sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

(in)evitável prolepse

Viajo neste velho autocarro ao ritmo do vazio e ao sabor do nada. Torna-se constante o processo de auto-reanimação onde me enredo, onde a respiração turbulenta ganha ênfase. Ainda que emergindo como cerne o auto-conhecimento e a maturidade, sei que não passam de estímulos estusiásticos e fervorosos. Já nem as músicas que ouço me dão forças, nem os quadros belos e coloridos que imagino a forrar as paredes do autocarro, nem o melhor poema de Fernando Pessoa, nem o miradouro mais empolgante, nem o melhor parque de diversões em que estive, nem as viagens fabulosas que concretizei… Ainda ontem estava de bibe a sentir o primeiro dente a cair e, hoje, sem me aperceber, estou já a preparar-me para a maior prova de fogo da minha vida, onde me torno escrava de um mundo credível, em oposição ao afável. Mesmo sem garra e motivação, observo a paisagem a mudar, o mundo a espiar-me, o frio a convencer-me, o idiota que mora dentro de mim a consumir-me, as lágrimas a controlarem-se e as frases promissoras que ouvira, a suster-me. O próprio escuro de tão conhecido que é tornou-se desconhecido, tal como o verde das folhas e o azul do céu e a transparência da água e os tijolos das casas. Sou um bebé prematuro nesta vida de adultos, pensava eu. O comum tornou-se estranho e o imaginário entranhou-se, porque a realidade tornou-se demasiado enfadonha. Só precisava de algumas pessoas importantes, daquele orvalho da manhã em frente à minha casa, do meu sossego, daquele reflexo da minha porta de entrada que me dizia sempre ao vir da escola que estava despenteada, daquele portão vestido de verde gasto pelas arranhadelas do meu cão, daquela cadeira onde me sentei ao portátil horas e horas fanáticas da minha vida, das minhas músicas que já nem parecem as mesmas e até do frio do meu quarto, porque estar frio do coração é bem pior. Quero isto mais do que nunca. Quero isto como Romeu queria Julieta, como Dante queria Beatriz, como D. Pedro queria Inês de Castro ou como Tristão queria Isolda. No entanto, vejo só imagens desfocadas na minha mente, fruto da corrosão do medo pelo enteado do medo. Mas, ainda assim, só imagino formas seguras de saltar pela janela, para correr veemente em direção à minha vida. À vida que não me esmurra com eloquências, que me protege com ímpeto, que não guarda os sentimentos em caixas seladas, que não me escorraça com desafios impossíveis, que nunca me traria saudade e que jamais destruiria os meus sonhos. Refugio-me no espírito alegre de quem me rodeia, nos seus livros de experiências, na frieza com que encaram a distância, na cegueira que os faz acreditar que aquele ambiente de festa lhes vai dar sanidade mental e, apesar de não me camuflar, fico apagada num canto a espremer superstições, a criar preconceitos, a desenrolar o novelo da mais etérea negatividade e a dissecar dúvidas com a consciência. Cingia-me às ilógicas especulações que andavam a nadar perdidas pela minha massa cinzenta. Ali, naquele primeiro autocarro, para mim tudo acabava e, para eles, tudo começava. E quando saí, percebi que nada disto (ainda) tinha sido real. Estive somente sentada na cama do meu quarto a ouvir música. Sentada por entre lençóis inocentes e longe de novas fechaduras. Mas isto espera-me... espera-me o elegante vulto, de cigarro na mão, na próxima esquina… esse vulto chama-se futuro. E o futuro é já amanhã!

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