos do norte, vou ensinar-te como a brisa de todas as manhãs, por segundos, me levou a ti e ao teu abraço, vou explicar-te como é bom sentir o ar salgado e como a margem com espuma branca me pode levar a ti no pensamento, porque afinal posso navegar em barcos imaginários e ver-te a acordar, ver-te a chegar tarde à faculdade e ver-te a adormecer por entre histórias de televisão. Também a nossa poderia estar iluminada por holofotes e também eu poderia não estar a suplicar por forças neste momento, mas o comboio segue sempre a sua linha, as gaivotas todos os anos migram, as mercadorias seguem o seu caminho, os próprios caixões têm um destino traçado, os caules das flores dançam consoante o sol ou simplesmente eu calço botas quando está frio. Há coisas destinadas, mas a amizade é, por si só, um destino e já diz o fado, que não é por uma andorinha morrer que acaba a primavera. E lembra-te que, espacialmente, pode mudar o porto, mas nunca o porto de abrigo! 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Das tradições


A serenata e o cortejo tiveram o seu momento especial na semana. Tal como todos os anos, marcar presença era um dever para todos nós, estudantes, tudo porque se tratam de tradições respeitadas. Trouxe comigo sentimentos antagónicos em relação a estas comemorações. Por um lado, recordo com saudade a serenata, mas por outro, vejo-me feliz por ter terminado o cortejo. Mas passo a contar! 
Quinta era dia da serenata e, como tal, todo o curso se reuniu a jantar num restaurante da baixa. A noite foi marcada pelos preparativos, afinal neste dia Coimbra veste-se de negro e para qualquer caloiro torna-se especial vestir o traje não apenas para o espelho nos ver. Descer as escadas do prédio com a capa e a batina transformou-se de repente num acumular de pensamentos, até que a saída à rua tornou-se emocionante! Foi uma questão de segundos até estar com as minhas amigas a tirar fotos. Já o jantar foi uma confusão autêntica e a única emoção que ele despertou foi apenas de pânico. Não havia espaço para nos mexermos, o barulho era insuportável, as músicas eram sempre as mesmas, havia penaltis de segundo em segundo e tudo o que se passava já soava à mesma badalada. Afinal os jantares de curso acabam sempre da mesma forma, bebedeiras! E enfim, no meio disto tudo tive de sair porque a minha cabeça estava prestes a explodir. Falei com uma senhora idosa com imensa cultura, que por sinal era a dona do restaurante, e aprendi bem mais do que aqueles que gregavam à minha volta. Já na serenata e acompanhada pela minha madrinha, que felizmente anda sempre sóbria, o objetivo era furar as pessoas, até que num ponto mais alto espreitei por entre ombros alheios e deparei-me com a multidão que se vê em fotos e na televisão, sim, a mesma multidão que eu tanto imaginei na minha cabeça a inundar todas as ruelas em torno da Sé Velha. E ali estava eu, atenta a ouvir aquelas vozes masculinas que tanto admirei. É um ambiente único e onde se distinguem perfeitamente as pessoas. Os caloiros, a rir por tudo e por nada, e os finalistas na choradeira. A verdade é que eu própria me ri, porque para qualquer caloiro a serenata é ainda muito precoce e pouco significado tem para nós, mas em geral respeitei os momentos de silêncio e dei valor à angústia da partida que muitos estavam a sentir na pele. Vi lágrimas lentas a percorrer faces com experiência de vida e amigos de mãos dadas como se o mundo acabasse ali mesmo. O nosso grupo resolveu sentar-se no chão em cima das capas a ouvir sossegadamente as melodias e a alimentarmo-nos