quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Dia na cidade (20º dia)

Já estou no autocarro a caminho da cidade, à qual só pus os pés uma vez e apenas pelo facto de ter de estar presente num casamento. Bem, eu explico. Vim com a minha grande amiga Diana, porque a minha mãe foi uma querida e decidiu dar-me algum dinheiro que ganhou nas lotarias da semana passada. A Diana aceitou como é óbvio, já que não lhe causa despesa. Então irei ficar num bom hotel da cidade, com uma paisagem simpática (tudo palavras da minha mãe Alice e meu avô Hélder), mas o que quero é ver o que se passa ao meu redor, naquele mundo tão distinto! Ainda não vi o hotel, pois veio cá o meu avô marcar, venho pois à deriva com um banal papel rasgado que me informa da morada e umas quantas malas a ocupar outros bancos. (…) Acabei de acordar neste belíssimo alojamento com toda a comodidade possível, e aqui reservo algum tempo para a escrita enquanto a Diana toma banho. Chega de eufemismos, chega de perífrases e hipérboles, apenas digo quando olho para a paisagem: Isto é horrendo! No campo nunca conseguia agarrar todos os hectares que me envolviam, apenas captava tudo aquilo com o olhar e onde sentia o vento a entrelaçar-me os dedos e sentia o cheirinho das frutas e das flores. Aqui, parece que consigo abraçar a paisagem por completo, como se de uma caixa se tratasse, bastando tocar nas montras, nos semáforos, nos carros, no alcatrão… Aqui domina o cinzento e o preto, como se a vida fosse um funeral onde estamos sempre de luto. Enchentes de gente enchem constantemente transportes que não tinha visto até então. Muitas senhoras aparecem todas peraltas com vestidos esbeltos e florescentes, a meu ver até demais, como se devessem alguma coisa aos outros. E depois nem sabem o que é uma sachola e nem devem conhecer o verbo “suar”. Não sabem o que custa a vida, portanto. Vamos sair de casa, não tão janotas como as “majestades”, mas de cabeça erguida e conhecedoras do trabalho árduo. Ver lojas, comer num restaurante, fazer compras, ir ao cinema,… será a rotina de hoje. A típica rotina dos estranhos cidadãos.

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