sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Morrer na praia

Era noite e a orla da praia definia-se como a minha subtil e fiel companhia. Caminhava em direção ao mar ou o mar em direção a mim, onde o substrato de névoa envolvente se assumia como o soluto do meu abstracionismo. Os meus músculos trabalhavam ao preço de trocos e gemiam consoante o bater das ondas, fruto da tempestade enfurecida. Seguia-me a lucidez da amnésia, a certeza da incerteza e a consciência da inconsciência. Racionalidades triviais de um ser humano! Os sonhos e divagações eram as rédeas da minha mente, contudo a realidade emergia nos chocalhos remexidos pelas rodas dos carros, nos vultos balsâmicos a deambular pelas ruas lá ao longe e na bravura do desmedido mar. Arrastava-me por entre as irregulares pegadas de poeira de identidades perdidas ao sabor da minha própria crise de identidade. Lá, longe dos labirintos de betão e rodeada pelo silêncio formalista, recolhia a pequenez transcendente da vida, através dos grãos de areia que entravam nos meus sapatos e dos salpicos salgados que se afundavam nos meus cabelos. As luzes das ruas iam desligando-se e eu ia caindo, até me enterrar aos poucos e poucos em torno das pisadas nómadas. Sentia a areia molhada nas vias respiratórias e vi que seria o fim. Eu estava no sítio mais genuíno que poderia estar. Não havia luzes por perto, estava numa praia, que a própria natureza criou ao depositar sedimentos, estava sozinha, perdida e a água tão naturalmente vestia um caráter de devassa com jeito de indagadora. Não havia, aparentemente, nenhum vestígio da nossa espécie. Acontece que a própria natureza me mostrou a dependência da civilização. A dependência daquelas luzes artificiais que, ao apagarem-se, me apagaram também a mim… No entanto, a espuma da praia beijou-me suavemente, enquanto as luzes simplesmente deixaram de dissipar fotões e, no dia seguinte, lá estavam elas a iluminar falsamente o mundo palpável onde vivemos. Era noite e a orla da praia definia-se como a minha subtil e fiel companhia.

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