daquela melancolia positiva. Pouco antes de acabar, fomos andando para fugir da confusão e foi aí o momento em que a minha madrinha me traçou a capa, mesmo ao portão da faculdade antiga de Farmácia. Foi o momento alto! A minha madrinha disse que eu ia ser sempre a sua caloirinha, que se orgulhava de mim, que era muito boa pessoa e desejou-me muita sorte para o futuro e para as minhas decisões, tudo enquanto me traçava a capa e enquanto se viam flashes de máquinas desconhecidas, cujas fotos provavelmente não terei acesso tão cedo. Depois disso revi algumas colegas do secundário e a noite acabou por aí, porque excepcionalmente tínhamos aulas no dia seguinte à 9 da manhã. A Serenata foi, portanto, um momento para recordar, onde as emoções dos finalistas mais tarde se espelharão nas nossas. 
Já o Cortejo não foi bem assim. Foi muito cansativo e eram só bebados, como seria de esperar. O objetivo era não apanhar com cerveja em cima e acreditem que em estradas apertadas tornava-se quase impossível, mas orgulho-me de ter ido para casa com o traje seco. Bem, aquilo é uma nojeira, é a bebedeira levada ao extremo dos extremos! Só se viam polícias, bombeiros e ambulâncias. Não vejo sequer necessidade em gastar-se 10 mil euros num carro só para irem lá para cima meia dúzia de gatos pingados beber e mandar cerveja às pessoas com pistolas de água. Este ano houve particularmente um caso de uma rapariga que partiu a cabeça. E por essa e tantas outras razões os estudantes vão direitinhos ao hospital, onde o motivo é sempre o mesmo, álcool. A palavra rainha é "desperdício"! O cortejo devia ser mais modesto e contido. É algo que é positivo por juntar os familiares, mas isso leva a que crianças vejam aquela desgraça. Além disso, tal como dei a entender no tema das praxes, a euforia aliada ao álcool nada traz de positivo e nada tem a ver com a prestação académica. Eu vim embora cedo porque estava farta e os meus pais já se tinham ido embora. Vim a comer o meu geladinho e ainda dormi uma soneca à tarde. Quando saí à noite para ir a primeira vez ao recinto, no Domingo, no caminho nem queria acreditar. A cidade estava literalmente destruída pelos estudantes! A estrada escorria cerveja, como se tivesse chovido e nas nuvens estivesse escrito "sagres", já para não falar das cervejas partidas e do cheiro a mijo e a álcool em todos os cantos. Depois são os carros dos bombeiros que se encarregam de gastar água para limpar as estradas e acabar com aquele alcatrão colante! O cenário era degradante, mas todos apoiam e se curvam perante as tradições, mesmo aquelas sem fundamento nenhum! Para mim há tradições que simplesmente deviam acabar ou ser amenizadas, porque uma verdadeira tradição tem décadas ou séculos e essas não são calamidades, porque na altura havia respeito e não havia crise. Tradições que envolvam tanta destruição e falta de espírito são relativamente recentes. Ao que parece as mentes estão cada vez mais pobres. Mas bem, em relação à queima propriamente dita dos carros no queimódromo acho uma tradição fantástica e com imenso impacto, dado o valor que todos damos as nosso transporte pessoal. Felizmente tive uma praxe produtiva e lá explicaram-me que essa queima se faz com o intuito de valorizar as memórias ao invés dos bens materiais, porque Coimbra é a cidade das memórias, daí que o próprio traje seja queimado no fim do curso, caso desejem. 
Não há muito mais a dizer, a descrição da queima foi basicamente a mesma, porque o cenário resume-se ao mesmo!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Praxis


