sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sequela

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Chamo-lhe de sequela. Poderia ser uma guerra remota, mas chamo-lhe de sequela. Não apenas pelas suas raízes no passado e poder sobre o futuro, mas pelo caráter furtivo e indutor de fraqueza, em certa parte. É como um suspiro sensível ao tacto, como um frio moribundo em formato de escudo protetor, como uma pedra que foi engolida em troco de paz, como um eco agudo que rima com medo. Apodera-se de laços humanos e surge quando alguma empatia se avizinha. É a força que me leva a dar um passo atrás, que me retrai, que me altera a expressão facial, que me inverte a boa energia que emito e quebra a lei da ação/reação. É ela que cria uma redoma vazia em torno de mim e uma espécie de sentimento claustrofóbico perante a vida. É uma voz madura, mas ingrata e cruel. Como se fosse um rugido de um monstro sábio com música clássica de fundo. Uma voz que fala apenas de forma imperativa e que jamais admitiria uma falha minha. Ela refugia-se em lemas de vida inspiradores e veste-se com uma espécie de individualidade levada ao extremo. Os amadores caracterizá-la-iam como a força para enfrentar obstáculos. É útil para travar batalhas e enfrentar dilemas em que precisamos de fazer emergir a frieza, mas tira-nos um lado humano. Um lado que é o sentido de muitos passos apressados dados na rua. Talvez a característica mais comum por entre os humanos: a capacidade de amar. É como se já não houvesse espaço para essa vertente, como se a tela de um pintor já tivesse rascunhos no plano de fundo, como se as minhas forças já tivessem um destino. O de somente serem canalizadas para vias racionais. Uma profissão, uma viagem ou um hobbie. Como se este antagonismo de me fortalecer e me fazer valer uma guerreira, só me reduzisse mais o valor sentimental, como se cada vez mais eu fosse somente a minha aparência, como se uma enorme batalha interior ultrapassada fosse, agora, reconhecida como uma simples carcaça. Como se uma guerra mundial tivesse sido esquecida e tida como trivial e, agora, fossem admirados apenas os escudos dos guerreiros. Mas um guerreiro não é apenas a frieza do seu escudo ou a rigidez do seu aço, também não é apenas a guerra que travou ou a sua estratégia de combate, não se resume a isso. Um guerreiro é a face mais dolorosa por detrás da causa que despoletou a guerra. Afinal nenhum guerreiro existira sem guerra, porque nas histórias de amor não são os guerreiros que fazem a guerra, quem a despoleta são precisamente os mais fracos, fracos de espírito, porque os guerreiros encaram essa guerra não como resposta ao inimigo, mas como uma auto-proteção e uma espécie de carta de alforria que os faça viver um novo capítulo, porque essa luta que travam não é nada mais do que a sua luta interior. É por isso que um guerreiro não é apenas a barreira que ele segura quando está de olhos postos para o precipício, é a sua história e a sua essência. Aquilo que o mantém de pé, a crença que o sustenta, os seus valores e as suas virtudes. Porque a sua firmeza hirta não tem origem na crueldade que sentiu, mas na forma como contornou o medo, no levantar dos seus joelhos, na capacidade de converter algo que o poderia matar numa poderosa força invencível. E é nesse momento que mostra ao mundo o quão pequenina é a maldade que lhe foi dirigida como lanças afiadas no coração. É esse espírito que o distingue de tantas outras frentes de combate, que o ressalta por entre qualquer outro lutador de escudo na mão, com o mesmo ferro, a mesma carcaça e a mesma ferida ao peito. Mas um coração diferente. Um coração que pode estar adormecido mas que oferece sensibilidade ao olhar e à abertura das pupilas, que ainda valoriza um toque macio entre duas mãos, que procura a amabilidade nos pequenos gestos altruístas, que ainda se rege pelos valores mestre da fieldade e respeito. Tudo porque fora dessa luta ainda existe um ser humano. Longe desse lado negro pelo qual tivémos de dar a cara, está a pequenez humana. Não importa apenas a grandeza de espírito de sacrifício que se idolatra, mas a vontade de se completar e de encontrar um propósito de vida em alguém, de se baixar e se reduzir ao tamanho de um humano. Esse sentimento pode ser aquilo que nos torna generalizáveis e seguidores do maior padrão da sociedade, o amor, mas é isso que efetivamente queremos possuir. Sim, o amor. Essa enorme pequenez humana! Insatisfeitos até mesmo na grandeza de se ser um lutador, ao ponto de se querer agarrar algo tão banal e lendário. Mas o propósito de vida de um ser humano também contempla essa lenda, escondida por detrás das rosas do jardim, onde só um guerreiro de mãos fortes poderá resistir aos seus espinhos e oferecer essa rosa à sua donzela. Por alguma coisa as rosas têm espinhos. Talvez porque antes de amar e ser-se detentor de uma rosa, é urgente sofrer. A dor e o amor são igualmente necessários. Ambos fortíssimos e devastadores e, por isso, os extremos que mais nos mostram a realidade da vida. As sequelas mais reais e intemporais.

(sugestão de música de fundo)

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