domingo, 5 de janeiro de 2014

Milagre das pétalas


Caem pétalas frescas perfurando o nevoeiro cerrado, caem como amantes da força gravítica, como fugitivas dos ares da Antártida, como loucos pedaços de esperança. São elas a determinação dos dias cinzentos, a luz da noite pródiga, o novelo dos sonhos de lã, a paisagem de uma vida vista de um banco de jardim. Despoletam-se raios e rompe-se a negridão da metrópole triste, destroem-se os sussurros diabólicos atrás das torres dos sinos monótonos, dá-se fim à agonia em praça pública. Ouve-se o mundo a desacorrentar-se, a ceder à liberdade, ouve-se o tropear dos cavalos brancos nas fronteiras, ouvem-se notas musicais que outrora foram súplicas, cada pomba surgiu em cada casa derrubada pela tempestade, as traseiras húmidas das montanhas solitárias conheceram finalmente o sol e o aroma de cada flor foi viajando por pontes em carruagens do amor. Crianças olhavam para o céu com um olhar de porcelana, vestindo-se de cores e cheiros e abusando da beleza do milagre das pétalas. O tempo sorriu inocentemente para todas as vidas privadas de harmonia. Conheceu-se, talvez, o paraíso. Até que, num ápice, e antes que os humanos respirassem magia, tudo se destrói e o sorriso é desfeito misteriosamente, como se os lábios fossem marionetas manipuladas por alguém a viver no céu... ou no inferno.  

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