Ora bem, nem sei muito bem por onde começar. Sou contra as praxes, é um facto! O nome praxe é por si só forte, ou tornou-se forte com o passar dos tempos, porque os doutores adoram sorrir e dizer "Amanhã há praxe!", em vez de "Amanhã há convívio, com o direito de ir quem quiser e puder". É claro que sendo obrigados, os alunos entram na vida académica mais rapidamente, mas cada um sabe de si e com o tempo, e de acordo com cada personalidade, cada pessoa vai percebendo se é ou não importante para si ir sair à noite e se os shot´s lhes dão satisfação pessoal. Mas a verdade é que a personalidade pouco interessa, nunca interessou! Para eles, somos todos adolescentes malucos que adoram ser paus mandados e beber demais todas as quintas feiras. Mas enfim...
A escola em França dá aos alunos uma semana de férias depois de cada quinze dias de aulas, porquê que em certos sítios há praxe todos os dias? Acham mesmo que isso dá motivação? Duvido que encontrem alguém que não esteja lá obrigado... Ao que me dá a entender, as pessoas mais respeitadas, os ditos veteranos, são sempre aqueles que passaram grande parte da sua vida na universidade e ainda sem um canudo na mão. A verdade é que um aluno que sai do secundário está totalmente vulnerável e sozinho numa cidade sem amigos, e tem forçosamente de respeitar as únicas pessoas que supostamente se mostram preocupadas connosco. Nos primeiros dias, eu e o meu grupo respondíamos que sim a tudo, mas o saco foi enchendo! Fomos durante semanas o alvo de chacota dos doutores que mais se recusavam a ir à praxe no seu ano de caloiro. Basicamente, fomos o saco de boxe onde os superiores largavam as suas mágoas, despejavam as suas frustrações e alimentavam o ego, imaginando que as nossas caras eram as deles no ano passado. As praxes do meu lado da cidade não eram nada de mais, gostei bastante das doutoras e a humilhação não foi excessiva, de modo que a minha voz cobre muitas outras praxes de que me iam falando noutros sítios. Entendo que as praxes ajudem a baixar a bolinha àqueles que vêm de cabeça levantada do secundário, mas afinal somos todos humanos, e qualquer pessoa se sente desamparada nos primeiros tempos, onde não existe uma única cara conhecida, uma única voz já ouvida ou um único sítio já frequentado. Só acho triste nos primeiros dias andarem a pôr-nos de quatro e a pedir para apalpar o doutor não sei das quantas, enquanto que eu não sabia como se ia para a Sé, nem para o pólo 1 das universidades, e muito menos sabia onde ficavam os bares e os espaços de convívio. Sabia o percurso para a faculdade e pouco mais! Acho que a praxe deveria ser um convívio entre os caloiros e os doutores, que passasse por peddy papers pela cidade, idas ao teatro, passeios de bicicleta, sei lá, uma convivência saudável com os doutores e a cidade, e não propriamente a relação com o chão das praças e com os sapatos dos doutores. Se dizem que a praxe é integração porquê que não podemos rir? E falar? Falar é conhecer e abrir novos horizontes, o alcatrão e os pés cansados (ou não) dos doutores nada nos dizem acerca de novos horizontes. Se ou doutores querem que os respeitemos, também eles nos têm de respeitar a nós. Lá por não andarmos trajados não somos nada a menos do que eles. Isto das praxes tem muito que se lhe diga, a arrogância de que somos alvo, as figuras tristes que passamos, as músicas porcas que cantamos, dava tudo uma boa história para um livro depois de termos passado por tudo isto, mas nós somos pessoas reais, não somos personagens. Prefiro dizer que na primeira semana conheci a "minha" cidade tão bem como conheço a minha terra natal, que todos me acolheram e que, por isso, me sinto positiva em relação ao curso e à nova rotina, do que dizer que me fartei de trancar em casa para não ter de passar uma tarde inteira a esmurrar os joelhos. E depois vêm-me com tretas a dizer que se não estivermos em condições de ir parar praticamente ao hospital, que mais tarde não saberemos trajar. Por favor! É melhor faltar a uma praxe e ir comer um gelado com as pessoas que valem realmente a pena (sim, porque as amigas espetaculares que conheci foi sempre fora da praxe), ou deixar a dignidade em casa e ir de fato de treino como se fôssemos para a guerra dos tomates? Para mim saber trajar é tratar o traje com respeito, é ter mérito pessoal e profissional para o valer, é largar uma lágrima de emoção quando o vestimos pela primeira vez e sim, temos de saber minimamente as regras para o usar. Mas fico pasmada quando as pessoas mais "seguidoras do respeito" pelo traje andam depois com ele nas festas de madrugada, repletos de álcool. Quase 200 euros a levar com tanto álcool como o chão das calçadas! O traje é um símbolo de dignidade e, logicamente por isso, não deve ser usado com falta de sobriedade.
Além disso, dizem que a praxe serve para conhecer os doutores, mas eu posso simplesmente não os querer conhecer, ou no secundário também nos obrigavam a dialogar com os do décimo segundo?
A prova de que a praxe não é para integração nem para conhecer a cidade e os doutores, é o facto de ainda agora, em Abril, marcarem praxes.
 Outro ponto que me deixa irritada é o facto de muitas caloiras que conheço serem sempre as protegidas pelas doutoras. Conclusão, uns podem faltar à praxe e outros não, e todos vão estar trajados a rigor para o ano. Quem vai oferece razões de descontentamento e, logo, razões para não poder praxar para o ano e, em contrapartida, quem é sobrinho de doutores populares pode praxar, faltam sem aviso, não levam sermões, enfim... Às vezes estou na universidade e sinto-me numa creche.
Porquê que levar com ovos na cabeça nos torna mais merecedores de usar o traje, se isso é um símbolo de curso e não de palhaçadas de doutores que se querem vingar em nós?
E fruto destas vinganças dos mais velhos e do conformismo dos mais novos é que se geram casos como os do Meco. Todos têm culpa! Só achei ridículo uma das mães ter vindo dizer que a sua filha tinha morrido feliz, a fazer o que gostava. Ao que o mundo chegou. Isto não é nada mais nada menos do que uma mãe a aplaudir o suicídio da filha, a concordar com o facto de ela não estar a estudar naquele momento ou a fazer coisas mais decentes e próprias, dado que o dinheiro é sempre dos pais e, infelizmente, a tristeza também é sempre deles, só deles.
E não, não me declaro anti-praxe, porque como já disse a exigência da minha faculdade relativamente a isso não é grande, mas noutro sítio garanto-vos que seria, sem problema algum, mesmo sabendo das desvantagens de não poder praxar (que não considero desvantagem) e de ser, obviamente, olhada de lado.

