quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ricardo Araújo Pereira 5*

"(…) Cavaco Silva disse que o programa de ajustamento não está a resultar e que a culpa é da troika. A troika disse que o programa de ajustamento não está a resultar e que a culpa é do governo. Passos Coelho disse que o programa de ajustamento está a resultar em cheio, e precisa apenas de tempo para implementar o seu modelo táctico e consolidar os automatismos. (…) Quem precisava de uma orientação, obteve três. Por maldade, diz-se que Portugal não tem um rumo. A verdade é que tem vários. As pessoas queixam-se de barriga cheia. (…) Em Portugal, uma comissão informal de economistas e comentadores reuniu-se e, a olho, decidiu que os culpados pela crise eram aqueles que tinham vivido acima das suas possibilidades. Quem eram, exactamente, essas pessoas?, perguntaram alguns ingénuos, esperando uma lista com nomes e moradas. Somos todos nós, responderam os severos comissários, santos agostinhos do pecado económico-financeiro: todos tínhamos estado em falta. Adão pecou e transmitiu-nos o pecado original, e ao mesmo tempo terá contraído uma dívida (provavelmente, junto do proprietário da macieira), transmitindo-nos também o endividamento original. Em resumo, a culpa da crise é de todos, a culpa do fracasso no combate à crise não é de ninguém. Como país, evoluímos da culpa para a não-culpa. É mais um indicador em que estamos a fazer progressos."

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