terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Ser Universitário


Bem, ser universitário é muito mais do que a palavra o dita. É muito mais do que trajar nas noites académicas, do que trocar de casa aos fins de semana, muito mais do que trocar livros por fotocópias ou apanhar transportes públicos, muito mais do que comer atum e chorar nas serenatas. É importante que se encontre os amigos certos, o espírito certo e o curso que julgamos certo para nós. E vais perceber que, às vezes, mesmo com estes requisitos preenchidos te vais sentir triste e incompreendido. É o que tipicamente acontece no primeiro ano e é legítimo que tudo nos assuste. Mas lembra-te que não é por estares na universidade que as coisas estão a correr mal. Se algo corre mal é porque tinha de correr, e correrá em qualquer parte do mundo! Vais perceber que às vezes nem o melhor de ti é o suficiente. Podes esfolar-te a estudar que não vais conseguir aquele 10 que tanto desejas. Podes ser a melhor versão de ti perante os teus amigos, que por vezes te vais sentir ignorada. Podes sair de casa num domingo à noite cheia de garra e confiança e chegas a segunda de manhã com vontade de desistir de tudo. Podes ir a todas as praxes e cumprir todas as presenças, que não é por isso que vais ser mais acolhido do que os outros. Podes ir a todas as festas para que te sintas presente na vida académica, mas se não fores por vontade própria, a tua presença pouco vai importar. Mas pensa positivo! Ergue a cabeça, sai de casa sozinho e valoriza-te! Aprecia a solidão dos teus passos, a tua força interior para enfrentares a época de exames, aprecia a tua maneira de ser e dá-te a conhecer, aprecia o orgulho de andar na faculdade, aprecia a tua personalidade e respeita-la não indo aos eventos onde tu sinceramente não queres estar e só vais prestar aparências, aprecia um bom café com os amigos ao fim da tarde, aprecia a euforia dos outros ao ver o preço dos shot´s, aprecia os recantos snobs onde se ouve música ao vivo, aprecias as frases escritas nas paredes das ruas mais antigas, aprecia os teus jantares de curso, o teu traje feito à medida, aprecia o teu nome na lista de presenças, aprecia a tua maquilhagem feita à pressa nas manhãs em que nenhum minuto rende, aprecia as chamadas dos teus pais, o email do amigo distante ou a foto do teu cão, aprecia a tua idade e as tuas pequenas vitórias, aprecia o choro das serenatas, porque é ele a mais pura afirmação dos mágicos segredos da universidade, aprecia os batismos, o chão colante de cerveja e os cantares académicos, aprecia a euforia dos cortejos, os cabelos lastimáveis e as meias rotas, aprecia os rostos dos pais babados, o frete das avós e a diversão dos irmãos mais novos, aprecia as cores das fitas, as cartolas e os fatos dos caloiros, aprecia as multidões com um sonho em comum a ti e com sorrisos fiéis à juventude. A universidade resume-se a apreciar a vida e a colher dela os frutos do nosso mérito. Podes não te identificar com muita coisa, e que mal isso tem? Afinal, tens personalidade própria e podes odiar praxes ou nunca te divertires com uma saída à noite. O segredo está em construir um equilíbrio e fazer o que adoramos e suportar o que não gostamos. Devemos aprender a apreciar mesmo aquilo que não encaixa connosco, isso é uma capacidade que serve para a universidade e para cada dia das nossas vidas. Se existe uma saída de curso, então vamos lá! Podes não te sentir verdadeiramente confortável, mas a verdade é que só se nunca saíssemos da cama é que estaríamos realmente confortáveis. Se está a ser secante, vens embora, e trazes contigo a tua dignidade. O importante é que valorizes a importância de certas tradições, que entres no espírito, que mostres que és capaz de mudar os teus planos para estar presente e que o teu conformismo e caseirice são perfeitamente ultrapassáveis. Apesar de às vezes termos de ir contra os nossos instintos, é importante não nos mostrarmos anti-sociais, porque uma pequena atenção faz toda a diferença. Se o teu problema não for sair nem socializar, ótimo, só precisas de manter a tua sanidade mental, o que às vezes também se poderá tornar num desafio. Não te iludas demasiado com as queimas e as latadas, diverte-te e vive o momento, claro, mas combina com as pessoas que valem a pena e com quem sabes que te vais divertir à brava e ao mesmo tempo estarem todos sóbrios, porque para mim a maior e melhor diversão é aquela que perdura na memória e que não fica afogada em garrafas de cerveja. Estipula os dias a viver essa liberdade e depois, caso tenhas muito que estudar, faz-te à vida, faz as malas, apanha um autocarro e vem para casa. Não te rendas àquela euforia de que no dia a seguir já ninguém se lembra. No que toca a amizades, acho tudo muito melhor e mais natural. Deixa de haver uma proximidade entre alunos que se baseia no facto de terem pais que são amigos ou de determinada pessoa ser discriminada e que, por isso, a temos de acolher. Deixa de existir aquele relacionamento mais próximo e pessoal entre as pessoas e o local de ensino deixa de ser uma espécie de família alargada. Acho isso ótimo! Faz-nos pensar que estamos todos em pé de igualdade e faz parecer que existe mais justiça, porque começamos todos com os mesmos medos, perguntas e receios. Se nos damos com alguém é meramente por afinidade, por isso é que grandes amizades se criam por esta altura. Além disso, não conhecer ninguém à nossa volta é um passo para a nossa independência. Olha sempre para o teu novo lugar como uma dádiva e nunca como uma injustiça ou frete. Tudo te pode correr mal, mas aprende a aceitar a situação em que estás e lembra-te que a vida nunca foi fácil, em momento algum. Não penses que a Universidade é só farra, porque não é, de modo nenhum. É uma altura da tua vida em que tens tudo doseado e percebes que existe tempo para tudo. Tanto tens a euforia onde as ruas se enchem nas madrugadas como tens a cidade deserta com estudantes a estudar e que só saem de casa para ir ao supermercado. A farra é boa, mas o estudo também é intensivo. É totalmente proporcional. Sê sempre humilde e não faças frente a ninguém. Lembra-te que ninguém se interessa pelas tuas origens ou pela fama que tinhas na secundária. A faculdade é um recomeço. Constróis uma nova reputação, novos círculos de amigos, novos hábitos, novos horizontes... E nada disto custa se fores sempre fiel a ti próprio! Lembra-te que o segredo é saber apreciar, porque mesmo que algo não faça sentido tens de sorrir e levar cada lembrança no teu coração. E a verdade é que, inconscientemente, vais levar para toda a vida várias lições e modos de encarar as dificuldades que só a cidade universitária te proporcionará. Por outro lado, há coisas que não vão mudar. Vais continuar a ouvir das pessoas que vão chumbar e depois quase rebentam com a escala, vão continuar a haver aqueles que têm acesso aos testes e não te dizem nada e uma minoria em quem poderás confiar e acreditar que estão realmente no mesmo barco que tu. Vais passar por momentos de força e fraqueza, de felicidade e desilusão, vai ser uma completa montanha russa. Depois, no fim do curso, olharás para trás e verás uma pessoa insignificante e imatura, que és tu quando chegaste, e terás orgulho daquilo que conquistas-te e o quanto cresces-te.

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