25 de Abril


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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O que sou agora

Férias da Páscoa. Melancolia. A minha cama. Jogos de computador. Noites quentes. Idas à aldeia do meu namorado. É este o ponto da situação. Sinto-me finalmente feliz, porque finalmente posso fazer o que me apetece. Cá em casa anda tudo de olho numa bicicleta para mim, a vontade de respirar ar puro é enorme, tudo porque a cidade não oferece o ar límpido aqui das montanhas. O próprio tempo livre que lá passo não é canalizado para escrever nem para fazer algo de produtivo, fico simplesmente trancada em casa, a comer bolachas, a olhar para o vazio e a pensar em como seria a minha vida se estivesse na vila ou se ele estivesse na cidade. É nesses momentos que me sinto mais uma refém da injustiça, que me sinto tão inconstante como a meteorologia e, por segundos, sinto completamente que a vida não vale a pena ser vivida. Ando um pouco mais positiva, apesar de não parecer, mas as saídas à noite com as minhas amigas fazem-me realmente bem, no entanto, a verdade é que elas simplesmente camuflam os problemas por umas horas e tudo volta a descambar. O problema já nem são as praxes, a mudança de rotina, as pessoas novas ou o chegar a casa com os ouvidos estoirados, o problema é e sempre será a angústia de estar longe e a dificuldade do curso, que se agrava obviamente com a ausência. Tenho sido bem mais participativa nas praxes, as doutoras adoraram um teatro que fiz e já não sou vista como a pessoa que falta a tudo, nesse aspeto senti algum orgulho, porque correspondi às expectativas de algumas brincadeiras. No fundo, a praxe resume-se ao espírito aberto, mesmo que isso implique deixarmos de ser nós próprios, ao sorriso sem preconceito, à entreajuda e ao facto de tratarmos todos os colegas por igual, mesmo que isso implique dar um desconto a quem menos gostamos. A fórmula é ser criança, mas sempre consciente! Quanto à rotina, essa mais tarde ou mais cedo teria forçosamente de mudar. As caras mudaram e o cenário tornou-se mais cinzento. As lidas domésticas e os horários que temos de cumprir independentemente são parte do nosso crescimento e é como uma preparação divertida para o nosso futuro. Mas a saudade está em todas as tarefas que faço, desde que acordo até me deitar. Esteja eu a ver um filme de comédia ou a contar uma piada, a tristeza tem sempre o seu lugar reservado. À parte de tudo isto, o curso está a correr melhor do que no primeiro semestre, o que não era difícil. Ando mais aplicada e sei que se me esmerar agora, menos anos tenho pela frente. O meu estado de espírito encontra-se ali entre a saudade e a promessa, mas no fundo é uma mistura de ódio, esperança e amor.

