terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Amnésia


Esqueci-me de quem era e todos à minha volta pareciam confusos. O mundo deixou de ser concreto, ninguém se lembrava do avanço da tecnologia, do abalo das torres gémeas, do último livro a ser publicado ou da última notícia do telejornal. Ninguém se lembrava das crenças do seu país, do que comiam ao pequeno almoço, da frustração com que acordavam todos os dias, ninguém se lembrava do seu nome nem do que os definia. Senti uma estranha ligação às pessoas, às que outrora eram desconhecidas. Pairava tanta loucura, tanta estranheza, mas ao mesmo tempo tanta ternura, tanta magia. Garanto-vos que o mundo não era uma incerteza nem tinha pegadas de decadência. Era, sim, um mundo culto, onde podíamos confiar em qualquer ser com sangue nas veias. Consegues imaginar um mundo sem maldade onde te aproximas de alguém pelo facto de sermos todos humanos? Consegues imaginar uma igualdade de etnias, de valores, de estratos sociais, sem qualquer pirâmide a derrubar a justiça? Consegues imaginar a felicidade que é acordares e nunca mais te lembrares daquele dia triste que te queimou por dentro? Consegues imaginar o que é não saberes o conceito de fome, de lágrima, de dor, de pena, de orgulho? Consegues imaginar o que é acordar todos os dias e descobrir tudo novamente, com um sorriso singelo no rosto, sem protestar ou exigir um lugar reservado em frente ao computador? Eu sei que não consegues. Ninguém consegue. Queremos ser conhecedores de um mundo e de outro, somos ambiciosos, crescemos em mente a olhos vistos, sofremos pressões alheias que nos fazem querer ser superiores aos outros, enquanto que se vivêssemos na amnésia nunca saberíamos sequer verdadeiramente o nome de alguém. Saberíamos mas esqueceríamos mal olhássemos para uma rosa, que aos nossos olhos seria uma flor belíssima e rara de todas as vezes que olhássemos para ela. Todos sabemos que andamos de mãos dadas com a presunção, com a antecipação do verdadeiro viver, andamos numa corrida desenfreada pelo desassossego. Eu própria escrevo por egoísmo, porque me quero sentir melhor ou ouvir algum elogio, e tu, que estás a ler, lês por preguiça, porque não há nada mais cómodo do que ler. Todos escrevemos e lemos só para atingir pontos de intelectualidade. Diz lá que não é verdade? Vivemos na real ilusão, na consciente solidão, na perspectiva de que todos somos mais importantes do que aquela rosa que vemos no nosso jardim, mas não somos. No entanto, suplicar pela amnésia seria afirmar que o mundo acabasse, e pior do que o mundo acabar, era um dia acordares e não me conheceres.

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