sábado, 11 de abril de 2015

Máquina de sonhos

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O vento era diferente. Trazia consigo a promessa, o imprevisível, o calor do regresso. Era o vento primaveril com o maior significado que já tivera tido. Um vento viciante desde o primeiro sopro, contagiante desde o primeiro arrufo. E era tão bonito, se era! Quem disse que o vento não se vê? Há ventos comparáveis a telas pintadas de fresco, mais emocionantes do que qualquer filme romântico. Há ventos que trazem consigo uma aventura, que basta senti-los para nos tornarmos protagonistas de um ecrã qualquer. Há ventos mágicos e que desenham o nosso sorriso, fortalecem os nossos objetivos e inspiram os nossos dias. E tudo apenas por telepatia. Há ventos que trazem consigo moléculas arrastadas pelos carros que se aproximam das fronteiras, trazem o sorriso e o cansaço de longas viagens, trazem as dores musculares que se traduzem num gemer de poros, numa saudade em bruto e no auge da melancolia. São tudo bons motivos que o vento incute a quem vive do passado. É então que a proximidade e toda a segurança trazida pelo vento, se esconde num ápice. É no momento de sentirmos a presença, que somos forçados a encarar a ausência. E o que restou do ínfimo tempo em que sonhei? Um abraço, apenas um abraço. Deveriam existir cilindros de betão que preservassem abraços. Seriam feitos de rijos materiais, onde haveria uma fenda a separar a estrutura do conteúdo. Nessa fenda existiriam ventos áridos, como símbolo da separação do tempo e do destino. Seria a engenharia a acompanhar as emoções, mas seria algo tão surreal como controlar o tempo. Será a vida uma máquina de sonhos? Contemplar um abraço até à eternidade seria afirmar que viveríamos sobre o calor natural de quatro braços para todo o sempre. Seria afirmar que seríamos cúmplices de um sentimento que nos fervilhasse nos punhos. Seria afirmar que as guerras deixariam de existir, que a maldade seria abominada. Seria afirmar que as desilusões fossem abafadas, que o sofrimento seria erradicado e que apenas o amor seria evasivo. E agora, neste preciso momento em que respiro, sei que o ar me está a ser roubado pelo fumo das rodas que se distanciam no horizonte e que derrubam as pedras do caminho, aqueles pequenos pedaços do meu coração. O vento era novamente diferente. Trazia consigo a nostalgia, o conformismo, o previsível frio da despedida. Era o vento primaveril mais invernal que já tivera tido, mas injusto e melancólico. Nunca ninguém se chega a acomodar à força dos ventos, porque até uma brisa poderá trazer consigo o desvendar de caminhos surpreendentes. Será a vida uma máquina de sonhos? A vida será uma máquina de sonhos no dia em que formos feitos de betão e nos correr ventos áridos nas veias. Quando a nossa essência for a de um abraço. É isso.

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