domingo, 19 de abril de 2015

Pitada de orgulho


Posso-vos dizer que cheguei a ver o fundo do poço. Sim, o desânimo era grande e as perspetivas muito poucas. Foi um arranque difícil e uma integração ainda mais complicada. Talvez os fantasmas da minha cabeça tenham ampliado os pessimismos, mas a verdade é que me sentia deslocada do mundo, da minha casa, do meu círculo de amigas, de tudo. A saudade subscreve tudo o que sentia na altura. Bem, mas a nível académico propriamente dito eu desleixei-me e sempre que me sentia a cair aos poucos agarrava-me à ideia de que não estaria no curso certo. Muitas lágrimas correram sobre a ponte, muito negativismo afirmava o ritmo dos meus passos. Sentia-me impotente para me salvar a mim própria e acabei o primeiro ano sem a mínima noção do conceito do que era a universidade, sem levar no coração um pouco que fosse da essência da cidade universitária de Coimbra. Assisti a aulas de cadeiras do primeiro ano e posso afirmar com toda a certeza que fui olhada de lado. Não fui tida como doutora para alguns e custou, claro que custou. Foi um impacto turbulento a que eu não estava habituada a lidar. Tinha deixado o sonho de Psicologia para trás porque o destino assim o quisera e estava finalmente pronta para encarar o curso de Farmácia com garra e orgulho. Tinha feito três cadeiras ditas difíceis completamente na desportiva e já com o pensamento de uma nova candidatura, e uma dessas cadeiras, a assustadora Química Orgânica provou-me que talvez a minha vida fosse ali e que fazer aqueles exames era o que estava certo. Foram essas cadeiras o impulso para continuar na mesma Faculdade, mesmo antes de concorrer novamente. Concorri por uma questão de contínuas reflexões que me faziam adormecer com a cabeça às voltas, mas a verdade é que quando concorri para a segunda fase já só queria Farmácia no meu coração, na minha vida. Foi depois desta luta dentro de mim que voltei com alegria à mesma turma. Digo "voltei" como se tivesse realmente entrado noutro curso, mas a verdade é que senti a minha cabeça a navegar para longe durante uns tempos e senti que pisar aquele chão preto da Faculdade foi um regresso. E foi nesse momento que senti força dentro de mim, mas no fundo que não era exemplo para ninguém e que as cadeiras que deixei me definiam como pessoa. Mas sabem que mais? Aos poucos e poucos, de dia para dia, fui sendo indiferente ao que poderiam achar e senti que ainda ia a tempo de lutar pelo meu futuro, porque quando a causa é o nosso futuro nunca é tarde demais. Matriculei-me em oito cadeiras, uma carga que jamais seria suportada por muitos dos que me olhavam de lado. Encarei isso com o melhor espírito possível, sempre disse bom dia a quem o mereceu, fui assídua, lutadora e sempre com um objetivo! Orgulhar os meus pais e guardar o resto do orgulho para mim. Cada boa nota era uma vitória e as menos boas eram apenas estímulos para trabalhar mais, ao invés de me derrotarem. Até que chegou Janeiro, o mês dos exames. Já tinha tido algumas vitórias, mas procurava, agora, a maior felicidade que me aguardava na meta. Estudei e diverti-me, o tempo deu para tudo, sempre deu, basta sabermos geri-lo. A minha avó foi a minha heroína, sempre me fez companhia quando dizia alto a matéria até ser noite e já me doer a garganta. Sempre esteve ali a fazer-se de minha aluna, mesmo sem perceber nada, sem ter o mínimo interesse na matéria, e mesmo quando adormecia eu sentia que ela me estava a ouvir, que aqueles olhos fechados eram uma mera pintura demasiado realista. Quando os temas lhe diziam algo, ela lá contava histórias da sua vida e do senso comum e, assim, eu descansava e desenhava o retrato daquele momento na minha cabeça. Momentos únicos, posso dizer-vos. Por cada cadeira que passei foi um agradecimento a ela, pela compreensão, paciência e carinho. Fiz as oito cadeiras e ainda hoje me pergunto como. Fiquei muito orgulhosa e sinto que este orgulho e esta luta me deu um sentimento mágico ao vestir o traje, porque para mim é isso que o traje transparece. Luta, dor, conhecimento, virtude! O traje resume-se a isso. Foi então que percebi que nenhum olhar do passado me poderia ter abalado. Eles agora sabem que eu triunfei e até já me dizem bom dia. Sinto-me encorajada e forte. É um sentimento único e novo. E sinto também orgulho por saber que tanta gente deixou cadeiras e apenas apareciam nos exames e, por isso, só por isso, foram altamente respeitadas, enquanto eu sempre soube dar a cara e enfrentar os meus medos, mesmo que isso me inferiorizasse. Orgulho-me porque, apesar de tudo o que passei, vejo a possibilidade de acabar o curso no tempo estipulado e mesmo que isso não aconteça, um ano a mais não mata ninguém e sei que não vai ser isso a deitar-me abaixo. Sinto-me num patamar diferente e considero-me um exemplo. Agora sei que calçar aqueles sapatos é a prova do meu esforço e que o sorriso que levo na cara é a esperança que tenho em relação ao meu futuro. Sei que o fiz por mim e pelos meus ideais e não para agradar seja a quem for, porque antes dos outros está a minha satisfação pessoal.

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