quinta-feira, 10 de julho de 2014

Garras de Leão



Ainda à pouco nasceras e já estás capturado. A tua cerca nada te fala acerca de liberdade. Estás aí por possuíres o potencial de um dom e, aos olhos de quem te massacra, vais ter um futuro risonho. Tão antitético! Na verdade, há vozes que chamam por ti, existem ecos anónimos que insistem em agarrar-te, sobrevoa-te a vontade de concluir um sonho, mas primeiro, a coragem é a mãe de qualquer começo. Moram psicoses mascaradas nos teus estímulos, habitam diabos com vozes urgentes em cada neurónio teu e em cada canto dás de caras com a tua consciência. É pelo teu sofrimento existir que existem lágrimas enterradas em cais esquecidos, que existem suspiros alojados à portas dos tribunais, que existem cartas de amor levadas pelo vento, que existem peixes mortos no fundo do mar que escorregaram da rede e nem para comer serviram! É por tu estares aí que existiu o fim de Romeu e Julieta. Flutuam escolhas na tua mente tão corrosivas como o dia em que foste levado, tão cruéis como alguém receber o sangue errado. Foste mais um fantoche da pressão moral e agora a esperança tem de ser arrancada a ferros. Vejo-te a crescer por entre saltos, sejam das competições da vida sejam das tentativas de fuga, até que te encontro no topo da cerca, a um passo de veres o sol, a um passo de seres livre. O teu sangue escorre e preenche as marcas profundas que deixas-te na madeira, os teus olhos refletem coragem e respiras, agora, natureza, que é tudo o que faz parte de ti. É pela tua determinação existir que qualquer cais é o porto de abrigo de um pescador, que em qualquer tribunal se luta pela verdade e pela justiça, que por cada carta de amor existe uma vida que faz sentido, que tantos peixes se unem contra a força elétrica que levanta as redes! É por tu estares aí que existem flores na Primavera. É por tu estares aí que a Terra nunca saiu de órbita. E não precisas de te vangloriar, porque o sangue seco que tomou a forma do teu sofrimento vai ser o fóssil da tua ambição. Contigo levas as garras mais afiadas do que nunca e a sensação de que o medo e o sofrimento te fez subir um patamar na vida. Agora já posso chamar-te de leão e mostrar-te as garras que me surgiram após esta longa metáfora. Porque o que não mata torna-nos mais fortes.

4 comentários:

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