quarta-feira, 14 de maio de 2014

Das tradições


A serenata e o cortejo tiveram o seu momento especial na semana. Tal como todos os anos, marcar presença era um dever para todos nós, estudantes, tudo porque se tratam de tradições respeitadas. Trouxe comigo sentimentos antagónicos em relação a estas comemorações. Por um lado, recordo com saudade a serenata, mas por outro, vejo-me feliz por ter terminado o cortejo. Mas passo a contar! 
Quinta era dia da serenata e, como tal, todo o curso se reuniu a jantar num restaurante da baixa. A noite foi marcada pelos preparativos, afinal neste dia Coimbra veste-se de negro e para qualquer caloiro torna-se especial vestir o traje não apenas para o espelho nos ver. Descer as escadas do prédio com a capa e a batina transformou-se de repente num acumular de pensamentos, até que a saída à rua tornou-se emocionante! Foi uma questão de segundos até estar com as minhas amigas a tirar fotos. Já o jantar foi uma confusão autêntica e a única emoção que ele despertou foi apenas de pânico. Não havia espaço para nos mexermos, o barulho era insuportável, as músicas eram sempre as mesmas, havia penaltis de segundo em segundo e tudo o que se passava já soava à mesma badalada. Afinal os jantares de curso acabam sempre da mesma forma, bebedeiras! E enfim, no meio disto tudo tive de sair porque a minha cabeça estava prestes a explodir. Falei com uma senhora idosa com imensa cultura, que por sinal era a dona do restaurante, e aprendi bem mais do que aqueles que gregavam à minha volta. Já na serenata e acompanhada pela minha madrinha, que felizmente anda sempre sóbria, o objetivo era furar as pessoas, até que num ponto mais alto espreitei por entre ombros alheios e deparei-me com a multidão que se vê em fotos e na televisão, sim, a mesma multidão que eu tanto imaginei na minha cabeça a inundar todas as ruelas em torno da Sé Velha. E ali estava eu, atenta a ouvir aquelas vozes masculinas que tanto admirei. É um ambiente único e onde se distinguem perfeitamente as pessoas. Os caloiros, a rir por tudo e por nada, e os finalistas na choradeira. A verdade é que eu própria me ri, porque para qualquer caloiro a serenata é ainda muito precoce e pouco significado tem para nós, mas em geral respeitei os momentos de silêncio e dei valor à angústia da partida que muitos estavam a sentir na pele. Vi lágrimas lentas a percorrer faces com experiência de vida e amigos de mãos dadas como se o mundo acabasse ali mesmo. O nosso grupo resolveu sentar-se no chão em cima das capas a ouvir sossegadamente as melodias e a alimentarmo-nos daquela melancolia positiva. Pouco antes de acabar, fomos andando para fugir da confusão e foi aí o momento em que a minha madrinha me traçou a capa, mesmo ao portão da faculdade antiga de Farmácia. Foi o momento alto! A minha madrinha disse que eu ia ser sempre a sua caloirinha, que se orgulhava de mim, que era muito boa pessoa e desejou-me muita sorte para o futuro e para as minhas decisões, tudo enquanto me traçava a capa e enquanto se viam flashes de máquinas desconhecidas, cujas fotos provavelmente não terei acesso tão cedo. Depois disso revi algumas colegas do secundário e a noite acabou por aí, porque excepcionalmente tínhamos aulas no dia seguinte à 9 da manhã. A Serenata foi, portanto, um momento para recordar, onde as emoções dos finalistas mais tarde se espelharão nas nossas. 
Já o Cortejo não foi bem assim. Foi muito cansativo e eram só bebados, como seria de esperar. O objetivo era não apanhar com cerveja em cima e acreditem que em estradas apertadas tornava-se quase impossível, mas orgulho-me de ter ido para casa com o traje seco. Bem, aquilo é uma nojeira, é a bebedeira levada ao extremo dos extremos! Só se viam polícias, bombeiros e ambulâncias. Não vejo sequer necessidade em gastar-se 10 mil euros num carro só para irem lá para cima meia dúzia de gatos pingados beber e mandar cerveja às pessoas com pistolas de água. Este ano houve particularmente um caso de uma rapariga que partiu a cabeça. E por essa e tantas outras razões os estudantes vão direitinhos ao hospital, onde o motivo é sempre o mesmo, álcool. A palavra rainha é "desperdício"! O cortejo devia ser mais modesto e contido. É algo que é positivo por juntar os familiares, mas isso leva a que crianças vejam aquela desgraça. Além disso, tal como dei a entender no tema das praxes, a euforia aliada ao álcool nada traz de positivo e nada tem a ver com a prestação académica. Eu vim embora cedo porque estava farta e os meus pais já se tinham ido embora. Vim a comer o meu geladinho e ainda dormi uma soneca à tarde. Quando saí à noite para ir a primeira vez ao recinto, no Domingo, no caminho nem queria acreditar. A cidade estava literalmente destruída pelos estudantes! A estrada escorria cerveja, como se tivesse chovido e nas nuvens estivesse escrito "sagres", já para não falar das cervejas partidas e do cheiro a mijo e a álcool em todos os cantos. Depois são os carros dos bombeiros que se encarregam de gastar água para limpar as estradas e acabar com aquele alcatrão colante! O cenário era degradante, mas todos apoiam e se curvam perante as tradições, mesmo aquelas sem fundamento nenhum! Para mim há tradições que simplesmente deviam acabar ou ser amenizadas, porque uma verdadeira tradição tem décadas ou séculos e essas não são calamidades, porque na altura havia respeito e não havia crise. Tradições que envolvam tanta destruição e falta de espírito são relativamente recentes. Ao que parece as mentes estão cada vez mais pobres. Mas bem, em relação à queima propriamente dita dos carros no queimódromo acho uma tradição fantástica e com imenso impacto, dado o valor que todos damos as nosso transporte pessoal. Felizmente tive uma praxe produtiva e lá explicaram-me que essa queima se faz com o intuito de valorizar as memórias ao invés dos bens materiais, porque Coimbra é a cidade das memórias, daí que o próprio traje seja queimado no fim do curso, caso desejem. 
Não há muito mais a dizer, a descrição da queima foi basicamente a mesma, porque o cenário resume-se ao mesmo!