segunda-feira, 1 de junho de 2015

Almas desfeitas

Forest

Aprendi que o amor dos outros se evapora. Sim. Não foi algo desfolhado em livros, mas sim na aprendizagem de ausências a que assisti. Muitos levariam anos a chegar a esta conclusão, outros precisariam de uma vida para assumir a sua crueldade e alguns, os mais felizes, nunca chegariam a descobrir tal facto. Há dores que moram em olhares, gritos mudos que estão alojados na garganta, formas de nos reprimir-nos que ninguém imagina, lamentos que colocamos nos ombros que pesam mais do que mundos. Existe uma inveja do conceito de felicidade que nos transcende. Sabes, eu sei o que é acordar a sorrir, sei o que é não saber definir o amor porque ele me definiu a mim mesma, sei o que é ser fruto da inocência do carinho, sei a pureza que existe em ternuras espontâneas, sei o que é ter o dom de amar e ser amada, sei o que é ter alguém à nossa espera, a escrever para nós, a falar de nós ou a fazer algo por nós. Sei o que é o amor. Aliás, soube. Tudo parecia demasiado irrealista para ser alimentado com a ternura com que eu alimentava os meus sonhos. O frio da despedida existiu, se existiu! Sentiu-se nos poros. Ainda hoje se sente... Pergunto-me vezes sem conta, não como as asas foram cortadas, mas como existiu frieza para as cortar, para ver todos os dias o seu sangue que poderia ter sido vida, poderia ter sido mais um sorriso ao fim de cada dia... como um jardineiro que cultiva a sua flor e depois a corta, como um milionário que queima as suas notas ou como um pintor que lança a sua tela ao mar... Há estilhaços que ficam incompreendidos no tempo, solitários no pensamento e incompletos na vida. Cada lágrima talvez seja um pedaço de coragem, do qual eu me vou orgulhar um dia. Se eu acho que mereço? Ninguém merece. Pensei que seria bom eliminar uma incógnita e ter uma certeza, mas não quando a certeza nos mata. Penso e construo memórias mais ilusórias do que sonhos, às quais nunca vou poder oferecer a palavra sólida de "concretização". Desapegar é o rumo, e não apenas afastar. Afastar implica fazê-lo com o propósito de esperar por alguém, é fazê-lo exatamente com o estímulo da sombra de quem nos espera na meta. Um barco pode afastar-se da margem, mas pode haver sempre alguém à espera dele, mas o desapego leva a que esse barco saiba que ao voltar não terá ninguém à sua espera e ainda assim se aproximou da margem. É preciso orgulho, rancor, egoísmo, é preciso desprezarmos com prazer sem simplesmente assumir o papel de mau para que o outro sinta a nossa falta. Sabemos que é justo, sim, acima de tudo é justo equilibrar a balança. Nós merecemos que assim seja. Ser romântico não é para qualquer um, mas todos conseguem prestar provas básicas de carinho. Se o carinho não é compartilhado, torna-se difícil fazê-lo brotar de uma pessoa só. Sabes, às vezes luta-se por hábito, porque é assim que nos conhecemos, é assim que o espelho reflete o papel que temos nas relações. Lutamos por carinho ao passado e, principalmente, por carinho à rotina. É nesse momento que toda a lucidez se evapora. Voltaria a amar ridiculamente, sim! Foi a maior história, o maior amor, o maior delírio, a loucura mais consciente que tive até hoje! Mas iria ser diferente, não sei de que forma, em que circunstâncias, mas iria ser diferente. Há pedras enormes no caminho, pedras que me deram maturidade e determinação para enfrentar os meus medos, mas não a força suficiente para as retirar do meu caminho. Há erros que ferem a alma, há tipos de incerteza que se chamam orgulho, há atitudes que simplesmente não são da pessoa que nós conhecemos, não encaixam naquele primeiro olhar que a pessoa nos lançou. Entristece e enlouquece quando tentamos perceber o porquê dos outros não terem necessidade de se isolar um bocadinho, de ter a porcaria de um momento de paz, de deixarem as luzes da ribalta para cultivarem o respeito próprio, de passarem por uma fase de plenitude, de silêncio interior. A mente não exige isso? Sempre que acordo percebo que aquele futuro longínquo é apenas um presente frustrado, uma realidade que outrora me fugiu das mãos. A morte não existe em corpos, existe na alma, no sentimento a que chamamos de vida. É aí que existe o choro, os gemidos, o abandonar de um percurso construído ao milímetro e rezado todas as noites. Agora imaginem toda esta morte, sabendo que o nosso corpo ainda se move em terra... Imaginem o peso que o nosso corpo passa a ter a mais, o peso da derrota, o peso da frustração, o peso da memória, o peso da incredulidade, o peso da angústia, o peso do medo, o peso do lamento, o peso das perguntas e o peso da ausência de respostas, o peso da desilusão, simplesmente o peso dos nossos passos. Imaginem! Imaginem a dor de caminhar no vazio, de termos tido conhecimento do que é ter alma dentro de nós e a amnésia dessa vida não ter existido porque a chata da memória nos lembra do que fomos e do que somos agora. Mas, apesar de tudo, sabes o que sempre foi igual no passado e no presente? É que o que prometi eu sempre cumpri e sinto que ainda cumpro....

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