sexta-feira, 6 de maio de 2016

Última serenata do curso


Tantos bicos de cegonha que trouxeram estudantes a esta cidade e por ela foram acolhidos com o maior carinho, como se se tratasse de uma mãe comum a todos, de uma rainha que nos acolhe e transforma as mágoas em emoção! A chuva fria batia-me na cara com alegria, como se cada pinga representasse um objetivo cumprido e como se O próprio Deus chorasse pelo meu curso estar a terminar, como se todos chorássemos em harmonia por algo que move centenas de pessoas, motivos e sentimentos. Foi uma serenata chuvosa mas memorável. Tinha comigo as minhas afilhadas, lado a lado, e a minha grande amiga de curso. Afinal, que mais poderia pedir? É um momento em que sentimos que todos estão a torcer por nós, que a vida nos deu uma oportunidade para estar ali e que a nossa luta reforçou todo o caminho que ceifámos. Passa-nos um compacto de momentos na cabeça, momentos com que idealizamos e que sabemos que, efetivamente, vivemos e que estivémos sempre lá nesses sonhos cumpridos. É isso que Coimbra faz, realiza sonhos. Ainda ontem estava a entrar receosa na faculdade, rodeada de doutores e de obstáculos por cumprir, conhecedora apenas do desconhecido e sem saber do orgulho que era trajar e da vitória que era ver o sorriso dos nossos pais nos dias de cortejo e o seu abraço em todas as sextas feiras. E agora ali estava eu, na última serenata do curso, a presenciar o ponto alto da emoção. Ainda vão haver quatro serenatas pela frente, no mestrado, mas a verdade é que a licenciatura vai terminar e só isso já faz rebentar pequenas ondas de saudade, pequenos arrepios do medo de partir. Aquilo que se sente é um misto de tudo aquilo que traduz a vida universitária e que só saberá quem passou por tal. Senti medo e tristeza, senti alegria e compaixão, senti virtude e orgulho, senti Coimbra no meu peito! É tão forte aquilo que une todos os estudantes, cada vulto negro naquela serenata conta uma história, representa uma família de praxe, uma luta interior, representa um objetivo, uma história de amor, um segredo de um grupo de amigos, um hábito que Coimbra lhes trouxe ou representam simplesmente a tradição que se implantou nas suas vidas. E, acima de tudo, cada um de nós, representa um antro de saudade. É isso. Todos retratamos o amor que Coimbra nos deu, e que assim seja por muitos e longos anos para que este espírito vá de geração em geração e esta folia misturada com paixão se dissemine por todas as ruas da cidade e do nosso coração, para sempre. As fitas vão ser escritas em formato de saudade e serão queimadas já com alguma nostalgia. A verdade é que até agora eu queria ver o tempo passar, com aquela sensação de ter o poder de controlar o tempo e poder brincar com os ponteiros do relógio e as folhas do calendário, mas tudo se inverteu e a ânsia de continuar abraçada neste espírito é maior do que tudo! Quero aproveitar cada segundo como se fosse o último por ter a certeza de que no último minuto tudo o que fizer vai rimar com choros de agonia. Transformamo-nos em algo melhor e saímos daqui convertidos em pedaços de fortaleza. Coimbra, conheceste-me como alguém que trazia na cara o medo do começo e a indecisão de continuar, e agora vês na minha cara o medo da partida e o amor de trajar. As lágrimas eram de fragilidade e, as que hoje trago, são de orgulho. Eterno orgulho.

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