segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que te leva a "merecer"


Image by Sara

Dizem-me que "eu mereço" ser feliz, que eu mereço isto e aquilo, mas o que faz com que nós mereçamos algo? Termos tido o azar de sermos magoados? Será a pena que deixamos nos outros que nos torna mais merecedores de algo? Parece que sim. Olham para o nosso passado como uma lista de caminhos sofredores que nos tornam dignos de merecer algo melhor. Porquê que o ontem tem tanto peso nos outros como em nós? De facto, nós às vezes pensamos em como foi tudo tão difícil e que não demos valor ao nascer do sol durante dias e dias... mas isso cabe à nossa consciência lembrar-nos. Aquilo que queremos ouvir é que merecemos algo bonito porque tornamos a vida dos outros mais risonha, porque uma pessoa respeitadora ao nosso lado é tudo aquilo que nos falta para sermos completos, ou simplesmente porque não há contos de fada sem príncipe. Até podia não concordar, mas iria saber bem ouvir que mereço algo por mim própria, e não pelas infelicidades que os outros me criaram. Quero que os meus atos sejam o reflexo daquilo que mereço, que os meus abraços sejam cada vez mais genuínos sem que isso implique que eu seja todos os dias abraçada, que o meu caráter seja mais firme de dia para dia sem que isso implique vencer nas discussões, que o meu sorriso seja reluzente mesmo sem poemas de amor todas as manhãs, que eu seja uma prova de força e inspiração pelo positivismo com que encaro os desafios. E se tudo continuar a apontar para o passado, vou gritar bem alto que os meus ensinamentos não vieram apenas da dor, mas vieram também dos meus pais e da educação que me mantém de pé todos os dias. Quero meramente que me olhem como se eu tivesse nascido hoje, como se apenas o presente existisse e nenhum rasto me definisse. Mas sim, não digo que não tenha saudades. Sou humana e um humano é feito de saudade. Saudades de sentir que sou ouvida, de sentir que um abraço meu é visto como um porto seguro, que as minhas palavras contribuem para melhorar as perspetivas da vida de alguém, que o simples facto de eu existir é fundamental para que outra pessoa exista também e acorde feliz por esse facto tão simples e banal. Tenho saudades de ver as constelações e de saber que alguém poderá imaginar desenhos diferentes no céu, tenho saudades de ver o mar e de porventura imaginar que a força das suas ondas é uma metáfora real da força entre duas mãos que se apertam, tenho saudades de andar na rua à noite e sentir-me rodeada de uma segurança transcendente, tenho saudades de pronunciar afirmações que muitos teriam medo de dizer alto, tenho saudades de correr sem meta só porque a euforia assim o diz, tenho saudades de sonhar acordada e de sentir que faço parte de uma história de um livro bonito, tenho saudades de sentir à flor da pele tudo aquilo que me envolve, tenho saudades de conseguir confiar nos outros sem questionar, tenho saudades de mostrar tudo aquilo que eu sou e orgulhar-me disso, tenho saudades de desabafar verdadeiramente sobre tudo o que me sufoca e tudo o que trago cá dentro e que nem sempre é despoletado, tenho saudades de me sentir única e diferente, tenho saudades de ser mais vulnerável e sentimental. Mas, efetivamente, se antes soubesse da garra que passaria a ter agora, iria também proclamar por isso. Pela pitada de frieza, pela racionalidade, pela maturidade, era isso que faltava e que agora transborda. Deixei de esperar por alguém que venha mudar a minha vida. Deixei de exigir porque, afinal, eu mereço algo que surja apenas por obra do destino, sem que isso implique esforço da minha parte, gastos contínuos de energia e desvalorização de mim própria e da vida. Amar não precisa de ser um esgotamento. Gostava que algo perfeito surgisse, algo bem delineado, como se fosse uma receita que o destino criou apenas para mim. Essa seria a forma de eu voltar a acreditar. Mas para já, prefiro mudar eu mesma a minha vida. Prefiro dar o sentido aos meus passos, sem que eles fiquem parados numa estação à espera de alguém ou que fiquem sufocados em areias movediças, que nos dão a sensação ilusória de estar a andar, mas a sensação intragável de nunca sair do lugar. Quero merecer algo pela garra que tenho e pela pessoa que sou. Mereço tudo aquilo que for fiel à minha pessoa, tudo aquilo que me acrescentar e me tornar numa pessoa melhor. O que me trouxe aqui não sei, mas sei que o que me motiva é muito forte. O que me motiva chama-se vida e é o sangue que corre nas veias e nos faz acreditar que somos especiais e que "merecemos" algo.

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