domingo, 6 de abril de 2014

Ao sabor do vento

Já me ensinas-te tanta coisa, apontas-te tantos caminhos
Contigo a vida é um mar de rosas, mas rosas sem espinhos
Aqui vou ser bem sincera, neste poema verdadeiro
Porque uma escrita pura vale mais do que dinheiro
São as palavras espontâneas que os papéis suportam
Porque a falsidade já as pessoas reportam
Quem escava minas nem sempre ganha para o seu pão
Mas eu escavei a minha e encontrei o teu coração
Agora vivo no luxo de possuir ouro amado
Com muito mais valor do que o estipulado pelo mercado
É por pedaços de metal que tantos ricos se maravilham
Mas é pelo teu coração bater que muitos diamantes brilham
Deste-me vida própria, deste-me um novo sorriso
Por isso é só para ti que faço este improviso
Porque se o amor fosse força, chamar-me-iam guerreira
E se tu fosses o vento, eu seria feita de areia
Seria moldada por ti em qualquer direção
E seguia o teu sopro como se te desse a mão
Mergulhava na tua essência e no segredo da magia
Seria o brilho dos sonhos e o caminho da fantasia
Porque eu não seria somente areia desfeita
Bastava o teu toque para ter a vida perfeita
Teria a forma que quisesses, faria de mim o que sonhasses
Seria a areia da praia com que tu brincasses
Podia ser aridez das planícies ou a solidão de um deserto
Mas eu nunca me entregaria a um vento incerto
Seria o chão de uma barragem ou o cascalho de um rio
Mas que junto à foz te visse a passar num navio
Seria resistente às secas e pisada pelas distâncias
Permeável à água e pousada por circunstâncias
Seria mais um pedaço de um perdido substrato
Mas talvez um dia fosse a areia do teu sapato
Constituía-me como tua e como a seiva dos minerais 
Mas no fundo só sonhava ser aquela que amais
Quero-te em frascos de vento, mesmo nos dias ingratos
Em que não apareces e não sinto os teus abraços
Quero que escrevas o meu nome com a minha essência
Escreve-o longe, para o mar não apagar a minha sobrevivência
O mundo não é feito para crentes, mas há esperança em cada grão
Porque o tempo foi paciente e o mar fez revolução
Erodiram-se as rochas e plantaram-se sonhos
A areia criou-se e esperam-se futuros risonhos
A areia e o vento vivem em comunhão
Porque tu, José, tens a areia e o meu coração
E todos os dias vivo com o medo que o amor remexeu
Mas também Deus criou as noites e também Ele as temeu.  

sábado, 5 de abril de 2014

Ausências

As férias da Páscoa estão a chegar e fica aqui prometido um recomeço neste blog! Seja a nível de conteúdo, nomeadamente do tema "Universidade", seja a nível estético.

