sábado, 2 de agosto de 2014

Reencontro comigo própria


Há sentimentos frios que rimam com o latejar dos músculos cansados. Também os sentimentos estão cansados de se revelarem o suporte do mundo e de erguerem estátuas fragmentadas. A vida é subtil na forma como nos impõe o sofrimento. Tudo começa com o despertar da incredulidade, do gélido olhar que penetra mas quer voar, que espreita mas quer fugir, que observa mas quer ser cego. Que mora na imaginação mas quer ser amnésia. Depois somos fantoches levados pelo vento, rebentos frágeis que não se agarraram à terra da razão, até sermos humanos vulneráveis e substituíveis. Dói sermos a prova da pressão que o mundo exerce sobre cada recém nascido, magoa sermos o resultado da compaixão escondida na bengala de um idoso, rebaixa-nos saber que somos a origem dos resquícios de claridade que só chegam aos cantos escuros da casa quando há pôr do sol e reduz-nos ao invisível o facto de sermos reféns do desassossego dos pesadelos. Fraquejar é humano, mas correr sem chão é impossível. São precisos anjos para nos segurarem. Ou basta haver amor embutido num corpo de anjo. Talvez seja o amor que lhe faz crescer as asas. Talvez seja. Mas é do amor que nascem almas flamejantes, ardentes, puras, mas inconscientes. É ele que me faz levantar da cama e que me serve de bandeja a mais tórrida esperança. É ele que me acolhe como um ventre caloroso, que me dá a capacidade para pegar no volante e conduzir eu própria a minha vida! É um sentimento enorme e repleto de bondade, mas é uma opção vulnerável e sujeita a tempestades. Sou feliz por ter livre arbítrio e por saber que a minha escolha vai sempre recair no amor, sou feliz por ter o dom de cuidar quem faz de mim vida, sou feliz nos braços que sempre me abraçaram, sou feliz na incerteza dos beijos que sempre me fizeram tremer, sou feliz por sempre relembrar momentos em cada esquina de um olhar, sou feliz por não me envergonhar de o ser. Porque amar é abrir a jaula a um pássaro e acreditar que ele permanece na palma da nossa mão. Acreditar que a distância entre estar pousado e a voar é enorme. Acreditar que não basta um bater de asas para o mundo se destruir, mas um movimento profundo das montanhas, a devastadora libertação das órbitas e da gravidade. E mais do que isso, é primeiramente criar esse pássaro com toda a entrega e sinceridade, domá-lo, torná-lo parte de nós e chamá-lo de amor. Para depois sim, o libertarmos e termos a certeza de que permanece mesmo com o mundo à sua frente e a liberdade a remexer-me os impulsos. Amar é para quem tem coragem.

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