domingo, 5 de outubro de 2014

Carta de Condução ✔


Sim, estou radiante! Estou orgulhosa! Foi um percurso longo e doloroso, porque pegar num carro sempre foi uma aventura que me exigia ultrapassar os limites do comodismo, do sossego, do "estar em casa" e de tudo me vir parar à porta, sem ter de manobrar três pedais ao mesmo tempo. Digo que foi doloroso porque chumbei a primeira vez na condução. Foi desolador e deitou-me muito a baixo. Vinha confiante do código, mas vinha também ciente de que são coisas distintas! Muitos distintas! A verdade é que mesmo com um chá de folhas de laranjeira e três calmantes, os nervos apoderaram-se do meu coração e das minhas mãos. Mas passo a contar. Os primeiros treinos foram levados na desportiva, mas logo de manhã apercebi-me que tinha de abrir os olhos e que aquelas ruelas, aquelas passadeiras, toda aquela azáfama em torno da sinalização não era mais do que a minha obrigação, mas o choque foi grande e o primeiro contacto com a estrada foi desastroso! Mais tarde, o almoço fez-nos descontrair por entre piadas e histórias cómicas, e a parte da tarde foi bem mais positiva, até porque trouxe o carro à vinda e após sucessivas conduções já me sentia completamente relaxada e até confiante. Os treinos valeram-me de muito, sinto que evoluí o dobro num dia inteiro do que nas 30 aulas que tive até lá, o que também se deveu à calma da instrutora que me acompanhou. Até que, num ápice, chegou o dia seguinte. No dia do primeiro exame lá estavam os nervos a atacarem-me como pulgas! Na sala de espera só queria que saísse da porta alguém de sorriso rasgado, que chamasse pelo meu nome e me transmitisse segurança. Não foi isso que aconteceu. Era demasiado sério, apesar de simpático e benevolente. Entrei no carro e pensei no amor da minha vida, nos nossos futuros passeios, no orgulho que poderia dar aos meus pais ao fim daquela manhã e no alívio que teria para sempre! Arranquei, fiz-me de forte e mostrei-me aparentemente calma. Atendia a tudo o que ele dizia, na condução urbana preferi andar super devagar, ser prudente, ter cuidado com o STOP e com os trânsitos proíbidos e com os sentidos únicos, esses pequenos e grandes pormenores ao mesmo tempo. As coisas não estavam a correr como o previsto, porque sou super pessimista e estava conduzir realmente bem, fiz as primeiras manobras de forma correta e sempre que emendava um erro era ágil e terminava da melhor forma. Até que um estacionamento me estragou tudo... era o chamado estacionamento em "espinha", do qual não tinha praticado quase nada nas trinta aulas, enfim. A obrigação de os relembrar não era minha e a minha atenção era sempre enorme para captar todas informações da estrada, por isso não me ocorria perguntar para praticar exclusivamente essa manobra. Foi, portanto, de esperar que não corresse bem e que nem sequer soubesse como começar a manobra e em que altura rodar o volante, por isso quase fui contra o carro da frente e o examinador nem me deu outra oportunidade. Assim sendo, até acabar o exame da outra rapariga fui super desanimada, ainda com um resto de esperança porque queria ouvir a confirmação, mas um pouco crente de que ele compreendia a minha situação. No fim do percurso ficou confirmado o meu maior medo. Ele disse que numa próxima vez iria fazer aquilo a brincar, que já conduzia bem e dominava o carro, que aprendia depressa e era inteligente, mas que não podia desculpar aquele estacionamento. Foi a porra de 5 metros quadrados, nem isso, que me roubou 250€! Vim a chorar a viagem toda, porque era algo realmente importante para mim e só pensava que nunca iria conseguir ser independente e conduzir o meu próprio carro, que nem valia a pena lutar e gastar mais dinheiro e pior, como é que se dá uma notícia destas a alguém? Os meus pais não trabalham para pagar os meus chumbos. Mas logo a minha mãe me levantou a cabeça e me fez lembrar que ela própria também chumbou. Fui arrastada à escola de condução ainda nesse dia e como por milagre havia uma vaga para daí a duas semanas ter novamente exame, ao qual a minha mãe concordou e me disse que já tinha um dinheirinho de parte caso isto acontecesse. Foi aliviante saber que tinha mais uma oportunidade antes de começarem as aulas a sério na Faculdade! Não pensei duas vezes, faltei os dois primeiros dias, tratei de arranjar justificação e lá fui para um dia de treinos e mais um dia de exame. Sim, um frete! Mas desta vez levava um espírito diferente, apesar de pensar sempre na possibilidade de chumbar e de andar a pé para o resto da vida. Agarrei-em com unhas e dentes a esta oportunidade e não a deixei escapar! Voltei a tremer, é óbvio, afinal sou humana e já diz a frase que tremer é o começo de todas as coragens. Assim chegou o dia do segundo exame. O senhor era super calmo e com ar de simpático e mandou-me logo ir abrir o capom. Disse tudo bem, a teoria corre sempre bem, exceto quando não pensei no que disse e afirmei que havia uma parte onde se colocava o óleo dos vidros. Sim, óleo nos vidros. Imaginar o vidro com gordura tornou-se engraçado. Quando entrei ele disse para estar sempre super atenta aos sinais e respeitar todas as regras rodoviárias. Assim foi. Fui prudente, às vezes ele até me pedia para acelerar, tentei ganhar confiança, ainda que forçadamente, e meti na cabeça que não podia ter mais um carimbo naquela licença! O senhor pôs-me super à vontade porque ia sempre a falar do noticiário com o meu instrutor, parecia que eu nem estava ali a ser avaliada, o que foi ótimo. Mas sempre que falava para mim e, especialmente, quando me chamava à atenção quase que berrava e me fazia pedir mil desculpas. Sim, ele era bipolar, só pode. A inversão de marcha podia ter sido mais rápida e numa situação de trânsito proibido podia ter virado com mais antecedência, mas foram pequenas falhas e só olhava para o relógio para que o tempo passasse e o percurso fosse em estradas mais amplas, até que chegou o maldito estacionamento em espinha, mas agora muito mais isolado, sem carros à volta e com mais ângulo de manobra, por isso correu bem!! Quando passei para o banco de trás ia mais que feliz, mais uma vez só precisava da confirmação saída da boca dele, mas desta vez ia com um sorriso na cara e com a grande vontade de espalhar a notícia! Por isso, não desistam, porque no fim a felicidade apaga completamente as noites de frustração. Superem-se a vocês próprios e acima de tudo sejam educados, fiéis a vocês e mantenham-se calmos. A receita é um banho na noite anterior, o tal chá e, para pessoas mais nervosas, um calmante qualquer. Isso "bastou-me" para não atingir a loucura, por isso aprovo. Boas conduções!

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