sábado, 1 de outubro de 2016

Fortaleza da Desistência


Imagina o som das trombetas medievais. Transfere o seu tom de plenitude para a tua vida. Imagina a textura da areia da praia e faz dela o degrau coeso de que precisas. Admira as nuvens e faz delas o teto dos teus objetivos. Sincroniza-te com o som das aves e faz dele a pureza simplificada do teu sorriso. Eleva-te e ama a simplicidade de viver. É imperativo mudares o mundo! Há biliões de pessoas à tua espera. Dá um passo em frente, esgota as tuas forças e lembra-te do que te fez chegar ao lugar onde estás hoje. Lembra-te que dares corpo à tua alma é como dares voz a todos aqueles que acreditam em ti. Recorda-te que o calor das tuas mãos pode fazer quebrar a frieza de espírito, que o teu grito profundo pode libertar ecos das entranhas da tua alma. Desbrava caminhos, desterra medos e receios, sê o guerreiro a que todos chamarão de lenda. Quando lutares por algo que não seja um ato de resistência onde apenas queres reabilitar a tua vida, que não seja o engolir de um argumento falacioso que torne a tua vida, por si só, numa falácia. Luta acreditando que, lutar, é a única causa credível desenhada na tua espada. Refugia-te nas maiores mágoas, pois serão elas as maiores teias de inspiração e força divina em que te poderás enredar. Preenche-te de sinfonias épicas para que o teu respirar rime com cada nota e essa respiração seja igualmente memorável. Alimenta-te de atos dignos e que implantem saudade mesmo nos rostos mais insensíveis e nos corações mais frios. Muda o mundo, mas antes, muda-te a ti. Sê algo melhor todos os dias, transforma-te naquilo que idealizas e promete a um Deus qualquer que irás cumprir. Cria um vínculo com qualquer coisa grandiosa em que o teu íntimo acredite para que lhe proves a força de viver e a verdade que existe na respiração dos seres vivos, que a efemeridade da vida é apenas um sopro equiparada à guerra épica e convicta a morar nas tuas veias. Sê a flor do teu jardim, a fórmula da sua cor e o conceito do seu cheiro, sê a força que a faz brotar contra a gravidade e que transporta a sua seiva, sê o sol que comanda a direção do seu caule ou o vento forasteiro que quer dominar a sua existência. Sê o arco-íris que paira nesse jardim e oferece laivos de alegria a cada semente de planta e a cada coração humano, sê esse gradiente de cores que todos os dias te acrescenta sonhos ao contornar a tua janela. Sê o parapeito gelado dessa janela que se conforma com a posição das portadas, com a sua cor pálida e o tormento em dias de neve. Sê essa neve corajosa que se lança às entranhas da terra mesmo sabendo que irá derreter numa fogueira qualquer de uma floresta selvagem. Sê essa fogueira a que o mundo apelidou de vulgar mas que contempla o segredo do amor, que perante ventos fracos se apaga mas perante ventos fortes se engrandece. Sê a sua fragilidade em noites de inverno e a sua valentia em se afirmar nos recantos mais escuros da noite. Sê, também, essa noite negra de caráter misterioso e que reporta a esperança de novos reencontros nos notívagos mais sonhadores. Sê esse sonho que se eleva e se fortalece com o tempo. Muda o mundo antes que ele te mude a ti. Que viver seja sinónimo de vencer e que vencer seja o oposto de desistir. Mas que desistir não seja apenas o apelido do elo mais fraco e entendamos que o nosso lado invencível teve origem nas nossas maiores desistências, quando o nosso coração gritou de mágoa por saber que desistir seria o nosso único e maior ato de coragem. "Desistir é para os fortes", não é cliché, é vontade de viver. A desistência é sempre vista como uma derrota para a sociedade, mas ela não é um molde quando sabemos estar certos e quando acarinhamos a nossa luta como algo nosso, de quem já se habituou a ver-se como um lutador e com um escudo de sofrimento nas mãos. Às vezes não desistimos porque queremos, mas porque precisamos. E é a desistência que cria as maiores e mais convictas raízes da nossa personalidade, porque é como dizermos a nós próprios o que é bom ou mau para nós, é uma espécie de auto-educação seletiva que nos afirma. A desistência é também, muitas vezes, uma prova de respeito, uma prova de que estamos vivos e de que não é o sangue da sociedade que nos corre nas veias. A desistência é resistência, é relutância e amor à vida. Por isso, sigamos o gemer dos sinos da torre, o tropear dos cavalos e os vibratos das trombetas, sigamos as multidões que lutam por uma causa, as pegadas da dignidade e as ações que são uma continuidade de nós mesmos, sigamos as revoluções e tudo aquilo que fugir às normas formais e criteriosas que só existem para que haja uma diferença abismal entre fortes e fracos, para que se alimentem continuamente as hierarquias. Sigamos aquilo a que o nosso instinto se rende, aquilo em que a nossa razão acredita e, muitas vezes, aquilo que o nosso coração não quer.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Um comentário vale mais que mil palavras! Thanks :)