sexta-feira, 25 de abril de 2014

Praxis


Ora bem, nem sei muito bem por onde começar. Sou contra as praxes, é um facto! O nome praxe é por si só forte, ou tornou-se forte com o passar dos tempos, porque os doutores adoram sorrir e dizer "Amanhã há praxe!", em vez de "Amanhã há convívio, com o direito de ir quem quiser e puder". É claro que sendo obrigados, os alunos entram na vida académica mais rapidamente, mas cada um sabe de si e com o tempo, e de acordo com cada personalidade, cada pessoa vai percebendo se é ou não importante para si ir sair à noite e se os shot´s lhes dão satisfação pessoal. Mas a verdade é que a personalidade pouco interessa, nunca interessou! Para eles, somos todos adolescentes malucos que adoram ser paus mandados e beber demais todas as quintas feiras. Mas enfim...
A escola em França dá aos alunos uma semana de férias depois de cada quinze dias de aulas, porquê que em certos sítios há praxe todos os dias? Acham mesmo que isso dá motivação? Duvido que encontrem alguém que não esteja lá obrigado... Ao que me dá a entender, as pessoas mais respeitadas, os ditos veteranos, são sempre aqueles que passaram grande parte da sua vida na universidade e ainda sem um canudo na mão. A verdade é que um aluno que sai do secundário está totalmente vulnerável e sozinho numa cidade sem amigos, e tem forçosamente de respeitar as únicas pessoas que supostamente se mostram preocupadas connosco. Nos primeiros dias, eu e o meu grupo respondíamos que sim a tudo, mas o saco foi enchendo! Fomos durante semanas o alvo de chacota dos doutores que mais se recusavam a ir à praxe no seu ano de caloiro. Basicamente, fomos o saco de boxe onde os superiores largavam as suas mágoas, despejavam as suas frustrações e alimentavam o ego, imaginando que as nossas caras eram as deles no ano passado. As praxes do meu lado da cidade não eram nada de mais, gostei bastante das doutoras e a humilhação não foi excessiva, de modo que a minha voz cobre muitas outras praxes de que me iam falando noutros sítios. Entendo que as praxes ajudem a baixar a bolinha àqueles que vêm de cabeça levantada do secundário, mas afinal somos todos humanos, e qualquer pessoa se sente desamparada nos primeiros tempos, onde não existe uma única cara conhecida, uma única voz já ouvida ou um único sítio já frequentado. Só acho triste nos primeiros dias andarem a pôr-nos de quatro e a pedir para apalpar o doutor não sei das quantas, enquanto que eu não sabia como se ia para a Sé, nem para o pólo 1 das universidades, e muito menos sabia onde ficavam os bares e os espaços de convívio. Sabia o percurso para a faculdade e pouco mais! Acho que a praxe deveria ser um convívio entre os caloiros e os doutores, que passasse por peddy papers pela cidade, idas ao teatro, passeios de bicicleta, sei lá, uma convivência saudável com os doutores e a cidade, e não propriamente a relação com o chão das praças e com os sapatos dos doutores. Se dizem que a praxe é integração porquê que não podemos rir? E falar? Falar é conhecer e abrir novos horizontes, o alcatrão e os pés cansados (ou não) dos doutores nada nos dizem acerca de novos horizontes. Se ou doutores querem que os respeitemos, também eles nos têm de respeitar a nós. Lá por não andarmos trajados não somos nada a menos do que eles. Isto das praxes tem muito que se lhe diga, a arrogância de que somos alvo, as figuras tristes que passamos, as músicas porcas que cantamos, dava tudo uma boa história para um livro depois de termos passado por tudo isto, mas nós somos pessoas reais, não somos personagens. Prefiro dizer que na primeira semana conheci a "minha" cidade tão bem como conheço a minha terra natal, que todos me acolheram e que, por isso, me sinto positiva em relação ao curso e à nova rotina, do que dizer que me fartei de trancar em casa para não ter de passar uma tarde inteira a esmurrar os joelhos. E depois vêm-me com tretas a dizer que se não estivermos em condições de ir parar praticamente ao hospital, que mais tarde não saberemos trajar. Por favor! É melhor faltar a uma praxe e ir comer um gelado com as pessoas que valem realmente a pena (sim, porque as amigas espetaculares que conheci foi sempre fora da praxe), ou deixar a dignidade em casa e ir de fato de treino como se fôssemos para a guerra dos tomates? Para mim saber trajar é tratar o traje com respeito, é ter mérito pessoal e profissional para o valer, é largar uma lágrima de emoção quando o vestimos pela primeira vez e sim, temos de saber minimamente as regras para o usar. Mas fico pasmada quando as pessoas mais "seguidoras do respeito" pelo traje andam depois com ele nas festas de madrugada, repletos de álcool. Quase 200 euros a levar com tanto álcool como o chão das calçadas! O traje é um símbolo de dignidade e, logicamente por isso, não deve ser usado com falta de sobriedade.
Além disso, dizem que a praxe serve para conhecer os doutores, mas eu posso simplesmente não os querer conhecer, ou no secundário também nos obrigavam a dialogar com os do décimo segundo?
A prova de que a praxe não é para integração nem para conhecer a cidade e os doutores, é o facto de ainda agora, em Abril, marcarem praxes.
 Outro ponto que me deixa irritada é o facto de muitas caloiras que conheço serem sempre as protegidas pelas doutoras. Conclusão, uns podem faltar à praxe e outros não, e todos vão estar trajados a rigor para o ano. Quem vai oferece razões de descontentamento e, logo, razões para não poder praxar para o ano e, em contrapartida, quem é sobrinho de doutores populares pode praxar, faltam sem aviso, não levam sermões, enfim... Às vezes estou na universidade e sinto-me numa creche.
Porquê que levar com ovos na cabeça nos torna mais merecedores de usar o traje, se isso é um símbolo de curso e não de palhaçadas de doutores que se querem vingar em nós?
E fruto destas vinganças dos mais velhos e do conformismo dos mais novos é que se geram casos como os do Meco. Todos têm culpa! Só achei ridículo uma das mães ter vindo dizer que a sua filha tinha morrido feliz, a fazer o que gostava. Ao que o mundo chegou. Isto não é nada mais nada menos do que uma mãe a aplaudir o suicídio da filha, a concordar com o facto de ela não estar a estudar naquele momento ou a fazer coisas mais decentes e próprias, dado que o dinheiro é sempre dos pais e, infelizmente, a tristeza também é sempre deles, só deles.
E não, não me declaro anti-praxe, porque como já disse a exigência da minha faculdade relativamente a isso não é grande, mas noutro sítio garanto-vos que seria, sem problema algum, mesmo sabendo das desvantagens de não poder praxar (que não considero desvantagem) e de ser, obviamente, olhada de lado.