Beijinhos e desculpem a ausência

domingo, 26 de janeiro de 2014

Fadas de contos ♥

Eram dois adolescentes que aprenderam a amar
Que precisaram de fugir para poder respirar
Ir para longe de olhares, arrogância e problemas
Sentir a distância dos típicos telefonemas
Despir a rotina e fazer dela um poema
Poder acordar dentro de uma tela de cinema
O motor arrancou e o olhar ficou emocionado
Para ela aquele momento era mais que desejado
A paisagem não cativou, o preço do bilhete não foi discutido
Porque em cada beijo havia um futuro a ser construído
Existia neles a loucura e o segredo da ambição
A alegria de viver e a paixão de um campeão
Tinham lugar reservado em qualquer constelação
Na vida tinham a sorte e no paraíso a admissão
Ambos queriam que fosse um momento sem saída
Mas ver as rodas a andar era como possuir uma ferida
Ouviam juntos uma música que o fez chorar de saudade
Pelos tempos de escola em que só havia uma amizade
Pelos olhares nos corredores e pelos almoços apressados
Pela timidez envolvente e pelos amigos dos recados
Pela expectativa traçada e pelos “olás” acanhados
Pela coragem escondida até serem namorados
E agora ali aconchegados, parecia que estava a sonhar
Mas a mão dele na dela logo a fez acordar
“És linda, amo-te tanto”, disse-lhe ele tão de repente
O coração dela falou e deu-lhe um beijo no pescoço quente
Ela pediu-lhe para fazer outra viagem de novela
Ele respondeu que ia até ao fim do mundo com ela
Até que chegaram ao destino e sentiram-se como reis
Traçaram o amor e caminharam sem leis
Lá iam os dois de mãos dadas, totalmente independentes
A caminhar pela cidade com corações sorridentes
Jantaram, brincaram e criaram momentos mágicos
Por segundos foram crianças que não conheciam momentos trágicos
Desconheciam a maldade, o ódio e a corrupção
A norma que os movia era o um amor de explosão
Ele virou-lhe o telemóvel como se quisesse falar
Foi então que uma música começou a tocar
“Quando estou nos teus braços quase não consigo acreditar”
Era este o lindo refrão que o fazia abraçar
Ela só conseguia chorar e amá-lo cada vez mais
Esperaria por ele em qualquer desconhecido cais
Adormeceram como anjos e unidos pela escuridão
Mas o amor deles estava acordado, isto é uma afirmação
Apesar da pressa, de manhã deram risadas
Amores como este fazem falta nas calçadas
Ele levou-a à Faculdade com um enorme carinho
Mas a vontade dela era a de nunca o deixar sozinho
Quando ela chegou a casa abraçou-o como ninguém
Como é bom vir da escola e ter sempre o nosso alguém
Passaram a tarde a sorrir e a sonhar acordados
Naquela casa estavam os segredos do mundo abafados
Qualquer música de amor ali fazia sentido,
Até um velho romance por eles seria colorido
Em direção à estação lá foram os dois de mãos dadas
Levavam com eles todas as alegrias abarcadas
Ao fim de jantarem apressados apanharam o autocarro
Teria sido bom terem o seu próprio carro
A viagem de regresso indicara quase a despedida
Parecia que naquele tempo só se desceu uma avenida
Na viagem ela lhe disse que gostava de um pedido no passado
E ele disse “Está tudo acabado, queres ser meu namorado?”
Riram-se e ambos sentiram-se amados e felizes
Numa proporção muito maior do que meros aprendizes
Da viagem restou a saudade da despedida
O medo de o perder e de ter sido a última dormida
Seria bom poder entrar e fazer parte desta história
Mas já dela faço parte e a escrevo como dedicatória. ♥

domingo, 5 de janeiro de 2014

Milagre das pétalas


Caem pétalas frescas perfurando o nevoeiro cerrado, caem como amantes da força gravítica, como fugitivas dos ares da Antártida, como loucos pedaços de esperança. São elas a determinação dos dias cinzentos, a luz da noite pródiga, o novelo dos sonhos de lã, a paisagem de uma vida vista de um banco de jardim. Despoletam-se raios e rompe-se a negridão da metrópole triste, destroem-se os sussurros diabólicos atrás das torres dos sinos monótonos, dá-se fim à agonia em praça pública. Ouve-se o mundo a desacorrentar-se, a ceder à liberdade, ouve-se o tropear dos cavalos brancos nas fronteiras, ouvem-se notas musicais que outrora foram súplicas, cada pomba surgiu em cada casa derrubada pela tempestade, as traseiras húmidas das montanhas solitárias conheceram finalmente o sol e o aroma de cada flor foi viajando por pontes em carruagens do amor. Crianças olhavam para o céu com um olhar de porcelana, vestindo-se de cores e cheiros e abusando da beleza do milagre das pétalas. O tempo sorriu inocentemente para todas as vidas privadas de harmonia. Conheceu-se, talvez, o paraíso. Até que, num ápice, e antes que os humanos respirassem magia, tudo se destrói e o sorriso é desfeito misteriosamente, como se os lábios fossem marionetas manipuladas por alguém a viver no céu... ou no inferno.