12 comentários:

  1. Tal como tínhamos falado, partilho muitas das tuas opinioes. Tal como tu, não me senti desrespeitada de forma recorrente. Curiosamente, a única vez em que isso aconteceu foi com uma veterana, com cinco matrículas que, segundo uma conversa que tive um tempo depois, já nem podia praxar-nos, mas estava com "saudades" de conhecer novas caloiras (só podia...)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Exato, sempre fomos de acordo! Essas "saudades", enfim, como te compreendo. Lembro de me contares essa história e subscrevo tudo o que disses-te.

      Beijinho

      Eliminar
  2. Acho que foste muito mal praxada, praxe onde 'doutores' vão descarregar frustrações do ano de caloiros não é praxe.
    beijinho e boa sorte :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Infelizmente, acho que muitos o fazem.
      Obrigada, beijinhos!

      Eliminar
  3. e que tal um texto onde para nos contares tudo o que fizeste nas praxes? era muito importante para quem vai ser praxado para o ano

    ResponderEliminar
  4. E como achas que vais ser tu quando praxares? :')

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A questão é que não pretendo praxar, pretendo apenas conviver com os caloiros e esforçar-me para que eles tenham uma melhor visão da praxe e sejam realmente integrados, ao contrário de mim e tantos outros!

      Eliminar

  5. No teu "post" descreveste plenamente os problemas que neste momento grassam nas "praxes": a falta de respeito pelos novos colegas, as ordens estúpidas e sem sentido, a coação humilhante, a ausência de bom senso, no fundo a quebra da honra da tradição académica. Em todas as praxes a que assisti ocorrem estes sintomas, claro com gradações distintas dependendo do sítio e das pessoas. E já assisti a bastantes, tanto como praxado, como praxante, como testemunha "in loco" na altura na minha Universidade ou as que vejo na Internet, na TV ou no Metro de Lisboa.

    Mas não foi para sublinhar o óbvio que me impeliu a comentar, foi sim para desafiar os novos estudantes universitários que proximamente vão continuar estas tradições para terem a audácia de modificar o "status quo" e quebrar este ciclo vicioso, do sofri vou fazer sofrer, do fui humilhado vou humilhar. Como semente nesta reflexão quero apontar um exemplo inspirador que ocorre nas universidades da Suécia, no "Nollning", aonde se alia a integração dos estudantes na tradição académica com a alegria, a criatividade, a energia, a irreverência, um verdadeiro convívio. Seguem alguns vídeos que na minha opinião representam bem estas características que referi ( http://www.youtube.com/watch?v=Ey_L-Kk-ENA , http://www.youtube.com/watch?v=kauOQexHcII , http://www.youtube.com/watch?v=Ywqe4GCtHqE ). Estes exemplos demonstram bem que é possível existir um caminho diferente nas "praxes", com outras actividades mas mantendo sempre o mesmo espírito de integração. Mais, a Suécia também teve à dezena de anos atrás alguns problemas no "Nollning" semelhantes aos que ocorrem hoje no nosso país, e soube evoluir e melhorar as suas actividades, mantendo o essencial da sua tradição académica.

    Penso que agora é o momento certo para a geração actual dos estudantes universitários ter a coragem de iniciar uma evolução semelhante com base nos nossos valores actuais, substituindo de vez as actividades copiadas das novatadas espanholas usadas desde o princípio da década de 80 do século XX, com a criação das "praxes" nas universidades portuguesas. É imperativo e muito urgente ganhar de novo aos olhos da nossa Sociedade o respeito pela tradição académica e pela honra das nossas Universidades. Acredito que em muitos locais seja muito difícil modificar o "status quo", mas também tenho a certeza que quem não tenta, não consegue. Não se esqueçam que o Presente é feito pelas pessoas que cá estão, e não pelo Passado.

    Cumprimentos, Carlos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado, ainda bem que consegui descrever os problemas que passam na praxe, ou parte deles, mas o importante é precisamente o que disse! Acima de tudo fomentar nos jovens um presente melhor, que passe por espelhar a nossa educação e valores, porque ninguém tem nada contra a tradição, mas ao extremo de desrespeito a que os jovens chegaram com o passar dos anos. Vou ver os links com calma, muito obrigado pelo comentário.

      Cumprimentos, Cristiana

      Eliminar
  6. E a parte boa das praxes? Não tens que mandar ninguém encher para praxares, praxar tb pode ser pegares nos teus caloiros e ir com eles conhecer a nova cidade :D bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claro que sim, apesar de pouco haver de positivo eu irei referir os bons momentos em publicações futuras. E sim, ir conhecer a cidade seria a praxe ideal, pena que seja pouco praticada.

      Beijinho!

      Eliminar

Um comentário vale mais que mil palavras! Thanks :)